EntreContos

Detox Literário.

O Organismo (Fabio Evangelista)

Tudo aconteceu em mais ou menos duas décadas. Um tempo muito curto, se levarmos em conta as proporções que tomaram. As agências espaciais tinham anunciado a descoberta de um novo asteroide que seguia em rota de colisão com a Terra. Não haveria nenhum problema com o impacto, a velocidade do asteroide era baixa e estável, e seu tamanho um pouco maior que um carro comum. Se não fosse desintegrado ao entrar em nossa atmosfera, o pior que poderia acontecer seria uma cratera com alguns metros de diâmetro. O que deixou os astrônomos intrigados, na verdade, foi o seu formato peculiar. O asteroide tinha proporções geométricas perfeitas, como uma joia lapidada de cor variada entre um roxo muito escuro a azul-marinho. Era ligeiramente oval, comprido e pontudo numa das extremidades, arredondado e achatado na outra. Tinha sulcos alongados milimetricamente espaçados em perfeita simetria e, além disso, os mais avançados telescópios conseguiram constatar que a sua superfície era formada por pequenos quadrados perfeitos. Era constituído de lonsdaleíta, um mineral muito raro encontrado apenas em amostras de meteoritos, com dureza quase sessenta por cento maior que a do diamante. Os mais entusiastas não tiveram dúvida –aquilo certamente tinha sido construído por seres inteligentes.

A comunidade científica estava em dúvida, usando o argumento de que haviam cristais naturais com dimensões geométricas perfeitas em nosso planeta, portanto o formato do asteroide não era decisivo para confirmar qualquer teoria. A discussão aqueceu quando o pequeno astro recebeu diretamente os raios do sol. Quando isso aconteceu, várias estruturas pontiagudas se estenderam por toda a sua superfície, como se fossem espinhos, dando-lhe a aparência de uma mina subaquática. A velocidade com que esses espinhos se alongaram deixou todos intrigados. Aquilo realmente não poderia ser um pedaço de rocha qualquer. Poderia ser uma cápsula, algo como uma nave extraterrestre pequena para um ou dois indivíduos, ou para muitos indivíduos pequenos –pequenos e inteligentes. No entanto os cientistas continuavam céticos, dizendo para não comemorarem nada ainda, e deram a explicação de que os raios do sol poderiam ter aumentado repentinamente a pressão no interior do asteroide, fazendo os espinhos saltarem para fora dele num efeito semelhante à explosão de uma pipoca.

O que quer que fosse aquilo, ela só iria atingir a Terra dali a quatro anos. Líderes mundiais e autoridades científicas debatiam sobre deixá-la seguir em frente ou tentar destruí-la. Nada foi feito, mas depois foi descoberto que qualquer tentativa teria sido em vão. Nada iria deter aquela coisa, pois não temos tecnologia disponível capaz de perfurá-la, explodi-la ou mesmo desviá-la do curso. Brocas de carboneto e bombas nucleares seriam inúteis.

E assim o mundo apenas esperou.

Um ano antes do impacto, quando o objeto estava bem mais perto, cientistas tentaram estudá-lo mais detalhadamente. Porém não conseguiram obter nenhuma informação extra, apenas fotografias com melhores resoluções. Só daria para ter certeza se aquilo era realmente um asteroide ou algo construído por vida inteligente quando ele entrasse na atmosfera terrestre e eventualmente não fosse desintegrado.

O impacto estava previsto para acontecer num local remoto ao norte da Irlanda, porém logo após passar pela órbita da lua, o objeto fez uma manobra brusca e saiu de sua rota original. A nova zona de impacto seria agora a Antártica, a poucos quilômetros a leste da estação russa Vostok. A notícia voltou a ganhar força na mídia. Pela primeira vez um asteroide parecia ter sido dirigido por forças desconhecidas. Entusiastas e ufólogos tinham certeza de que se tratava de uma manobra proposital de pilotagem, pois um simples pedaço de rocha não desviaria de sua rota da maneira drástica como aconteceu. A comunidade científica, no entanto, continuava relutante. A maioria acreditava que o objeto estava magnetizado e tinha apenas se alinhado com o polo sul magnético do planeta. O fato de a nova zona de impacto estar próxima das instalações russas não era nenhuma coincidência, eles disseram, pois foi exatamente para estudar as mudanças no campo magnético da Terra que elas foram construídas ali.

Por um lado isso era uma excelente notícia –havia uma estação próxima do ponto onde o asteroide iria cair. Era pleno verão no continente congelado e o sol não iria se pôr pelos próximos cinco meses, o que significava que várias expedições de pesquisadores e estudiosos poderiam ser realizadas durante o período para estudá-lo. Por outro lado, porém, se o impacto fosse forte demais, o objeto poderia afundar e se perder para sempre no gelo antártico. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Ao entrar na atmosfera terrestre, o pequeno astro entrou em combustão e recolheu seus espinhos, tornando-se um meteoro incandescente, deixando um rastro longo de fumaça escura. Ao atingir a superfície, provocou uma explosão tão forte que resultou numa cratera com pouco mais de oitocentos metros de diâmetro. O tremor do impacto pôde ser sentido a quilômetros dali, e sua alta temperatura fez derreter todo o gelo a sua volta, formando um túnel profundo na crosta que foi imediatamente preenchido por água líquida que em breve voltaria a congelar.

Logo vieram as equipes e detectaram uma grande emissão de radiação vindo do centro da cratera. Vestiram roupas especiais e derramaram muitos litros de querosene na água que preenchia o buraco. Isso iria retardar o processo de congelamento, mantendo-a líquida pelos próximos meses.

Após muitos dias de investigações e escavações eles descobriram que o asteroide se encontrava a meia distância do Lago Vostok, uma grande massa subterrânea de água localizada a quase quatro quilômetros abaixo da superfície. Todos perderam suas esperanças. Jamais conseguiriam resgatá-lo num local tão profundo. Os próprios russos haviam levado mais de uma década para penetrarem uma sonda fina que chegasse até o Lago.

Se aquilo fosse uma nave espacial, pensaram alguns, toda a sua tripulação teria morrido congelada ou ficaria impedida de sair por muito tempo, a não ser que se tratasse de seres adaptados ao frio extremo. De uma forma ou de outra, isso foi frustrante para todos. Quase cinco anos de espera desde a sua descoberta e não tiveram nada de interessante para relatarem.

Nas semanas seguintes muitas equipes deixaram o local, porém alguns permaneceram e descobriram que o artefato continuava descendo vagarosamente em direção ao Lago, o que demonstrava que ainda emitia calor suficiente para derreter o gelo ao seu redor. Talvez tivesse armazenado os raios do sol ou absorvido a temperatura do atrito durante a entrada na atmosfera. Os cientistas que permaneceram demoraram mais de um mês para enviarem notícia. Não quiseram chamar atenção, pois preferiram trabalhar com menos pessoas unidas por um único objetivo em comum. Quando o asteroide finalmente estabilizou e não desceu nenhum centímetro a mais, eles começaram a empregar as escavadeiras.

Tinham penetrado quase duzentos metros abaixo da crosta de gelo quando o grande incidente aconteceu: o asteroide de repente entrou em fusão e explodiu. Uma explosão instantânea de quase seiscentos megatons, doze vezes mais poderosa que a bomba Tsar, o artefato nuclear mais poderoso construído pelo homem.

Um raio de doze quilômetros ao redor da cratera do impacto cedeu e foi abaixo. As equipes que permaneciam ali desapareceram junto com os seus equipamentos, e as instalações da estação Vostok foram completamente desintegradas. Um buraco gigantesco surgiu no lugar da antiga cratera, tão profundo que quase alcançou as águas subterrâneas do Lago. Vestígios de radiação puderam ser detectados a mais de cem quilômetros dali. A notícia ganhou destaque, e imagens de satélites foram divulgadas na grande rede de computadores.

Ao menos o grande mistério havia sido resolvido. O estranho asteroide não era uma nave alienígena, mas sim uma bomba nuclear vinda do espaço, o que levantou muito mais dúvidas do que certezas. Por que uma bomba nuclear de origem desconhecida atingiu a Terra? Foi algo proposital ou um acaso? Se proposital, por que o local escolhido tinha sido a Antártica, uma zona inóspita e isolada?

Alguns conspiradores disseram que a bomba certamente foi lançada por alienígenas como um tipo de sinal de alerta ou ameaça, mostrando aos terráqueos o tipo de armas que eles possuíam e que em breve eles iriam atacar e tentar colonizar o planeta. Outros diziam que isso era ridículo e que uma guerra espacial poderia ter sido travada no passado longínquo. A bomba certamente teria perdido o alvo e passou a vagar sem rumo pelo cosmos há centenas de milhares de anos, até que por acaso acabou se chocando com o nosso planeta. Para muitos isso soava ainda mais ridículo e improvável. Havia ainda alguns que afirmavam que aquilo não era uma bomba, mas sim um objeto natural sob grande pressão interna que simplesmente entrou em fusão e explodiu, liberando enormes quantidades de radiação. Seja o que fosse, depois desse incidente a maioria dos observatórios passou a apontar seus telescópios em direção ao local onde ele havia sido descoberto inicialmente.

Antes do início do inverno, outras equipes foram enviadas para estudar o buraco formado pela explosão. Alguns biólogos tinham interesse particular em explorar e recolher amostras do grande lago subterrâneo que finalmente estava ao alcance dos humanos. Deveria haver milhares de formas de vida desconhecidas naquele lago. Outros especulavam sobre a possibilidade de haver muitas reservas de petróleo ali embaixo, uma vez que Antártica era um continente quente e cheio de vida no passado pré-histórico.

As explorações e pesquisas foram interrompidas em meados de setembro do ano seguinte. O inverno estava chegando à Antártica, época em que o sol finalmente iria se pôr no continente e a noite imperaria pelos próximos seis meses. Durante esse período a região fica praticamente inacessível e qualquer pedido de emergência ou resgate seria dificilmente atendido.

Foi muita sorte para aquelas pessoas. Saíram de lá a tempo, pois duas semanas após as equipes terem deixado o local, uma vibração preocupante foi detectada no interior do buraco.

Por algum motivo desconhecido, as águas do Lago Vostok começaram a aquecer numa velocidade assustadora, chegando a ferver em menos de um mês. Colunas enormes de vapor foram expelidas do interior do buraco, cobrindo a atmosfera sobre a região, aumentando sua temperatura, derretendo cada vez mais a crosta de gelo da superfície. As nuvens brancas da ebulição em pouco tempo se tornaram negras, escurecendo o ambiente, provocando chuvas ácidas seguidas por várias erupções de magma incandescente. Indícios apontavam que um vulcão estava se formando ali. Grandes porções de rocha derretida se espalharam ao redor do buraco, erguendo-se cada vez mais conforme o gelo derretia e a lava esfriava e se solidificava, formando uma montanha cônica que atingiu mais de um quilômetro de altura em poucas semanas e continuava a crescer. Rios de lava e fumaça continuaram ininterruptos por vários meses seguidos.

A superfície da Antártica começou a rachar e muitas placas de gelo se soltaram da crosta e caíram ao mar, provocando grandes mudanças climáticas. O ano seguinte foi marcado por terremotos, maremotos, furacões e tsunamis que devastaram cidades inteiras. O nível de água do oceano começou a aumentar, inundando completamente algumas ilhas e costas litorâneas, fazendo-as desaparecerem dos mapas.

Quando as atividades vulcânicas finalmente interromperam, tudo aparentemente ficou mais calmo, apesar de gases nocivos e radiação continuarem a ser expelidos do alto da montanha recém-formada. Por onde passassem, as nuvens de gases transformavam o nitrogênio do ar em amônia líquida, que caía para o solo em forma de chuva alcalina, aumentando o PH da superfície e enriquecendo-a com nitrato. A camada de ozônio, que já era escassa sobre o continente antártico, foi completamente destruída por esses gases num raio de quase mil quilômetros ao redor da montanha.

No verão seguinte, a região não podia mais ser explorada sem o uso de roupas e equipamentos especiais, pois os membros das novas equipes morreriam rapidamente devido à exposição dos raios ultravioletas do sol. No entanto, a preocupação mais imediata era quanto ao derretimento acelerado da crosta congelada durante o verão na Antártica. Se continuasse naquele ritmo, todo o gelo iria desaparecer em menos de três anos. E não havia nada que a humanidade pudesse fazer para impedir que isso acontecesse.

No inverno seguinte o continente voltou a congelar, mas as dimensões de sua área diminuíram em cerca de um terço. Durante esse tempo o vulcão permaneceu inativo, embora continuasse a emitir gases que provocavam chuvas de amônia. A alta concentração de nitrato no solo fez um tipo estranho de alga crescer por toda a região, mas o maior acontecimento ainda estava por vir:

Alguns meses depois, uma haste curvada de cor esverdeada se estendeu para o alto da cratera do vulcão. Era uma espécie de caule fibroso, gigantesco, coberto de espinhos e formado por vários apêndices receptores de luz e radiação solar. Parecia-se com um tentáculo, e provavelmente estava crescendo bem fundo no solo abaixo do vulcão, coletando água e minerais do Lago Vostok, e na extremidade visível havia algo de formato esférico. Não havia dúvida de que se tratasse de um ser vivo. Estudos posteriores confirmaram que a haste era capaz de realizar fotossíntese e, portanto, classificaram-na como um vegetal, embora não existisse nada parecido com aquilo na Terra. Por isso ficou conhecida com “vegetal de outro mundo”, e para muitos o grande mistério do asteroide havia sido resolvido. Era simplesmente uma semente que veio do espaço. Uma semente enorme que certamente produziria algum vegetal enorme.

Poucos meses depois, a esfera na ponta da haste que saía da boca do vulcão abriu-se com várias folhas ramificadas que captavam luz solar numa velocidade absurda. Muitos engenheiros disseram que clonar essas folhas resolveria os problemas na obtenção de energia limpa da humanidade, mas antes que todos os estudos estivessem concluídos não foi permitido explorá-la.

Aos poucos a haste se tornava cada vez mais grossa. Nos três ciclos seguintes entre inverno e verão, o caule tornou-se um tronco tão alto e grosso que acabou ultrapassando os limites do próprio vulcão onde ele nasceu, fazendo toda a montanha rachar-se e vir abaixo. Logo após isso ter acontecido, grande parte do gelo acabou enfim derretendo, revelando o gigantesco organismo complexo que havia se formado abaixo da crosta. Era um ecossistema completo e fechado, aonde algas, fungos e plantas menores dependiam um do outro numa perfeita simbiose. Foi descoberto que a destruição da camada de ozônio fazia parte do seu ciclo vital, para que o organismo pudesse aproveitar totalmente os raios solares. Em menos de um ano suas dimensões estendiam-se por centenas de quilômetros ao redor do vulcão inicial. Suas raízes se espalhavam por todo o continente antártico, cada vez mais fundo no subsolo, consumindo nutrientes e captando todos os minerais a sua volta, reorganizando-os em seu próprio benefício. Estava tão grande que podia ser visto do espaço como um borrão verde a cada dia maior e mais denso.

Era difícil estudá-lo, pois além da alta radiação e raios ultravioletas, muitas de suas plantas emitiam toxinas e essências venenosas altamente perigosas, tornando impossível aos homens se aproximarem. Descobriram apenas que os gases que continuavam a se elevar para a atmosfera estavam altamente concentrados com um tipo de bactéria responsável por transformar o nitrogênio do ar em amônia líquida através de um processo natural conhecido como fixação. A amônia caía ao solo e o enriquecia com nitrato, deixando a superfície fértil para que o organismo continuasse a crescer. A origem da bactéria era terrestre, e não desconhecida como se supunha, mas por alguma razão ele se multiplicava em alta velocidade naquele ambiente. De certa forma, o organismo não estava se adaptando ao nosso planeta, mas sim o alterando para que ele pudesse prosperar.

Autoridades debateram incessantemente sobre tentar destruí-lo ou deixar que ele continuasse se desenvolvendo, pois muitos diziam que aquela coisa poderia crescer demais e isso poderia ser uma grande ameaça. No final das contas não fizeram nada, mas logo todos acabaram descobrindo que qualquer tentativa de eliminá-lo teria sido em vão.

Isso aconteceu quando a grande espécie de árvore que se formou no local onde antes havia o vulcão enfim amadureceu completamente. Seu tronco media mais de três quilômetros de altura e seus galhos se ramificavam por quase trinta quilômetros ao redor do topo. Nessa época, mais de dois terços de todo o gelo do continente havia derretido, alterando parte da geografia do planeta. Alguns ramos altos e pontiagudos de cor arroxeados que cresciam principalmente na zona periférica ao redor do organismo começaram a inflar, ficando cada vez mais esférico. Muitos acreditaram que aquilo poderia ser alguma espécie de fruto, mas em pouco tempo eles começaram a explodir, um a um, disparando centenas de novas sementes para o alto, cobrindo grandes distâncias. Essas sementes tinham o tamanho e o formato idênticos aos do asteroide que deu origem a tudo aquilo.

Foram exatamente 972 sementes disparadas, das quais 249 venceram a força da gravidade e saíram da órbita da Terra, passando a vagar pelo espaço. Aquele organismo era, portanto, alguma espécie vegetal que aparentemente estava se auto-semeando pelo universo. 467 sementes caíram nos oceanos, enquanto as 255 restantes se espalharam pelos continentes. Uma delas entrou em órbita terrestre como um satélite, percorrendo uma distância enorme e acabou sendo atraída pelo polo magnético oposto do planeta.

Se todas aquelas sementes virassem novos organismos, a humanidade estaria perdida. Os líderes mundiais se lamentaram por não terem tentado destruí-lo enquanto havia tempo. Um plano de emergência foi elaborado e os países mais ricos tentaram lançar as sementes para o espaço, usando foguetes e enormes canhões de hidrogênio recém-projetados, mas isso estava gerando uma enorme despesa e todo o esforço certamente seriam em vão, pois apenas três das sementes que caíram no fundo dos oceanos puderam ser localizadas. Mais cedo ou mais tarde os organismos iriam invadir os continentes.

Tentaram então abrir e destruir as sementes antes que germinassem, porém a casca dura de lonsdaleíta era difícil de perfurar e isso apenas acelerou o processo. Tentaram guardá-las em cofres-fortes e construir abrigos com paredes grossas de chumbo ao redor delas, ou mesmo enterrá-las em bunkers bem fundo para amenizar os efeitos quando elas explodissem, mas isso também foi inútil. Quando as sementes entraram em fusão e sua pressão interna aumentou, nada conseguiu detê-las.

Tudo aconteceu exatamente igual: as sementes explodiriam como bombas nucleares, devastando campos e cidades e espalhando radiação pelos continentes, penetrando o solo em forma de magma, provocando uma enorme erupção que expelia rochas derretidas e gases, formando chuvas ácidas e depois chuvas de amônia líquida, e então um novo vulcão se erguia e dentro dele um novo organismo se desenvolvia até chegar ao estágio de reprodução, quando novas sementes seriam lançadas. As explosões que ocorreram no mar aumentaram os índices de maremotos e tsunamis. Felizmente as pessoas foram evacuadas a tempo.

Isso iria se repetir até que todo o planeta fosse colonizado e se transformasse num único e gigantesco organismo interligado. Os cientistas previram que se isso acontecesse, as árvores mais altas desse vegetal poderiam chegar a mais de trinta quilômetros de altura. Chamaram essa predição de “efeito bonsai”, e significava que o organismo iria crescer enquanto conseguisse recolher nutrientes e minerais que o sustentasse. Nesse caso, todos os recursos da Terra seriam consumidos, e a camada de ozônio seria completamente destruída para facilitar a entrada dos raios ultravioletas que ele precisava para se desenvolver. A humanidade tinha duas opções: ou tentaria destruir a coisa, ou mudaria de planeta, pois de outro modo seria extinta em poucos anos.

Quando as hastes esverdeadas do caule começaram a surgir nas crateras dos novos vulcões, aviões tentaram destruí-los jogando grandes quantidades de napalm, mas isso fez a concentração de gás carbônico aumentar ao redor do caule, acelerando o seu crescimento. Usaram então bombas nucleares, porém nada disso adiantou. Embora as explosões destruíssem por completo o caule, poucos dias depois outro surgia em seu lugar, ainda maior e mais resistente, consumindo toda a radiação ao seu redor, alimentando-se dela. Suas raízes estavam profundas demais para tentar combatê-lo e não havia nada que a humanidade pudesse fazer para detê-lo.

Em lugares onde o clima era mais quente, os novos organismos cresciam mais rápido, destruindo as plantações dos homens. No entanto ainda levaria algumas décadas para que eles pudessem cobrir o planeta por inteiro, e então as pessoas tentaram apenas sobreviver, mudando-se para longe da radiação e dos gases venenosos que eles expeliam. Em pouco tempo o oxigênio da atmosfera dobrou, o que fez muitas pessoas acreditarem que a semente original vinda do espaço tinha sido uma providência divina. Um presente de Deus para salvar a humanidade, não para destruí-la. Essas pessoas diziam que o organismo foi enviado para livrar a humanidade do colapso ambiental que ela mesma estava provocando.

O que ocorreu na verdade foi uma grande histeria coletiva e loucura. Oxigênio concentrado provoca embriagues nas pessoas, deixando-as mais alertas, mais dispostas, mais felizes. Em contrapartida, isso encurta bastante o tempo de vida delas. O maior problema com a alta concentração de oxigênio, no entanto, foi em relação aos insetos. A maioria deles se adaptou ao novo ambiente, e como suas respirações acontecem através de pequenos canais que ligam suas células com o ambiente externo, o dobro de oxigênio fez com que eles ficassem muito maiores. Libélulas chegaram ao tamanho de gaivotas, enquanto besouros e baratas ficaram tão grandes quanto cães. Tornou-se comum naqueles dias as cidades que se mantinham intactas serem invadidas por insetos gigantes e famintos.

Os anos passaram e o organismo continuou a se multiplicar, lançando mais sementes, se espalhando cada vez mais pelo globo. Em dez anos o nível de oxigênio triplicou e as águas dos oceanos tornaram-se alcalina devido à alta concentração de amônia em sua superfície. Os insetos alcançaram o tamanho de carros, e a camada de ozônio estava praticamente extinta. As pessoas que restaram no planeta sofriam e usavam máscaras de filtragem para sobreviver, pois muito oxigênio chega a ser toxico para humanos.

Alguns tiveram a ideia de construírem cidades aquáticas dentro de esferas enormes produzidas com muitas camadas de plástico reciclado com quatro quilômetros de diâmetro. Essas bolhas eram autossustentáveis e possuíam um sistema de filtragem que barrava o excesso de oxigênio e os raios ultravioletas do sol, tornando-se ambientes perfeitos para o refúgio humano. Ficavam vagando a esmo pelos oceanos como se fossem pequenas ilhas itinerantes, comunicando-se umas com as outras através de sinais de rádio. Ironicamente a humanidade usou o lixo que estava destruindo o seu planeta para se salvar, no entanto as pessoas ainda continuam em alto risco de extinção na Terra. O plástico reciclado usado na construção das cidades-bolhas era feito de polietileno, que tem uma duração máxima de 600 anos antes de começar a desintegrar-se. Organismos vegetais podem viver por milênios, mas a humanidade, se sobreviver, viverá apenas o tempo que durar suas bolhas.

Não sabemos ao certo se eles ainda estão vivos. Perdemos contato com a Terra e suas colônias há mais de dez anos. Somos os descendentes dos escolhidos do programa espacial emergencial que foi feito durante o período em que o nível de radiação na Terra subiu demais. Estamos aqui, nessa estação escura flutuante, orbitando uma das camadas da atmosfera de Vênus, a cinquenta quilômetros acima de sua superfície. Este é um planeta muito denso para pousarmos. E querem saber? Mesmo se pudéssemos pousar, isso não iria dar certo, pois uma das malditas sementes disparadas pelo organismo saiu da órbita da Terra e veio parar aqui. A coisa também está adaptando Vênus às suas necessidades. Com alguns equipamentos podemos detectar sua radiação e enxergar as copas das árvores mais altas, que já estão atingindo quase 35 quilômetros de altura. Não sei se ficarão tão altas a ponto de nos ameaçar. Aparentemente o “efeito bonsai” também funciona por aqui.

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4 comentários em “O Organismo (Fabio Evangelista)

  1. JULIANA CALAFANGE
    13 de janeiro de 2016

    Também achei sensacional! Fiquei presa ao texto do começo ao fim! Oito páginas! Uma boa mistura de A Coisa com Invasores de Corpos. História muito criativa, trama muito bem escrita, cheia de ironia (os humanos sempre debatem mas nunca tomam uma providência, e quando percebem, já é tarde demais). Eu ajustaria pequenos detalhes da história, como esse q o Fabio mencionou aí em cima, sobre o tamanho dos insetos. Mas no todo eu adorei seu conto, encontrei pouquíssimos erros de revisão e não tenho nada mais a dizer senão “meus parabéns!”

  2. Davenir Viganon
    12 de janeiro de 2016

    Não tem muito o que dizer além do que o Fábio Baptista já disse.
    Gostei pra caramba. Não senti falta nenhuma de diálogos. A questão das plantas me lembrou “O Mundo Submerso” do J. G. Ballard, mas num ritmo de conto. Obrigado pela experiência de ler tua história. Parabéns!

  3. Fabio Baptista
    12 de janeiro de 2016

    Fala aí, xará!

    Cara, gostei muito desse conto. Você escreve muito bem, todas as passagens ficaram bastante claras.

    Só teria trocado um interromperam por cessaram e um relatarem por relatar. Mas isso é o de menos.

    A trama foi excelente, você conseguiu gerar expectativa no leitor a cada movimento do asteroide/semente.

    Só no finalzinho torci o nariz para o crescimento abrupto dos insetos… porra, em algumas décadas ACHO que não ficariam do tamanho que ficaram, mesmo com todo O2 e radiação disponíveis.

    Essa história poderia render algo bem maior, hein? Mostrar mais de perto como algumas famílias reagiram, dar personalidade a alguns cientistas, etc. Mostrar melhor o drama humano diante da ameaça.

    Ótimo plot, ótimo desenvolvimento.

    Parabéns!

    • Fábio Evangelista
      14 de abril de 2016

      é verdade, não sei se insetos cresceriam tanto em algumas décadas. Valeu pelo incentivo 😉

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Publicado às 10 de janeiro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .