EntreContos

Literatura que desafia.

O Engano (Tiago Volpato)

engano

I.

A taberna Brinco de Ouro Perdido na Névoa Maldita de Intar, era uma das mais importantes do reino ao se tratar de heróis. Todos os principais aventureiros frequentavam o local em busca de nobres, ricos, poderosos e todo tipo de gente disposta a contratar seus serviços. O recrutamento de heróis era o segundo maior gerador de renda do reino, só perdendo para a venda de vinho.

— É claro que ela queria se casar comigo. Seu pai, o rei, implorou para que eu a tornasse minha esposa. Foi a primeira e única vez que um rei se ajoelhou diante de uma pessoa comum. Foi um momento mágico — disse Dorival, um sujeitinho mirrado que embocava uma caneca de vinho.

A taberna estava praticamente vazia. Dorival conversava animadamente com Maxmmylian Terceiro, o primeiro de uma linhagem de Trolls-Humanos. Sua mãe, humana, tinha sido deflorada por um Troll que estava bêbado demais para se importar com as formalidades que rondam o amor entre espécies. Ele adotou “Terceiro” em seu nome porque achava bonito.

— Em que reino você disse que isso aconteceu? — Disse Maxmmylian Terceiro.

— Escócia, um lugar muito bonito, por sinal.

O sol começava a ir embora marcando o final de mais um dia e, como sempre, ninguém apareceu desejando os serviços dos heróis que estavam ali. Era uma segunda feira, dia em que apenas a escória dos heróis frequentava aquele lugar. O dia ganhou esse nome porque era a rebarba do dia anterior, quando todos os principais aventureiros do reino iam até lá em busca de algum contrato. Ao contrário, nas segundas, apenas os heróis que não tinham conseguido trabalho frequentavam a taberna. Em resumo, heróis de segunda. Sacou?

— Eu sei o que vocês devem estar pensando — disse Dorival. — Esse cara é um idiota de não querer casar com uma princesa e se tornar rei. Ele teria disponível uma riqueza incalculável e muito poder. A verdade é que não nasci para ser da nobreza. Gosto de viver minha vida no limite, cercado de perigos e várias mulheres. Está para nascer a mulher que irá amarrar meu coração selvagem.

— Depois de minha recusa —  prosseguiu. —  O rei me convidou para passar a noite em seu castelo, como convidado de honra. O objetivo dele era fazer com que eu mudasse de ideia.

Maxmmylian, entretido com a conversa de Dorival, pediu mais uma rodada de vinho.

— Bem que eu gostaria de me casar com uma princesa. Eu poderia me acostumar com essa vida de comida farta — disse o meio Troll.

— Acontece que naquela noite no castelo, a princesa entrou sorrateiramente no meu quarto e implorou para que eu fizesse dela minha esposa. Eu, como um cavalheiro, não podia enganá-la. Fui honesto e expliquei que sou um aventureiro, só a ideia de ficar preso em um lugar me consome, mata quem sou”.

— Expliquei tudo da melhor forma possível — continuou Dorival entre um gole e outro de vinho. — Ela pediu para que eu a levasse comigo e vivêssemos muitas aventuras. Diante de minha recusa, implorou que pelo menos eu a deflorasse. A princesa era virgem e queria que alguém como eu, fosse seu primeiro.

Maxmmylian escutava a tudo com olhos brilhantes.

— Amigo — continuou Dorival. — O que vem a seguir é uma série de acontecimentos fantásticos e extraordinários que vai te deixar de cabelo em pé.  Pague mais uma rodada de vinho, peça mais um tira-gosto que lhe contarei tudo. Te darei detalhes da noite de amor.

Dorival deu um risinho sacana enquanto Maxmmylian acenava para o taberneiro.

Enquanto Dorival contava seu conto, no fundo da taberna, uma figura suspeita observava. Em seu olhar, um fogo queimava. Quando Dorival explicava como tinha levantado a perna da princesa na posição tal, o homem se levantou e, com passos decididos, se aproximou.

— Vilão – gritou. — Finalmente te encontrei! — O homem apontou um dedo na direção de Dorival.

Dorival se calou, olhando para o bêbado.

— Desculpa tio, pode sentar com a gente se quiser ouvir a história, mas tem que pagar bebida — respondeu Dorival, sem graça.

— Sujeitinho vil, imundo. Finalmente lavarei minha honra! — O homem sacou a espada.

Dorival olhou para o Troll com um sorriso amarelo.

— Uau! — Disse o Troll. — Esse cara não faz ideia com quem se meteu!

Dorival limpou a testa de suor e tentou conter os joelhos. Deu uma gargalhada forçada.

— Sim, sim. Não gosto de matar pessoas inocentes! Diga-me rapaz, o que você quer de mim?

— Te matar, seu cão sarnento. Eu, Sir Lázaro, príncipe da Escócia, irei lavar a honra da minha irmã com sangue!

— Oi? — Respondeu Dorival.

 

II

— Não acredito que você deixou a situação chegar a esse ponto, meu pai — disse Sir Lázaro.

— E o que você queria que eu fizesse? Fiz tudo o que estava ao meu alcance — respondeu desiludido Jaime II, sentado no seu trono de ouro. — Tentei impedir o amor de sua irmã por aquele homem, mas ela pouco ligou para minhas palavras. Você sabe como são essas jovens quando se apaixonam. Tentei fazer dele um nobre, mas ele não quis.

— O senhor é um rei, deveria agir como um e impor sua vontade.

— Ah, meu filho! As coisas são diferentes hoje em dia. Ninguém mais respeita um rei. Foi-se o tempo em que eu podia mandar matar qualquer um. Hoje o mundo está cheio de regras, direitos humanos e coisas do tipo.

— Mas ela é sua filha! Um homem não tem o direito de exercer sua vontade sobre sua filha? Não, meu pai, essa rebeldia nos custou muito caro. Agora ela está aí, parindo um filho bastardo de um aventureirozinho barato. Se os outros reinos souberem disso, seremos motivo de chacota.

— Muita coisa aconteceu durante sua ausência, meu filho. O reino enfrentou perigos incomensuráveis que quase nos levou à ruína. Se não fosse por esse rapaz, que você se refere como “aventureirozinho barato”, não só eu e sua irmã estaríamos mortos, mas todos os habitantes do reino. Se a Escócia ainda existe é graças a ele.

Sir Lázaro calou-se. Ele caminhava pela sala com um ódio que parecia engolir o castelo. Não estava irritado só pela honra da irmã, o que mais lhe tirava a razão, era a recusa de seu pai em tomar alguma atitude para reparar aquela desgraça.

Com raiva, golpeou a mesa mais próxima, que desabou, assustando os dois guardas que estavam na porta.

— Pai, escuta. Você tem que fazer alguma coisa. Tudo isso que aconteceu é uma desgraça para o nosso nome.

— O que você quer que eu faça? O sujeito sumiu misteriosamente, ninguém viu. Ele é o tipo de pessoa que se quiser desaparecer, desaparece. E mesmo se eu soubesse onde ele está o que eu deveria fazer?

— Pois meu pai, deixe comigo. Eu irei encontrar esse farsante e irei humilhá-lo.  Nem que para isso eu tenha que buscá-lo nas profundezas do inferno. Irei recuperar a honra de nossa irmã e do nosso reino. Depois voltarei com a cabeça daquele cretino e você não será mais rei.

Sir Lázaro deus as costas e saiu.

 

III.

Dorival deu um risinho nervoso. Por um lado, era extraordinário o fato de que sua história inventada fosse real; por outro, ele acabaria morrendo por algo totalmente estúpido. Se falasse a verdade, provavelmente o Troll o mataria por ter bebido às suas custas. Ele não fazia a menor ideia do que fazer.

— Um momento — ele se esforçou para não gaguejar. — Acho que houve um engano. Eu estava falando de outra princesa.

— Outra princesa? — Berrou Sir Lázaro. — Até onde sei, só existe uma princesa da Escócia.

— Escócia? Eu quis dizer Dinamarca.

— Dinamarca é? Como era o nome dessa princesa?

— Hum…. Priscila?

Sir Lázaro aproximou a espada de Dorival que, com um pulo, se afastou da mesa.

— Verme imundo! Quer dizer que além de violar minha irmã, também ficou de gracejos com minha tia? Morra, seu lixo!

— Um momento — a voz se sobressaiu. O taberneiro, um sujeito que mais parecia um armário, se aproximou. — Não vou deixar que você transforme meu estabelecimento em um matadouro. Se vocês se matarem por aqui, a guarda real terá que fazer um inquérito e vou ser obrigado a fechar por uns bons dias.

— Então vamos lá fora — gritou Sir Lázaro.

— Não vai adiantar — disse o taberneiro. — Toda a área ao redor também é minha.

— Agradeça ao homem — disse Dorival, aliviado. — Ele acabou de salvar sua vida.

— O meu primo é escriba — continuou o taberneiro — Ele pode redigir um documento entre as duas partes atestando a possibilidade de um duelo. Ele mora aqui perto, se vocês esperarem vinte minutos, mando o garoto buscá-lo e vocês podem se matar à vontade.

— Ótimo — falou Sir Lázaro, guardando a espada. — Chame o homem.

Dorival despencou na mesa. Branco feito vela.

— Que bom! — Disse Maxmmylian — Você vai poder matar o príncipe à vontade.

Dorival sentia a camisa molhada. Respondeu com um sorriso amarelo.

O tempo é uma coisa engraçada. Para Dorival, os últimos vinte minutos de sua vida pareciam ter triplicado de velocidade, ao contrário de Sir Lázaro, para quem o tempo se arrastava.

Sir Lázaro sentou-se na mesa ao lado. Impaciente, não tirava os olhos, cheios de fúria, de Dorival.

Passaram-se dez minutos desde que o garoto tinha saído. Dorival se levantou.

— Onde vai? — Sobressaltou-se Sir Lázaro.

— Lá fora, mijar.

— Vou com você.

— Gostaria de um pouco de privacidade.

— Nem fodendo. Demorei muito para te encontrar, não vou correr o risco de te ver escapando.

— Ah é? E quem garante que você não vai me passar a espada à trairagem?

— Não sou um covarde como você. Tenho honra.

— Esperem — disse o taberneiro. — Vamos todos.

Assim estavam Sir Lazáro, Maxmmylian e o taberneiro, esperando Dorival urinar.

Dois vultos se aproximaram. O primeiro a notar foi o taberneiro.

— Aí está! Finalmente os dois chegaram.

Dorival sentiu o esfíncter travar. A hora de sua morte tinha chegado. Pensou em sair correndo floresta adentro.

— Desculpem, senhores — ouviu o taberneiro dizer. — Achei que eram outras pessoas. Se os senhores tiverem a paciência de aguardar, já entrarei para serví-los.

— Não se preocupe, meu caro — respondeu uma voz esganiçada. — Não se dê ao trabalho. A gente mesmo se serve.

— Não posso permitir que…

— NÃO — interrompeu a voz. — Nós iremos nos servir com o seu sangue!

 

IV.

Era um lugar tão gostoso. Ele sentia-se envolvido por tudo ao seu redor. Era como se estivesse dentro de um buraco e fosse gentilmente coberto de terra. Ele se sentia em segurança, confortável, como se todos os problemas do mundo não pudessem chegar ali.

Tentou se mover, mas não conseguiu.

Abriu os olhos e viu tudo escuro. Em pânico tentou respirar e descobriu que algo arenoso invadia sua garganta. Seus olhos arderam.

Estava em um buraco coberto de terra.

Desesperado, tentou gritar, se debatendo. Era inútil, estava morto.

Com o passar do tempo, percebeu que parar de respirar não era um problema. Não tinha sentido falta do ar. Achou engraçado. Estava em posição fetal e, com muito custo, conseguiu esticar uma perna.

Tinha ouvido histórias de pessoas enterradas vivas. Poucas conseguiam sair.

A cada tentativa ficava mais fácil virar o corpo. Como uma toupeira, começou a se mover pela areia.

O problema era a direção, como ele saberia se estava descendo ou subindo?

Se concentrou e pôde ouvir. A noite gritava lá em cima.

Seguiu afastando a terra com as mãos. Aos poucos, conseguiu cavar um caminho até a superfície, saindo no ar frio da noite.

Por hábito, inspirou e expirou demoradamente.

— Bravo! — Ouviu alguém aplaudir. Um garoto que não tinha mais de 15 anos, com cabelo de cuia, estava na sua frente. — Você conseguiu!

O velho, ainda com metade do corpo dentro da terra, olhou para o garoto, sem entender.

— Está com fome? — Disse o garoto.

— E-estou.

— Então venha, minha cria, tem uma taberna aqui perto, iremos festejar essa noite com uma matança!

 

V.

— Muito bem, Chucky, é uma ótima oportunidade para você aprender como se alimentar — disse o garoto de cabelo de cuia.

— O meu nome não é Chucky — retrucou o velho.

— Ora garoto, não seja rebelde. Eu sou seu pai.

— Garoto? — Olhou o velho com surpresa. — Primeira vez que escuto isso em anos.

— A sua vida antiga acabou, agora você renasceu como um vampiro. Aparência não significa nada!

— Vampiro? — Gritou Dorival de trás da árvore.

O taberneiro tirou seu amado porrete-aparta-briga de dentro do avental. Sir Lázaro puxou sua espada. Maxmillian abriu os olhos, fascinado.

— Uau! Sua vida é bem agitada! — Disse para Dorival.

Dorival tornou a guardar suas partes íntimas dentro da calça. Se fosse correr, a hora era essa. Suas pernas se recusaram.

— Já disse que meu nome não é Chucky — ouviu o velho dizer.

— Que seja. Como é a sua primeira refeição, deixo você escolher.

— Como assim?

— De qual deles você quer beber o sangue?

— Sangue? — Disse o velho. — Não, obrigado.

O garoto de cabelo de cuia ficou paralisado, com um sorriso constrangido.

— Como assim “não quer”? Não está com fome?

— Sim, mas não quero beber sangue. Será que eles não fazem um ensopado com legumes?

— Ensopado com legumes? — Disse o garoto chocado. — Somos vampiros, nos alimentamos de sangue.

— Ah não, parece nojento.

O garoto suspirou.

— Taí, essa é nova pra mim. Muito bem, mate esses vermes. Pode deixar que eu cuido daquele com a espada. Vejo em seus olhos um adversário à altura, vou me divertir um pouco.

— Matar? — Disse o velho. — Mas por que?

O garoto paralisou novamente, constrangido.

— Nós somos vampiros, é isso que a gente faz.

— Olha — respondeu o velho. — Não sei que tipo de escolhas você fez na vida, mas eu não sou dado à violência. Vou passar essa.

O garoto olhou confuso para o velho.

— Puta que pariu, cara. Qual é a sua?

O velho se sentou no chão e cruzou os braços.

— Crianças de hoje em dia — disse o garoto. — Tudo bem, eu cuido deles.

O garoto desapareceu e, com uma velocidade incrível, segurou o pescoço de Sir Lázaro, que com o susto e a dor, deixou sua espada cair no chão. O taberneiro golpeou com seu porrete, mas o vampiro segurou o golpe com as mãos.

— Acho que me enganei — disse o garoto. Ele apertava o pescoço, já vermelhor, de Sir Lázaro — Você não é grande coisa.

Dorival sentiu o líquido quente escorrer pelas calças.

— SOCORRO! — O grito pegou a todos de surpresa. O garoto, auxiliar do taberneiro, voltava coberto de sangue. O garoto vampiro, hipnotizado, soltou Sir Lázaro, que caiu no chão.

— Homens-ratos, milhares deles! Estão vindo nessa direção. Eles mataram e comeram o seu primo — gritou o garoto, agarrando em desespero o taberneiro.

— Homens-ratos? — Disse o garoto vampiro, com nojo.

O taberneiro suspirou, enxugando uma gota de lágrima com as costas da mão. — Eu sabia. A culpa é toda minha.

 

VI.

A ruela vazia tinha um cheiro adocicado que ele adorava. O caminho para casa era mais longo, mas passar todos os dias por ali e sentir o cheiro das tortas de frutas da Madame Pompadour, era um prazer que valia à pena.

Um dia quase tinha entrado, mas a vergonha de ser visto gastando uma fortuna com uma torta, foi mais forte. Se contentava em espiar pelos fundos a senhora gorda trabalhar. Era quase erótica a forma como ela apertava a massa com as mãos nuas. Ele permaneceu observando por algum tempo. Em sua cabeça, criava uma fantasia. Naqueles tempos de crise, comer aquela torta de 15 peças de ouro era um sonho.

A rua dobrava pelo canal e o cheiro forte de esgoto o atingiu. Tampando o nariz com as mãos, apertou o passo e sem perceber bateu em alguém.

— Desculpe, senhor… — começou a dizer, até perceber que não era um homem.

O rato se levantou em duas patas e o passou em altura. Seu hálito imundo conseguia ser pior do que o cheiro do esgoto.

Pelo imperador, como ele era feio!

Segundo o necromante, foi a última coisa que o homem pensou. O cadáver de olhos esbugalhados terminou sua história sussurrada naquela língua bizarra, língua que apenas os necromantes conheciam.

Emmet já tinha visto aquele trabalho, mas ainda assim era impressionante.

O necromante tornou a cobrir o morto.

— Homens-ratos? — Disse Emmet. — Ele foi morto por um homem-rato?

O necromante tirou o cachimbo do bolso e o estufou com uma erva suspeita.

— Foi o que o finado contou. Você quer entrar no esgoto?

Emmet olhou para o grande tubo de onde escorria uma fina lâmina de água imunda. Ele tirou um cigarro do bolso.

— Homens-ratos — disse, pensativo, enquanto dava um trago no cigarro. A fumaça não conseguiu disfarçar o cheiro de esgoto. — Se não entrar, o capitão me mata.

Permaneceu em silêncio até que o necromante se virou para ele.

— Não, cara — falou. — Nem fodendo.

 

VII.

— Depois disso, me demiti. Peguei minhas coisas e fui embora daquela cidade maldita. Não devia ter abandonado o caso, mas naquela época já estava cansado de todas aquelas merdas. Se eu tivesse entrado na droga daquele esgoto e passado o fogo nesses homens-ratos, meu primo ainda estaria vivo ­— o taberneiro não conseguiu segurar as lágrimas, que correram pelo seu rosto.

O velho vampiro se aproximou, colocando a mão nos ombros de Emmet.

—Você fez o que tinha que fazer naquela época, não se lamente.

— Além do mais — disse o meio Troll. — Eles poderiam ter mandado outra pessoa, chamado o controle de pestes ou algo do tipo.

— Naquela época as coisas eram complicadas. Ainda hoje, eles sofrem com a falta de mão de obra especializada. Provavelmente o caso ficou soterrado, em uma pilha de documentos. Acontece muita coisa estranha nesse mundo, mais do que podemos dar conta.

Ficaram em silêncio, escutando o vazio da noite. Não havia grilos, corujas ou qualquer sinal de vida. Provavelmente todos os que tinham bom senso fugiram.

— Eu vou lutar — disse Emmet, quebrando o silêncio. — Vocês podem ir embora enquanto é tempo, mas eu preciso me redimir pelo passado.

O garoto vampiro começou a rir.

— Não se preocupem, vou matar a todos antes da chegada dos homens-ratos.

— Espera — o vampiro velho falou. — Não estrague a batalha de um homem.

O vampiro mais novo ficou chocado. Emmet agradeceu.

— Eu ajudo ­— acrescentou o velho, com um sorriso heróico.

— Certo — falou Sir Lázaro. — Se eu não fizer nada aqui, é capaz dessa praga chegar no meu reino.

— Irmãozinho! — Disse o Troll empolgado. — Quem diria que eu iria participar de uma batalha ao seu lado!

Dorival tinha sumido.

— Eu sabia que não podia confiar nesse covarde — falou Sir Lázaro.

 

VIII.

— Desce daí, meu filho! — Berrava a mãe. — Você vai cair.

— Vou não mãe, os heróis não se machucam.

Dorival saltou do muro, dando uma pirueta no ar e pousando suavemente no chão.

— Não fala besteira! — A mãe lhe deu um tapa.

— Isso dói.

— Não existem heróis! O que você precisa nessa vida é estudar, ser um escriba ou médico. Você precisa cuidar do seu futuro, meu filho. Ter dinheiro garantido para cuidar da sua família.

— Não, mãe, eu vou ser um herói. Vou ganhar muito dinheiro matando monstros e salvando princesas.

— Ah, meu filho! Espero, pro seu bem, que isso seja apenas uma fase.

VIII.

Tinha corrido feito um doido e agora se aproximava da cidade. Parou para recuperar um pouco de ar. Nem acreditava que tinha conseguido escapar.

Estava cansado demais para notar qualquer coisa. O silêncio da cidade, os corpos jogados no chão, apenas caminhou febrilmente na direção de sua casa. Tirou um lenço do bolso e se enxugou.

Passou do lado do corpo de uma criatura medonha parte homem, parte rato, que estava perfurada por inúmeras lanças. Ignorou. Cortou caminho pelo bairro boêmio que naquele momento deveria estar apinhado de prostitutas e bêbados e não vazio, daquele jeito.

Chegou em casa e por um momento, sentiu medo de ter perdido a chave, revirou o bolso e felizmente a encontrou. Acendeu a vela, preparou o banho e ainda nu, pegou aleatoriamente um manuscrito da prateleira, enquanto esperava a água esquentar.

Leis consuetudinárias

         Leu meia página e o atirou para longe. Por mais que se esforçasse, não conseguia.

Entrou na bacia de água e sentiu o corpo relaxar.

Lá fora, a noite estranhamente silenciosa seguia.

Sentiu o cansaço lhe atingir com força. Fechou os olhos, mas foi atingido por imagens de uma batalha terrível. O taberneiro, o príncipe que queria lhe matar e até o Troll estavam mortos.

Ouviu alguém bater na porta. Praguejou em silêncio. Era típico, sempre que tirava a roupa para aproveitar o banho algum vendedor lhe batia na porta. Não ia ter o trabalho de se secar, vestir uma roupa limpa, só para dar de cara com um sujeito sorridente querendo lhe apresentar alguma divindade recém descoberta.

A porta tornou a bater. Dorival se encolheu na bacia de água, imóvel, na certa o sujeito ia se cansar e ir embora.

Escutou um estrondo, a porta de entrada foi ao chão.

Assustado, levantou-se nu, diante uma turba de homens-ratos que lhe observavam. Um deles se aproximou, segurava algumas flores e tinha algo vermelho manchado na boca.

— Squeak. Eak, squeak?

Dorival permaneceu imóvel.

— Humano saudável — disse outro homem-rato que se destacou da multidão. — Bons genes. Único vive. Passar genes pra espécie nossa.

Dorival meditou por um tempo. Ele tinha acabado de ser pedido em casamento por uma mulher-rato.

Quase vomitou.

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14 comentários em “O Engano (Tiago Volpato)

  1. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Eita! Outro conto engraçado!
    Gostei dos fatos aparecerem nesta quebra de sequência, mas q foi explicando uma À outra.. talvez o diálogo com a mãe sobre ser heroi.. esteja sobrando, achei que ali viria uma explicação de pq as historias dele era reais?!
    Esse seria o toque ‘fantasia’ mais legal do conto… mas que ficou na promessa.. hehe
    Mas parabéns, me diverti aqui!
    Abraço
    ps: A porta tornou a bater. – Não né.. a porta não bate.. alguém bateu nela 😛

  2. Andressa
    18 de março de 2016

    Nota: 9.7. Adorei, fala de um conto de a princesa e o plebeu as avessas, fantástica a idéia. Depois passa para um Dom Ruan sem querer ser, desajeitado. Bem bolado!

  3. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    O texto é muito divertido, no momento em que empresta uma atmosfera contemporânea – sobretudo nos diálogos – a um contexto fantástico, normalmente associado ao passado.

    Há tiradas muito boas e eu ri em diversas delas. Se o tema fosse comédia este conto seria forte candidato.

    No entanto, creio que houve certo exagero na dose, porque a meu ver um texto de fantasia precisa primar por uma contextualização à altura. Não está ruim, reforço, mas para mim faltaram mais descrições, maior ambientação. O texto, na realidade apoia-se nos (bons) diálogos, mas fora os seres fantásticos, não há nada de muito inovador.

    Tive a sensação de que o autor quis também brincar com a lienearidade, o que lhe rende pontos pois demonstra bom domínio narrativo, destacando-se a criatividade.

    Enfim, um conto interessante, engraçado e ótimo para entreter. Mas não para fazer pensar.

    Nota: 7

  4. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    Mais um conto bem ambientado na era Hiboriana, lembrando uma sátira a Robert Howard. A profusão de diálogos facilita a leitura. Fazia tempo que eu não via (aqui no entrecontos não me lembro) um conto no estilo “contos da taberna”. A história é daquelas que queremos saber o fim, portanto vale toda a pena ler. Tudo aqui é bastante nonsense, mas agradável. Bem interessante.

  5. Pedro Teixeira
    16 de março de 2016

    Olá, autor! Conto muito divertido, um dos mais engraçados que vi até agora. Não é bem meu estilo favorito, mas tem seus méritos. Acho que algumas mudanças no tom da narrativa destoaram demais ao longo do texto, mas sei que foi intencional, não curti mais por questão de gosto pessoal mesmo. Dei boas risadas aqui e seu texto é de grande qualidade, mas acho que se enquadra mais como humor escrachado do que como fantasia. Parabéns pela participação!

  6. Daniel Reis
    16 de março de 2016

    Prezado autor: como experimento, seu conto de fantasia foi bastante ousado e fiel à proposta do desafio. No entanto, os excessos, sobretudo de subtramas e ocorrências não facilitou a minha leitura. Talvez se o material for desenvolvido com mais calma, com mais espaço, ele possa ir além. Um grande abraço!

    Pontos positivos: uma narrativa engraçada, em muitos pontos até mesmo bastante esculachada e absurda. Manteve-se fiel ao espírito da fantasia, apesar de tudo. O final é bastante marcante, apesar de abrupto e inesperado.

    Pontos negativos: o excesso de personagens e locação não permite que se desenvolvam adequadamente as personalidades e situações; outro conto que parece ter sido construído enquanto se escrevia, sem muito compromisso com a estrutura ou coesão entre as partes.

  7. Rubem Cabral
    14 de março de 2016

    Olá, Tolkien.

    O conto é divertido e criativo, embora um pouco confuso em algumas partes: o velho tinha realmente virado vampiro? Como que a história de Dorival coincidiu com os acontecimentos ocorridos com a irmã de Sir Lázaro, por exemplo?
    Em alguns momentos senti falta de uma história que fizesse um pouquinho mais de sentido…

    Há algumas pequenas escorregadas na revisão, mas o conto está bem escrito, em linhas gerais.

    Nota 6,5.

  8. Virgílio Gabriel
    13 de março de 2016

    Olá autor/a, conto engraçado e bem escrito. Gostei do que vi aqui. Acho que você se enganou e colocou dois capítulos VIII. O pior do conto foi o final. Não se fechou, ficou aberto demais. A história jogou inúmeras informações divertidas aleatórias, e no fim nenhuma delas se amarrou. Mas valeu pela diversão, foi muito prazeroso de ler, e levarei isso em conta na nota. Parabéns!

  9. Sonia Rodrigues
    11 de março de 2016

    O conto começa bem, a primeira frase capta o leitor para esse mundo de heróis.
    A “escória dos heróis” sinaliza um texto irônico, gozador.
    Dorival, contador de lorotas, faz o tipo anedótico. Já o meio-troll, achei desnecessário, nada acrescentou à trama.
    Em minha opinião, misturar realidade e fantasia tira a credibilidade da história, se estamos no reino de Intar, porque falar de Escócia? Manteria o clima citar um país com nome imaginário também, mesmo que falasse em Terras Altas ou algo que lembrasse a Escócia.

    O irmão que vem reparar a honra da irmã, o rei pai que não controla a princesa, esse enredo moldado na linguagem dos contos medievais não me agradou.

    E aí o texto sofre um problema de continuidade – o personagem, que supomos ter sido jogado como morto em algum terreno, escapa com dificuldade e encontra…vampiros? Pior: homens-ratos. Para piorar, Dorival reaparece como um menino que estivesse brincando em seu quintal… parece-me que grandes autores caíram nessa armadilha: quando um autor não sabe como recuperar seu enredo, um sonho ou uma brincadeira de criança é uma solução fácil. No entanto, o autor não fica por aí.
    O final é sem relação com o início. Dorival, que o leitor fica a se perguntar se ainda é o menino que continua a imaginar coisas, entra no banheiro e pega um folheto sobre “Leis consetudinárias” – detalhe que nada fornece ao enredo – e a seguir vê sua privacidade invadida (a menção a vendedores tenta fazer humor e tira da nossa mente a possibilidade de tartar-se do menino) e é requisitado a fornecer genes para o povo dos homens – rato.
    Parece-me que o autor poderia ter feito um conto bom usando o herói “garganta”.
    Ou poderia ter escrito um conto sobre a rivalidade entre vampiros e homens-ratos.
    Ou escrito um conto sobre um menino que imaginava muito, e nesse caso vários elementos teriam de sair da história, para se adequar ao personagem infantil.
    Tudo misturado não ficou bom.
    Nota: 5

  10. catarinacunha2015
    10 de março de 2016

    O COMEÇO prometia um conto medieval e tudo estava bem até o Dorival resolver mijar. Parece que o autor chupou uma “balinha” e entrou numa VIAGEM sem volta perdendo o controle do texto. O FLUXO é divertido e o FINAL um “engano”. 6,5

  11. phillipklem
    10 de março de 2016

    Olá, bom dia.
    Nossa, que criatividade você tem! Nunca li um conto tão maluco em toda a minha vida. Foi uma mistura de velho oeste, com medieval, com crepúsculo, com minecraft e uma pitadinha de burocracia dos tempos modernos.
    Normalmente eu não gosto de histórias assim, mas não pude deixar de me divertir com seu conto.
    Apesar de tanto o início, como o meio e o fim não fazerem sentido algum, foram bem interessantes de se ler, e não senti o conto passar. Talvez tenha sido a linguagem informal, ou as personagens improváveis, não sei. Mas seu conto é, surpreendentemente, muito bom.
    Meus parabéns.

    • phillipklem
      10 de março de 2016

      Ah! Esqueci de comentar sobre a imagem.
      Foi você quem a desenhou?
      Está demais e tem tudo haver com o conto.

  12. Alan
    9 de março de 2016

    Conto dentro do tema e com uma boa pitada de humor. Escrita simples, leitura fácil. A ideia da divisão dos capítulos foi interessante, mas o autor poderia ter dado mais atenção à sequência (ou fui eu que me perdi na leitura). No início me senti na taberna, bebendo e curioso para continuar ouvindo a história de Dorival.

  13. Ricardo de Lohem
    7 de março de 2016

    Oi, como vai? Seu conto apresenta elementos clássicos de uma história de fantasia. Acho que você sabe reconhecer o gênero, mais do que muitos conseguem… Alguns problemas do seu texto: ‘…mata quem sou”.’. Essa aspa dupla órfã está fazendo o que perdida no fim da frase? Outro caso: “Dorival limpou a testa de suor e tentou conter os joelhos. Deu uma gargalhada forçada.— Sim, sim. Não gosto de matar pessoas inocentes! Diga-me rapaz, o que você quer de mim? — Te matar, seu cão sarnento. Eu, Sir Lázaro, príncipe da Escócia, irei lavar a honra da minha irmã com sangue!— Oi? — Respondeu Dorival.”. O problema é a última frase: pra mim, Dorival está perguntando ou exclamando, mas não respondendo. “Sir Lázaro deus as costas e saiu.” Claro que é “deu as costas”, foi só um erro de digitação, o problema pra mim é que a parte
    seguinte, a III, ela começa com:”Dorival deu um risinho nervoso.”. Repetir exatamente o mesmo verbo em duas frases seguidas dá uma impressão de monotonia e desleixo, a não ser quando existe a nítida intenção de causar um efeito específico, que não foi o caso. A história segue uma linha cômica, de paródia do gênero, e consegue ser mais engraçada que outras tentativas feitas por aqui. A narrativa vai fluindo até chegar na parte dos vampiros, onde a história se dispersa e fica bastante insossa. O final foi meio abrupto: tudo bem, ele sobreviveu por ser covarde, não corajoso, foi um fechamento que fez sentido, mas eu esperava mais alguma coisa desse final, algo mais. Das histórias de pura fantasia que li até agora, essa não se saiu mal, desejo muito Boa Sorte.

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Grupo 4 e marcado .