EntreContos

Literatura que desafia.

É melhor roer (Anorkinda Neide)

Murilo andava apaixonado. Estava namorando há meses com Vanessa e pouco sabia dela além de suas manias. Como essa mania de não falar sobre si mesma ou de seu passado. Mas, tudo bem, ele gostava de estar em sua companhia, era divertida, bonita e gostosa. O rapaz não conseguia saber que idade Vanessa tinha, pois ela não dizia e às vezes ela parecia mais velha que ele, com uma maturidade ímpar e outras, uma menininha, o que lhe encantava ainda mais. Mas aquela mania de roer as unhas enquanto transava, era um pouco demais.

– Foi bom pra você, amor?

– Você sabe que é sempre bom, por que sempre pergunta? – Ela responde perguntando enquanto cospe a última mini-lasquinha de unha que valorosamente conseguiu tirar daqueles dedinhos delicados e já com poucos indícios de unha propriamente dita.

– Bem, porque você fica aí roendo unhas enquanto eu faço todo o ‘serviço’…

Não era bem assim, porque a moça mostrava-se bem fogosa nas preliminares, fazia carícias como se unhas tivesse, que excitassem Murilo, só que elas não estavam lá, as unhas. Mas num dado momento ela levava às mãos à boca e não parava de roer unhas até que terminasse o encontro sexual em si. Sendo assim, só admitia ficar por baixo e o rapaz já doido pelo prazer, cedia e metia com regularidade e afinco. Pois todo apaixonado age por instinto de preservação da relação.

– É que eu gosto de você, você sabe…

– Você rói as unhas porque gosta de mim? – Murilo teve que sorrir ante aquele disparate.

– É, amor… Acredite, é melhor roer…

– Do quê o quê?

– Olha, deixa assim, tá bom? – Vanessa segura o rosto do namorado e lhe dá um beijo confortante.

Dias depois eles estavam num barzinho que costumavam frequentar com os amigos de Murilo todas as sextas-feiras.  Mas aquela noite viria a ser determinante no destino do casal…

– Murilo! Que bom te ver, amado! – Val achegou-se à mesa e enlaçou o rapaz num abraço prazeroso.

Vanessa sabia quem era ela, tinha visto fotos no notebook de Murilo, era sua ex-namorada , moraram juntos por dois anos.

– Val, tudo bem? Quero te apresentar a Vanessa.

A moça deu um meio sorriso mas não estendeu a mão, muito menos se mexeu pra trocar beijinhos com a ex de seu amor. Val também não lhe deu atenção maior do que um muxoxo fingindo ser um cumprimento e seguiu conversando com Murilo:

– Eu tava mesmo querendo falar com você… Tá sabendo que o Patrício chega da Holanda depois de amanhã? Eu tava querendo combinar de ir buscá-lo no aeroporto e não consegui contato contigo. Vamos? Muitas saudades do Patrício, puxa vida! – ! – Ela falava procurando os olhos de Murilo, isto incomodou muito Vanessa.

– Vamos ver, sim! Cara parceiro demais… E nossas farras com ele e Bruna? Demais! Boas lembranças. Me avise do horário em que ele chega e vamos no aeroporto, que bom que será no domingo, tô livre no domingo.

– Então tá, te passo por celular amanhã o número do voo e horários e nos vemos no aeroporto, ok? Que bom te ver… – e lembrando de Vanessa – que bom ver vocês… – emendou ela sem muita empolgação.. Por um instante lhe pareceu ver uma cor vermelha nos olhos de Vanessa, foi um piscar e a moça achou que algo havia refletido direto no rosto de Vanessa, até seu cabelo pareceu ter avermelhado por alguns segundos. Val sentiu um arrepio.

– Valeu, Valzinha! Até domingo! – E Murilo estatelou um beijo no rosto da moça, todo simpático.

Quando lembrou de olhar para Vanessa minutos depois, viu que a namorada estava roendo as unhas, achou aquilo muito estranho, ela fazia isso unicamente na hora da transa! Mas não prestou maior atenção ao fato e os papos de botequim continuaram normalmente até bem mais tarde.

No carro, voltando para casa, Murilo perguntou:

– Amor, porque você estava roendo as unhas hoje no bar? Você nunca fez isto!

– Eu estava com vontade de matar alguém…

– Nossa!! – e Murilo gargalhou de susto. – Quem você queria matar, amor?

– Aquela tal de Val.

– Ah… com ciúmes, que bonitinha!

Seguiram viagem em silêncio, quando estacionou na garagem do prédio, o rapaz abraçou Vanessa e lhe disse:

– Vem cá, ciumentinha… Não precisa preocupar-se com a Val, o lance entre a gente terminou faz tempo.

– Não parecia muito terminado, não…

– Boba. Eu gosto de você. Pensa mais nela não, tá bom? Você tem a sua mania de não me contar nada do seu passado, então não vamos falar do meu também, certo?

Vanessa parecia nesse momento uma menininha insegura. Contentou-se com os beijos e carinhos de Murilo pelo resto daquela noite.

O celular tocou no final da manhã, Murilo estava no banho e não ouviu. Vanessa estendeu o braço de dentro das cobertas e ia apenas desligar para que parasse de tocar, mas viu o rosto da Val no visor e em seguida, entrou a mensagem: “Amado, o voo é o A790, chega as 15:00. Te vejo lá? Vc vem sozinho? Bjs.”

Os olhos de Vanessa faiscaram de raiva. Ela colocou o celular de volta na cabeceira da cama e cobriu-se com o cobertor até a cabeça, quando o rapaz voltou ao quarto não percebeu que a moça estava acordada e roendo as unhas.

Somente quando estavam à mesa tomando o café da manhã, Murilo apanhou o celular e respondeu a mensagem de Val, disfarçadamente Vanessa conseguiu ver por cima do ombro do rapaz o que ele escrevera: “Ok. Vou sozinho sim. Bjs.”

Quando Vanessa foi embora dali a uns minutos, combinaram de se ver novamente na segunda-feira, o rapaz não imaginava que ela havia tomado uma decisão…

No jantar de segunda-feira, Vanessa contou que decidiu deixar as unhas crescerem.

– Sério, amor? Uau, vai rolar um sexo normal, então? Hoje? – Murilo extasiava com a possibilidade de mudança na relação. Quem sabe tudo mudaria dali pra frente?

– Não. Você não entendeu, sem transa até as unhas crescerem.

– Eita! Quanto tempo leva isso?

– Um mês mais ou menos.

O rapaz a encara meio desconfiado, mas vê que ela fala sério e a perspectiva de ter um relacionamento normal com a menina/mulher que tanto o fascina, o convence.

– Tá bem, eu espero.

Murilo decidiu fazer uma pequena viagem de trabalho naquele mês, vinha bem a calhar e agradaria o chefe, pois que ele vinha adiando a tarefa de sair da cidade por causa mesmo de Vanessa. Mas agora seria bom concentrar-se no trabalho esperando as malditas (ou benditas?) unhas crescerem.

Ao preparar um jantar especial para aquela noite que Murilo voltava de viagem, Vanessa estava séria e algo amuada ao mesmo tempo que borboletas lhe agitavam o estômago… Ela sabia que a noite seria ótima e transformadora e isso a deprimia. Era antagônico, mas era algo a que a moça já estava habituada, embora tentasse evitar sem nunca conseguir.

Murilo chegou e logo pegou nas mãos da moça, observando suas unhas grandes, bem feitas e pintadas de preto. Ele sorria, meio bobo:

– Nunca pensei que unhas fossem significar algo tão bom! – Murilo riu aberto e feliz beijou sua namorada com prazer e dedicação.

Ela estava mais quieta naquela noite, mas o rapaz estava tão excitado que não reparou. Vanessa acariciava as próprias unhas, pensativa, mas também a isso ele não prestou atenção. Apenas queria que o tempo passasse rápido pra que eles fossem pra cama o quanto antes… Como Murilo desejou uma noite de sexo normal com sua paixão!

Mas o que poderia ser normal com Vanessa? Nessa noite todas as suas carícias foram concentradas nas unhas. Várias vezes ela fingia arranhar, quase enterrava as negras saliências de seus dedinhos delicados na pele do rapaz e este exultava de tesão. Vanessa estava parecendo naqueles momentos ser uma mulher madura e decidida e muito hábil… ah… muito hábil na arte da sedução… Finalmente eles experimentaram várias posições, o rapaz não cabia mais em si, literalmente, de alegria e prazer quando, talvez por azar ou uma infeliz cartada do destino, ela ficou por baixo, no tradicional papai-e-mamãe… A moça, então por um instinto desconhecido levou as unhas a acariciar as costas de Murilo, com frenesi, no ritmo dos movimentos dele e mais e mais e mais. E mais as unhas afundavam na carne do rapaz e mais ela movimentava as unhas para cima e para baixo, marcando a pele, rasgando a pele, deixando um sulco aberto sanguinolento e a moça não parava de cravar as unhas fazendo aquele desenho cruel no rapaz que agora gritava de dor mas sem conseguir afastar-se de Vanessa, era como se ela possuísse uma força sobre-humana que o mantinha ali, em cima dela, agoniado de dor com dois profundos cortes nas costas em sentido vertical e estes cada vez mais fundos e rasgados e doloridos.

Vanessa estava em transe de prazer, parecia estar num gozo infinito quanto mais suas unhas trabalhavam a pele de Murilo. Ao rapaz, pareceu ter visto num vislumbre, os olhos e cabelos da mulher ficarem vermelhos e logo voltarem ao normal, por várias vezes, mas poderia ele estar alucinando de dor, já não sabia mais de si até que finalmente desmaiou ao mesmo tempo em que ela deu-se por satisfeita.

A moça empurrou Murilo para o lado e levantou-se para se vestir. De longe, olhou para o rapaz ensanguentado, desfalecido na cama e sentiu pena de si mesma, falando com os botões de sua blusa, disse:

– Novamente ir embora, recomeçar noutro lugar e tentar não se apaixonar. Será que um dia você consegue, Vanessa?

Ao sair, não olhou para trás:

– Ao menos a foda foi boa!

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10 comentários em “É melhor roer (Anorkinda Neide)

  1. Neusa Maria Fontolan
    9 de janeiro de 2016

    A Vanessa aqui novamente e com uma história levemente diferente. Continua sendo uma boa história. Beijos Kinda.

    • Anorkinda Neide
      13 de janeiro de 2016

      Obrigada, querida.
      É a primeira historia da trilogia de duas… hahaha
      bj!

  2. Fabio D'Oliveira
    5 de janeiro de 2016

    ௫ É melhor roer (Anorkinda Neide)

    ஒ Físico: Acompanho a escrita de Kinda há muito tempo. Quando se trata de poema, ela escreve de forma maravilhosa, tão natural, tão viva… No entanto, quando ela começou a escrever contos, senti certa dificuldade, pois a prosa parecia mais poesia do que qualquer coisa. Aos poucos, ela foi melhorando, dando aquela consistência sólida e objetiva que os contos geralmente exigem. E esse conto é um exemplo da sua melhoria. Bem escrito, com aquele toque poético característico da autora, e natural. Kinda merece os parabéns por essa bela conquista! CLAP, CLAP, CLAP!

    ண Intelecto: Uma coisa que admiro dessa autora é sua habilidade ao dar vida para seus personagens. A personalidade é sempre bem desenvolvida. Às vezes, no entanto, acabam caindo em estereótipos, encarnando símbolos de ideias que existem há muito tempo. Como o herói e o vilão das estórias. Nesse conto, porém, encontramos personagens mais complexos. Não sabemos quem é Murilo de verdade. Não sabemos o motivo da Vanessa tomar tal decisão agressiva. Isso tudo está na estória de fundo, que não foi explorada nesse conto. O fato de não haver a exploração dessas estórias acabam sendo um peso negativo para o texto, mas esse não é o fator que quero discutir. E sim o fato de criar personagens que agem como seres vivos de verdade. Com motivações próprias e etc. Kinda fez isso bem nesse texto. Agora, em relação ao enredo, existem muitas subtramas que deixam o leitor um pouco confuso. Sei que tem uma continuação — talvez o intuito da autora tenha sido esse, ou seja, fazer uma séries de contos sobre Vanessa —, cujo li no DTRL 25 e ainda devo uma análise, mas algumas coisas deveriam terminar de forma redonda, pois o enredo assim pede. A relação de Murilo e Val deveria ser melhor explorada e o motivo de Vanessa abandonar Murilo também. Não há problema em deixar algumas subtramas na neblina, como o passado da protagonista, mas a autora precisa terminar algumas coisas, como a relação dos enamorados. Tudinho relacionado a eles. Kinda é bem talentosa, sendo o esforço seu maior talento. Sei que irá fazer melhor na próxima vez.

    ஜ Alma: É um pouco difícil não reconhecer o estilo de Kinda. É sempre cheio de vida. E passa uma energia boa. Alguns contos são vazios e frios como a morte. Outros transbordam amor. Alguns fazem o leitor se sentir leve e de bem com a vida. A autora faz parte desse último grupo. É incrível como uma escrita com uma estória pesada desenhou um sorriso no meu rosto. Talvez seja a autora, também. É difícil separar a obra de seu autor, pois as coisas só funcionam e fazem sentido quando olhamos de forma holística. E todos sabem como ela é uma pessoa querida. A tradução de sua alma para o papel também é linda.

    ஆ Egocentrismo: É uma estória que não me cativou. Vanessa é uma personagem misteriosa e gostei do seu jeito, provavelmente me apaixonaria por ela na vida real, haha. Gostei mais da construção do Murilo do que propriamente dito dele. A leitura foi agradável, nem um pouco pesada, e terminei tranquilo. O que me desagradou foram as pontas soltas, como o porquê de Vanessa ter decidido ir embora. Foi uma leitura boa, mas poderia ser bem melhor.

    • Anorkinda Neide
      5 de janeiro de 2016

      Oi!! Que bom vê-lo aqui! ^^
      Entendo todos teus apontamentos, realmente escrever contos é um desafio pra mim, ainda, acho que sempre será! Que bom que sempre coloco a leveza que eu quero e mesmo não conseguiria fazer diferente… e que ela é bem aceita pelos leitores!
      Quanto ao enredo deste conto, eu apenas tive a ideia, queria escrever algo despretencioso e fora dos meus hábitos, veio a ideia de Vanessa ser assim, mutante e a ideia era ela ficar apenas aqui neste conto. Mas como vc disse, talvez eu tenha dado muita vida a ela e ela teve e terá q voltar mais vezes, pq ao tentar fechar as pontas soltas, eu abro umas outras mais…
      parece enredo de Lost 😛
      Abraçao, Fabio!
      Feliz ANo Novo!

  3. vitormcleite
    27 de novembro de 2015

    adorei este texto. muitos parabéns, parece que é um dos teus textos mais interessantes, no final apetece recomeçar, gostei muito pelo ritmo acompanhado do suspense e um toque de humor que nos faz ler com um sorriso no canto dos lábios. muitos parabéns, vais dar continuidade a esta história? merece… ou somos nós que merecemos mais textos assim?

    • Anorkinda Neide
      30 de novembro de 2015

      Oi, Vitor!!!
      Rapaz, na continuação um personagem leva teu nome………ehehe vais gostar. Trarei o novo texto depois do desafio de fim de ano, ok?
      Que bom que sorristes, é quando a literatura faz bem!
      Obrigada!
      Abração

  4. Brian Oliveira Lancaster
    26 de novembro de 2015

    Tá inspirada para o último desafio hein? Bem criativo, levemente cômico e com suspense na medida certa. Não faz muito meu estilo de gênero, mas conseguiu prender a atenção até o fim, com essa mistura de cotidiano e fantasia urbana.

    • Anorkinda Neide
      30 de novembro de 2015

      Olá Brian! Obrigada pela leitura!
      Que bom que consegui atiçar tua curiosidade pela leitura desta desventura.. rsrrs
      Abraço

  5. JULIANA CALAFANGE
    26 de novembro de 2015

    Anorkinda, gostei da sua ideia. É um bom suspense. Minha única sugestão é que vc revisasse mais, dando atenção à linguagem e às palavras. O clima do texto é de suspense, a escolha de palavras e o ritmo da linguagem colaboram pra esse clima. E podem colaborar ainda mais, é só dar uns ajustes. Bom trabalho!

    • Anorkinda Neide
      30 de novembro de 2015

      Olá, obrigada pela leitura!
      Juliana, vc pode dar as sugestões que acha pertinentes para a melhora do meu texto… Estarei aguardando… 😉
      Abraço

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Informação

Publicado às 25 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .