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Literatura que desafia.

Fluam, minhas lágrimas, disse o policial – Resenha (Davenir Viganon)

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“Fluam, minhas lágrimas, disse o policial” (Flow my tears, the policeman said) é uma das obras mais emocionais e intimistas de Philip K. Dick. O autor aborda temas como identidade, drogas e em menor proporção a fama e a governos autoritários.

 

História

O mundo onde se desenrola a história é uma ditadura da polícia, fruto de uma segunda guerra civil nos EUA. Nela, estudantes vivem sob cerco nos esgotos, os negros foram esterilizados e projetos de reprodução de eugênia chegaram a ser tentados. A televisão ganha muito mais influência nessa sociedade, onde a tecnologia de carros voadores e viagens interplanetárias são corriqueiras.

Acompanhamos Jason Taverner, uma celebridade, que possui um programa semanal na TV e vários discos gravados, não demora muito para vermos que Jason é um sujeito manipulador e egoísta que usa seu charme para conseguir o que quer. Depois de uma discussão com uma ex-amante que atentou contra sua vida ele acorda em um quarto de hotel, sem documentos. A partir daí, ele descobre que ninguém sabe quem ele é. Todos os conhecidos com quem tenta contado, parecem desconhece-lo. Os registros oficiais mostram que ele nunca existiu e a sua jornada pela busca de sua identidade se inicia. 

Capa da primeira edição brasileira com o tosco nome de: 

“Identidade Perdida – O homem que virou ninguém”


Identidade e a “resposta” científica
Um dos elementos originais aqui é como Dick aborda a perda da identidade. Em livros como em “Identidade Bourne” de Robert Ludlun, e em muitos filmes temos , na maioria das vezes um personagem principal que perdeu sua memória e busca sua identidade procurando certas pessoas que o conhecem e fugindo de outras. Em “Fluam minhas lágrimas”, Taverner sabe quem é, mas o mundo ao seu redor o desconhece. A presença da fama em sua vida e o mundo tomado por uma ditadura policial agravam seu drama.

A busca de Taverner o leva a um dilema constante, não exclusivo deste livro, mas na obra de Dick como um todo: qual o limite entre o real e o irreal? Não nos é oferecido um chão seguro para pisar. Entramos nas dúvidas de Taverner e continuamos a querer saber o que aconteceu. Em certo momento teremos as respostas cientificamente embasadas para os questionamentos de Taverner, ouvidas da boca de um cientista. Contudo percebemos o quanto essa resposta deixa um vazio. A ciência aqui é apenas capaz de mostrar “como”, mas não o “por que” de tudo ter acontecido daquela forma.


Conclusões
O tom intimista da obra é um prenuncio para o quase autobiográfico VALIS. As pessoas que Jason vai conhecendo, com seus dramas pessoais misturando-se aos dele são mostradas com muita sensibilidade por Dick, isso nos impede de rotular qualquer personagem sumariamente. Este é um efeito que engrandece a obra. Neste ponto, vejo a obra de Dick como uma homenagem aos amigos que perdeu para as drogas e que ele próprio seria vítima quando da sua morte em 1983.

Curiosidade: Música “Flow my Tears” que inspirou o título do livro “Flow my tears, the policeman said“. Quem é fã como eu vai reler as reflexões do policial ouvindo esta música. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=9eW3dCuRwc4

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4 comentários em “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial – Resenha (Davenir Viganon)

  1. Fabio Baptista
    8 de dezembro de 2015

    Mandando bem nas resenhas, cara! Parabéns.

    Philip é mais um autor que pretendo conhecer em breve.

    • Davenir Viganon
      9 de dezembro de 2015

      Valeu.
      Aproveita e coloca uns pontos de XP lá no meu Ranking que eu quero subir de lvl.
      :v

  2. Brian Oliveira Lancaster
    8 de dezembro de 2015

    Mais um livro (antigo) vítima das traduções bizarras de títulos. Asimov era o campeão nessa categoria. Esse eu não conhecia, quem sabe dê uma chance após a fila que me espera.

    • Davenir Viganon
      9 de dezembro de 2015

      Espero que este dia chegue e que tu se lembre de voltar aqui. Eu estou aproveitando o fim de ano que a faculdade afrouxou as rédeas e to riscando uns nomes a minha fila. O resultado até o momento foram esta e a outra resenha do Neuromancer. Sem contar outros dois livros com resenhas incompletas.

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Publicado às 5 de dezembro de 2015 por em Resenhas e marcado , , .