EntreContos

Literatura que desafia.

Então… É Natal (Maria Flora)

– Assim que terminar de tomar seu café, nós sairemos.

Sentada na espaçosa mesa da copa, a senhora de cabelos curtos enrugou a testa. Era a segunda ou terceira vez que ouvia aquela frase, em poucos minutos.

Aliás, despertara naquela manhã fresca de véspera de Natal com uma frase parecida:

– Levante-se! Nós precisamos sair.

Era verdade, tinham pressa, o horário no salão de beleza fora marcado. E qualquer atraso seria um desastre.

Mas também precisava tomar banho, comer e outras necessidades básicas. Tomou outro gole de café.

“Tomara que este café não me faça mal.”

Os movimentos aparentemente lentos da senhora exasperaram sua filha, que exclamou, com a ansiedade marcando cada palavra dita:

– Então?! Não terminou o café?!

De imediato, a mãe largou a xícara e pegou a bolsa.

Já no carro, sua filha desatou a falar:

– Vamos chegar atrasadas! Ainda está com sono?!

De fato estava. Tinha culpa? Viajara no dia anterior por toda a manhã e mal chegara à cidade natal, fora ao supermercado. Comprar os ingredientes para a ceia de Natal. O Natal.

No porta-malas do carro, trazia presentes para todos, escolhidos com esmero cuidado. Mesmo assim, sua mente rodopiava com as dúvidas:“E se este não gostasse do presente?”. “O outro irmão vai ficar com ciúmes, compre presente para ele também.”

“Temos de embrulhar com papel especial ou então a tia ficará ofendida e falará mal de nós para toda a família. Lembra-se do ano passado?”

Novamente sentada no banco do passageiro do carro, a senhora respirou aliviada.

Ao menos, os presentes estão certos.

Permanecera por uma semana comprando produtos caros em lojas lotadas de mulheres, jovens, crianças carregadas por pais perdidos.

“Sim, tudo certo”.

Sua garganta estava seca. Tentou se lembrar de quando tomara água. Não conseguiu ou então simplesmente não tomara.

A filha na direção do carro acelerou, agoniada para conseguir uma vaga para estacionar o veículo. Virando a direção bruscamente para o lado, bloqueou o veículo que vinha logo atrás. O homem na direção buzinou com raiva. Mas não importava, pois conseguira estacionar!

“Ufa, que sorte!”.

Pessoas se espremiam nas calçadas estreitas, indo e vindo. Ainda era cedo. Mas o sol já escaldava o asfalto cinza e grosso.

Saindo do veículo, mergulharam no meio da multidão. Rostos exaustos, alguns felizes. Sim, era Natal.

A senhora apressou o passo, protegendo o corpo com a bolsa. Sua filha ia à sua frente, segurando-a pelo braço.

“Como as pessoas trombam com as outras”.

O salão de beleza localiza-se na parte central da cidade. Era preciso passar pelos serviços da manicure e da cabeleireira.

Logo na entrada foram recepcionadas pela primeira com um sorriso exausto. A cabeleireira não poderia lhe atender agora, só mais tarde. Portanto, teria de começar pela manicure. Sua filha a deixou ali. Tinha de comprar um último presente, imprevisto. Retornaria mais tarde para irem embora juntas.

Novamente sentada e ainda atordoada pela visão da multidão e do trânsito, ousou respirar.

“Agora, é só esperar a mulher deixar minhas unhas bonitas.”

Mas no estômago o café corroia. Comera apenas um pedaço de pão no café da manhã. E água. Precisava de água.

Pediu um copo com água. A sede a deixou. Uma pausa em meio à correria.

Sentiu-se culpada. Devia estar na cozinha da casa de sua mãe, temperando o assado para a noite. Não, o tempero fora feito na noite anterior, pela madrugada. Fizera tanta coisa que não se recordara disto. Que bom.

“Estou adiantada”.

Mesmo cansada da viagem, conseguira terminar boa parte dos preparativos para a ceia, inclusive uma torta doce que seus netos lhe haviam pedido.

“Espero que não tenha briga este ano.”

A manicure não conversava, concentrada no serviço. Ela mesma não estimulava. Gostava de silêncio e era o que precisava naquele momento. Um instante de alívio.

Mas em seu coração sentiu uma tristeza inexplicável. Não gostava do Natal.

Não o Natal em si, com seu verdadeiro sentido.

Estava cansada e odiava as compras desgastantes, a competição entre famílias – “o que diria sobre seus filhos?”. As brigas, as bebidas. Esperar até meia noite para assim comer e abraçar as pessoas. Pessoas já cansadas da festa, com as expressões do rosto tensas e prontas para voltar para suas casas e dormir.

Despertou do estado de desânimo com a voz da jovem manicure: – Já terminei, senhora. Suas unhas estão lindas.

Pagou a conta e saiu para a rua. Sua filha só voltaria dali a uma hora. Tinha tempo. Para quê?

Olhou ao seu redor, sentindo-se de repente perdida e sozinha. Não queria comprar, estava exausta de compras.

Caminhou pela calçada, empurrada pela multidão que ia e vinha apressada. Era véspera de Natal e as lojas fechavam logo.

Cansada, lembrou-se da pequena capela, bem no centro da cidade, assim perto dali. Dirigiu-se para lá. Poderia descansar. Caminhou por alguns quarteirões e ruas. Conforme se aproximava da capela, o movimento de pessoas e carros diminuía aos poucos. A igreja estava aberta, graças a Deus. E vazia.

As pessoas deviam estar na catedral, alta e bonita. Aquela capela era de teto baixo, dimensões estreitas e o forro inacabado, mostrando humildemente as toras de madeira que sustentavam o telhado. Mas adorava aquele lugar.

Sentia-se capaz de sentir a paz, a serenidade, tão difíceis de conseguir no dia a dia. Com alívio no coração, agradeceu aquele momento. E ajoelhou-se para rezar.

No início, o peso do cansaço forçou seus ombros para baixo. Mas lentamente acalmou os pensamentos, esqueceu as compras, as pessoas, as brigas, a bebida, a comida, a roupa, o cabelo e a maquiagem.

A tristeza saiu do coração e aflorou em lágrimas. Passados alguns minutos, procurando se acalmar voltou-se para a imagem do menino Jesus.

Assentado no meio do pequeno presépio, em frente ao altar da capela. Uma criança. Uma vida nova. Lembrou-se da passagem do nascimento na Bíblia. Observou o presépio, uma família em meio aos animais e a criança assentada na palha.

“Tão simples e sereno.”

Desejou em seu coração passar o Natal daquela forma: com simplicidade e serenidade. E desejou também participar da missa de Natal.

“Que bom seria”.

Mas não ousava pedir à família, tão pouco religiosa e tão atarefada com os preparativos da ceia de Natal.

Voltou a rezar agradecendo o alimento que recebia naquele instante. Sentia que sua alma estava em paz.

O Natal pareceu-lhe um momento sublime, de renovação das esperanças. As famílias se uniam para celebrar. Recordou-se dos abraços entre as pessoas. Sorriu, alegre. Já não sentia mais o cansaço e nem mesmo fome.

Atravessou as escadas de cimento simples da capela com passos leves. Ao alcançar a rua do salão de beleza, repleta de lojas, vislumbrou sua filha próxima à entrada do salão. Seus movimentos eram ansiosos e seu olhar vagava de um lado para o outro da calçada à procura da mãe.

A senhora apressou seus passos e logo se achegou da filha, sorrindo alegre. Quase a abraçou, mas estacou quando a filha a saudou com a voz estridente.

– Mãe, onde estava? Porque não fez o cabelo?

– É verdade! Esqueci-me do penteado! Será que a moça terá problemas?

– Não, já perdeu a vez! Nem tem mais horário.

– Bem, neste caso não tem problema, minha querida. Eu mesma arrumo meu cabelo.

A expressão incrédula da filha a divertiu. Não podia perceber tanta importância assim no fato. Mas a jovem desatou a reprimir a mãe por aquele deslize.

– Você mesma? Não quero ver o que nossas tias dirão sobre isso! E papai ficará chateado.

– Deixe de bobagens. Farei um belo penteado, simples sim. Mas belo. Tudo dará certo.

Naquela noite, os homens chegaram embriagados à festa depois da tarde passada no bar. A família reclamou da torta doce que ela fizera na noite anterior e sua filha discutira com o marido aos berros sem se importar com as crianças que choravam e a família ao redor que assistia sem se intrometeram, cansados e com o ventre cheio.

Anúncios

7 comentários em “Então… É Natal (Maria Flora)

  1. Luiz Fernando Marques
    13 de janeiro de 2016

    Lindo conto, bem real. Parabéns Maria Flora

  2. Adriana Franco
    13 de janeiro de 2016

    Parabens Maria Flora!
    Que conto lindo. Uma bela reflexao sobre o sentido do natal. Impossivel nao se sensibilizar e se transpor em diversos momentos, de tristes acontecimentos, que ocorrem nesta data tao especial e que pede apenas simplicidade e amor.
    Espero que este seja o inicio de inumeros contos Maria Flora.
    Parabens novamente!

  3. Evie Dutra
    8 de janeiro de 2016

    Amei este conto! É tão real e escrito de forma tão doce. Impossível não nos apaixonarmos pela velhinha. Quando ela entrou na igreja e se sensibilizou com o significado do natal, tive vontade de pular dentro do conto e abraçá-la. Muito fofa! hehe.
    Parabéns.

  4. Pedro Luna
    8 de janeiro de 2016

    Eu acho interessante essa visão do natal, que parece tão comum em muitas famílias.

    Devo me considerar um sortudo por sempre ter tido um natal simples? Com poucos familiares, sem brigas, presentes simples pra criançada, praticamente nenhuma bebida, pessoal rezando e comendo? Acho que sim. Pois o que mais vejo são relatos de confusão, parentes que não se veem a muito tempo, brigando, eu heim… enfim

    O seu conto trouxe um incômodo. É simples, mas cumpriu o papel que se propôs. Boa leitura.

  5. Neusa Maria Fontolan
    8 de janeiro de 2016

    Bom conto.

  6. Fabio Baptista
    8 de janeiro de 2016

    Olá, Maria.

    É um tipo de história que não faz muito o meu estilo, devido ao ritmo cadenciado, mas não deixa de ser um bom conto.

    Você escreve muito bem. Só daria uma limada em alguns “seu / sua” e também nos verbos em pretérito mais que perfeito.

    O passeio da mãe depois da unha ficou com um clima de filme do Woody Allen, foi minha parte preferida. O final ficou bacana também, costumo gostar dessa pegada anticlimax.

    Abraço!

    • Fabio Baptista
      8 de janeiro de 2016

      Ah… só teve um deslize de revisão ali no finalzinho: “se intrometeram”. Seria “intrometer”.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 8 de janeiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .