EntreContos

Literatura que desafia.

Um pedaço de terra cercado por água – Conto (Lucas Litrento)

Todo o homem é uma ilha – Saramago

 

As últimas palavras de Beethoven foram: vou ouvir no céu. No segundo dia eu estava tão religioso quanto…

Não vou me ater contando os detalhes dos longos dois meses que eu passei no mar, sozinho. Não sou daqueles que guarda sentimentos em cofres protegidos por ogros e dragões dentro do lado esquerdo do cérebro, mas esse momento da história é muito monótono e constante — e como sou péssimo em ampliar os horizontes das mentiras literárias, vou pular essa parte que é melhor.

Oceano Pacífico. É uma grande ironia, esse nome. A paz, que eu já não encontrava em terra firme há mais de dezessete anos, não dava sinal de existência na imensidão azul. Aquela falta inquietante de horizonte me fazia esquecer até da última prova de matemática (que foi traumatizante). Eu me sentia como um alien; isso não é novidade, mas pela primeira vez o ambiente me acompanhava. Lembro de um dia, entre o décimo e o décimo terceiro, em que eu esqueci toda a tragédia anterior. De repente, o azul retirou todo o vermelho sangrento e o sofrimento transparente dos meus pensamentos; e acredito que essa vertigem ainda tem efeito. Vou ouvir no céu…

Vinte anos depois da tempestade que resultou num filho chamado Brasil, um navegador português (diga-se de passagem, um aventureiro clássico) chamado Fernão de Magalhães atravessou um estreito (batizado de Estreito de Magalhães, olha só que egocêntrico) situado entre o norte da Terra do fogo (que é perto do polo sul, também não entendo) e o sul de um cabo que eu esqueci o sobrenome. Quando finalmente chegou nos mares do sul, encontrou uma calmaria inacreditável. O oposto do Atlântico cheio de piadas, chuvas e escravos mortos, não pensou duas vezes e gritou com todas as forças dos pulmões: PACÍFICO! Que cara idiota, o mais idiota dos navegadores, o mais idiota dos homens. Que seja!

Viver sozinho no meio do mar não é pra qualquer um. Nunca foi pra mim, mas o Destino e a Ironia flertavam na minha frente… e zombavam da minha vida. Tão estupidamente dramático, mas era real. Infelizmente era tudo real. A chuva caía com ferocidade por horas que pareciam dias replicados da primeira leva de tiros do Dia D. A Fome gritava enquanto me rasgava por dentro, cheia de garras. O calor queimava os meus pensamentos e distorcia as minhas ideias. A minha dimensão era um quadro surrealista. Clapton era Deus, finalmente. E tudo era real.

Até a Ilha e todo aquele verde, até todo aquele som. O caos era harmonia, pela primeira vez na minha vida.

Foi no dia de número sessenta e seis. Como de costume e como segue o clichê, achei que fosse mais uma das comuns e infinitas miragens que passeavam pelos meus olhos. Mas quando senti a areia e o verde, a esperança, tudo voltou ao marco zero: o pé pisando na terra, a gravidade guiando os passos desde sempre. Eu tinha escapado da morte — era o meu único pensamento. A normalidade ressurgia, como a minha cor, como a minha sanidade há muito dominada, há muito vencida.

Era uma ilha normal como todas as outras ilhas perdidamente inúteis. Pequena, de poucos ângulos agudos e muitas curvas vazias. Na praia, mesmo de longe, observei que as árvores se mesclavam entre si num caos absurdamente atraente, como um grande véu esverdeado que escondia segredos dos olhos famintos e curiosos dos peixes ociosos. Eu contemplava toda aquela aquarela e lentamente fui dando os primeiros passos na areia quente e macia, a melhor cama de toda a minha vida. Passei vinte e quatro horas parado. Deitado, contemplava o meu vilão, zombava daquele que zombava das minhas forças e aos poucos a recuperava. O azul sem horizonte não mais existia, eu enxergava todas as dores afundadas nos milhares de quilômetros. Naquele momento eu era um maldito romântico observador, vendo poesia até na minha miséria. E a poesia me alimentou naquela noite. A melhor refeição de todas (dependendo da situação eu preferia um peixe, é claro).

Não pensei em construir uma cabana, nem em rezar, muito menos em contar os dias. Eu sofria daquele mesmo sentimento de tensão de todo desesperado que se aventura em uma tragédia dessas. Mas estava mais calmo. Senti a minha sanidade voltando. Parei. O que fazer agora? Acordar daquela miragem ou continuar seguindo os passos vazios e robóticos? Nem sei o que eu pensava enquanto corria pelas ondas breves que sorriam, de certa forma, para um futuro incerto.

Eu nunca me imaginei nesse tipo de situação. Sempre sonhava acordado no meio da aula de “teoria filosófica existencial no meio social capitalista” do professor Severino, ou nos dias de chuva pesada. Eu gostava de me imaginar no meio de um apocalipse zumbi, matando todos os infectados com uma guitarra autografada pelo Paul McCartney. Ou salvando o mundo de uma invasão de alienígenas ninfomaníacos e depressivos. Coisas do tipo. Mas nunca me vi envolto em trapos imundos numa prisão natural tão aterrorizante e silenciosa.

Demorou muito tempo pra digerir a realidade. E foi difícil, pela primeira vez na minha vida. Todas as minhas vozes interiores (dos algozes desconhecidos até os santos caricatos) estavam em um sono profundamente eterno. No mar, eu tentava assistir o filme dos últimos acontecimentos. Mas era tudo distorcido em momentos, frases, água e desespero. Um misto de todos os sentimentos humanos, vegetais e extraterrestes beiravam no fim do abismo mental deste sobrevivente que vos escreve! Ó, deuses perversos da agonia… Malditos — escrevo em estado de choque. Segundo o Dr. João das Beiras (CRM. 4566654, AL) eu respondo o choque momentâneo e os traumas permanentes escrevendo como um poeta homérico (desde os oito anos). Sim, é muito estranho.

No segundo dia da minha estadia instantânea na ilha, resolvi andar. Torcia para que a terra que os meus pés pisavam pertencesse a alguma espécie de península, Atlântida, Paraíso ou um recorte de A Lagoa Azul. Uma recordação me lembrava da visão de dois dias atrás, um ponto verde no meio de um único pranto azul; uma estrela de 5 mil anos-luzolunáticos. Mas continuei alimentando também a minha esperança. Criei o pouco da coragem que me restava e corri para dentro do verde, atravessei a cortina e não encontrei o público de sempre do Deodoro.

Não vi nada absurdo. A Monotonia já tinha passado por ali. Eu só via árvores, folhas ressecadas, frutas virgens, pegadas escassas, penas… E não era azul. Eu nem ousei olhar para cima. Rezei para que os meus dízimos imaginários me dessem a benção de receber uma variação mutante do daltonismo, eu não queria ver o azul nunca mais.

Caminhei por duas horas (pelo menos pareceu ser mais ou menos isso) sem virar pra trás. Não me guiava, nem prestava atenção em nada. Só caminhava, livre de pensamentos. Uma sensação única e praticamente impossível de se repetir. Eu não pisava no asfalto, mas na grama quente e na areia movediça. Eu não ouvia sirenes e buzinas, sentia a brisa que passeava pelas curvas das folhas dos coqueiros nos meus ouvidos, nas minhas entranhas. É o tipo de coisa que é sagrada enquanto dura, seja pela raridade da ocasião ou pela peculiaridade sentida por quem vive e observa a natureza; eu estava extasiado. Completamente mudado em poucos segundos. Todo o azul se foi, todas as outras cores me cercavam. Era uma claustrofobia desejada há dois meses, uma promessa cumprida por algum anjo caído.

Cataloguei mentalmente as diferentes cores das árvores que eu via a cada segundo que passava. Tentava criar uma trilha em uma terra virgem. Me sentia um pouco culpado, com um peso nas costas, por mexer naquele palco intacto; naquele mundo longe da humanidade. Um oásis de calma no meio de uma guerra interplanetária na galáxia dos meus neurônios mais velhos.

O crepúsculo tinha chegado sem avisar, me acordando desse estado assustador de semiconsciência. Fiquei com um certo receio de voltar para a praia e reencontrar todos os fantasmas do presente sombrio. Caminhei lentamente em direção ao centro (dava a impressão de ser) da ilha. Ouvi um canto solitário de um pássaro distante e obscuro. Senti um sopro diferente, como o rugir de uma fornalha. Estava num campo quieto, longe da presença conturbada das árvores e das minhas trilhas mais recentes. Parecia um lugar pausado. Longe dos ventos do norte, das chuvas de novembro e das águas de março, dos bípedes e felinos, um oásis dentro do outro.

Pisei na grama alta. Ela me recusava, parecia que me enviava de volta às origens perversas, mas eu resisti. Percebi que era um círculo perfeito de harmonia, o centro da ilha. Sentei no centro e olhei ao meu redor. Uma plateia silenciosa de anciãos pacientes que alimentavam as pobres esperanças dos náufragos. Fechei os olhos. Uma brisa antiga das três da tarde, uma tempestade crescendo há nove quilômetros, um calor… um calor humano. Uma presença. Abra os olhos.

Mesmo sob todas essas circunstâncias adversas eu seria incapaz de confundir a silhueta inconstante da minha professora de pensamentos abstratos do curso trimestral de ciência corporal. Baixinha, cabelos sempre ao vento (em ondas paralelas ao movimento lunar), desordem da cintura pra baixo. Nem pensei duas vezes. Corri feito um louco (que irônico!) até perceber uma regularidade na cor dela. Gritei, andei em círculos, amaldiçoei o próprio oxigênio. Não adiantou, eu estava olhando para uma estátua de pedra.

Fiquei aterrorizado. Com medo de tudo que me cercava, com medo dos meus próprios olhos. Quando a toquei senti o frio. Não tinha nenhum vestígio de humanidade. Era uma mera reprodução vazia, como uma fotografia antiga. O curioso era que a estátua não parecia ser resultado das mãos de um artista desempregado, mas sim da natureza. A estátua era majestosa como as árvores, não dividia espaço com essas, cedia.

Mesmo depois disso tudo, fugi do que eu pensava ser mais uma das minhas miragens daquele outono. Corri (dessa vez como um ladrão). Me vi voltando pra cor de outrora. Meu par de pernas, por si só, buscava o velho pesadelo de sempre, mil vezes menos estranho e ameaçador. Normal. A praia, mais uma vez, com seu azul permanente, zombava da minha cara.

Sentei na areia. Olhei para as mais tímidas estrelas que surgiam lentamente. O pouco do romântico puramente clássico que restava em mim foi embora com o único fôlego no momento em que vi a segunda estátua. Lá estava Margarida Santos, minha paixonite da quarta série. Usava o uniforme vermelho da finada escola Coronel Charles alguma-coisa: blusa colorida com detalhes floridos, saia quadriculada com poucas curvas contrárias, meias inversas e usadas, sapatos mais brilhantes que o próprio sorriso. Mas era uma estátua sem cor que brincava com a minha memória. A garota acenava pra mim, como no último dia que a vi — o famoso dia, pelo menos pra mim, da despedia da turma da quarta série. Era mais uma réplica perfeita de um ser humano que estava há milhões de quilômetros e há muito tempo em um passado remoto. E ao mesmo tempo era uma parte da natureza daquele lugar.

Cheguei perto. Toquei. Não era humano, não tinha calor. Mas era vivo. E olhava para o outro lado da praia, inquietamente. Segui o olhar da estátua de um metro e quarenta. Era o lado oeste da praia. Tinha outra silhueta escura no campo de visão, exatamente na reta imaginaria do olhar imaginário da estátua real.

Parecia um pesadelo disforme. Tudo era mudo, ágil, distante e surreal. A surpresa não existia mais na minha concepção de náufrago desesperado sedento por carência de seres humildes. Dessa vez não corri. Fui em direção a outra estátua num passo calmo, sem preocupação nenhuma, pois o desconhecido era visível como um antigo amigo de infância.

A outra estátua era um homem de terno escuro. Mesmo na uniformidade serena do cinza, meu cérebro pintava a estátua por reconhecer com todos os detalhes a presença daquela pessoa. Olhos pesados e cansados, cheios de uma caridade simples. Mãos gastas e lentas. Um sorriso obrigatório dominava o lado direito do rosto. Os cabelos, mesmo de pedra, se mexiam. Carregava meio século nas costas, sem perceber e sem que os outros percebessem. Pela primeira vez eu tinha parado e observado as curvas de todas as ideias do meu pai. Mas ele era uma estátua. E a estátua, não o meu pai, olhava para dentro da ilha, exatamente num ponto em que o verde abria um pouco do seu espaço e apresentava uma escuridão desconhecida de todos os seus centros medonhos e círculos plasticamente modernos. Segui a pista da estátua como um robô obediente.

Enquanto andava lentamente, sem esperar segredos, imune aos olhos arregalados, torcia para que o sonho se revelasse como tal. Mas era mais real que a minha vontade de ser falso. E lá estava mais uma estátua. Era um espelho de mim mesmo. Não consegui conter a surpresa.

Eu estava na minha frente. Descolorido, áspero, rígido. Com um sorriso imortal no rosto. Com a idade de cento e cinquenta reis shakespearianos, observando o nada que fincava nos meus outros dois olhos (os coloridos). Senti uma vertigem se espalhar pelos meus restos de náufrago. Não tive coragem de tocar o outro eu que era, ao mesmo tempo, a estátua mais viva (e real) e o objeto mais velho e inanimado do mundo.

Tinha uma porta. Surgiu do nada. De repente estava do meu lado. Desafiando todas as leis dos físicos mais efervescentes e dos pregadores mais adoradores, uma porta mais escura que a noite mais densa me fitava há uns vinte centímetros. Não tive primeira reação. Estava muito extasiado com toda a série de visões esquisitas que os meus sentidos mais primitivos comprovavam a veracidade. Esqueci as vozes que gritavam sempre, malditas!

Esqueci os prazos, das vozes, as notas, as vozes, os valores, as vozes, das vozes, vozes…

Abri a porta e atravessei aquele universo.

Era o meu corredor. O corredor da minha casa que ligava o meu quarto dos fundos ao resto da casa. Eu estava em casa! Era o velho odor almiscarado de terra e milho verde, a mesma cor irregular e indecisa de vermelho e branco nas paredes paralelas. A mesma iluminação fluorescente fora da validade.

Eu estava de pijama. Sem aqueles farrapos cheios de sal e lágrimas. Virei e, sem pensar duas vezes, abri a porta. E não encontrei o outro mundo, mas o meu quarto de sempre: bagunçado, cheio de livros e pôsteres milenares. Sonho. Essa palavra nunca foi sinônimo de realidade pra mim (nem pra ninguém, talvez).

Eu passei quase dois meses no mar e agora estava de volta, como num passe de mágica. Como se aquele “enquanto isso” dos quadrinhos dos anos sessenta valesse mais que os “apertem os cintos, passaremos pela tempestade do pacífico sem problemas”.

Olhei para o rosto através do espelho. Não era cinza e áspero como a estátua, nem fraco e sem esperanças como o náufrago. Era preguiçoso e comum, tinha cor. Os cabelos negros como o olho esquerdo. O direito era todo verde. Não um verde adepto de oculares, mas um misto de folhas e pastos. O verde daquele mundo de outrora que parecia tão distante (e, ao mesmo tempo, são). Eu tinha o oceano dos meus pesadelos e a ilha dos meus sonhos nos meus olhos, nítidos. A Ilha no lado direito, um verde irregular forte e de outro mundo. Ela, olhando pra mim através de um espelho de falsas ideologias e ideias pintadas, se movia e gritava.

Eu sou uma ilha.

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Publicado às 24 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .