EntreContos

Literatura que desafia.

O Outro (Gustavo Aquino)

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A mi estilo te canto mi negro,

a mi estilo voy.

Orishas

 

Policarpo Arroyo deixou a muleta de lado por um instante e espargiu a cerveja na sarjeta. Pousou a latinha no chão e, escorando-se no poste para manter o equilíbrio, focalizou a mira no centro do retângulo de dedos conjuntado à frente dos olhos. Levantou a perna; em seguida, baixou-a em um movimento súbito. O formato atrofiado daquilo que um dia fora o seu pé direito, amputado à altura da tíbia, acertou em cheio o alvo visado.

Sustentando-se na muleta novamente, mancando até o saco largado a poucos metros dali, depositou a latinha no topo das outras formas amassadas que se acumulavam em seu interior. Depois, alçando o volume nas costas, rumou para a Carlos III sob a tutela do sol de meio-dia.

Na Belascoaín, concentrado em um solilóquio altissonante – fazia anos, décadas, que Arroyo adquirira a arte de conversar com as formas do vento, o vazio, a própria sombra –, entrou à esquerda. Passou pela Calle 13 num coxear rápido, sacudindo a cabeça em simultaneidade com as rumbas que soavam dos carros e multiplicavam-se a revelia na boca dos vendedores ambulantes. Dobrou na Campanário, atravessou a fronteira invisível do aroma de salitre pulverizado, e chegou no Malecón.

Lá, protelando o diálogo que vinha levando consigo desde a Belascoaín, deixou apenas a voz do Atlântico falar enquanto ondas desmanchavam-se na amurada de concreto da avenida. Passou pelas prostitutas recostadas nos muros, cumprimentou os ébrios diante do La Perla; e, cruzando o pórtico que dividia, parede com parede, a fachada do bar, alcançou um hall amplo. O perfume do mar desapareceu, deu lugar ao cheiro de merda e ranço que efluía de todas as reentrâncias daquele edifício.

Arroyo estancou, revezou o peso nas costas e farejou o ar. Amava aquela fedentina. Amava, também, o odor de tabaco, rum derramado e carqueja macerada que, nas noites de santeria sacralizadas no 73, empesteava todos os oito andares. Odiava o cheiro de maresia. Expirou o bodum para fora das narinas. Continuou na direção da escadaria que serpenteava do outro lado do hall; ignorando o elevador enguiçado, galgou os degraus num claudicar ininterrupto até o último andar.

Mesmo privado de um pé, venceu as escadas numa inverossímil facilidade. Alcançou o terraço e ali, sob a cobertura de um fragmento de telha fixado na parede externa de um dos quartinhos que se espremiam entre si, largou o fardo de latinhas e sentou-se num pedaço de papelão.

Estava em casa.

 

Ibagué captou o ruído de movimentos. Interrompeu o ajustar da alça do acordeão no ombro e, ao investir o rosto para além da janela, pôde ver a figura de Arroyo do lado de fora. Prontamente, recordando-se do equívoco do carteiro, caminhou até a mesinha e apanhou o objeto que chegara por engano naquela manhã. Trancando a porta atrás de si, dando uma última olhadela no caimento da camisa, aproximou-se naquele gingar malemolente.

─ Arroyo, isso é seu.

Arroyo mirou o envelope, indiferente. Jogou o olhar para o acordeão e, com um lampejo de excitação no semblante, simulou o tocar de um instrumento inexistente.

─ Depois eu toco, compadre ─ aquiesceu Ibagué, olhando-o simpaticamente. No fundo, gostava daquele velho esquizofrênico; acostumara-se com as suas conversas descabidas, o seu cheiro, a sua sina de catador de latinhas.

─ Toma, é seu!

Mãos pararam de sanfonar o nada, retraindo-se.

─ Como não?

Nova negativa.

Ibagué esfregou os cabelos cheios de brilhantina, exasperado. Suspirou. E, confiante no incontestável argumento simbolizado nas letras que formavam o nome do destinatário no verso, perguntou:

─ Mas, não é assim que você se chama?

Arroyo balançou a cabeça.

─ Bah! Que se dane! ─ bufou, a simpatia dez segundos atrás se esvaindo em impaciência. Largou a correspondência no chão e desceu as escadas.

Passos ecoaram nos degraus. O vento da tarde penetrou pelas janelas dos apartamentos, cerrou portas e morreu desamparado em alguma quina de parede. Alguém colocou um bolero no 44. Uma nova lufada varreu o terraço, arrastando o objeto abandonado. Nesse momento, recém-saído de uma reforma realizada em um dos quartinhos vizinhos, Niche Nichito, ao notar aquele envelope no piso, abaixou-se para pegá-lo.

─ P-O-L-I-C-A-R-P-O. A-R-R-O-Y-O ─ soletrou as letras naquela hercúlea dificuldade dos analfabetos funcionais. Virou-se para Arroyo e indagou:

─ Não é o seu nome?

Arroyo fez que não.

Niche meneou os ombros. Sentou-se na caixa de madeira que estava ali e, movido pela curiosidade, rasgou o lacre de cera.

─ É uma carta! E uma fita cassete! ─ exclamou.

Arroyo arrastou-se para mais perto, alternando os olhos da carta para a fita, da fita para a carta.

Subitamente, inusitada como um ciclone tropical, Coralita Yuca irrompeu das escadas. Pisando firme, os punhos cerrados, seguiu na direção do quarto de Ibagué. Niche ergueu-se de pronto, derrubando o improvisado assento para trás; o olhar vadiou por toda a circunferência daquelas pernas torneadas, espalhou-se na banda de uma nádega deixada para fora do short vermelho e cravou-se no bico dos seios que roçavam a blusinha azul cingida no torso de deusa africana: era Iansã e Ogum, a alegria e a fúria da vida.

─ Cadê aquela piranha de ontem? Abre essa merda, ou derrubo!

Não houve réplica à ameaça. Arroyo riu de uma anedota que somente ele sabia. Coralita, vendo que era inútil continuar girando a maçaneta, começou a dar uns bons murros na porta; a primeira sequência fez estalar dobradiças, a segunda forçou trincos envelhecidos e a terceira saraivada de diretos foi o suficiente para escancará-la. O ciclone vermelho e azul entrou, esmurrou paredes, revirou tudo.

─ Cretino! Deve estar na desgraçada! ─ urrou ao sair. Voltou a atenção para os homens que a olhavam e arrematou em um linguajar cavernoso:

─ Algum problema, caralho!

Niche engasgou como se houvesse engolido uma espinha de traíra. As vozes dos malandros da Praça Trotcha ecoaram na sua cabeça adolescente e trouxeram os fados impossíveis das conversas de domingo que falavam que Coralita Yuca, antes de tornar-se Coralita Yuca, fora um boxeador imbatível no tablado do ginásio América; aqueles velhos rumores que diziam que ela havia vivido no estrangeiro, que se casara com um marinheiro francês, que puxara cadeia por espancar cinco policiais, que tinha o punhal entre as pernas, a navalha no peito, o corpo bem feito.

─ Nenhum… ─ disse, afinal.

Coralita rebolou até ele.

─ Viu Ibagué?

─ N-não.

─ O quê é isso? ─ inquiriu, desanuviando as feições e apontando o queixo másculo para a carta esquecida na mão imunda de rejunte e cimento.

─ Isso?! Acho… Acho que é Arroyo.

Arroyo, pela quadragésima vez naquela tarde, fez um sinal negativo.

─ Você vai ler?

─ Não sei ler ─ respondeu Niche em uma franqueza quase tocante, lutando para não mirar o punhal entre as pernas, a navalha no peito, o corpo bem feito.

Coralita sorriu. Conhecia os olhares de Niche; já os vira na casualidade dos encontros nas escadas. Era um negro bonito aquele garoto, herdeiro de africanos, grande demais para os seus treze anos. Morava ali desde os oito, num puxadinho no 82 com mais dez cabeças dividindo o mesmo espaço de cinco metros por seis; o pai morrera cedo e a mãe, todos no Malecón sabiam, lançara-se ao mar numa balsa rústica de pneus na tentativa de fugir da miséria e chegar a Miami. O Caribe nunca mais a devolveu.

─ Eu leio.

─ Verdade?

─ Claro. Sei até francês, mi negrito ─ falou Coralita, apanhando a carta. Recostou-se no parapeito do terraço e, com a brisa agitando os canecalons, pôs-se a ler numa dicção perfeita:

─ Rua Marce Bedouin, 25. Basse-Pointe, Martinica. Minha escrita deva estar confusa, pois estou em choque devido à inaudita descoberta…!

─ “Inaudita”? ─ indagou-se Niche, interrompendo a leitura já na primeira linha.

─ Significa algo fantástico! ─ explicou Coralita e continuou:

─ Recorda-se do nosso misterioso autor? Lembra-se do livro que adquiri contigo chamado “Exílio Negro”…!

─ E “exílio”?

─ Expulsão! Niche, você vai me deixar ler?

─ Aham…

Coralita prosseguiu:

─ Devido uma doação realizada pela família da falecida artista Nadège, fui contratado para catalogar os seus arquivos pessoais no intuito de, posteriormente, encaminhá-los para a Biblioteca Schoelcher…!

─ Biblioteca o quê?

─ Biblioteca-qualquer-porra!

Niche mordeu os lábios, calando-se.

─ No meio desses documentos, eis que encontro o rascunho de um livro de René Souriante que nunca havia sido publicado: uma publicação inédita desse autor desconhecido do resto do mundo e cujas duas obras, por puro acaso, chegaram até nós. O trabalho, desprovido de título, narra a infância e parte de sua vida adulta. René não era martinicano como havíamos, plausivelmente, imaginado; e muito menos se chamava René! De acordo com o rascunho, chamava-se Tswali Lumumba…!

─ “Tisuali” Lumumba ─ repetiu Niche. ─ Que nome legal, titi.

Arroyo grunhiu, concordando.

─ Nascera na cidade de Boma, Estado Livre do Congo, em 1891. Por conta das medidas de extração de borracha (o Congo, na época, pertencia a Bélgica), Tswali, ainda criança, teve a mão seccionada por não atingir a cota determinada…!

─ O que é “Seccionada”?

─ Cortaram a mão do pobre-diabo! ─ disse Coralita em um tom de enfado.

─ Que filhos da puta! Desculpa…

─ Alguns anos depois, ele acabou sendo adotado por um casal francês e mudou-se para a Martinica. Bom, entre as páginas desse livro, encontrei um relato curioso. Datado de janeiro de 1950 (pelos cálculos, creio que Tswali tinha sessenta e dois anos) o autor narra, sucintamente, um encontro com “ele” mesmo. Ora, posso ver a sua expressão…

Coralita, antecipando o pensamento de Niche, interrompeu a leitura e disse:

─ Não é a “sua” expressão.

─ Eu sei.

Sorriram.

─ Tswali encontrou-se, segundo a narrativa, com o seu outro vindo de uma realidade diferente: uma realidade onde a escravidão e a colonização dos povos negros nunca existiram.

Niche não sabia o que significava colonização, mas tinha a instintiva certeza de que era uma coisa ruim.

─ Indiferente do quê fantástico do relato, devo confessar que algo me deixou inquieto. Principalmente, pelo fato do registro ser o último escrito de Tswali antes do suicídio. Ora, conheço a obra dele: ela é prenhe de palpável materialismo e não existem surtos surrealistas em seus trabalhos. Por isso, me assusta a idéia de que, às portas de uma morte premeditada, Tswali tenha se válido de atributos literários nunca usados em vida. Em todo caso, estou enviando uma fita contendo, em apenas um lado, a transcrição verbal feita por mim para que você possa escutá-la (compilar e traduzir a versão integral do relato seria muito trabalhoso e me tomaria muito tempo). Porém, meu bom amigo, creio que soara como uma piada aos seus ouvidos: afinal, você é um cético incorrigível, incapaz de crer até mesmo em coincidências. Agora, referente ao fato do livro ter sido encontrado no ateliê de Nadège… Creio que tenho uma vaga idéia: a artista e Tswali, penso, tiveram um relacionamento (desconheço o grau) em determinado momento de suas vidas. Encontrei uma cópia carbono de uma carta de Nadège onde, infelizmente, a única parte legível é o nome do endereçado: “Balafon”. Ora, sabemos que esse é um dos personagens centrais nos contos do “Retorno ao País Natal”. Despeço-me, cordialmente. Cuide-se. Aguilar Gutiérrez. PS: Envio, em anexo, uma cópia de uma fotografia de Tswali. É a única imagem dele. Para: Policarpo Arroyo A. Romero. Malecón Esq. A M. Campanário, Calle 25. La Habana, Cuba.

Coralita, ao término da leitura, abaixou a folha. Olhou para o vulto de Arroyo que, visivelmente despreocupado, alheio a qualquer coisa, brincava idiotamente com a fita.

─ Essa carta não foi endereçada para ele! O endereço não bate com esse prédio. Ele é do edifício vizinho, do lado esquerdo do La Perla. Negrito, lembra-se do velho Romero?

Arroyo parou a brincadeira obsoleta e, pela primeira vez, acenou positivamente.

─ Romero? ─ disse Niche, evocando aquele nome. ─ Romero? Sim! O velho que morreu no incêndio há uns dois meses? Aquele que tinha uma livraria na Cárdenas?

─ Esse mesmo! A carta era para ele. Estranho, não sabia que ele tinha o nome igual ao do Arroyo.

A eloquência daquela estranha coincidência silenciou-os.

De súbito, Niche desceu as escadas correndo. Retornou logo em seguida, com um rádio. Colocando-o sobre a caixa que até então servira de assento, tomou a fita cassete das mãos de Arroyo e a enfiou no compartimento. Movido por uma eufórica urgência, deu o play.

Um sotaque carregado de zês espalhou-se no ar. Monótono, acompanhado de chiados e ruídos poucos descritíveis de fundo, verbalizou a narrativa.

 

Aconteceu em novembro de 1949.

Não escrevi de imediato, porque quis esquecê-lo.

Agora, em 1950, penso que, se o escrever, outros o lerão como um conto. Embora, não signifique que relatá-lo possa comover os ouvidos do mundo branco.

Eu estava num banco de frente para o Trinité – aquelas águas que me faziam recordar um rio de minha infância. Contemplá-lo fez-me pensar no tempo; e, ao pensar no tempo, certifiquei-me o quão amargo fora minha existência.

 Percebi que alguém se sentara próximo de mim e, de repente, escutei o murmurar de uma canção. Atentei-me à música, notando que era uma daquelas velhas composições de meu país.

“O senhor é congolês?”

O outro se virou e, no idioma de minha língua materna – embora com algumas discrepâncias fonéticas –, disse:

“Sou de M’banza Kongo, casa-real do Manikongo”.

Mirei-o com assombro, pois sabia que aquele era o nome do Congo antes da chegada dos europeus. Olhei-o dos pés a cabeça: era exatamente como eu, porém mais robusto e de aspecto sadio. Aparentávamos a mesmíssima idade. Inspecionei suas roupas, dessemelhantes de qualquer vestuário do mundo europeizado: trajava um danshiki colorido, pantalonas de um tecido desconhecido, e dos ombros pendiam lindas peles de gato almiscarado. Inconscientemente, deslizei a vista para sua mão direita e notei que ela estava inteira: o punho intacto.

“Qual é seu nome?”

“Sou Tswali Lumumba, filho de Nsala e Mmapula! E tu?”

“Sou Tswali Lumumba, filho de Nsala e Mmapula”.

Houve um longo silêncio. Sem saber por qual razão, a pedido de uma curiosidade, indaguei:

“Onde você está agora?”

Olhou-me como que surpreendido e respondeu:

“Em Boma, em frente ao Nzare! Acabei de jogar as cinzas de minha recém-falecida mãe nas águas”.

Quedei-me boquiaberto, afinal minha mãe morrera quando eu tinha seis anos. Tentei dissimular meu assombro e falei por falar:

 “Não seria o rio Zaire?”

 “Não existe nenhum Zaire em M’banza Kongo, só o Nzare. Talvez esse rio fique no leste, perto de Tanganyika”.

Agitei-me no banco. Minha garganta ficou seca. Mentalizei uma pergunta e respirei fundo, receoso  da resposta:

“O que… O que houve com os belgas?

Íris escuras transpassaram-me e, como se aquela última palavra trouxesse um som cômico aos seus ouvidos, questionou:

 “O que é um belga, Tswali?”

Senti falta de ar. Tswali, despercebido, levantou-se.

“Tenho que ir, Tswali. Bema e Béhanzin querem montar nas minhas costas”.

“E quem são eles?

“Filhos de Tswali!”

Não me contive e chorei abertamente, resignando-me na alegria de que eu – em outra realidade, em outra vida – tivera filhos.

Em outra existência, crianças brincam em minhas costas.

O outro se distanciou, gesticulando um aceno que eu não soube compreender.

Retornei para casa.

Vivi um ano sem saber como, sem saber a razão.

Porém, hoje, tomei minha decisão. O frasco de cianureto… O suicídio… O sono dos que nunca foram nada. Despertarei sendo o outro. Não serei mais um conto de punhos atrofiados, uma paródia daquilo que poderia ter sido e nunca foi. Minha mágoa era o som francês do violoncelo; minha desgraça era a harpa portuguesa: minha mão cortada – minha, minha, minha – era a civilidade do facão belga dilacerando tendões e vertendo sangue infantil. Não mais! Sou os Reinos de Daomé. Sou aquele que canta os feitos de Adonhueso, Dá, a encarnação da grande serpente; sou aquele que se acocora no pátio terroso de Kankán Muza e escuta o que dizem os ancestrais na serenidade marinha das constelações.

Eia!

Eia para a negrada encafuada em porões soturnos inalando o odor de suas próprias fezes durante a viagem de Badagry ao Cais de Valongo!

Eia!

A Europa ficou para trás. As vozes de Henry Morton Stanley, do Rei Leopoldo II, caladas pelo troar dos tambores de M’banza Kongo.

A Europa ficou para trás, em alguma nesga de outra realidade, em algum frasco de veneno; um pesadelo esquecido além da noite, além de muitas noites…

A Europa ficou para trás.

 

A voz calou-se.

Coralita desviou os olhos dos colares de luz que espocavam do Malecón, direcionando-os para Niche no momento em que o ejetar da fita fez click.

─ O que aconteceu, mi negrito? ─ perguntou numa candura comovente ao perceber que o garoto estava chorando. Ficou de frente para ele, tentando inutilmente enxugar as lágrimas que escorriam daquele rosto de traços negroides.

Então, entre um soluçar e outro, os olhares se encontraram. Conduzidos por uma atração inquestionável, fizeram as línguas se tocarem enquanto mãos inaptas, promovendo carícias desajeitadas, apalparam seios, coxas. Oriundo das ruas, uma voz se elevou e, marcada pelo ritmo de um acordeão, encheu o crepúsculo com aquele velho vallenato:

 

Tiene todos los sabores del Africa primitiva,

Pero dimelo em tambores

por que el tambor fue mi vida.

 

Os lábios se soltaram.

Coralita moveu-se para trás, passando os dedos na boca que agora tinha gosto de sal. Ajeitou a blusinha desarrumada enquanto o acordeão tornava-se cada vez mais alto. Sem dizer uma palavra, variando as pernas num caminhar irregular, desceu as escadas.

Niche quedou-se ali, soluçando. Passou pela silhueta de Arroyo, que desabara num sono imperturbável desde que a voz começara no rádio, e viu o invólucro rasgado. Apanhou-o novamente, notando que ainda havia algo em seu interior.

Era uma foto.

As lágrimas desentocaram-se com mais força.

Niche aproximou-se do parapeito, desorientado.

Mirou o mar, o céu, a foto daquela criança – negra como ele –, cujo punho direito era um cotoco.

E, sustentando o peso de todo um povo nos ombros, chorando por tudo o que poderia ter sido e nunca foi, soltou-a nos braços do vento.

outro

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30 comentários em “O Outro (Gustavo Aquino)

  1. Gustavo Aquino Dos Reis
    5 de junho de 2016

    Somente como curiosidade, deixo aqui o material de pesquisa e levantamento de personagens feito antes mesmo de começar a escrever o conto:

    *Selga, você matou a charada!

    Personagens:

    Tswali Lumumba → influências: Aimé Césaire, Frantz Fanon, Jorge Luís Borges, Patrice Lumumba.

    Idade: 61 anos

    Linha cronológica:

    1891 – Nasce Tswali Lumumba na cidade de Boma, Estado Livre do Congo;

    1895 – Os pais de Lumumba, Nsala e Mmapula, são assassinados brutalmente. O garoto de apenas cinco anos passa a viver com outras famílias. Começa a trabalhar, forçadamente, na Companhia Lulonga de Extração de Borracha Anglo-Belga;

    1896 – Com seis anos de idade, Lumumba tem a mão direita amputada por não atingir a cota estipulada de extração de borracha;

    1898 – Em seu oitavo ano de existência, Lumumba é adotado por um casal de médicos franceses que estavam fazendo residência médica em Boma. Lumumba viaja para Martinica – local de nascimento do pai adotivo – e passa a viver na cidade de Basse-Pointe, no norte da ilha. Ali, cercado por um inusitado ambiente burguês, recebe toda uma educação francófona e ocidentalizada e um novo nome correspondente à sua nova família: René Souriante;

    1903 – Embora atrasado em termos de idade, Lumumba (René), agora com doze anos, ingressa, graças à condição economicamente favorável dos pais, no prestigiado Lycée Schoelcher. O colégio reside na capital martinicana, Fort-de-France. A família adotiva muda-se para lá;

    1906 – Morre a mãe adotiva de Lumumba (René), Isidore Souriante;

    1910 – Lumumba (René), aos dezenove anos, consegue entrar na Universidade de Lyon, França, no curso de Filologia. Cercado por um ambiente de erudição, paralelamente aos estudos, apaixona-se por filosofia, teatro, antropologia e história;

    1914 – Forma-se em Filologia. Retorna para Martinica e, com vinte e três anos de idade, começa a trabalhar em um periódico de pouca circulação, chamado Cahier, destinado aos estudantes das colônias caribenhas;

    1915 – Lumumba (René) viaja ao Haiti e começa a trabalhar como intérprete para o exército americano estacionado na ilha devido a um levante popular lá. Conhece a atriz haitiana Nadège com a qual se casa no mesmo ano;

    1920 – Lumumba (René), agora com trinta anos de idade, vive no Haiti. Ocasionalmente, retorna para a Martinica para visitar o pai. O casamento oscila, deteriora-se por completo quando Nadège, frustrada por não poder ter filhos, descobre que Lumumba é estéril. Os dois se afastam e nunca mais vão se encontrar;

    1925 – Lumumba (René) viaja à Boma, sua cidade natal no Congo. Descobre-se novamente, encontra os registros silentes de uma antiga colonização e observa aquilo que o une com os habitantes locais: a ausência de uma das mãos. Retorna arrasado ao Haiti e de lá volta a Martinica para cuidar do pai debilitado pela idade. Lumumba (René) está com trinta e sete anos;

    1926 – Morre o pai de Lumumba (René), Bastien Souriante;

    1927 – Lumumba (René) começa a trabalhar como editor-chefe em um jornal de grande circulação na Martinica. Dedica-se, também, ao teatro com mais afinco. Escreve uma ou duas peças de caráter burlesco e ganha notoriedade. Seu último trabalho, “Retour au Pays Natal”, é um sucesso de crítica em toda a ilha. Agora com trinta e nove anos, começa a sentir uma leve dificuldade em enxergar propriamente na retina esquerda.

    1932 – Aos quarenta e quatro anos, escreve um livro de contos intitulado “Masques Blancs”. Os contos lidam sistematicamente com uma temática anticolonialista. É diagnosticado com opacidade no cristalino esquerdo. O estágio da doença avança e Lumumba (René) perde a visão do olho;

    1940 – Lumumba (René), agora com cinquenta e dois anos, empreende uma nova, e última viagem, ao Congo. Realiza uma sequência roteiros turísticos e antropológicos e visita inúmeros países africanos. Ao retornar para a Martinica, compila todas as anotações oriundas de suas viagens e começa a datilografar as primeiras páginas de um novo trabalho literário;

    1946 – A enfermidade que atingira o seu olho esquerdo, agora, alastra-se para o olho direito. A doença se agrava e Lumumba, contando com seus cinquenta e oito anos, tem a vista parcialmente enevoada. A produção literária diminui drasticamente e ele já não consegue mais escrever nada sem a ajuda de outros. Abandona completamente o trabalho literário das memórias de sua viagem;

    1949 – Senta-se em um dos bancos de uma praça, à frente das águas do Trinité. Lumumba (René), aos sessenta e um anos, passa as tardes de sua velhice assim: observando o panorama colonial de uma Martinica prenhe de racismo e xenofobia. Um vulto senta-se ao seu lado. É seu outro. Morre aos sessenta e um anos.

    Características físicas de Tswali Lumumba: cabelos grisalhos; o olho esquerdo está totalmente opaco, o direito ainda apresenta o castanho-escuro, mas já está parcialmente baço; barba hirsuta, desgrenhada; tez negra, retinta; a mão direita é um toco, amputada na altura do punho.

    Tswali Lumumba → influências: Alejo Carpentier, Toussaint Louverture, Joseph Conrad, reinos africanos pré-europeus.

    Idade: 61 anos

    Linha cronológica:

    1891 – Nasce Tswali Lumumba na cidade de M’banza Kongo, casa-real do Manikongo – governante do reino do Kongo;

    1895 – Os pais de Lumumba, Nsala e Mmapula, se mudam para Boma. Lá, tem uma infância próspera e bem-aventurada;

    1896 – Com seis anos de idade, Lumumba vê o nascimento de sua irmã Boali;

    1898 – Em seu oitavo ano de existência, Lumumba já apresenta grande interesse na disciplina de oralidade. Domina com exímia facilidade as narrativas escatológicas. Sob a orientação do “tradicionalista” Maa’kuma, inicia-se nos caminhos da retórica e da palavra;

    1903 – Agora com doze anos, Lumumba ingressa nos ofícios tradicionais da palavra;

    1910 – Lumumba, aos dezenove anos, passa a estudar forjadura em M’banza Kongo. Ainda estudante da oralidade, enverada no caminho de depositário do segredo das transmutações. Toma o banho iniciático;

    1914 – Lumumba, sob a ética do “Costume dos Ferreiros”, manipula o ferro e, com vinte e três anos de idade, torna-se “ferreiro dos metais preciosos” – um joalheiro que geralmente é um cortesão e, como tal, instala-se nos pátios externos dos palácios de um chefe ou um nobre;

    1915 – Devido aos intercâmbios culturais entre os outros reinos de além-mar, Lumumba integra a corte de Manikongo numa visita aos reinos autóctones de além-mar. Visita os reinos dos Tainos espalhados nas Bahamas, nas Grandes e as Pequenas Antilhas do Norte, no Caribe. Faz uma visita aos Xaraguas, no Haiti, e, graças à alta qualidade dos ornamentos de suas jóias, Lumumba é convidado a morar entre eles;

    1920 – Lumumba, agora com trinta anos de idade, vive no Haiti. Ocasionalmente, retorna a Boma para visitar os pais e a irmã. Durante uma dessas viagens, conhece a tocadora de valiha Danda’ra (Nadège). O casamento se consolida, casam-se numa cerimônia nas águas do Nzere (Rio Congo);

    1925 – Com trinta e sete anos, Lumumba e Danda’ra tem o primeiro filho. É uma menina chamada Bema;

    1926 – Morre o pai de Lumumba, Nsala, de morte natural;

    1932 – Aos quarenta e quatro anos, abandona a forja e dedica-se inteiramente a oralidade. Nasce o seu segundo filho, Béhanzin;

    1940 – Lumumba, agora com cinquenta e dois anos, empreende uma nova, e última viagem, ao Haiti. Ao retornar para M’banza Kongo, consagra o nascimento do primeiro filho de sua irmã, uma menina chamada Yaa Asantewaa;

    1946 – Morre a mãe de Lumumba, Mmapula, de causas naturais;

    1949 – Visita sua cidade natal, Boma, no intuito de jogar as cinzas da mãe no rio Nzare. Enquanto as mulheres, Danda’ra e Boali, visitam as vivendas para comprar tecidos e ornamentos, Lumumba senta-se em um dos bancos de uma praça arborizada. Aos sessenta e um anos, sentado confortavelmente, vê um vulto se aproximar. É o seu outro;

    Características físicas de Tswali Lumumba: cabelos grisalhos; robusto como um touro; barba bem aparada; mãos grossas e calejadas pela o ofício de ferreiro.

    Aguilar Borges Gutiérrez

    Idade: 34 anos

    1950 – Nasce em Bogotá, filho de Pedro Borges e Diana Rojas Gutiérrez;

    1969 – Com dezenove anos, Aguilar Borges Gutiérrez ingressa no curso de História na Universidad de Los Andes;

    1974 – Forma-se em História e começa a trabalhar no centro de documentação do Instituto Colombiano de Antropologia e História – ICANH. Paralelo ao trabalho, Aguilar começa a desenvolver um profundo interesse no campo da linguística. Começa a estudar as línguas crioulas caribenhas como o papiamento. Aguilar está com vinte e três anos;

    1975 – Concebe o trabalho de mestrado em Linguística Antropológica. O título da tese é “A língua créole nas colônias caribenhas: da Martinica à Curaçao”;

    1976 – Recebe uma proposta de trabalho para atuar no setor etnológico da Biblioteca Schoelcher, na Martinica. Aguilar está com vinte e cinco anos;

    1978 – Tem o primeiro contato com a obra de um escritor martinicano chamado René Souriante. O nome da obra (a primeira de uma tetralogia formada por Masques Blancs, Retour au Pays Natal e o manuscrito, encontrado anos mais tarde, do que seria o Damnés de La Terre) é L’Exil Noir. Aguilar começa a sentir uma fascinação doentia pela escrita, pela a narrativa e pelos contos de Souriante. Porém, poucos círculos literários e acadêmicos conhecem esse autor. Aguilar começa a endereçar cartas para as mais diferentes bibliotecas, para os mais diferentes colecionadores, no intuito de adquirir todo o conjunto de obras de René. Os dois primeiros anos de empreitada são infrutíferos;

    1981 – Consegue, através de uma livraria em Havana, o envio de uma cópia datilografada manualmente de uma primeira versão do Masques Blancs. Aguilar começa a traduzir os dois livros de René Souriante – escritos numa mistura engenhosa de créole e francês – para o espanhol. Aguilar tem 30 anos de idade;

    1984 – Aguilar inspeciona a doação de um dos filhos de uma artista haitiana, que fora casada com um mecenas francês chamado Pelletier Delacroix. O arquivo é composto por dezoito metros lineares de livros, correspondências, pinturas e outros conjuntos documentais que englobam a carreira artística e pessoal de ambos. A casa onde se encontram todos os documentos fica em Basse-Pointe. Aguilar começa a catalogar todos os documentos e, no meio de uma série de livros, acaba encontrando uma versão manuscrita, encadernada caseiramente, do último livro da tetralogia de Souriante. Essa obra inacabada é autobiográfica e descreve com minuciosos pormenores a vida de Souriante. Aguilar lê sobre a infância do homem; descobre que o nome verdadeiro dele é Tswali Lumumba e que é ele nascera na cidade de Boma, Estado Livre do Congo, em 1891, e que fora adotado por um casal francês e erradicado na Martinica. Descobre, também, que em determinado momento de sua vida, Lumumba se envolveu com a artista Nadèje – fator que explica a proveniência do livro. Aguilar passa os três dias lendo a obra inacabada e, ao folhear as últimas páginas, descobre um excerto, anexado com uma foto de um Lumumba mais jovem, narrando um curioso fato que se deu em 1949. Ao terminar de ler o incrível e surreal relato, Aguilar redige uma carta a outro aficionado na figura e na obra de Lumumba – um colecionador brasileiro chamado Policarpo A. Romero. Aguilar tem trinta e quatro anos de idade.

    Argumento:

    Tswali escreve o relato minutos antes de dar cabo à própria vida através da ingestão de veneno. Termina de datilografar o conteúdo e coloca o papel dobrado dentro do rascunho de sua mais recente publicação antes de se deitar e esperar o cianureto fazer efeito. Num monólogo final, diz que ao acordar será um com o seu outro: tendo olhos para ver, pés para dançar e mãos para aplaudir.

    Sentado no banco, ao sentir a presença de outra pessoa, atenta-se para o curioso, e familiar, verseto que a figura declama em sussurros. É isso que o aproxima com o outro: a oralidade africana imbuída no verso.

    “Minha mágoa foi o som francês do acordeão. Minha desgraça foi a harpa portuguesa. Minha mão esquerda amputada, minha, minha, minha, é oriunda da justeza do facão belga dilacerando tendões, serrando ossos infantis, dando sangue ao vento quadrilátero perfumado com o aroma de borracha queimada. Fui um fruto da árvore apodrecida plantada no pátio da Ágora caucasiana de meu século. Não mais! Não serei mais um conto trágico de punhos atrofiados, uma desmantelada paródia de tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Não sou mais a partilha de uma África acorrentada e massacrada pelo jugo europeu. Não sou Leopoldville, não sou as ruas de terra batida coalhadas de corpos juvenis em Soweto. Sou os Reinos do Daomé, Ndongo, Mbangala, Mbwila. Sou um tradicionalista, aquele que acocora-se na surdina do grande lago de águas salobras e canta os feitos de Adonhueso, Dá, encarnação da grande serpente, que é o eterno princípio e não-nunca acaba, não-nunca finda. Sou o forjador dos ferros oriundo da morada de Kankán Muza, criador do império dos mandingas, cujos os cavalos se adornavam com moedas de prata e os homens de olhares severos, montados nas mantas bordadas, empunhavam lanças de feitio fantástico. Eia! Eia para os que nunca inventaram nada, para os que nunca cruzaram o mar! Eia! Eia para a negrada encafuada em porões soturnos, cheirando o odor de suas próprias fezes durante a morosa viagem do porto de Badagry ao Cais de Valongo. Eia! Agora sou aquele que escuta o inaudível e entende o que dizem os ancestrais na serenidade marinha das constelações. Sou a noite autóctone de uma África intacta, sem os dedos ávidos da colonização. Mística e clara. Negra e brilhante”.

    “A Europa ficou para trás, silenciosa, as vozes de Henry Morton Stanley, do Rei Leopóldo, nada mais que um tartamudear engolfado pelo troar dos tambores consagrados que se entrechocam sobre os augúrios dos ritos dos iniciados. A Europa ficou para trás, em alguma réstia de outra realidade histórica; um pesadelo já esquecido além da noite, além de muitas noites, além do sono dos Altos Poderes que banham as fronteiras do mundo africano. A Europa ficou para trás”.

    Policarpo Arroyo, um perneta, catador de papelão, latinhas e outras miudezas, vive em um apartamento decadente no último andar de um velho edifício no Malecón, Havana, que se debruça sobre o mar. Numa tarde, ao retornar da rua com um saco cheio de latinhas, encontra Ismael Ibagué que, saindo de sua moradia, lá do outro lado da varanda, lhe entrega uma encomenda de um remetente desconhecido, nunca visto por Arroyo, chamado Aguilar Borges Gutierréz – um antropólogo residente na Martinica que, ao se confundir na grafia do endereço ao seu destinatário, acabou despachando a encomenda erroneamente. Escutando uma pachanga num escangalhado rádio colocado acima de um bloco tosco de concreto, Niche Nichito, curioso como qualquer criança de doze anos, aproxima-se. Olha um Aguilar confuso, sem saber o que fazer, com um envelope grande e bege nas mãos. Sem perder, tempo, ele toma o conteúdo das mãos do perneta e abre o invólucro: vê-se uma carta datilografada e, em anexo, uma fita k-7.

    Aguilar e Niche tentam ler o conteúdo; porém, não conseguem. Aguilar é analfabeto funcional, assim como Niche. Nesse momento, Coralita Yuca, um voluptuoso travesti com quase dois metros de altura, nascido em Curaçao, aparece inesperadamente na varanda. Coralita é a única pessoa letrada – de fato, além de falar créole e espanhol, aprendera francês de um ex-cônjuge (um marinheiro proveniente de Languedoc, França, estacionado no Porto de Havana) com quem se envolvera anos atrás. Arroyo, através de gestos, pede para que Coralita leia a carta.

    O missivista, Aguilar, encontra-se no ateliê de uma falecida artista haitiana chamada Nadège e – através de uma doação dos conjuntos documentais da artista feita por um de seus filhos à Biblioteca Schoelcher – está catalogando todo o acervo para viabilizar a doação. O lugar fica no norte da ilha, em Basse-Pointe. É uma casa baixa, avarandada, com um telhado de duas águas. Aguilar começa a catalogação e, por falar créole, espanhol, português e francês, é a pessoa mais indicada para o trabalho – uma vez que a artista Nadège se relacionou com personalidades das mais variadas nacionalidades. Havia um cômodo sóbrio na casa, um quarto pequeno, as paredes, circundadas por estantes com alguns montantes de livros, espremendo uma cama desmantelada. Aguilar averigua as publicações, organiza todas elas sobre a mesinha do quarto e começa a catalogar os nomes e a folhear as páginas. Encontra um livro evidentemente encadernado caseiramente. O nome da publicação, estampado apenas na lateral, é “Damnés de La Terre”, de um autor martinicano chamado René Souriante. Aguilar arfa de incrédulo espanto, pois há seis anos teve o primeiro contato com a obra literária desse obscuro autor que, mais tarde, o faria ter uma fascinação doentia pelo mesmo. Conhece a obra do autor numa tarde despretensiosa quando estava realizando um trabalho de conservação preventiva em uma das alas da biblioteca. O livro L’Exil Noir foi encontrado em uma das profundezas de uma prateleira. A obra é escrita num créole vernacular e, ora ou outra, num francês rústico e pouco discernível. Aguilar apaixona-se pela escrita, pelo conjunto da obra e começa a tentativa, frustrada, de encontrar as outras obras desse autor; mas, infelizmente, nenhuma referência é encontrada. Depois de três longos anos, Aguilar acaba conhecendo um recluso colecionador de livros chamado Policarpo A. Romero, um cubano, oriundo de Matanzas, que vive no último andar de um edifício pobre no Malecón, em Havana. Romero é familiar com o conjunto da obra de René Souriante e, através de missivas correspondidas ao longo dos anos com Aguilar, diz que a obra do autor é uma tetralogia. Consegue uma das obras intitulada Masques Blancs e a vende à Aguilar (pelo fato da mesma estar em francês) que, por livre vontade, começa a traduzi-la para o espanhol. Por nenhuma razão aparente, acontece uma longa ausência de qualquer comunicação entre os dois. O silêncio impera. Aguilar está agora ali no ateliê, com o rascunho do livro nunca publicado de René nas mãos. Começa a ler obra – um trabalho autobiográfico das viagens de René pelas regiões do Congo. Essa obra inacabada é autobiográfica e descreve com minuciosos pormenores a vida de Souriante. Aguilar lê sobre a infância do homem; descobre que o nome verdadeiro dele é Tswali Lumumba e que é ele nascera na cidade de Boma, Estado Livre do Congo, em 1891, e que fora adotado por um casal francês e erradicado na Martinica. Descobre, também, que em determinado momento de sua vida, Lumumba se envolveu com a artista Nadèje – fator que explica a proveniência do livro. Aguilar passa os três dias lendo a obra inacabada e, ao folhear as últimas páginas, descobre um excerto, anexado com uma foto de um Lumumba mais jovem, narrando um curioso fato que se deu em 1949. Ele retorna a pequena pousada com uma cópia feita de próprio punho do livro manuscrito, uma reprodução da foto e o pequeno excerto. Eufórico, naquela mesma noite, escreve uma missiva a Romero – depois de um longo hiato – revelando a descoberta e lhe encaminhando, em anexo, uma fita k-7 contendo o registro sonoro de todo o excerto. Envia, também, a reprodução fotográfica da foto anexada no livro. A correspondência nunca chega ao verdadeiro Policarpo – de fato, morrera alguns anos antes num terrível incêndio desencadeado por um fio desencapado no seu apartamento improvisado em biblioteca (o apartamento desse recluso colecionador ficava no mesmo andar de Ibagué). Os correios entregam a correspondência para Ibagué que, ao ler o nome do destinatário, crê que seja o analfabeto Policarpo Arroyo.

  2. Pedro Luna
    3 de junho de 2016

    O texto é maravilhoso, só encuquei um pouco com um excesso de rebuscamento, como no terceiro parágrafo, por exemplo, que poderia ser resumido em uma ou duas linhas. Óbvio, o problema não é a escrita, mas é não primar pelo dinamismo em um desafio de contos na net, em muitos momentos em que se poderia ter sido feito. De qualquer forma, quem sou eu, o autor escreve como quiser.

    Apesar de achar que não entendi perfeitamente todas as nuances, o clima de mistério é empolgante. A parte da carta é engraçada, lembrou os episódios que o Chaves lê a carta pro Seu Madruga. Mas o relato da fita foi a melhor parte e confesso que me deu calafrios quando o personagem diz que prefere morrer e enfim virar o outro. Putz. Muito bom.

  3. Andreza Araujo
    3 de junho de 2016

    Olá, amigo!

    Pra começar, não vou falar da RHA em si, pois não tenho conhecimento suficiente para isto. Vou encarar como “item cumprido” e partir para a minha impressão do conto no geral, ok?

    É inegável o seu domínio no nosso idioma, e também como um contador de histórias. Entretanto, o texto foi, de certa forma, muito denso pra mim, pois o meu vocabulário não é tão rico quanto o seu. Ou seja, digamos que eu não sou o público ideal para a sua história, o que não significa que o texto não tenha sido incrivelmente bem escrito. Notei apenas que você escreveu “ideia” com acento, e este caiu naquela grande reforma ortográfica.

    Os personagens são o ponto alto pra mim, pois conseguimos enxergá-los bem. Arroyo, mesmo sem falar nada, é o mais expressivo. A história do “outro”, o cerne do conto, também é significativa.

    Agora, o conto em si não prendeu a minha atenção, apenas tive curiosidade de saber o conteúdo do envelope…

  4. Swylmar Ferreira
    3 de junho de 2016

    Conto muito interessante. Pensei por alguns segundos o que eu faria se encontrasse uma versão diferente de mim e pudesse trocar algumas palavras.
    Todo passado em RHA, o conto é bem escrito, com gramática impecável, assim como o modo de escrever. Gostei dos personagens e da estabilidade dos diálogos.
    Parabéns e boa sorte.

  5. Wilson Barros
    2 de junho de 2016

    A chave do conto é o pseudônimo, Frantz Fanon, dos “condenados da terra”, o filósofo da descolonização. Vê-se que o autor entende do assunto e seu conto possui uma base ideológica sólida. Além disso, achei uma boa ideia as das realidades paralelas entrecruzadas. Tudo se torna emocionante devido ao estilo, de valor literário. Ótimo, parabéns.

  6. Virginia Cunha Barros
    2 de junho de 2016

    Oii! Nossa, que conto bonito você escreveu! Olha, achei que demorou um pouco pra ficar mais interessante a leitura, mas quando começou a história do escritor com a mão cortada ficou impossível parar de ler! O relato da fita cassete é a parte mais emocionante, junto com o final, o garoto segurando a foto da criança mutilada. Impressionante e chocante, parabéns, viu?

  7. Thomás
    1 de junho de 2016

    Excelente Fanon!
    Excelente!

    Você construiu uma narrativa complexa, intricada, bastante detalhista e o melhor: sem ser cansativo.

    Seu enfoque da RHA, abordando realidades paralelas, foi muito legal.
    É uma ideia na qual eu gostaria de ter pensado… mas que nem passou pela minha cabeça!

    Obrigado por postar esse conto!!

  8. Thiago de Melo
    1 de junho de 2016

    Olá, Fanon,

    Seu conto mexeu comigo. Acho que ele é muito maior do que esse desafio do qual estamos participando. É um texto que merece (e deve) ser lido por muitas pessoas, quantas mais melhor. A reflexão que ele possibilita é incrível. Eu me perguntei ao terminar: será que eu estou vivendo a versão “melhor” das minhas possibilidades? Eu imagino que sim, mas daí me vem à cabeça tudo o que eu deixei de fazer por medo, preguiça, ou até pela influência de outras pessoas (como no caso dos Belgas no seu conto). Será que uma parte de mim foi amputada sem que eu percebesse? Não fisicamente, claro (e ainda bem), mas será que algum sonho ou esperança que eu tinha quando garoto me foi amputado pelo mundo e, nessa realidade fantástica que você criou, eu me veria “diferente” no outro lado e perceberia tão claramente o que perdi, ou o que me foi roubado? É muito interessante tudo isso.

    Muito obrigado pelo seu texto. Gostei muito. É o tipo de história que tem muitas e muitas camadas, ou seja, o melhor tipo de história.

    Obrigado! Parabéns!

  9. Wender Lemes
    31 de maio de 2016

    Olá, Fanon. Seu conto é o décimo que avalio neste desafio.

    Observações: a técnica emprega neste conto é muito boa. A narrativa é conduzida sempre deixando uma ponta solta que é amarrada no parágrafo seguinte, mas que acaba abrindo outra brecha para dúvida. Isto mexe com a cabeça do leitor e, por mais que saibamos que a história propriamente dita não ocorra diretamente com os três personagens principais, ficamos apreensivos sobre suas reações. É um dos meus contos favoritos no desafio até agora.

    Destaques: Arroyo é um personagem à parte, em minha opinião. Apesar de dizer que ele fala sozinho o tempo todo, não temos praticamente nenhuma fala dele. Mesmo assim, é possível imaginá-lo perfeitamente, tão boa é sua descrição. O peso do sentimento de Niche ao final é outro ponto positivo.

    Sugestões de melhoria: demorei um pouco para ter certeza do cenário cubano. Para ser sincero, só tive a confirmação quando explicitou o endereço na carta. Não considero propriamente um problema, pode ser mais uma questão minha que uma falha no conto.

    No mais, parabéns e boa sorte.

  10. Daniel Reis
    31 de maio de 2016

    Prezado escritor: para este desafio, adotei como parâmetro de análise um esquema PTE (Premissa, Técnica e Efeito). Deixo aqui minhas percepções que, espero, possam contribuir com a sua escrita.

    PREMISSA: ótima premissa de duas realidades simultâneas se encontrando – como foi e como poderia ter sido. A ambientação e elementos de pesquisa são notáveis e merecem destaque nessa história.

    TÉCNICA: apesar do esmero na escrita, o eruditismo por vezes tornou-se cansativo na construção frasal e na escolha vocabular. No entanto, é inegável o domínio do autor das ferramentas básicas da narrativa.

    EFEITO: no cômputo geral, a história manteve o interesse até o final, mas deixou no ar a conclusão, num final impressionista e aberto – artístico, sem dúvida, mas dúbio na minha interpretação. Tenho certeza que estará entre os melhores.

  11. vitormcleite
    30 de maio de 2016

    Gostei muito desta leitura e parece-me que conseguirias obter um texto com mais impacte se centrasses o enredo mais nas personagens, se limpasses as personagens secundárias quase sem presença e aí o texto ficaria, eventualmente, muito mais forte. Muitos parabéns

  12. Gustavo Castro Araujo
    29 de maio de 2016

    O argumento central do conto é daqueles que nos deixam pensando dias a fio: e se eu encontrasse outra versão de mim, vinda de outra realidade, uma versão mais feliz, mais realizada, que expusesse o fracasso deste meu mundo?

    Grande parte da população mundial, especialmente dos lugares mais empobrecidos e explorados não teria dificuldade em imaginar um história assim. A outra versão deles certamente teria um destino muito melhor do que aquele que efetivamente vivem.

    O conto joga exatamente com isso. Traz à tona um encontro fantástico em que se dá a notícia de que lá, do outro lado, jamais houve colonização, jamais homens subjugaram outros homens por causa da cor da pele ou por conta de uma suposta e infame superioridade racial. O argumento poderia ser outro, em que no encontro de duas versões de determinado personagem, um dissesse ao outro que Hitler jamais existiu, que os judeus não foram exterminados e que a II Guerra nunca aconteceu.

    A opção do autor por trazer essa linha de argumentos alternativos para questão da colonização africana — sobre tudo do Congo pelos belgas — tem o mérito de nos aproximar, nós, leitores brasileiros, de um drama corrente para o qual parecemos absortos. Não que a II Guerra, Hitler ou os judeus sejam menos importantes, mas referem-se a uma realidade para nós (felizmente) distante. Já a questão colonial toca, ou deveria tocar, de modo mais pungente o nosso cotidiano, justamente por fazer parte de nossa identidade enquanto povo – somos resultado direto da escravização africana. Ou seja, é uma narrativa que convida, ou melhor, que nos impele a pensar sobre essa dívida histórica e que, convenhamos, está muito longe de ser resgatada.

    Por outro lado, sinceramente, não sei que consequências adviriam da ausência dos europeus da África. Não só da África, aliás, mas também das Américas e da Oceania. Como o mundo teria evoluído sem essa subjugação do homem pelo homem, algo que sempre ocorreu em maior ou menor escala, em pequenos ou grandes territórios? Claro que a autodeterminação dos povos é algo a ser perquirido, mas tenho lá minhas dúvidas do quanto de utopia e, talvez, de ingenuidade, permeiam esse conceito. Se seria, de fato, factível. De todo modo, não deixa de ser interessante imaginar algo assim.

    Queria, por fim, parabenizar o autor pelo excelente conto, desde a concepção do argumento passando pela contextualização geográfica e histórica. É sempre um prazer deparar com um texto bem fundamentado, em que se percebe a intenção de um mergulho mais profundo com o fito de provocar o leitor, de deixá-lo desconfortável. Enfim, um contaço. Obrigado!

  13. Simoni Dário
    28 de maio de 2016

    Olá Fanon.
    O texto tem uma mensagem bonita, mas com excesso de rebuscamento que cansa. Os personagens não me cativaram assim como a história em si. Somente quando percebi a mensagem colocada, me parece que de forma fictícia, mundo paralelo (li os comentários para esclarecimentos) é que achei poeticamente bela. O que é passado na carta foi o que contou para mim no conto, a forma como foi contada a RHA ali. Personagens e como já disse, os excessos de rebuscamento, não curti muito. Obviamente o autor é profissional e talentoso além da conta, com um nível de escrita que está muito acima da média aqui, mas prefiro uma linguagem sofisticadamente mais simples. É só gosto pessoal mesmo. No mais, é um ótimo trabalho. Parabéns!

  14. Pedro Teixeira
    28 de maio de 2016

    Olá, autor! Um conto fantástico, com descrições maravilhosas e um texto que flui muito bem. Os personagens são muito vivos e convincentes, e as emoções muito bem trabalhadas, sem pieguice. Obrigado pela aula!

  15. Leonardo Jardim
    26 de maio de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto (antes de ler os demais comentários):

    📜 História (⭐⭐⭐⭐▫): a história é muito boa e bonita, carregando uma grande mensagem por trás. O único problema que encontrei é o excesso: são muitos personagens e cenas que pouco acrescentam à trama. Arroyo e Ibagué são figurantes que ganham destaque excessivo. Acho que a história principal teria mais força se focasse no Niche e Coralita. O diálogo dos dois e a leitura da carta foram sensacionais. A frase final, perfeita. Por isso o resto pareceu sobrar.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): um técnica apurada, de estilo próprio (acho que conheço), vocabulário vasto e frases bem trabalhadas. O único problema é o excesso de adjetivos que acabam travando pouco a leitura. Se o autor for quem eu acho que é, já deve estar cansado de ouvir isso, mas ainda acho que dá pra encontrar o ponto de equilíbrio entre o texto bonito e bem trabalhado, mas evitando os excessos.

    Encontrei dois pequenos problemas de revisão:

    ▪ tenha se *válido* (valido)

    ▪ creio que *soara* como uma piada aos seus ouvidos (soará)

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): a temática de escravidão é comum, mas o autor soube trazer algumas novidades que a deixaram muito agradável, princialmente nos personagens super cativantes.

    🎯 Tema (⭐⭐): a RHA demora a parecer, mas quando surge, eleva o poder do conto. Um mundo paralelo onde os negros não foram escravizados. É uma adaptação bem branda do tema, mas está adequado.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐⭐▫): o texto é bonito e o final é emocionante. Não fosse alguns estranhamentos, como o beijo no final, teria tido um impacto bem mais forte. Mas, ainda assim, é um texto que ficará na minha cabeça por muito tempo.

    💬 Destaque: “E, sustentando o peso de todo um povo nos ombros, chorando por tudo o que poderia ter sido e nunca foi, soltou-a nos braços do vento.” 👏👏👏👏

  16. Pedro Arthur Crivello
    26 de maio de 2016

    confesso que a RHA do conto ficou meio confusa para mim. percebi que se tratava de uma africa sem ser colonizada na carta , porem não entendi a questão de realidade paralelas muito bem , mostrando duas africas distintas. os personagens da primeira fase não são muito envolventes , mas percebi que eles não são bem o foco, a história do país é contada em suas características , a pobreza , o domínio da língua francesa mostrando a colonização européia. o conto ficou meio confuso quando introduz a realidade paralela, porem você dominou bem a escrita e criou um fluxo de história interessante, no fim é um bom conto

  17. Anorkinda Neide
    25 de maio de 2016

    Bah, tchê! Desfilando elegância!
    Não há o que dizer, só aplaudir… quiseste tb fazer chorar ao final, não é? Conseguiste!
    Me deliciei ao ser transportada pela mão, até Cuba e entrar em um de seus prédios cheios de gente e de vida pulsante.
    A emoção da descoberta da carta, visceral! Pegou fundo na utopia nossa de todo dia. Parabens e obrigada , mesmo, por este texto.
    Abração

  18. JULIANA CALAFANGE
    21 de maio de 2016

    Muuuito bom o seu conto! Fiquei completamente envolvida desde a primeira linha. Nos primeiros parágrafos já podia ate sentir o cheiro do ambiente descrito. Como disse a Catarina, temos um conto bem acima dos padrões aqui. Os personagens são muito bem construídos, o ambiente também. Não cheguei a encontrar erros de revisão, talvez por estar tão envolvida na leitura. Não sei se o conto tratou exatamente de uma RHA, ou se estava mais para um conto de ficção científica, já que trabalha com a teoria dos multiversos. Eu particularmente gosto muito dessa teoria, acho-a poética e otimista. Em algum outro universo a vida é melhor que aqui. Não vejo ingenuidade nisso, ao contrário de alguns colegas. Enfim, parabéns pelo trabalho e espero vê entre os primeiros deste desafio.

  19. Catarina
    20 de maio de 2016

    Logo no COMEÇO percebi que estava diante de um conto acima dos padrões daqui. O FLUXO, certeiro e enxuto, enriquecido pelo vocabulário rico e profundo, nos presenteia com uma TRAMA tão envolvente e significativa, que a ALTERNATIVA histórica doeu tanto em Niche quanto em mim. Achando pouco, o autor ainda nos joga essa frase brilhante no FIM. Arrebentou!

  20. angst447
    19 de maio de 2016

    Olá, autor! Desta vez, resolvi montar um esquema para comentar. Espero te encontrar no pódio.

    * Título – Simples e desperta a curiosidade. Quem será o outro?

    * Enredo – Por não possuir muito conhecimento sobre o assunto tratado, corri para o Google e também dei uma lida nos comentários dos colegas. Uma boa escolha foi a caracterização muito bem feita dos personagens. Simpatizei muito com Coralita – uma verdadeira força da natureza, surpreendendo por ler tão bem, apresentando mais educação do que os demais, alfabetizada apesar de todo o “barraco” anterior.

    * Tema – o conto abordou o tema proposto.

    * Revisão – Os pequenos deslizes já foram apontados pelos colegas. Nada grave. O autor prima por uma linguagem rebuscada que, em determinados momentos, “ralenta” a leitura.

    * Aderência – Não diria que foi uma leitura fácil, mas é inegável a habilidade do autor com as palavras. Achei mais interessante a descrição dos personagens assim como a caracterização do ambiente. Deu para formar um quadro da narrativa. Bom trabalho!

  21. Ricardo de Lohem
    18 de maio de 2016

    Olá, como vai? Vamos ao seu conto! A primeira impressão que tive ao ler sua RHA foi a de uma pessoa extremamente ingênua: acreditar que a África seria um paraíso se não houvesse existido colonização é uma ideia sem sentido: “uma realidade onde a escravidão e a colonização dos povos negros nunca existiram”. Por que associar a colonização com a escravidão, se os próprios povos africanos escravizavam uns aos outros? É uma ideia ingênua, de alguém cujas ideologias eclipsam o conhecimento histórico. Uma dúvida: “─ Algum problema, caralho!”. Não deveria ter sido interrogação, em vez de exclamação? Apesar da ingenuidade histórica do autor, que parece acreditar firmemente em uma África utópica que nunca existiu (bom, talvez tenha existido em alguma RHA…) o texto, apesar de um tanto truncado, tem boa qualidade, demonstra um bom conhecimento do uso do idioma e da construção da narrativa. Desejo para você Boa Sorte no Desafio.

    • Davenir Viganon
      18 de maio de 2016

      Sinceramente, não sei onde a África alternativa é retratada como uma utopia pelo autor, pois da dimensão paralela aparece apenas um príncipe, que reina onde é o Congo de nossa realidade. Por pior que venha a se considerar esse príncipe, (fica em aberto) dificilmente seria mais brutal que o período de dominação belga, através do Rei Leopoldo da Bélgica, que promoveu uma das maiores matanças da história, entre 8 a 10 milhões de pessoas. Período esse, que o congo virou propriedade privada daquele rei. Não era apenas morte, mas também decapitações por motivos banais, como as da foto que ilustra o conto.
      Não entendo porque a escolha de vislumbrar uma África autônoma, incomoda tanto. Talvez seja uma ideologia também. Pense nisso. Será que a Ideologia afeta sempre o “julgamento” histórico dos outros (nunca o meu) ou ela faz parte de todos os “julgamentos” históricos. Eu fico com a segunda opção.

    • Fanon
      18 de maio de 2016

      Eu ponderei sobre o que o Rich comentou, formulei um contra-argumento e apaguei.

      O argumento de que os africanos se escravizavam é a baliza que moveu a ideia do “fardo do homem branco” na Era dos Descobrimentos. Rich Dan, desejo mais historigrafia para você.

      Obrigado pela análise no meu conto.

      Vejo que ver uma África negra, sem o jugo colonial, é um sonho de um louco.

      Continuo sonhando, irmão.

  22. Brian Oliveira Lancaster
    18 de maio de 2016

    LEAO (Leitura, Essência, Adequação, Ortografia)
    L: Impressionante. Um pouco travado de início, mas consegue manter o interesse pela atmosfera criada.
    E: Uma história um tanto desconhecida, mas que se desenrola muito bem, com toques curiosos de cultura africana aqui e ali, dando uma aparência única ao estilo. O enredo também evoca aquela sensação de contos insólitos, com pegadas de contos de detetive, mesmo o cenário sendo algo mais simples. As explicações embutidas na carta foram certeiras e não retira o leitor do mundo imaginário.
    A: Desconheço a história contada, então uma pesquisa foi necessária. Interessante como você conseguiu adequar o contexto ao cotidiano comum daqueles personagens, acrescentando toques sutis de FC disfarçada de literatura, utilizando muito bem a metalinguagem.
    O: O que dizer? Palavras complexas, mas um domínio invejável das construções gramaticais. Pode afastar os mais “ligeiros”, mas aproxima os que gostam de literatura antiga ou pretendem chegar a este nível algum dia.

  23. Evandro Furtado
    17 de maio de 2016

    Ups: Eu acho que há uma impecabilidade única no desenvolvimento da trama aqui. O primeiro arco veio lento, fraco, apresentando os personagens. Seguiu-se o interlúdio em forma de carta, e que linguagem, que poesia em forma de prosa! E o final amarrou muito bem as duas partes, dando ao início um poder que ele não tinha por si só. Amarrado, como um inteiro, o conto beira a perfeição.
    Downs: Só queria destacar uma coisa, mas isso é questão de estilo então não é própriamente uma crítica, mas uma sugestão. Com excessão da carta – na qual a linguagem é empregada de forma exata, perfeita, sem alterações aparentes a serem feitas – eu iria sugerir que houvesse uma supressão de exageros no restante do texto. Em certos momentos há descrições em demasia, Realistas até, eu diria. Tudo bem que me parece seu estilo uma trama mais intimista. De início eu achei arriscado porque acredito que RHA é um tema a ser trabalhado mais no macro do que no micro, mas funcionou muito bem. De qualquer forma é isso que queria deixar: menos exageros, mas sem perder essa poeticidade nata que você tem.
    Off-topic: Eu ia fazer uma piada, mas acho que soaria politicamente incorreto, então prefiro me abster.

  24. Olisomar Pires
    15 de maio de 2016

    RHA: realidades paralelas.

    Idioma: Domínio amplo e seguro.

    Ritmo e desenvolvimento: Ambos os pontos são bons, exceção a uns poucos parágrafos mais difíceis.

    Conclusão: Ótimo texto, ótimo conto, possivelmente o autor é escritor profissional, não há muito mais que eu possa dizer que os colegas já não tenham dito, aliás, meu agradecimento pelo conhecimento compartilhado, parabéns ao autos – é isso !

  25. Davenir Viganon
    15 de maio de 2016

    O outro (Fanon)
    RHA: Uma realidade paralela em que a África não sofreu ocupação europeia.
    O texto canta e, traz um conhecimento marginal, como os personagens. É um convite a saber mais. Espero que os leitores aproveitem. Como leitor iniciante de Frantz Fanon adorei a referência e as outras que o Selga destrinchou tão bem.
    O contato entre a realidade alternativa com a nossa é característica do clássico “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick. A protagonista acredita convictamente que a nossa realidade existe, por isso ela vai buscar o homem do castelo alto. Em “Selva Brasil” de Roberto de Sousa Causo, também tem um “portal” com nossa realidade. A estoria, em si, é pesada e triste. A foto só deu formas ao que já tinha formado com palavras. Personagens são muito vivos, ainda quero saber fazer personagens assim. Gostei demais do teu conto. Parabéns!

  26. Eduardo Selga
    14 de maio de 2016

    O eixo do conto não é propriamente a alternativa histórica à colonização belga do Congo. O fato é mencionado, mas é um grande pretexto que desenvolve algo maior e mais interessante: a ideia de ancestralidade relativamente ao povo negro, representada principalmente na porção final, em que a reação do menino negro à estória narrada e à fotografia não apenas é um ato individual: ele está “[…]sustentando o peso de todo um povo nos ombros, chorando por tudo o que poderia ter sido e nunca foi […]”. Ele é, naquele instante, mais do que um menino negro: é a etnia negra arrancada de seu continente e trazida à força para as Américas e Caribe.

    A construção de personagens é um dos pontos positivos. Todos negros e de condição social periférica, há dois deles bem elaborados: Policarpo Arroyo e Coralita Yuca. O primeiro, ao trazer consigo o hábito de falar sozinho ou com sua sombra, também é uma manifestação estetizada da ancestralidade: ele fala com sua etnia; a segunda personagem pode provocar no leitor a estranheza da transexualidade, mas nem tanto por ela em si: muito mais em função de que o narrador insere esse dado sobre ela sem nenhum espalhafato, deixando claro que não se trata de alguém folclórico, como um dos clichês a respeito do assunto determina. E ela fica ainda mais interessante por ser alfabetizada e ter leitura fluente, ao contrário do que se espera, e ao contrário de Niche Nichito.

    Outro dado relevante é o beijo entre Coralita e Nichito, ele já bastante tomado pela emoção e sentimento de ancestralidade. Esse gesto é, simbolicamente, a mama África beijando seu filho desamparado e talvez por isso ele se sinta ainda mais tocado. Por que a África na figura de uma travesti? É uma ideia excelente, na medida em que o continente e as etnias de lá oriundas são marginalizadas no mundo ocidental, como as travestis. Além disso, as etnias africanas possuem em comum um grande domínio de códigos de linguagem corporal, como os brasileiros, com a miscigenação, temos. Ora, uma travesti domina seu corpo e os significados que ele exala.

    Ainda sobre personagens, acredito que Policarpo Arroyo, tão cheio de solilóquios e tão cheio de silêncios, foi perdendo importância no decorrer da narrativa. Uma pena. Com tantas possibilidades, acredito que um embate com Coralita, cheia de palavras, seria muito interessante.

    Se insisto tanto na ancestralidade é porque, além de para mim saltar aos olhos, há outras referências. O conto cita ficcionalmente uma obra chamada “Retorno ao País Natal”. No mundo não ficcional temos o “Diário de Retorno ao País Natal”, escrito por Aimé Césaire, que era da negra Martinica. Esse país do Caribe também aparece no conto. Outra referência, no conto, é o personagem ficcional Tswali Lumumba, uma clara referência a Patrice Lumumba, líder da independência do Congo e, como o Lumumba do conto, escritor.

    Aliás, o próprio pseudônimo usado é uma referência: Frantz Fanon foi um médico e filósofo marxista nascido na Martinica (olha ela aí de novo!) e engajado na independência da Argélia.

    Houve erros na revisão, como em “tenha se válido de atributos” (VALIDO); “creio que soara como uma piada aos seus ouvidos” (SOARÁ); “Oriundo das ruas, uma voz se elevou” (ORIUNDA).

  27. Olisomar Pires
    14 de maio de 2016

    Personagens sólidos, realmente o autor domina o idioma, gostei bastante.

  28. Fabio Baptista
    14 de maio de 2016

    A premissa da história é bastante interessante e acho que encontrarei em outros contos do desafio, essa questão de realidades paralelas. Gostei da abordagem feita aqui, mais focada no pessoal do que no contexto histórico propriamente.

    A escrita, apesar de madura e segura, está excessivamente rebuscada e em muitos trechos, principalmente no primeiro terço, jogou contra a fluidez da narrativa e tornou as coisas meio confusas. Quando a carta é lida, entra um pouco de humor e fica mais interessante.

    Só achei um “de” faltando em “simpatia dez minutos”.

    Agradou no geral.

    Abraço!

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Publicado às 14 de maio de 2016 por em Realidade Histórica Alternativa e marcado .