EntreContos

Detox Literário.

A Canção do Bardo (Alan Cosme Machado)

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I am my own god.
I am my fucking god.
Where’s your god?
I will cut him with my sword!

O vocalista da banda de metalcore cantava de modo agressivo em cima do palco e fazia a plateia entrar em frenesi. Os ouvintes da frente se divertiam com uma brincadeira violenta, mas que só participava quem queria. O mosh pit ganhava tamanho. O circulo de socos, cotoveladas e empurrões aumentava de acordo com a fúria reprimida dos seus participantes. Com o fim do espetáculo, os gladiadores de brincadeira voltaram a ser cordiais uns com os outros enquanto esperavam a próxima banda subir ao palco.

Carlos da Nobrega era vocalista e guitarrista da banda The Chosen One, um homem caucasiano de cabelos escorridos para frente que aparentava ter no máximo vinte anos. Ele se vestia com uma roupa largada por causa do seu estilo musical, lembrando o movimento esqueitista. Com sua guitarra guardada em seu estojo ele caminhou sozinho até o ponto de ônibus, não sem antes se despedir de sua banda e beijar sua namorada, a baixista.

A rua onde Carlos esperava sua condução estava escura e deserta. Um perigo. O instrumento musical que portava chamou a atenção de um assaltante que apontou o cano de um revólver em seu peito. – Passa esse violão, playboy.

– Para começar isso não é um violão, idiota. Esse é um estojo de guitarra. – Carlos deveria ter escolhido melhor suas palavras, pois o bandido não perdoou a ofensa. Dois tiros no peito seguidos por um roubo. Latrocínio. Meia hora depois moradores da região chamaram a polícia que surgiu em duas viaturas acompanhadas por um rabecão.

No necrotério, Carlos teve suas roupas removidas. Joaquim da Silva, o legista, era um jovem de trinta anos que estava mais habituado a conviver com os mortos do que com os vivos, fato que provocou problemas em seu casamento. As balas foram removidas e a magia aconteceu. Os ferimentos se fecharam sozinhos recuperando tecido morto e o sangue recomeçou a ser bombeado pelo corpo. Alimentando todos os órgãos, inclusive o cérebro. Carlos estava de volta a vida o que tirou um grito de Joaquim.

– Calma, eu posso explicar.

– Você é um demônio!

– Já fui acusado disso há muito tempo, mas não é o caso. – Carlos olhou para o relógio redondo de parede antes de continuar. – É onze e cinquenta e nove, quase meia noite, hora perfeita para se contar uma história.

Joaquim relaxou mesmo diante do impossível e escutou o que o metaleiro tinha a relatar.

– Nós paramos de envelhecer, despertando para nossa imortalidade, na nossa primeira morte, que é sempre violenta. Não podemos ter filhos e temos o dever de ensinarmos a arte da esgrima aos novos despertos de nossa raça. É um dever contraditório, pois no final só poderá haver um de nós. Sinto lhe informar, mas o seu Deus cristão é uma fábula. Quem criou o mundo foram os imortais, uma raça alienígena cujo único proposito é se tornar uno com o universo. A cada imortal que mato, decapitando sua cabeça, eu sugo suas habilidades. Quando eu matar o último serei o verdadeiro imortal. Um Deus com d maiúsculo. A Terra é nosso campo de batalha, vocês humanos são só nossos joguetes.

A primeira reação ao ouvir a verdade foi a negação, Joaquim pegou seu crucifixo do bolso e começou a orar guiado por crenças fortemente arraigadas durante sua vida inteira.

– Meu primeiro nome, já tive muitos, é John Mcclaud. Eu era um cavaleiro britânico que caçava hereges no tempo da inquisição medieval. Quem diria, fui caçado pelos meus próprios companheiros quando notaram que eu não havia morrido após ser acertado no pescoço por uma flecha pagã. Vivi muitas vidas e tive muitos amores até chegar onde cheguei. Escolhi me tornar cantor de Heavy Metal devido a natureza do estilo ser fantasiosa. O que me permiti contar a verdade de forma lúdica para as massas e ninguém perceber.

Joaquim soava frio e tremia. – Por que está contando tudo isso para mim?

– Você viu a verdade, você me viu ressuscitar. Alias, essa não foi minha primeira morte. Já fui pisoteado, queimado vivo, esfaqueado e baleado mais vezes do que consigo contar. O único ponto fraco da minha raça é o pescoço e mesmo assim só se a morte for provocada por outro de nós. Já fui guilhotinado uma vez, demorou cem anos para que alguém colasse meu pescoço ao meu ombro novamente.

– Isso não pode estar acontecendo comigo. – Joaquim passou a andar em círculos com as mãos na cabeça, tentava apagar os últimos minutos de sua memória.

– Eu posso parecer um metaleiro sujo, mas acumulei muita riqueza durante os meus séculos de existência. Não quer ser o meu assistente?

Joaquim se sentia fazendo um pacto com o Diabo. – O que um imortal poderia querer de mim?

– A ajuda de um legista é sempre interessante quando se morre tantas vezes. Eu te pagaria uma taxa mensal dez vezes superior ao seu salário para você monitorar meus movimentos e me resgatar caso eu, por exemplo, perca a cabeça.

– Tenho que pensar.

– Tudo bem, enquanto pensa eu te conto outra história. Como um bardo que sou eu tenho várias delas guardadas na memória. Era uma vez, e toda boa história começa com um era uma vez, um rei pálido que era conhecido por ser tão veloz que nenhum aço conseguia tocá-lo em batalha. Assim que soube de sua história percebi se tratar de um imortal e fui atraído para a batalha. Os séculos se passavam, mas a honra do nosso sangue nos compelia a competir somente em duplas, espada contra espada. De fato o imortal albino era impossível de ser tocado devido a sua velocidade. Graças a sua destreza ele já acumulava o poder de cento e vinte imortais, enquanto eu só matara treze. O que foi que eu fiz? Usei da esperteza. No castelo do rei albino havia um grande vitral decorando o cenário. Assim que o albino cometeu o erro de se aproximar dele, arremessei a bainha da minha espada no adorno. O vidro espatifou e os estilhaços cegaram o rei por algum tempo. Foi tudo o que precisava para decapitá-lo. As almas dos imortais derrotados pelo rei pálido saltaram do seu corpo para o meu e agora eu era mais do que ele. Então? Já chegou a uma conclusão?

– Sinceramente? Não.

– Sem problema, outra história então. – Carlos, ou John Mccloud, parou de falar e começou a cantar. Uma voz melodiosa bem diferente da agressiva que apresentou no palco.

Tonight I will live stronger.

Tonight I will kill forever.

Tonight I will love together.

Tonight, all night.

I don’t deserve the pain I had.

I will live alone.

Who wanna to live forever?

The emptiness will be my lover?

I want to kill together.

I want to be a lover.

In love with death.

A canção tocou o coração de Joaquim que encheu os seus olhos de lágrimas, era como se os próprios anjos tivessem tocado suas trombetas. – Sim, eu aceito. – Assim que deu sua afirmativa para Carlos, Joaquim teve seu pescoço quebrado, mas não morreu.

– Nós imortais sentimos quando estamos na presença de outros. Venha matar comigo, aprendiz.

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3 comentários em “A Canção do Bardo (Alan Cosme Machado)

  1. Alan Machado de Almeida
    14 de janeiro de 2016

    Obrigado pelas dicas na próxima fanfic vou prestar mais atenção nos pontos abordados.

  2. JULIANA CALAFANGE
    13 de janeiro de 2016

    Concordo com o Fabio. Eu curto histórias malucas, de suspense, de terror, FC, esse não é o problema. Até uma paródia com Highlander não me incomoda. No começo, quando ele acorda no necrotério, pensei q seria um conto de terror, e me empolguei. Depois vi que vc estava recontando a história do Highlander, e eu adoro esse filme, então tb me empolguei. Mas sua história ficou frouxa demais, ou vc se aprofunda mais, nos personagens, na trama, ou a história não cola. Sabe, o Carlos/John já sai contando a vida dele toda pro Joaquim e ainda o convida pra ser seu assistente! Fica totalmente inverossímil. Como se vc tivesse corrido muito pra terminar o conto. Vc tb correu na revisão, pq tem vários erros de português e de digitação. Enfim, sugiro desenvolver mais a trama, pra deixar o leitor instigado, curioso pra saber como e pra onde vc vai levar o nosso guerreiro roqueiro imortal!

  3. Fabio Baptista
    9 de janeiro de 2016

    Fala, Alan!

    Cara, gostei da sua escrita, está bem fluída e fácil de ler. Só recomendo (como venho recomendando pra todo mundo ultimamente) ver quando é realmente necessário usar seu/sua. Exemplo:

    – não sem antes se despedir de sua banda e beijar sua namorada

    Não está errado, mas (na minha opinião, claro), assim ficaria melhor:

    – não sem antes se despedir da banda e beijar a namorada

    Já a história eu não curti não. Aconteceu tudo muito rápido e pensei que seria uma paródia mais escrachada de highlander, mas o texto ficou meio perdido entre a sátira e o lado sério e o resultado não me agradou.

    Abraço!

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Publicado às 9 de janeiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .