EntreContos

Detox Literário.

Período de semidesintegração (Daniel Vianna)

‘Céu prateado. Mar acinzentado.

Calça velha e tênis surrado.

Olhar aborrecido e sorriso desbotado.

Sigo pela orla, andar arrastado.’

 

Do violão não sai uma nota, e eu só tenho uma nota. É nota de cem, e ninguém troca.

A onda quebra, traz a maresia. A onda faz barulho, parece eco. Tenho aqui um Humberto Eco. Não vou ler agora. Faz frio e minha garganta está seca.

Silêncio.

A música toca, ela está no ar, está no vento. Só eu a escuto. O violão não quer aprisioná-la. Então, ela toca e eu escuto. Vai embora, foge no ar, e me escapa.

A canção veio do céu prateado ou do mar acinzentado? Roubou-lhes a cor? Ou será que ela saiu de mim, deixando-me com a boca seca, o olhar aborrecido, o sorriso desbotado, seguindo pela orla, andar arrastado?

Então já não faz diferença entre céu, mar e eu. Somos todos prata.

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126 comentários em “Período de semidesintegração (Daniel Vianna)

  1. Pedro Luna
    29 de janeiro de 2016

    O texto sem dúvidas é bonito, mas não enxerguei a história. Praticamente, interpretei todos os parágrafos de modo independente, e quando tentei juntar, não consegui a conexão.

    De positivo, a boa escrita. Confesso que li cantando, me pareceu muito uma letra de canção.

  2. Swylmar Ferreira
    28 de janeiro de 2016

    Gostei muito do texto, da construção das frases, suavidade. Pecou na criatividade e o conto merecia um enredo mais clássico.
    Parabenizo ao autor principalmente no jogo das palavras.
    Boa sorte.

  3. Kleber
    28 de janeiro de 2016

    Olá Tomé!

    Conto meio que em verso e prosa. Misturados como o caleidoscópio de sentimentos que transmitiu através das tuas palavras. Gostei do esforço, da técnica e do resultado. Escrita impecável e gostosa de se ler. Poderias ser compositor. enverede por este caminho, que é mais proveito$o do que o nosso, amigo!

    Sucesso!

    • Tomé Dídimo
      29 de janeiro de 2016

      Pô, Kleber, valeu a dica, irmão! Felicidades para ti e para os teus, um feliz 2016 e um grande abraço.

  4. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Isso poderia ser letra de música, não!? Tem densidade e sensação de poema. Gostei, mas não como conto.

    • Tomé Dídimo
      28 de janeiro de 2016

      É possível, mkalves. Não tenho muita experiência com contos, mas muita com letras de música. Ainda estou em fase de aprendizagem de técnicas de narrativa. Mas valeu a impressão e fico feliz que, ainda assim, tenhas gostado. Um grande abraço e feliz 2016.

  5. Nijair
    28 de janeiro de 2016

    .:.
    Período de semidesintegração (Tomé Dídimo)
    1. Temática:
    2. Desenvolvimento: Gostei do ganho/bengala do texto inicial, seduzindo o leitor com poeticidade. As ressignificações das palavras sempre me agradam – é o texto no contexto, com suas plurissignificações.
    3. Texto: Então, já não há diferença mim, o céu e o mar. Somos todos prata. Sugestão, apenas.
    4. Desfecho: Envolvente, ao juntar todos os elementos em poucas palavras, mas várias interpretações.
    Top 15, certamente!

    • Tomé Dídimo
      28 de janeiro de 2016

      Valeu, Nijair. Certamente concluindo o comentário anterior, certo? Análise muito legal. Muito obrigado. Reitero os abraços e as felicitações para este ano. Até mais.

  6. Nijair
    27 de janeiro de 2016

    Belo jogo de palavras e excelente miríade de sentimentos, sons e cores. Show!

    • Tomé Dídimo
      28 de janeiro de 2016

      Valeu, Nijair. Muito obrigado. Um feliz 2016 e um grande abraço.

  7. Tamara Padilha
    27 de janeiro de 2016

    Adorei!
    Uau, um conto meio solto, tudo meio aleatório mas ficou um tanto poético, principalmente a inserção de mar, céu prateado, violão.
    O conto que mais fez meu coração bater forte até agora.

    • Tomé Dídimo
      28 de janeiro de 2016

      Muito obrigado, Tamara. Fico feliz pela recepção. Um feliz 2016 e um grande abraço.

  8. Daniel Reis
    26 de janeiro de 2016

    Oi Tomé, o negócio mesmo é ver para crer. Vi e acredito que:

    TEMÁTICA: inspiração e arte, vindo de dentro e de fora, da natureza. O sentido natural da inspiração.

    TÉCNICA: solta, sem amarras, a escrita se desenvolve mais como uma confissão do que uma narração. Gostei do recurso de partir de uma letra de música, no início.

    TRANSCENDÊNCIA: Anoiteceu/prateou. E a inspiração foi embora. Mas foi bom enquanto esteve aqui.

    • Tomé Dídimo
      27 de janeiro de 2016

      Muito obrigado, Daniel. Sucesso pra ti e para os teus e um feliz 2016. Abraço.

  9. piscies
    24 de janeiro de 2016

    Um poema muito belo; um momento de reflexão. É o artista olhando o mar e vendo a si mesmo nas ondas. É o momento que desejamos colocar no papel e descobrimos que jamais conseguiremos: o nosso momento, apenas nosso, que jamais conseguiremos contar a ninguém; que jamais sequer tentaremos.

    Um poema belíssimo mas de difícil interpretação. Para mim, é isto: o artista usufruindo da arte por si só. O violão não quer tocar, por que não é o momento para tal. Tornando-se um com o céu e o mar, o música apenas ouve a canção da natureza e torna-se um com ela – torna-se prata, como ela.

    As palavras são belíssimas, e conjuram imagens inspiradores na mente do leitor. O autor com certeza é amigo das palavras. Usa-as com sabedoria e muito amor.

    Parabéns!

    • Tomé Dídimo
      24 de janeiro de 2016

      E aí, meu amigo Piscies. Tudo bem, campeão? Um grande abraço. Estava andando agora há pouco e estava pensando em algumas coisas sobre o conto em questão. Algumas pessoas pensam antes de fazer alguma coisa, premeditam, planejam, agem com maestria. Acho que este não é o meu caso. Simplesmente escrevo o que vem à mente. Mas é depois, com a releitura e com a análise dos outros é que eu entendo o significado (por isso que, abaixo, disse que, fora o título, o restante é todo intuitivo). Porque você pode me perguntar: “O que é que Umberto Eco tem a ver com a história? Qual a razão daquele parágrafo?” Agora entendo que Umberto Eco escreveu um belíssimo livro que retrata as mazelas da igreja. Só que eu, no momento em que me encontrava, estava com a “garganta seca e com frio”. Não queria ler (ou beber, como disse o amigo Selga) Umberto Eco. Em momentos de crise (infelizmente, essa é a verdade), eu queria um lugar onde pudesse me aquecer um pouco e tentar, talvez, matar a sede. O que eu acho legal é que eu não pensei em nada disso quando escrevi. É como se o meu verdadeiro “eu”, subconsciente, tomasse meu lugar, tomasse o comando e eu apenas digitasse. A música, no caso, reflete não só a inspiração como também a fé nos dias difíceis. E agora eu entendo isso melhor. Graças, também, à interpretação dos colegas. Mais um motivo pra eu gostar muito desse espaço. Um feliz 2016 pra ti e para teus familiares e que Deus abençoe a todos nós. Um grande abraço.

      • Piscies
        25 de janeiro de 2016

        Te admiro Tomé!

        Sou um cara muito metódico e que “pensa demais”. Isto na arte pode ser prejudicial. Conheço pessoas que, como você, escrevem apenas pelo prazer de escrever. Sentam e escrevem. Não querem saber de quem lerá, de como soará ou se a trama está boa ou não.

        Já fiz isso algumas vezes e sei do sentimento libertador que é. É como tirar o peso gigante de algo – qualquer coisa – que vem curvando você há anos.

        Infelizmente, hoje em dia muitos dos meus textos simplesmente não nascem desta forma por que, novamente, sou muito crítico comigo mesmo. A arte nem sempre é racional…

        Parabéns meu camarada!

  10. Tomé Dídimo
    23 de janeiro de 2016

    Muito legal, Laís. Muito obrigado. Fico feliz que tenha gostado. Muito sucesso pra ti e um grande abraço.

  11. Laís Helena
    23 de janeiro de 2016

    O jeito poético da narrativa caiu bem para um microconto (se fosse um pouquinho maior, talvez tivesse se tornado enfadonha), embora não seja meu tipo favorito . Pelo que depreendi, ele tentava captar a melodia do céu e do mar e transmiti-la pelas notas do violão, que foi o elemento de que mais gostei aqui, talvez por ter me lembrado de “O Nome do Vento”. De qualquer forma, uma maneira interessante de descrever o processo de inspiração de um artista.

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Informação

Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .