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Detox Literário.

Até a próxima – Conto (Gelson Denian)

Continuo deitado. Pensei que doeria mais ou, então, que algo aconteceria para me impedir. Mas não, tudo simplesmente ocorreu de um jeito rápido e sem maiores problemas. Talvez eu, por conta dos livros que li, esperasse algo romantizado e tenha sido decepcionado por conta da minha própria expectativa.

Aquilo fora necessário, disso eu sei, tenho certeza. O mundo já não era mais belo. Toda uma gama de possibilidades estava se esgotando. Não por tentativas atrás de tentativas em fazer as habilidades desabrocharem. Muito pelo contrário. Todas as possibilidades estavam se esgotando por levar uma vida pacifica demais. Uma vida reclamona demais. O tempo passa e, muitas vezes, só lembramos quando ele não existe mais. Foi isso que aconteceu, com certeza. No fim, todas as esperanças ressurgem e é possível até mesmo ver um raio de sol entrando pela janela, pela porta. A luz se infiltra até mesmo pelo maldito buraco que você se enfiou por conta da depressão.

Ah, mas aí é tarde. O raio de sol aparece só para mostrar o quanto é inútil desperdiçar a vida com lamentos, jogando o ego para baixo. Não há mais volta.

A respiração diminui, sei que faltam poucos segundos para que tudo acabe. Para que toda a agonia, sofrimento e tristeza vá embora. Posso até mesmo ver um feixe da luz do sol entrando pela janela perfeitamente limpa, sem um grão de poeira.

A respiração cessa.

Levanto, guardo a faca em minha cintura e jogo um lençol preto, que trazia em minha mochila, em cima do corpo.

Uma lamentação a menos no mundo. Desejo que na próxima reencarnação ele venha mais feliz.

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12 comentários em “Até a próxima – Conto (Gelson Denian)

  1. Olisomar Pires
    30 de agosto de 2016

    Muito bem construído texto. Há potencial para mais ao estilo dos best-sellers com assassinos em série e consciência deturpada dos seus crimes. Como conto tem na reviravolta o elemento-chave. Parabéns.

  2. Brian Oliveira Lancaster
    26 de agosto de 2016

    Conto bem conciso, pegando o leitor pelas metáforas e metalinguagem. Vamos acompanhando até perto do fim, quando, de repente, bam! Grande reviravolta. Dizem que os contos curtos possuem mais impacto por conta disso, mas não são todos que conseguem ter essa habilidade (ou demonstrá-la em pouco espaço).

  3. Priscila Pereira
    26 de agosto de 2016

    Muito interessante seu conto Gelson, muito bom, tanto na escrita impecável como na imaginação!! Gostei muito! Parabéns! Me surpreendi com o final.

  4. Eduardo Selga
    26 de agosto de 2016

    Contos nos quais é perceptível a manipulação da linguagem, nos quais ela se torna fundamental para a beleza literária do textos, esses contos me chamam muito a atenção, na medida em que a matéria-prima do autor é primordialmente a linguagem. É com ela que o escritor dá vida ao seus enredos e, dentro deles, aos seus personagens.

    A presente narrativa demonstra essa qualidade. Durante todo o texto tem-se a impressão, por causa da habilidade do autor, de que estamos diante de um suicida em seus instantes finais. Para isso colabora muito, curiosamente, o habilidoso uso de alguns clichês muito comuns em narrativas do tipo, quais sejam: o personagem lastimando a vida e a algum elemento da natureza simbolizando a passagem da vida para a morte ou a vida post mortem (“No fim, todas as esperanças ressurgem e é possível até mesmo ver um raio de sol entrando pela janela, pela porta”).

    É um ótimo exemplo de que o clichê não é necessariamente um defeito narrativo.

    No início do penúltimo parágrafo temos a sensação de que o espírito do personagem-narrador, até então suposto suicida, se levanta, mas essa impressão é imediatamente desmanchada, e aí percebemos que o personagem-narrador é distinto do personagem que morre. Ou seja, são dois personagens, surpreendentemente.

    Colabora para essa surpresa um “detalhe” importantíssimo na estrutura: seu tamanho. Exatamente porque pequeno, ele potencializa a inversão de expectativa. Não se trata de se incluir a surpresa como peça obrigatória do gênero conto (mesmo porque não é), e sim de usar o elemento para virar do avesso a narrativa que inicialmente o leitor organiza para si com base nas referências textuais e, desse modo, dar-lhe ao texto novo sentido. Ou melhor, o pretendido pelo autor.

  5. Anorkinda Neide
    25 de agosto de 2016

    Gostei da definição da Neusa!
    Gostei do texto
    Achei bastante original e bem desenvolvido porque menos é mais. Parabéns

  6. Neusa Maria Fontolan
    25 de agosto de 2016

    Eita! Um justiceiro da de pressão! Boa ideia.

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Informação

Publicado às 24 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .