EntreContos

Detox Literário.

O Escritor (Sandra Datti)

Oscar Wilde, 1882

Do outro lado, o escritor via um par de olhos vermelhos desnorteados e aflitos a dizer algo, cujo sussurrar se perdia num vácuo inexistente. Embriagados de lágrimas profanas, aqueles olhos perdidos já não mais possuíam a capacidade de unir os sentidos e de tecer significados: somente enxergavam o vazio e o desconexo.

Folhas em branco descansavam sobre a pequena mesa e pareciam indiferentes à guerra próxima. Lá no fundo de algo vivo que ainda existia dentro de si, um desejo de escrever, produzir algo, friccionava-lhe o coração barrigudo: aquela vida queria vir à luz antes de… Mas a inspiração, essa parturiente desordeira e preguiçosa não estava as suas ordens. Não, não estava a fim de retirar de si o cobertor do desânimo que a aconchegava em meio ao caos interior, ordinário do escritor. E a folha branca, lambuzou-a de alguns poucos estilhaços molhados de cristais sem vida, sem nobreza, sem valor… Sobrou-lhe apenas uma folha orvalhada desmanchada em suas mãos suarentas. No canto do espelho, o interlocutor podia ver um resíduo de inspiração a tirar um cochilo impregnado de despreocupação.

De repente, ele fingiu sorrir. E sorriu de mentira, com a boca azeda pelo sono que não vinha, pela dor do perdido, pela vida que estava escapulindo de suas mãos maduras… O interlocutor, sem compreendê-lo, apenas chorava em silêncio de amigo. Não se demorou, e milhares de lágrimas de ambos os lados estrebucharam-se sobre a mesa da escrivaninha e juntaram-se àquele pedaço de pau morto.

A madrugada nebulosa esfregava-se na noite fria; talvez, estivessem fazendo amor. Não o amor dos homens, pensou o escritor, mas um amor transcendente, num lugar onde a raça humana não pudesse pisar seus pés imundos!

Uma gota de adrenalina lhe passou pela corrente sanguínea com fúria. Ele sentiu suas mãos tremerem. Viu então seu resto de consciência sendo comida pela morte, que estava logo ali à espreita, amotinada por cima dos cadernos velhos e amarelados, caixões onde adormeceriam para sempre sua poesia mofada, seus personagens abortados, suas histórias em ruínas.

Ele passou os olhos perdidos pelo quarto e através de suas paredes reconheceu sua vida tão vazia de sentido que uma nova onda de lágrimas desabrigou os últimos moradores de sua sanidade. Um desejo mórbido de ser nada, vácuo, apossou-se de si. Ele era a noite. E queria morrer nela.

Sem prestar atenção no brilho apagado das estrelas que gritavam aflitas, ele inspirou profundamente, deixando uma última transcendente onda gigante acabar com o pouco que restara do litoral perdido dos olhos em frangalhos. Assim, olhou mais uma vez através da névoa densa, procurando com avidez o contorno do extenso jardim santista da orla praiana – o maior do mundo. Mas, incrivelmente, nada podia enxergar. Uma falta de ar encheu seus pulmões de mais vazio. Uma voz rouca, vinda, talvez, de sua falta de consciência, suspirou através de si pelos poros e ditou-lhe sua última ordem. Mas ele manteve-se firme, parado ali, esperando o final da madrugada.

Quando a luz do sol deslizou sobre o horizonte, libertando a luz da névoa, ele respirou fundo e fechou os olhos pesarosos. Precisava dar cabo naquilo. Naquilo que ainda o fazia algo. E olhou com um olhar infernal para o espectador que, sóbrio, teimava em acompanhar o amigo naquele fim de estrada tão próximo.

Não queria mais olhar para si. E fechou os olhos para o fantasma que estava prestes a abortar do corpo enfraquecido. Na escuridão dos sentidos, uma inundação lhe trazia o vômito criativo que a vaidade lhe aprisionara durante anos. Personagens, versos, histórias que nunca vieram à luz do dia transbordaram através do cerne de sua centelha ainda presa na carne endurecida.

Aturdido por ter alcançado o inalcançável, fitou o companheiro, profundamente. Diabólicos olhos vermelhos arregalados que jaziam, meio vivos, meio mortos, postaram-se frente ao papel branco (sua primeira inspiração sempre se deitava sob o auxílio de papel e caneta). E escreveu. Escreveu toda a lucidez perdida em seu caos oceânico que boiava como náufraga a deflagrar as últimas forças. Quando resgatada, deu seu último suspiro e partiu para o céu dos aventurados. O escritor pariu, finalmente, sua obra-prima.

Pela última vez e, tragado por uma mescla de tristeza e êxtase, aproximou-se do interlocutor com um sorriso sádico. Havia uma aura de terror naquele momento e o interlocutor sabia que o reflexo a sua frente chamava-se espanto. Serenamente, o interlocutor postou as mãos em prece, arregalou os olhos febris e os escancarou muito lúcidos para o escritor.

O escritor enlouquecido agarrou o que estava a sua frente pelas laterais frias, aproximou-se do parapeito da janela, suspirou, fechou os olhos invadidos pela escuridão e, num gesto repentino, empurrou o interlocutor. Um barulho de estilhaço fora ouvido do lado de fora, dois andares abaixo. Sem quaisquer sinais de arrependimento, o escritor debruçou-se no parapeito da janela e sorriu com um sadismo sórdido, insano.

Adentrou ao quarto escuro e sem alma. Pegou as folhas rascunhadas e leu mais uma vez, sorriu em êxtase profundo pela beleza daquele momento. Mas um barulho de gritos e palavrões chegavam aos seus ouvidos.

Sentiu-se como um náufrago, de repente. Talvez, a consciência, a lucidez que dormitara em algum lugar de suas ruínas estivesse despertando. Ele olhou para a parede lateral à procura do amigo de anos. Ele, com seus olhos amáveis, companheiros que sempre o apoiavam, o escutavam, o libertavam de sua solidão, desaparecera daquele canto frio.

O escritor fora invadido por uma tempestade de raios que adentraram em sua mente vazia e lhe davam um choque quase insuportável a cada chicoteio no solo infértil de seus pensamentos. O grito da multidão do lado de fora o sacudia, fazia sua cabeça doer, seu corpo estremecer, sua alma desejar partir… E ele foi à janela, mas não sem antes, acender um isqueiro e embebedar com o fogo da purificação aquela escrita sagrada que chegara ao apogeu. E as folhas, os rabiscos, as ideias, personagens foram morrendo, entregando-se, submissamente, à morte sem qualquer reação.

Cambaleante, ele largou tudo e foi, novamente, ao parapeito da janela. Uma multidão gritava e a polícia já estava no local.

__ Tudo foi tão rápido. – disse um transeunte aos curiosos. – Aquele louco foi à janela e, de repente, arremessou aquele espelho enorme através dela.

__ Pegou, sim, o taxista. – concluiu uma senhora já de certa idade – Por pouco, não teria conseguido se livrar daquele objeto. Raspou-lhe apenas no braço. Ficou vidro para todo lado… Olhe…

Possuído por um impulso instintivo de se implodir e exterminar a si mesmo, o escritor, sem a presença do amigo que estava sempre a acompanhá-lo, deixou que o respingo daquele fogo ardente consumisse não somente as folhas de papel, mas também sua casa, seu corpo, quiçá, sua alma sem rumo. Contudo, antes de a escuridão apossar-lhe dos sentidos, viu-se frente ao fantasma companheiro de seu delírio e a ele se abraçou, implorando-lhe o perdão. Então, sua alma meio viva, meio morta, meio não- sei-o-quê, lançou-se para fora de si, e tal como um espírito perdido, passou a voar com seu companheiro inseparável no paraíso rebuscado da loucura.

Anúncios

5 comentários em “O Escritor (Sandra Datti)

  1. Fabio D'Oliveira
    7 de janeiro de 2016

    ௫ O Escritor (Sandra Datti)

    ஒ Físico: A característica mais marcante do estilo de Sandra Datti é seu vocabulário riquissímo. A forma como ela consegue empregar essas palavras tão vastas com tamanha precisão revela seu domínio da lingua portuguesa. Isso é admirável, principalmente num país onde a educação ainda é precária. Mas sua escrita não é perfeita. Há muitos problemas na narrativa, tão grandes que podem acabar ocultando as qualidades inegáveis. Sandra Datti não sabe quando parar de fazer jogos com as palavras. É uma brincadeira atrás da outra. São adjetivos atrás de adjetivos. Não há um resquício qualquer de simplicidade na escrita. Não há um ponto de descanso. E o pior é que a autora não cansa de escrever dessa forma. Isso tudo gera um grande cansaço até para o leitor mais paciente. O estilo de Sandra Datti é, sem dúvida, prolixo. Ela possui um talento muito grande, pois sabe desenvolver o texto de forma impecável. Mas uma narrativa prolixa afasta a grande maioria dos leitores. Oras, isso não me admira, pois queremos todos relaxar enquanto lemos, não é? Quem vai ler por opção um conto que cansa? É difícil…

    ண Intelecto: A escrita de Sandra Datti possui um tom poético fortíssimo. Se não fosse pela poluição do jogo de palavras e adjetivos, seria um estilo refinado e belo, para poucas pessoas. A estória que a autora escolheu contar não impressiona. Se fosse contada através de uma narrativa comum seria apenas mais uma entre tantas. Medíocre, por assim dizer. Mas Sandra Datti conseguiu mostrar que um enredo batido pode ser reciclado e transformado num formidável produto novo. Se não fosse pela prolixidade…

    ஜ Alma: Se a alma de Sandra Datti for tão complexa quanto sua escrita, ela seria o tipo de pessoa que gostaria de conhecer. Por quê? Qualquer escritor que tenha um estilo tão poético quanto o dela é portador de grande beleza. Pode não ser um indivíduo virtuoso ou algo semelhante, mas com certeza brilha com autenticidade. Mas a falta de simplicidade impossibilitaria uma amizade comigo, que procuro a harmonia em todos os pontos da vida. Bem, são tudo adivinhações, haha. O que temos aqui é uma pequena parcela de Sandra Datti.

    ஆ Egocentrismo: Admito que não gostei muito da leitura ou do conto. Num certo ponto do texto, senti-me cansado e percebi que ansiava pelo seu fim. Isso não é bom, ao meu ver. A beleza da força poética, porém, me encantou, tanto que pesquisei outros contos da autora pelo site e encontrei. Irei lê-los no futuro, haha. Destaco um texto que me deixou boquiaberto e que reli diversas vezes: “A madrugada nebulosa esfregava-se na noite fria; talvez, estivessem fazendo amor. Não o amor dos homens, pensou o escritor, mas um amor transcendente, num lugar onde a raça humana não pudesse pisar seus pés imundos!”.

  2. Brian Oliveira Lancaster
    6 de janeiro de 2016

    Gosto de textos que possuem várias camadas. O tom poético é impressionante, mas exige bastante esforço para captar o enredo nas entrelinhas. Não desce fácil, mas é recompensador quando lemos com atenção.

  3. Sandra Datti
    3 de dezembro de 2015

    Olá, Fabio!
    Obrigada pelas palavras. É um contito mais antigo e bem rebuscado, reconheço. Há algum tempo venho fazendo um trabalho de podar os excessos. Pra dizer a verdade, minha escrita vem como uma avalanche, pronta, bem do interior. Depois fico com pena, talvez, preguiça, rs, de podá-la. Até pouco tempo, minha autoconsciência era muito rasa no sentido de buscar maior clareza e objetividade em meus textos. Mas tive muita ajuda da galera do Entre Contos de maneira a me abrir os olhos. Os defeitos, coladinho aos olhos, mas por serem tão óbvios, não os enxergava como deveria.
    Puxa, valeu pela paciência! Na próxima, eu pago, rs.
    Forte abraço, meninim!
    PS: o acento grave antes de pronomes possessivos é optativo. Em meus textos, tento padronizar o não uso do artigo antes deles.

    • Claudia Roberta Angst
      6 de janeiro de 2016

      Tá certinha, Sandra!

  4. Fabio Baptista
    30 de novembro de 2015

    Olá, Sandra.

    Embora esse estilo mais poético não me agrade em cheio, reconheço que o conto está muito bem escrito. No começo, torci o nariz para o tanto de adjetivos, mas no decorrer acabei me adaptando.

    Essa coisa de criação/loucura sempre rende bons enredos. Gostei.

    Só encontrei uma crase faltando em: “não estava as suas ordens”.

    Abraço!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 27 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .