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Literatura que desafia.

Dias de Fevereiro o Ano Inteiro (Fil Felix)

Salvador (BA). Foto: Bento Viana *** Local Caption *** * Prazo indeterminado

Atabaques e baques do maracatu anunciam o amanhecer. Transpirando cajuína, carrego minha presença tão julgada pelos locais, mas almejada pelos turistas, ao espetáculo do qual sou atração principal. Atravesso portas, casarão adentro, com os clientes a esperar pela pele de morena tropicana. Do sabor cravo e canela.

Do primeiro, não nego. Gostei. Brotinho de ébano, cheirando cajá maduro, desses de sorriso largo, cândido. Vestiu a camisa de Vênus como que de força, tamanho M, desajeitada. Fogoso, puxou a anagua com os dentes. Levando o roçar dos corpos ao licor primordial.

Do último, nego. Meu suor já em conserva, travoso. A cachaça da pele, a má educação. A violência… A percussão da manhã vira lamento sertanejo, chorado pela mãe-da-lua. Fim do circo, mas que me dá o pão. E ao sair, os olhares turvos sussurram. Julgam.

Um dia será diferente. Mas já imagino os agogôs de amanhã, pedindo pelo meu trabalho…

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60 comentários em “Dias de Fevereiro o Ano Inteiro (Fil Felix)

  1. Fabio D'Oliveira
    29 de janeiro de 2016

    ௫ Dias de Fevereiro o Ano Inteiro (Osmar)

    ஒ Estrutura: Um toque bem poético. Poético até demais. Faltou um pouco de harmonia no estilo de Osmar, sendo possível categorizar como prolixo. O leitor que ama poesia pode gostar, porém. Todo estilo é válido na arte, mas é inegável que certos estilos demonstram superioridade em relação a outros. Mas Osmar escreve muito bem, sabe desenvolver a estória e manter uma boa estética. Se trabalhar um pouco mais o equilíbrio de seu estilo, poderá produzir obras belíssimas.

    ஜ Essência: O texto é belo em escrita, mas mundano em essência. Não representa muito para os profundos. Mas representa bastante para os ordinários.

    ஆ Egocentrismo: Não gostei muito. Pendeu de forma exagerada para a poesia, e o estilo me pareceu prolixo. Mas admiro o potencial de Osmar, que escreve bem e tem grande domínio da língua portuguesa.

    ண Nota: 7.

  2. Pedro Luna
    29 de janeiro de 2016

    Gostei.

    O mais interessante foi a forma como o autor ou autora faz para descrever os clientes da moça. O jogo de palavras usados, não deixa tudo tão óbvio.

    O fim deixa a mensagem. Um dia tudo muda, mas amanhã irão querer o meu trabalho. Um trabalho onde sempre haverá clientes. Sem oportunidades em outro meio, fica difícil largar.

    Belo conto.

  3. Swylmar Ferreira
    28 de janeiro de 2016

    O enredo regionalista é interessante, tem sua originalidade no conto muito bem escrito. Interessante a construção das frases.
    Boa sorte.

  4. Matheus Pacheco
    28 de janeiro de 2016

    Opa. eu senti algo relacionada a religião do Candomblé, e também uma excelente representação da cultura que as vezes não é aceita dentro do próprio pais.

  5. Kleber
    28 de janeiro de 2016

    Gostei do resultado!
    Conto meio que em prosa, meio que em verso(pelo menos para mim). Taí um estilo de escrita que me atraiu. O tema é conhecido(mas, realmente há algo de novo debaixo do sol?), mas foi abordado de uma forma interessante. Qualidade gramatical impecável. Gostaria de saber escrever assim.

    Sucesso!

  6. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Gostei. Parece sempre triste a sina de alugar o corpo, mas o misto de esperança e desencanto temperado de realidade funcionou muito bem. Apenas achei a menção a cravo e canela meio clichê.

  7. Nijair
    28 de janeiro de 2016

    .:.
    Dias de fevereiro o ano inteiro (Osmar)
    1. Temática: Prostituição. A carne pelo metal.
    2. Desenvolvimento: Sutil na textura, apesar de enxertado de sofrimentos descritos com discrição. A carne pelo vintém que sangra o corpo e a alma, alimentando o mundo desigual.
    3. Texto: Temática atual e universal. Em que mundo não há prostituição? Em todos! O interessante foi a sutileza da inclusão do tema ao texto.
    4. Desfecho: A perspectiva de esperança deixou tudo menos cruel, apesar de ainda existir a necessidade de se vender no dia seguinte. Até quando, senhor? Somos os autores da nossa história, sempre existem vários caminhos.
    Show

  8. harllon
    28 de janeiro de 2016

    Perveso, dolorido e inteligente.
    Muito bom!!!

  9. Nijair
    27 de janeiro de 2016

    Sutil na textura, apesar de enxertado de sofrimentos descritos com discrição. A carne pelo vintém que sangra o corpo e a alma, alimentando o mundo desigual. Show!

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Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .