EntreContos

Literatura que desafia.

Até o último round – Conto (Caliel Alves)

Levanta! Levanta! Levanta!

Esses malditos fazem parecer bem fácil. Não é nenhum deles que está tomando diretos de esquerda. Durante três rounds eu acertei o filho da mãe com tudo que eu tinha. Meu treinador me disse: “Esse cara é um monstro”. Mas quem disse que eu ouvi. Decidi que queria lutar com o armário ambulante. No primeiro round o cara foi tão educado que nem tocou em minhas luvas. Ele apenas sorriu destilando veneno.

Quando o gongo tocou, o sujeito partiu para cima de mim. Esquivei-me dos primeiros dois socos, o terceiro me jogou nas cordas. Tentei levantar a base, mas ele batia como uma mula. Sequências inteiras acertaram o meu estômago. O corpo enrijeceu, fiquei naquela posição por um bom tempo e quando vi o cara cansando eu resolvi segura-lo, o levei para o meio do ringue e comecei o meu show.

Meu gancho acertou a fuça do pugilista que girou como um helicóptero. Meu abdômen parecia cheio de agulhas dentro penetrando meus músculos. Mal conseguia respirar. Como se não tivesse acontecia nada o leão de chácara usou um parafuso ala Dempsey que desabei no chão. Ele já cantava sua vitória. Añañ! Comigo não violão, pensei naquele momento. Empurrei o juiz e avancei como um touro.

Mas o gongo tocou, mas isso não impediu que eu e ele trocássemos uns sopapos. Fui para o corner. Meu treinador não estava lá, com certeza ele me diria algo de útil, diferente da superestima de meus atuais colegas, todos eles queriam que eu lutasse no peso pesado algum dia, aquele era o meu dia. O segundo round começou, e tudo se repetiu, acertava o meu oponente, mas quem caia era eu.

No terceiro round eu decidi que a luta não iria até o quinto. Investi com tudo que eu tinha, ou seja, um par de punhos. Troquei golpes a torto e a direita. O sujeito continuou como um tanque de guerra. Cada soco parecia perfurar minha carne. Meus supercílios estavam abertos. A cara do meu oponente também não o faria ganhar o Mister Universo. Mas um counter me pegou de guarda baixa.

O narrador grita como um louco. Meu nome ecoa por todos os cantos do estádio. E o som do gongo é entrecortado pelo pisar macio de um coturno. Ainda posso ver o juiz contando com as mãos. Não estou mais no estádio. Estou nas ruas sujas, com seu lixo amontoado e suas poças de lama. O juiz some e um rapaz vestido de militar aparece.

Deixo os meus pesadelos e lembranças para depois. O efeito da bebida já passou. O cara vindo em minha direção, do jeito que está vestido ou deve ser um neonazista ou um anarcopunk, não consigo diferenciar um do outro, talvez porque não sou bom com fisionomia. Ele caminha em ponta de pé e traz alguma coisa na mão, já sei o que esperar desse tipo de gente. O bico do coturno chispa a água da lama.

Espero ele chegar bem perto, já estou com os reflexos apurados. O surpreendo:

— Olha aqui garoto, nem pense em jogar álcool em mim — só depois vem o fósforo. — Eu posso acabar gostando.

— Desculpe se o assustei senhor, não é o que esta pensando, é um cobertor, está frio.

Ele se ajoelha perto de mim, desenrola um cobertor e me cobre. O cobertor está quentinho e nem sinto a falta dos jornais. Tanto tempo na selva de concreto que você acaba se adaptando. Agora posso me considerar um morador de rua chique, tenho um trapo para me cobrir! Sento-me no meio fio do beco, que é na verdade o meu cafofo. O milico não parece ser alguém legal, mas vai saber.

— É de alguma ONG?

— Não senhor.

— Exército?

— Não esse Exército — ele gesticula uma pistola. — Sou do Exército da Salvação.

Fico sem atender bulhufas. Minha desconfiança é que ele esteja planejando outras coisas pior além de me queimar vivo. Nas ruas você não pode confiar nem na sua sombra. Ele entende minha curiosidade e retira um objeto do bolso.

— Uma bíblia — menino de igreja, quem diria! — De que igreja tu é moral?

— Já disse senhor, do Exército da Salvação.

— Foi mal, eu achei que era aquela piada sabe? Esquece vai… Obrigado pelo pano.

— Não agradeça a mim, agradeça a Deus… — por um momento ele espera e depois abre o livro. — Como é o nome do senhor?

— Isaac.

— Isaac de quê?

— Da rua mesmo.

Ele sorri e depois me pergunta se eu gostaria de ouvir a palavra de Deus. Respondo que não tenho outro programa para uma terça-feira a noite. Apesar da ironia, no fundo eu sei que eu preciso dela. Só não tenho coragem de ir atrás de quem possa me dar. O rapaz não parece se importar. Ele lê uma parte do Gênese:

— E Sara disse: “Deus me deu motivo de riso, e todos os que souberem rirão de mim”, Sara falou isso por que era muito velha quando concebeu Isaac, o primogênito de Abrão, o primeiro monoteísta depois de Adão, o pai de todos os homens. Se desejar senhor Isaac, eu posso levá-lo até ao nosso forte.

— Um o quê?

— Igreja.

Meus olhos percorrem a jaqueta de couro do sujeito. Fico imaginando quando eu vou poder estar no front de Cristo. Mas não será nessa noite.

— Dá não moral, eu não tenho esse naipe todo.

Ele gentilmente retira a jaqueta e me vesti. Eu tento não chorar, mas não existe coisa mais teimosa do que lágrima. Ele se levanta e diz:

— A roupa o senhor já tem, mas o que Deus quer é a sua disposição.

O meu agradecimento sai com uma voz abafada. Ele é quem agradece pela nossa conversa. Tento dormir novamente, mas aquelas palavras martelam a minha mente até a Luz do Sol e o tráfego de carros em acordar. Sabia de Deus de ouvir falar, cresce numa família de ateus, meu pai quando voltou da guerra como ex-FEB, decidiu que Deus simplesmente não existia, quando perguntado, ele dizia que acreditava mais no azar.

Levanto-me. Coloco o meu cobertor dentro de um saco e visto minha jaqueta. Duas semanas sem tomar um banho me fazem um chamariz de moscas. Como não possuo relógio eu tento perguntar a um e a outro, mas eles se desviam, eu sei o motivo, eles querem que eu seja invisível, mas infelizmente eu sou uma realidade tão crua quanto a dor. Adoro bafejar minha cana na cara dos engravatados.

Desço a rua comercial e me divirto com os manequins vendendo roupas que não cabem nas curvas das brasileiras, na loja de eletrodomésticos eu assisto o jornal da manhã nas vitrines cheias de TV, muita corrupção, nada me impressiona. Contabilizo qual delas eu compraria nos velhos tempos, com certeza seria a de “50 polegadas. Devaneios de um velho bebum com uma jaqueta de couro. O estômago ronca como um leão.

Caminho até a praça, sempre tem alguém jogando um sanduba no lixo. As adolescentes anoréxicas contribuem bastante para os velhinhos famintos nas ruas, uma mordidinha e o bichinho já vai pro mato. Mas na minha lei desperdício é crime hediondo.

Um casal devora um sanduíche, não sei bem do que é, mas se vai matar minha fome, que venha a mim. Mas do outro lado da rua eu percebo um velho conhecido, ele também espera aquela delicia de pão de salada com queijo e outros negócios ir para a lixeira. Resolvo deixar o lanche para ele. Na rua, nós temos nossas regras também.

Viro minhas costas e parto como um carcará atrás de outra malhada. Antes que eu saia da frente da lanchonete, ouço meu nome em alto e bom som.

— Isaac!

Meu velho amigo de ruas e cangibrinas não se esqueceu de mim. Ele traz em suas mãos trêmulas o sanduíche com duas mordidas apenas e um copo de suco cheio ainda pela metade. Ele divide comigo aquela que pode ser sua única refeição durante todo o dia. A gente divide o sanduba no meio e lambe até o guardanapo. O suco evapora nas nossas gargantas secas, e sem motivo eu exclamo:

— Graças a Deus!

— Desde quando tu acredita em Deus traste?

— Jeito de falar né.

Conversamos sobre nossas tarefas do dia, pedir dinheiro no sinal, mendigar nas portas das igrejas, tentarmos encontrar um abrigo longe da chuva e sobreviver até amanhã. Pergunto pelos amigos que nunca mais vi. E recebo a pior das noticias.

— Os punks pegaram Chelo, o cara ta todo quebrado no hospital, se cuida ai Isaac.

Ele se despediu. A cada dia uma em cada dez pessoas passam a morar nas ruas por variados motivos. Para cada dez moradores de rua, dois não conseguem ver o dia de amanhã, também por variados motivos. Entre eles estão os caras que se acham os líderes de um novo mundo e nos consideram o lixo da sociedade, os outros morrem de doença ou acidentes. As drogas levam a metade nós, essa é a pura realidade.

Mas até para não morrer no meio do caminho eu continuo seguindo adiante. Noites cortam dias como a faca corta a manteiga. Perco a definição de tempo. Não tenho relógio e ninguém nunca respondi minhas perguntas. Todas as noites eu tenho o mesmo sonho terrível, eu apanho igual um mala velha de um monstrengo. Eu tinha tudo, mulheres, dinheiro, fama e um nome. No mínimo hoje eu tenho uma garrafa de uísque.

Eu já fui o campeão do peso médio das competições amadoras, já bate luvinhas até com gente de Cuba e dos EUA, mas queria subir de categoria, ter mais mulheres, mais fama, mais dinheiro… Todos me incentivaram a subir de categoria, em meu arsenal domas no peso médio eu estava invicto, no fundo foi tudo armação de apostadores. Eles ainda tentaram comprar algumas das minhas lutas, mas meu treinador sabotava tudo.

A melhor maneira de eles me ganharem foi fazer o filho brigar com o pai. Desde daquela briga eu imagino o que teria acontecido com meu velho. Ele me desafiou no ringue, disse que se eu o derrubasse eu poderia seguir com minha vida. Tornei-me peso pesado depois disso. Entretanto, nunca mais ganhei uma luta. Encerrei a carreira.

Hoje eu durmo e acordo com aqueles gritos de levanta! Mas eu não tenho mais forças, eles não estão nem ai, eles querem em ver mortinho no chão. Novamente estou naquela viela do centro comercial, e ouço outra vez o coturno, só que dessa vez vindo bem rápido. Levanto e fico surpreso em perceber que o meu mais novo brodinho milico esta sendo perseguido pelos punks. Dia errado e hora errada para vocês!

— Vem cá soldadinha de chumbo, a gente só quer se divertir — eles gritam, insultam-no, eles parecem um monte de abutres. — Manda a legião de anjos vim te defender.

Levanto em posição de guarda. Base alta, joelhos flexionados, pés trocados e toda a malícia do mundo. Uma semana sem beber traz meus reflexos a velha forma. O corpo velho esta encima, já passou da hora de me levantar e lutar.

— Ei, vocês da juventude hitlerista, venham aqui aprender uma lição do velho Isaac.

— Que vergonha, o velho manguaçeiro vai defender o religioso, cai pra dentro vovô.

Eles retiram punhais e correntes dos bolsos. Mas para acertar o Isaac é necessário mais do que ferro e aço. O primeiro é dobrado sobre si mesmo com um soco no estômago. O meu punho dói, ele esta desacostumado a bater. O que tem uma corrente tenta agarrar o meu braço, mais o máximo que ele consegue é acertar no meio de suas próprias pernas. O líder do trio parece mais esperto, nem tanto.

O punhal acerta a manga da minha jaqueta e fica preso. Ele continua com socos desferidos de modo brutal, mas pouco eficazes. Se apenas a selvageria adiantasse, os dinossauros não seriam extintos. Soco após soco atinge a cara do marmanjo. Os outros estão tão assustados que nem conseguem se mexer nem ajudar o colega. Por fim ele cai no chão com o focinho cheio de sangue.

— Você está bem soldado? — pergunto ao milico.

— Sim, eles é que não parecem muito bem.

— Ex-amigos?

— Sim senhor Isaac, ex-amigos.

— Você tinha um dedo podre para a amizade em rapaz.

Eu ajudo o milico a se levantar. Aproveita a deixa dos pivetes caídos e amarro os nazipunks, para sorte nossa e azar deles eles, ostentam a velha suástica tatuada no peito. Uma ligação para a Polícia e temos três presos por apologia ao nazismo. Depois de controlar a respiração, eu pergunto ao jovem:

— O período de alistamento já começou?

— Sempre está aberto soldado.

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Um comentário em “Até o último round – Conto (Caliel Alves)

  1. Neusa Maria Fontolan
    25 de agosto de 2016

    De boxeador a indigente depois soldado do senhor. Foi boa a leitura.

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Publicado às 24 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .