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Detox Literário.

Apenas mais um dia (Gustavo Araujo)

Bosnia4

Dražen viu quando os veículos começaram a chegar à fazenda. Dezenas deles. Antigos ônibus escolares, repletos de prisioneiros. Homens, velhos e crianças. Todos Muçulmanos.

Seriam mortos. Uma bala na testa. Fim.

Nunca quis ser soldado, mas que escolha tinha? Suas ordens eram incontestes. Se não as acatasse, sua própria família se tornaria vítima do exército sérvio que ele, agora, integrava.

O que transforma um homem comum em um assassino? Há justificativa para isso?

Pureza da terra

O primeiro sujeito, ajoelhado diante dele, aparentava setenta anos. Estava vendado. Não houve vacilo. Em três segundos tudo terminou.

E assim se seguiu.

O último era um garoto. Quinze anos, no máximo. Não usava venda.

Reconheceu-o. Fora seu vizinho em Tuzla. Dava para ver que tinha apanhado. Os olhos estavam inchados de tanto chorar. Talvez o tivesse reconhecido também.

Dražen pensou no próprio filho. Merda de guerra.

Um novo disparo.

Apenas mais um dia.

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63 comentários em “Apenas mais um dia (Gustavo Araujo)

  1. Swylmar Ferreira
    28 de janeiro de 2016

    Um conto com o tema: guerra. Bem ambientado mostra os dilemas e entorpecimento do personagem principal.
    O que mais gostei é que tem o início, desenvolvimento e fim. Esta bem escrito e dependendo do ponto de vista é criativo.
    Parabéns.

  2. Kleber
    28 de janeiro de 2016

    Olá, Cidadão balcanico(maldito teclado!)!

    Gostei da forma, da técnica e do enredo. Só achei estranho muçulmanos com ‘M’. Quanto ao restante gostei de verdade. Gostei da frase final. Frisa com perfeição a rotina, por mais terrível que seja. Eu imaginei o título como o começo daquele dia, e a repetição no final como um desejo da personagem e ao mesmo tempo sua frieza e embrutecimento.

    Sucesso!

  3. Murim
    28 de janeiro de 2016

    Achei que tivesse comentando nesse aqui, não sei o que aconteceu com meu comentário… Mas eu tinha um backup:

    Um bom conto, bem desenvolvido. Apenas achei que poderia ser melhor desenolvido o tormento psicológico do personagem. Matar um jovem deve levar a um sentimento de culpa grave, ainda mais porque a justificativa (defesa da família) não é exatamente imediata. No mais, inconteste não é exatamente sinônimo de incontestável. “Inconteste” é o que não foi contestado e “incontestável” é o que não pode ser contestado, acho que no texto você queria se referir ao segundo deles.

  4. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Acho que nem precisava a última frase. O fato de já estar no título pareceu-me suficiente. De resto… Bem, senti falta de ver mais nitidamente o conflito do soldado. Por outro lado, talvez ele já estivesse mesmo tão amortecido… É um bom conto, porém não chegou a desacomodar-me.

  5. Nijair
    28 de janeiro de 2016

    .:.
    Apenas mais um dia (Petrovic)
    1. Temática: guerra e submissão aos status quo. ‘Sempre pergunte a uma ideia: a quem serves?’
    2. Desenvolvimento: No tempo certo, na medida certa.
    3. Texto: limpo, sem erros evidentes e respeitando as normas linguísticas.
    4. Desfecho: Muito bom, deixando reflexões.
    O autor soube prender o leitor, caminhando no conto e provocando várias reflexões.
    Show!

  6. Nijair Araújo Pinto
    27 de janeiro de 2016

    Tema recorrente. Existem milhares de pessoas falando sobre isso – mudam apenas os nomes, mas valeu a tentativa. Nos textos que lerei, buscarei concisão e originalidade, mesmo que alguns não compreendam as mensagens. Afinal, nem todos precisam captar a arte que existe na arte.

  7. Daniel Reis
    26 de janeiro de 2016

    Meu caro Petrovic, aqui estão minhas impressões:

    TEMÁTICA: guerra, limpeza étnica e consciência suja – achei muito interessante, rica em possibilidades.

    TÉCNICA: narrado com primor, coloca o leitor frente a frente com o dilema do protagonista.

    TRANSCENDÊNCIA: acho que a história me cativou por colocar a decisão além da emoção, mas no pragmatismo. Daquelas histórias que a gente se pergunta: “e depois, será que ele se arrependeu?”. Eu, não.

  8. Piscies
    24 de janeiro de 2016

    Um conto cru – como a realidade.

    Por vezes nos pegamos lendo histórias e pensando “poxa, bem que o personagem poderia ter feito ISSO ao invés DAQUILO, ou bem que ele poderia ser ASSIM ao invés de ASSADO”. Enfim: queremos ver no conto o que sabemos que seria difícil demais na vida real.

    Na vida real, as pessoas são como Drazen. Gostaríamos que fosse diferente: que ele se rebelasse, se envergonhasse e gritasse para que parassem de matar inocentes. Que tomasse alguma decisão para mudar o rumo da sua vida. Mas não: ele fez o que todos fariam. Ficou aflito e amargurado mas cumpriu a sua função.

    Isto empresta uma profundidade única ao conto. A crueza é também a sua beleza. Vemos aqui que o autor não é tímido na escrita, mas usa uma narrativa mais direta para relacionar-se melhor com a realidade da trama narrada.

    Parabéns, um belo conto que fala sobre algo nem um pouco belo da nossa realidade.

  9. Tamara Padilha
    24 de janeiro de 2016

    Oi. Então… gostei do conto, retrata muito bem o que o título indica, mas… eu não consegui sentir emoção. Penso que se tratando de guerra uma escrita mais dramática poderia impactar mais.

  10. Laís Helena
    23 de janeiro de 2016

    O conto está bem escrito, mas uma frase me incomodou: “O que transforma um homem comum em um assassino? Há justificativa para isso?” Acho que explicitá-la tirou o impacto do conto, teria sido muito melhor se tivesse ficado subentendida (acredito que os leitores teriam pegado a pista quando ele reconheceu o garoto que tinha sido seu vizinho e depois pensou no filho). Afora isso, não vi nenhum outro problema.

  11. Marcelo Porto
    22 de janeiro de 2016

    Contundente.

    Nesse desafio, recebi três socos no estomago, esse é o terceiro, e último, já que por aqui termino a minha avaliação.

    Por sorte termino em grande estilo, com um que vai para o pódio.

    Parabéns!!

  12. Mariana G
    21 de janeiro de 2016

    Olá, Petrovic.

    Gostei do micro-conto, sua escrita é ótima e adoro esse tema de guerra e como ela muda ou externaliza a natureza humana. Porém, seu micro-conto não me trouxe novidade, mesmo sendo pelo ponto de vista de quem pratica a violência. O que é compreensível, já que esse tema é amplamente explorado, sendo realmente complicado sair do comum.
    Enfim, boa sorte!

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Informação

Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .