EntreContos

Literatura que desafia.

O Empalhador (Elicio Nascimento)

Olhos, intranquilos, veem a penumbra do quarto doutra forma. A intensidade fosca do esverdeado das paredes; o teto alaranjado; as estantes, quase incógnitas pela cor indefinida, tudo parece se derreter perante a face abrupta; subitamente desperta e pasma. O ar se torna exíguo, duro, pesado, quase insuportável.

O rapazote se assenta no colchão macio e espesso, com as palmas das mãos fixas na espuma, pernas arqueadas; resfolegado, suando. Seu coração acelera como se o retumbar dum bumbo eufórico se manifestasse no lugar das válvulas do miocárdio. Olhos estremunhados, pupilas dilatadas, que se casam bem às grossas veias das órbitas, dispersas em forma de mapa pelos globos estufados, feito um prenúncio clínico de más novidades.

– Vou morrer! Eu… sinto… Igual ao sonho do demônio!… O garoto sorve a sua saliva com dificuldade, pois no momento ela parece ácida, amarga, quase sulfúrica de tão incômoda, ao descer pela garganta resistente, ainda devota ao auxílio de metabolizar o oxigênio que se esvai, já que as suas narinas fazem um esforço, ascendente e descomunal, a fim de cumprir o seu papel biológico.

Involuntariamente, o corpo do rapazinho tremula. Primeiro leve e, toda vez que tenta desvencilhar-se das suas sensações, tão intenso quanto o seu prazer pela última cobaia. Ele tenta mudar a sua disposição física, mas lhe é impossível.

– Por favor, senhor demônio… Não me leve agora, eu suplico! – preso a sua posição ele invoca, agora de olhos fechados e face magra se encharcando, pela fonte incontida das vistas e poros.

– Por favor, não!

– Por… favor!

– NÃO!!!

Num supetão muscular, a carne se apazigua aos comandos do dono. O medo fica passivo à corrente benfazeja que, firme e branda, influencia a cada fragmento do moleque, como um rio venoso impassível que se fluidifica no organismo de modo a, além das vísceras e mecanismos químicos, também alcançar a alma do paciente.

– Senhor!… Eu sinto a sua presença. Por favor, apareça!

Após um suspense atmosférico, o rapazote vê a trivial aparição constituir-se. Do chão, brota um fio luminoso tênue e avermelhado, mas nem elétrico nem líquido, também não tateável, na verdade uma mistura destas texturas que se mostra espiralada, meio derretida na base e crescente no resto, tanto em largura quanto em comprimento, a cada filete de segundo, mais e mais reverberante e colorida. Mas, embora um turbilhão de cores se apresente, a combinação destaca nuances rubros, tanto no seu contorno quanto no centro, quase escarlates de tão vivos.

À medida que a claridade informe se expande, revela o chão desbotado e a mobília, recostada nas paredes arranhadas de modo displicente, incapaz de conter o desmazelo das suas caixas mal empilhadas, as quais armazenam os instrumentos de ofício do fedelho do lar.

Duma cortina magnética, instalada a meia altura do piso, desponta um ser grande e alto, que chega a rasgar o forro do cômodo com o seu pelo fumegante e esquálido. Toda envolta nas suas asas de película cinzenta e grossa, urdidas dum couro estranho e verticalmente cruzadas por detalhes pontiagudos como enormes unhas, a criatura se introduz por completo no amplo recinto do seu pequeno servo. Mas ela deixa apenas os seus grossos e ondulados chifres como amostra. Prefere manter-se envolvida nas suas capas de voo, enquanto bafora ao ar de modo grave e troante, enchendo o espaço dum cheiro peculiar, meio enxofre meio crina asquerosa. Por uma fala pausada e grossa, agudam-se as novas diretrizes do mestre das trevas.

O rapazinho fica até mais tarde na cama. Tem feito isso nos últimos meses, desde que inaugurou a sua nova vida. Cansado de descansar, ele salta dos seus lençóis. Espreguiça-se e bate os olhos no seu artesanato.

– É, preciso comprar novas. – diz a si examinando as suas linhas e agulhas, dentro das caixas mal arrumadas, sobre as estantes. Examina algumas das suas fotos prediletas e, sereno, conclui: “Preciso tirar melhores, agora vejo muitos defeitos nestas!”…

– Bom dia pai! Bom dia mãe! Irmãozinho! – saúda se achegando à sala de jantar, onde a sua família já se encontra, devidamente aprumada.

O rapazinho beija os rostos dos seus queridos e se assenta à mesa. Conversa bastante com a sua estirpe, que o encara sorrindo durante todo o monólogo, sempre de olhos caros e distantes.

– Droga, pai e mãe… Não temos o que comer, e agora? – afirma segurando um garfo e uma faca, mirando o seu prato vazio. Sobre o móvel alimentar há travessas de metal e vidro, também bandejas e talheres sujos. Um pequeno rato passeia tranquilo nos utensílios, ainda aproveitando as migalhas da última refeição.

– É, preciso conseguir dinheiro. Vou à luta – o moleque assevera destoando os seus traços. Ele abandona o seu assento e, antes de deixar o casarão, beija novamente os seus consanguíneos nas faces e pede a bênção aos pais.

– Nossa… como essa casa é grande! Você mora aqui mesmo? Exclama erguendo os olhos ao redor e abrindo os braços, como quem visita um castelo.

– Claro, gata. Vem cá – segura uma mão da menina – eu quero te apresentar a minha família, vem!

– Mas…

– Vem!

A mocinha anda admirada com a estrutura exagerada dos aposentos, a mobília e decoração antiga. Tudo abundante e raro, não muito conservado. Ao adentrar a sala de jantar ela, ainda guiada por um braço, contempla o trio imóvel, ajustado ao torno da grande mesa.

– Chega mais perto!… Pronto. Essa aqui é a minha mãe!

A garota distorce o semblante, amedrontada.

– Esse é o meu pai e irmão, não são lindos?

Invadida por uma síncope absurda, a adolescente desmaia.

O juvenil proprietário aguda os olhos, agora cheios de sangue, modula o seu aspecto para o sarcástico e gargalha aos quatro cantos de si mesmo. Solene e calmo, ele saca da parede um machado decorativo, fixo e alinhado a outro, cujo arranjo forma um grande X.

A cada golpe no corpo imune, a cara salpicada se deforma: macabra, má… Por fim, insensivelmente explicativa.

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5 comentários em “O Empalhador (Elicio Nascimento)

  1. elicio nascimento
    16 de novembro de 2015

    Eu tô ficando é de saco cheio desse negócio de escrever. Eu me mato, escreve, reescrevo, reviso e só acho quem desfaça do meu trabalho. Já me inscrevi num zilhão de concursos literários e não ganho zorra nenhuma. Escrever pra que mesmo, hein?

    • Fabio Baptista
      17 de novembro de 2015

      Elicio,

      Com meu comentário eu quis apontar coisas que talvez possam ser melhoradas no seu texto (segundo minha visão de leitor, que nada mais é que um mero gosto pessoal), jamais seria minha intenção menosprezar seu trabalho, por menos que eu tivesse gostado.

      “Mais vale uma crítica sincera do que um elogio feito da boca pra fora, só para agradar”. Não sei de quem é essa frase, mas posso garantir que é assim que as coisas funcionam no Entrecontos. Fique por aqui, participe de um desafio. Garanto que terá muito a aprender… e também a ensinar. Aqui somos alunos e professores uns dos outros. E, no final, todos ficam sabendo um pouquinho mais.

      Abraço!

    • elicio nascimento
      17 de novembro de 2015

      De boa, Fábio. Não me referi a você no comentário. Só me expressei pra desabafar mesmo. Eu fico revoltado é com umas editoras sacanas que só sabem sugar a sua grana e depois te dão um pé na bunda pra continuar a propagar com fôlego os autores consagrados de sempre. Também me chateio com vários concursos literários que não sei qual critério é usado pra premiar. Fico realmente na dúvida se a exaltação dos ganhadores se dá pelo talento ou apadrinhamento. No mais está tudo certo, amigo. Não tenho nada contra críticas construtivas. Peço desculpas se me expressei um tanto amargo neste espaço tão democrático e aberto aos novos autores. Abraço!

  2. Elicio Santos
    16 de novembro de 2015

    Restringir os adjetivos e cortar os “seus” e “suas”. Beleza!

  3. Fabio Baptista
    15 de novembro de 2015

    E aí, Elicio, tudo bom?

    O conto é macabro e bem escrito, considerando-se o estilo proposto: mais rebuscado, lembrando uma narração “antiga” (bom, ao menos foi essa a minha impressão). Certamente vai agradar os adeptos do gênero.

    Confesso que não gosto muito desse estilo – achei que os adjetivos aparecem no texto numa profusão desnecessária e algumas vezes a busca por uma palavra ou expressão diferenciadas soa gratuita, tipo: “móvel alimentar”…

    – O garoto sorve a sua saliva com dificuldade
    – Ele abandona o seu assento (…)
    >>> Muitas vezes a palavra seu/sua pode ser limada sem muitos prejuízos (dois exemplos acima). Na minha opinião isso contribui para o texto fluir melhor.

    – Bom dia pai! Bom dia mãe!
    >>> Bom dia, pai! Bom dia, mãe!
    >>> Sempre tem vírgula nesses casos

    Abraço!

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Informação

Publicado às 13 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .