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Literatura que desafia.

Neuromancer – Resenha (Davenir Viganon)

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Neuromancer é acima de tudo um clássico da Ficção Científica. Um livro básico para imergir na literatura cyberpunk. É um mundo que combina altas doses de tecnologia mas que, ao mesmo tempo, não se converte numa melhora na qualidade de vida, muito pelo contrário. A vida é alterada profundamente neste mundo. Implantes cibernéticos e soquetes para programas que acessam diretamente o cérebro, tornam a tecnologia invasiva e pervasiva, ou seja, é impossível ficar distante dela pois está em toda parte. Isso se deve ao aspecto mais marcante desta sociedade imaginada por Gibson: a predominância do ciberespaço.

A história

Neuromancer acompanha a história de Case, um cowboy do ciberespaço, um hacker talentoso em invadir e roubar informações de bancos de dados de corporações. Case trabalhava para organizações criminosas que requisitavam os seus serviços, contudo ele cometeu a besteira de roubar seus patrões que se vingaram injetando uma toxina que o impede de acessar a Matrix (o filme foi inspirado neste livro), que é um ambiente de ciberespaço como é a Internet hoje.

Case conhece então Armitage, um ex-militar misterioso que oferece uma cura que o tornará cowboy novamente trabalhando para ele e Molly Millions, uma “razor-girl” que trabalha de capanga de aluguel para Armitage. Molly já havia aparecido no conto “Johnny Mnemonic” e faz uma aparição em Monalisa Overdrive, o terceiro livro da Trologia do Sprawl do qual Neuromancer faz parte. Ela é uma mulher de muita personalidade, independente e que não cai na masculinização, nem na hipersexualização, tão comuns nas personagens femininas fortes na Ficção Científica. Outro destaque vai para as Inteligências Artificiais que rendem diálogos tão fluidos quanto bizarros, como quando Case conversa com uma IA baseada num cowboy já falecido chamado Dixie Flatline.

neuromains_by_deimos_remus-d8lg6dbNeuromancer hoje

Muitos não conseguem ficar longe do whatsapp, já é um exemplo atual de como a presença do ciberespaço nos ocupa. Apesar do autor sequer imaginar o uso de telefones celulares hoje (vale lembrar, que nenhum autor de FC nunca teve obrigação de fazer adivinhações ou profecias), a necessidade de ficar perto de alguma forma ao ciberespaço e a impossibilidade de ficar totalmente alheio a ele concede um elemento premonitório a obra. O drama de Case é a possibilidade de talvez nunca mais poder acessar o ciberespaço. Hoje um drama cotidiano de quem fica sem bateria no celular. Isso foi muito inovador no inicio dos anos 80, quando o livro foi escrito e lançado.

Conclusões

Neuromancer não é um livro fácil. É sobre o submundo com uma linguagem de submundo. É repleto de termos técnicos. A versão comemorativa (lida para esta resenha) possuí um glossário para ajudar nos termos mais complicados, mas recomendo usar um lápis para anotar no final do livro outros termos estranhos ao leitor não contemplados. Existem termos inventados por Gibson para coisas que tem outro nome hoje pois que não existiam na época, como o Firewall, que na obra é ICE.

O livro é acusado de ser mal escrito, porém é difícil avaliar o quanto disso é realmente falta de habilidade de Gibson e o quanto é falta de compreensão ás referências frequentes a arquitetura, cultura pop e computação que travam a leitura mais descontraída. Inclusive, é comum saber de pessoas que já largaram a leitura em virtude disso. Particularmente, não senti a leitura travar tanto pois os assuntos correlatos me interessam e a dica do glossário me ajudou bastante. Mas para aqueles aceitarem o desafio verão uma obra que não previu, mas lançou bases para entendermos uma parte importante do mundo hoje. Quem encara?

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Originalmente publicado em: http://www.wilburdcontos.blogspot.com.br/2015/11/resenha-neuromancer-william-gibson.html

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2 comentários em “Neuromancer – Resenha (Davenir Viganon)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    2 de dezembro de 2015

    Sempre tive curiosidade em ler este livro. O bizarro filme “Johnny Mnemonic”, onde por coincidência do universo contém como personagem principal também o Keanu Reeves, capta bem essa atmosfera densa e sem saída. Já “Matrix”, se deu bem por pegar elementos diversos, pop e atuais, senão seria obscuro ao extremo como esse seu primo distante, cyberpunk de raiz.

    • Davenir Viganon
      2 de dezembro de 2015

      O Johnny Mnemonic é muito trash. Não dá pra recomendar kkkk.
      Matrix é aquela coisa toda… puxou elementos do Neuromancer e fez uma releitura estética bem interessante, mas que por se tornar um novo padrão em filmes de ação já me cansou. Interessante notar que Neuromancer, inspirou esteticamente o Blade Runner, que por usa vez era a referência em filmes de ação feitos depois, como Mad Max e outros que to com preguiça de listar agora…

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Publicado às 2 de dezembro de 2015 por em Resenhas e marcado , , .