EntreContos

Literatura que desafia.

A Metáfora das Metáforas (Pedro Viana)

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Existe um pacto silencioso entre as pessoas que vivem nas grandes cidades, assim como também deve existir entre os ratos que habitam o esgoto e as fezes que por ele circulam. Continue seu caminho e não atrapalhe o meu.

Percebi tal condição numa ensolarada manhã de outubro, enquanto marchava para o trabalho, no meio de outros tantos soldados de terno. Sem intenção, esbarrei-me num homem que digitava no celular. Pedi sinceras desculpas. Ele, no entanto, não se virou e nem me perguntou os motivos do descuido: apenas chamou minha mãe de puta e seguiu o fluxo das outras pessoas, indiferente a minha presença.

Embora tenha esbarrado naquele sujeito e quase o derrubado, não atrapalhei o seu caminho – entendi naquele momento. Pelo contrário, apenas me certifiquei que tanto eu quanto ele estávamos em nossas próprias direções. Ele prestando atenção em seu celular, eu prestando atenção nas pessoas. Eu longe dele, ele longe de mim, e nenhuma pedra no meio de nosso caminho.

Seres humanos são definitivamente os seres mais curiosos do universo. Eles vão e vem, vem e vão, todos os dias, pelas mesmas ruas, se cruzando e se esbarrando, continuando, não atrapalhando o meu… E ainda assim acreditam que de alguma maneira são seres especiais, cujas existências possuem algum sentido, cujas vidas possuem algum valor. Acredito esta característica faz parte da nossa programação, como um instinto animal que nada mais faz além de nos mover para frente. Vistos de cima, acho que pareceríamos apenas sombras cruzando-se pelo asfalto cinza em meio a prédios sem cor. E nada mais.

Todos os dias eu estacionava o carro perto do laboratório, comprava um jornal, parava cinco minutos numa padaria para tomar café, pagava para a senhora do caixa e andava o restante do trajeto até meu trabalho a pé. Estacionava, comprava, parava, pagava e andava. Sempre a mesma rotina, todas as manhãs. E mesmo quando eu me esbarrava em alguém, ou alguém se esbarrava em mim, ela nunca mudava. O caminho era sempre o mesmo, sem pedras no meio. Estacionava, comprava, parava, pagava e andava. Lembro-me perfeitamente de como eu me sentia preso aos meandros de ferro daquele cotidiano infernal, como um pássaro que olha para sua gaiola e percebe que não pode mais escapar. Nunca pude, afinal, estacomprar, pragavar, andavrionar e comestapar…

No trabalho, eu me sentia da mesma maneira: cruzava a recepção do prédio, mostrava meu crachá (“Bom dia, doutor”, dizia o recepcionista, indiferente, a me ver entrar), acenava para os colegas, vestia a roupa de segurança, passava pela câmara de limpeza, atravessava as portas de vidro, sentava-me na cadeira plastificada que eu tanto odiava e trabalhava. Depois graduar-me em microbiologia e especializar-me em virologia, sempre me imaginei trabalhando num grande centro de controle de doenças, enfrentando grandes epidemias e correndo contra o relógio para descobrir a fórmula de vacinas impossíveis. Irei salvar vidas, pensei com meu diploma na mão. Agora, no entanto, percebo que eu estava tão enganado quanto o pássaro que, ao descobrir que não pode mais escapar, acredita que o humano que o alimenta abre a portinha da gaiola para libertá-lo.

Meu trabalho era cansativo, monótono, repetitivo: quase como todo o resto. Era outro caminho no qual não havia mais pedras, e que também no qual me encontrava preso. Observar a replicação do genoma dos vírus nos nanoscópios, trocar material dos tubos de ensaio da centrífuga, testar variações de vacinas, registrar o funcionamento das macromoléculas de replicação para me certificar que tudo estava em ordem… E nada mais.

Vez ou outra eu me encaminhava até a área de cobaias, checava a evolução dos testes, retirava um camundongo para aplicar uma nova vacina, trocava o tipo de alimentação. Quando os encontrava mortos, ligava para equipe de esterilização, uns sujeitos estranhos de macacão amarelo que entravam e saíam com os corpos sem ao menos dizer olá. Os outros microbiologistas do laboratório me visitavam de vez em quando, ou para tirar dúvidas, ou para perguntar como andavam minhas vacinas. Uma vez eu tentei chamá-los para jogar futebol depois do expediente, mas recebi como resposta apenas olhares de censura. Continue seu caminho e não atrapalhe o meu, era o pacto que eu sempre esquecia que existia entre nós.

E então eu ia embora, por volta das seis da tarde: levantava-me da cadeira plastificada que eu tanto odiava, atravessava as portas de vidro, passava pela câmara de limpeza, despia a roupa de segurança, acenava para os colegas (“Boa noite, doutor”, dizia o recepcionista, indiferente, a me ver sair), mostrava meu crachá e cruzava a recepção do prédio. Esbarrava em mais algumas pessoas nas ruas, entrava no carro, enfrentava o engarrafamento e, por fim, chegava a casa. Beijava minha esposa, trocava de roupa, jantava e subia as escadas para a sala de televisão, onde a única ponta de cor do meu dia cor-de-cinza cintilava.

“Papai” era a palavra mágica que me despertava do sonho repetido que eu chamava de vida, que me arrancava daquele cotidiano engaiolante, que me lembrava de que a vida poderia, sim, ter algum sentido. Nicolas tinha oito anos naquela época. Ele era um garoto alto para sua idade, embora não atingisse minha cintura. Adorava deixar carrinhos jogados pelo corredor, bonecos na mesa, bichos de pelúcia esparramados pelo sofá. Eu não impedia minha esposa de colocá-lo de castigo de vez em quando, para evitar qualquer discussão, mas a bem verdade, no fundo gostava de toda desorganização que ele trazia para casa. Considerava aquela minha realidade paralela particular, onde nada precisava estar em seu lugar, e qualquer caminho poderia ser atrapalhado.

“Papai, papai!” ele gritava quando me via, “Vamos brincar?”. Se, na situação em que me encontro, existe algum fato do qual posso assegurar que jamais me arrependi, mesmo depois de todas as tragédias que aconteceram, foi o de nunca ter recusado os convites do meu filho para brincar com ele. No começo eu quem sugeria as brincadeiras, mas com o tempo o garoto ganhou uma criatividade com a qual não pude competir. Minha esposa preferia manter-se distante. Nunca a julguei por isso. Era eu o problema, não ela. Eu que não conseguia me ajustar num mundo de vírus e macromoléculas de replicação e precisava de uma válvula para escapar da realidade. Esta válvula, vejo agora, era meu filho.

Nicolas tinha um hamster que eu odiava tanto quanto eu amava meu filho. Era um animal gordo e sedentário, que ficava em seu quarto, dentro de uma gaiola, sem prestar qualquer serviço útil à raça humana. Inicialmente pretendi lhe dar um cachorro, mas minha esposa não aprovou a ideia. Um gato foi nossa segunda opção, mas ninguém queria assumir a responsabilidade dos pelos pela casa. Por fim, decidimos comprar um hamster, incertos se ele gostaria ou não daquela bola de pelos. Infelizmente, meu filho se apaixonou pelo animal. Zelava dele mais que a si próprio. Sobrava para mim, no entanto, limpar a gaiola.

E foi numa tarde de domingo, enquanto eu trocava sua forragem, quando descobri que eu o odiava. Não porque ele me lembrava dos roedores do meu laboratório, nem porque transbordava inutilidade, mas sim porque ele representava o que eu temia me tornar. Um animal engaiolado, repetindo as mesmas coisas todos os dias sem nenhuma razão para continuar repetindo. Ele comia a ração, fazia as necessidades no chão, e comia mais ração, para fazer mais necessidades no chão. E gostava disso. Uma vez, quando subiu na roda da gaiola parar correr sem sair do lugar, abaixei-me até encarar as pequenas órbitas negras que eram seus olhos, tentando entender os motivos pelos quais ele fazia aquilo. Seus olhos me encararam de volta e então pude perceber que ele não corria para tentar fugir, mas para assegurar que não saísse dali. Ele até sorria, zombando de mim. Por um momento, pensei em pegar o maldito e amassá-lo até sentir suas tripas escorrerem por meus dedos, mas me contive. Nicolas o amava, e eu amava Nicolas.

Um dia, porém, quando eu cheguei do trabalho, minha esposa não me beijou. Estava chorando na beirada da cama, a rosto desolado e sem cor. Perguntei o que havia acontecido. Ela me contou que Nicolas havia escorregado na escada e caído de altura razoável, onde batera a cabeça com tamanha força que morrera de traumatismo craniano.

Quando ela me contou, eu não consegui acreditar; ou melhor, me recusei a acreditar. Subi as escadas correndo, em direção à sala de televisão, onde sabia que meu filho estaria me esperando para brincar. Mas ao abrir a porta, encontrei a sala vazia e a televisão desligada. Em uma última e vã esperança, fui até seu quarto, mas não encontrei ninguém além de um hamster diabólico sorrindo.

E foi assim que a única pedra do meu caminho desapareceu, tão de repente que nem pude dizer adeus. Sem aquela pequena centelha de cor de oito anos, as tintas de cinza cobriram meus olhos. Eu e minha esposa tivemos que nos mudar daquela casa e, depois de dois meses nos encarando com olhos de culpa, nos separamos. Vendi meu carro e com o dinheiro do divórcio comprei um apartamento no centro, onde eu não precisaria mais me locomover até o trabalho. No final, eu não vivia como um hamster, eu era um hamster, preso em sua gaiola, correndo numa roda sem sair do lugar e sequer cogitando a possibilidade de escapar. Lembrando-me desta metáfora, até sorri.

Em mais um dia de trabalho, enquanto observava a replicação de um genoma viral, em um dos nanoscópios do laboratório, pensava em Nicolas. Conseguia vê-lo correndo pela casa, jogando brinquedos pelo chão, sorrindo um sorriso colorido sem saber que o mundo ao seu redor não tinha cor alguma. Depois que ele se foi, nada mais fez sentido para mim, embora, reflito, talvez nunca o tenha feito. E mesmo sem sentido, eu continuava ali, sentado na odiosa cadeira plastificada, observando proteínas se duplicarem… Onde estaria Nicolas naquele momento, me perguntei. Talvez num lugar distante, um lugar mais feliz, onde pássaros não precisassem olhar para a gaiola e perder a esperança de serem livres.

Eu não me lembro ao certo o que me fez jogar todas as amostras de materiais genético num mesmo tubo de ensaio levá-lo até a centrífuga. Só me lembro, vagamente, de pensar em Nicolas, enquanto ligava o equipamento e observava ele girar. Deixe-me levar pela sensação de estar na roda da gaiola, girando e girando sem sair do lugar. Até que tudo explodiu.

Quando acordei, provavelmente algumas horas depois, encontrei os sujeitos de macacão amarelo da equipe de esterilização estirados pelo chão. Conferi os pulsos e descobri que estavam todos mortos. Saí correndo do laboratório, buscando ajuda, e me deparei com meus colegas de trabalho nos corredores, uns caídos sobre os outros. Até mesmo o porteiro, com seu olhar indiferente, não conseguira escapar. Ao sair do prédio, a visão de um mar de corpos me fez gritar horrorizado. Liguei para a segurança nacional, avisando que havia acontecido um acidente de laboratório com número considerável de vítimas, mas não consegui impedir a catástrofe. Aquilo que escapara do laboratório naquela tarde espalhava-se pelo ar. Em um dia, não havia mais ninguém vivo na cidade. Em uma semana, ninguém no país. Jamais soube quanto tempo levou para se alastrar pelo globo, pois antes que o fizesse, os mortos começaram a se levantar.

E agora, aqui, através janela de vidro do décimo segundo andar de um prédio desabitado, observo o exército de mortos-vivos caminhando pelas ruas, cruzando-se no asfalto cinza como sombras em meio a prédios sem cor. Uns esbarram-se nos outros, mas nenhum deles protesta. Pelo menos ainda restou um pacto entre eles, concluo.

Ainda guardo as lembranças. Cuido delas como meu filho costumava cuidar de seu animal de estimação. Afinal, são as únicas coisas que me restam, um lembrete constante das minhas atitudes. Sim, eu ainda me lembro. Nunca conseguirei me esquecer daquele acontecimento no laboratório, mesmo agora com a vida de minhas retinas tão fatigadas, e o mundo do lado de fora destruído pelo que fiz. Nunca conseguirei esquecer que no meio do caminho, naquele dia, coloquei uma pedra.

Maças2

~ PARTE DOIS ~

O mundo não é um lugar cruel, nós quem o deixamos assim. Minha mãe me ensinou isso depois da morte do meu pai. Ele era um detetive da federal, daqueles cachorros grandes que não se contentam em morder o osso menor. Morreu num “acidente sem causa”, coincidentemente um mês depois de abrir uma denúncia na procuradoria de um esquema de corrupção envolvendo o prefeito, seu filho e uma rede de empresários ricos demais para dispensarem o adjetivo “podre”.

Na noite em que recebemos a notícia, protestei com minha mãe, aos prantos. Na cabeça de um adolescente de quatorze anos, as circunstâncias de sua morte não faziam sentido. O mundo não é justo, eu disse a ela naquela noite, o mundo é um lugar cruel. Lembro-me perfeitamente de como minha mãe passou a mão em meus cabelos, aproximou minha cabeça do seu peito, abraçou-me e disse que eu não culpasse o mundo pelos pecados dos homens, porque foram eles quem o deixaram assim. Ainda consigo sentir o calor daquele seu abraço e ouvir os batimentos de seu coração.

Ela estava certa. Suas palavras pouco fizeram sentido para minha adolescência, quanto menos para minha vida adulta. Isso eu percebo agora, quando reflito em retrospecto como somos educados a viver num mundo de pessoas cruéis, agindo como pessoas cruéis, inconscientemente culpando o mundo por toda a crueldade. Afinal, não importa o que fazemos ou deixemos de fazer, se conseguimos delimitar ou não a linha que separa a crueldade do que nos parece certo, nós fazemos, e com isso transformamos o mundo num lugar cruel. Mas o que temos, no fim, é o mundo que merecemos ter. É o que conclui após morder a maçã e descobrir que ela estava podre.

Cuspi o pedaço no chão e joguei o restante da fruta numa lixeira. Todas estavam podres, percebi quando olhei para elas com mais atenção. As maçãs estavam empilhadas da maneira tradicional dos supermercados, numa pirâmide especialmente arquitetada para desmoronar quando alguém arriscasse escolher uma de baixo. Pareciam frescas quando me aproximei. Por trás do vermelho vivo e brilhante, contudo, escondia-se uma camada cinza morta, invisível quando olhei pela primeira vez. Lembro-me de me perguntar qual daquelas maçãs havia sido a primeira a se decompor. Fora essa suja e maléfica criminosa quem apodrecera as restantes, inocentes em suas próprias consciências. Identificá-la, contudo, parecia uma tarefa impossível naquele instante. Considerei uma melhor opção voltar para a sessão de industrializados.

No fim do corredor de biscoitos, porém, percebi que um dos mortos vagava em minha direção. A despeito do estado de decomposição de sua pele, parecia ter sido um jovem esbelto e cheio de vida. Mais alto do que eu, ele possuía um rosto fino, olhos profundos e um cabelo volumoso. Agora sua pele estava esverdeada, escamosa, os dentes podres, os olhos ressacados; a carne desaparecera do seu corpo, deixando apenas ossos à mostra. Passei por ele sem encará-lo. Ele não se moveu em minha direção, apenas continuou se arrastando pelo chão, grunhindo, os olhos fixos em algum ponto à frente.

Os mortos jamais me atacaram. Uma vez ou outra tive problemas quando encarei seus olhos, motivo pelo qual comecei a evitá-los. Eles pareciam entrar em pânico quando me encaravam de volta. Embora nunca tenha entendido os motivos, sempre suspeitei que meus olhos alimentassem a sua autoconsciência. A morte para eles era como uma ilusão, uma mentira contada dia após dia, e que se tornava verdade quando confrontada pela razão. Talvez o mesmo sempre tenha acontecido para os vivos sem que tomássemos conta.

O jovem morto alcançou o fim do corredor e se esbarrou num pirâmide de leite em pó, caindo junto com ela. Observei de longe enquanto ele fazia esforços para se levantar, seus braços tentando inutilmente impulsionar o corpo para cima. Por fim, eles se quebraram em um agoniante crec. O morto começou a se debater no chão, grunhindo, desesperado. Ele permaneceria assim até que o processo de decomposição terminasse de levá-lo. Agarrei dois pacotes de biscoito nas prateleiras e saí do supermercado.

A legião de mortos decompostos vagava pelas ruas, num mesmo caminho sem pedras, esbarrando-se, caminhando, apodrecendo, tropeçando-se e quebrando-se. Perdi a conta de quantas semanas se passaram desde o acidente no laboratório, embora eu tenha para comigo que foram quantas o suficiente para meu vírus acelerar o processo de decomposição, de uma maneira tão rápida e intensa que havia deixado apenas ossos quebradiços e peles escamosas no lugar onde antes existiam corpos. Enquanto andava entre eles, de cabeça baixa, esquivando-me daqueles que se debatiam no chão, questionava-me, em silêncio, se eu realmente era culpado por alguma coisa.

No início, antes das peles se esverdearem e dos dentes apodrecerem, eu caminhava por eles como caminhava entre os vivos. Seus corpos ainda não haviam se decomposto. Com rostos vivos e corados, eles caminhavam, grunhindo, os olhos fixos à frente, sem esboçar qualquer reação além de um gemido sonoro nas vezes em que eu me esbarrava contra eles. Continue seu caminho e não atrapalhe o meu. Talvez a única diferença de fato fosse quanto à posição dos olhos. O homem que eu me esbarrara naquela ensolarada manhã de outubro fixava o olhar no celular, como muitos outros ao seu redor, de cabeça baixa. Inversamente, eu quem abaixava a cabeça entre os mortos, enquanto estes andavam com olhos fixos num ponto à frente, como se vissem no fim de um túnel uma luz que os pudesse trazê-los de volta à vida.

Creio humanidade apodreceu como as maçãs que encontrei no supermercado. A invisível camada de podridão sempre existiu, mas foi preciso que alguém retirasse a primeira maçã, que alguém retirasse o véu que os iludia, para descobri-la. Por mais que estampássemos nas ruas peles limpas e sorrisos de dentes brilhantes antes do vírus, nos tornamos mortos em nossa própria consciência, presos a gaiolas que criamos para nossos próprios pássaros.

Restava, no fim, descobrir qual daquelas maçãs fora a primeira a apodrecer. E foi procurando-a na multidão que me deparei com minha esposa.

Reencontrá-la foi como reviver cada momento que me trouxera até ali, embora estes momentos parecessem eventos ocorridos na vida de outra pessoa. Mesmo raquiticamente magra, a pele putrefata, os dentes tortos e podres, reconheci a mulher com quem eu uma vez casara, tivera um filho e depois de sua morte me separara. Eu me aproximei, sentindo-me entorpecido pelo momento, e toquei em sua mão. Senti a pele grudar em meus dedos e ser arrancada quando puxei, deixando apenas ossos, o que me fez perceber que ela já se encontrava nos últimos estágios de decomposição.

“Desculpe-me pelo que fiz”, eu sussurrei perto de seu ouvido, mesmo sabendo que ela jamais ouviria. “Desculpe-me por tudo, por Nicolas e por tudo”. Ao ouvir o nome de nosso filho tive impressão que ela moveu o rosto. Seus olhos cadavéricos encararam os meus e, pela primeira vez, um dos mortos não enlouqueceu ao me encarar. Por dentro dos olhos da minha esposa vi os meus, e nos meus acredito que ela reencontrou os dela. O cadáver de minha esposa grunhiu um lamento e maneou a cabeça para o lado, pendendo o restante do corpo para um ângulo estranho.

Então senti um dos ossos de sua mão tocar minha pele e, naquele instante, ao ver uma lágrima escorrer pelo seu rosto ressecado, abracei-a. Em meu abraço, o que restava do cadáver se desfez. Os braços se quebraram e caíram com um baque surdo no chão. O tecido do pescoço se rasgou, a cabeça pendeu para trás e caiu pelas costas. Quando sua coluna se dobrou no meio, soltei-a, deixando os restos mortais esparramarem-se pelo chão ao meu redor. Antes de me afastar dali, correndo e chorando, pude ouvir os gemidos de sua cabeça rolando pelo chão. Talvez ela também tentasse se desculpar.

Voltei para meu laboratório depois daquele dia, determinado a encontrar a cura. Empenhei muito tempo em sua procura, registrando meus insucessos tentativa após tentativa. Dias e noites em claro, trancado em meu laboratório, elaborando cálculos e observando através de meu equipamento as amostras que eu havia coletado do vírus, não foram suficientes para controlar a mutação. Quando desisti da cura, tentei recriar o vírus que surgiu naquela tarde do laboratório. Misturei as mesmas amostras, usei outras, modifiquei-as usando meu próprio sangue. Mesmo após todos meus tubos de ensaio terem explodido, todas minhas cobaias mortas, todo meu material contaminado, continuei tentando. No fundo eu sabia que não queria mais replicar o vírus para encontrar a cura, mas sim para achar a minúscula e ínfima diferença com a qual eu havia me tornado imune. Eu queria o vírus, queria senti-lo, queira entender porque somente eu não havia sido contaminado. Na falta de cobaias, apliquei os testes em mim mesmo. Tive convulsões, febre, acessos de paranoia, paralisia dos membros inferiores, cegueira temporária. Mas não morri. E nem ressuscitei.

Fui obrigado a parar com meus testes quando um dos meus vírus começou a corroer meu braço numa dolorosa putrefação cor bronze. A dor foi tão insuportável que não me lembro de quando e de que maneira o decapitei. Tentei estancar o sangue da melhor maneira que pude, mas sei que meus esforços eram apenas a minimização de um processo do qual nem eu nem ninguém poderia escapar, e que se aproximava de mim a passos largos. Agora sei que morrerei em breve e que ninguém chorará por mim, pelo menos não da forma como chorei por aqueles que se foram.

Quando pensamos em como iremos morrer sempre imaginamos uma paisagem ao fundo, mesmo na pior de nossas perspectivas. Depois do acidente no laboratório, por muitas vezes, me imaginei pulando de um grande prédio, um céu pintado em um vibrante azul anil, os mortos observando do chão enquanto o causador de sua desgraça abraçava a própria morte em queda livre. Agora os mortos estão verdadeiramente mortos, seus restos esparramados pelo chão, e não estou em um prédio sob um céu azul, mas encostado na parede de meu laboratório, observando a lâmpada fria piscar, apagar, e ascender de novo.

Talvez eu tenha sido a maçã criminosa que não conseguiu ser encontrada. Talvez tudo tenha começado comigo, quando encarei os olhos do meu filho e percebi que, encarando-me de volta, eles traziam o que viria a alimentar ha autoconsciência do que a humanidade havia se tornado. Minha mãe sempre esteve certa. O mundo jamais foi um lugar cruel: ele precisou de maçãs podres como eu para apodrecer o restante, embora as frutas que desde o início guardaram a podridão dentro de si fossem tão culpadas quanto. Pensando em mais essa metáfora, até sorri.

Metáforas, metáforas… Por quanto tempo me subjuguei a elas? Por quanto tempo transformei meu cotidiano numa eterna leitura de metáforas? Sempre enxerguei nelas a grande criação da raça humana, por seu poder de quebrar resistências, de tornar possível o que parece incompreensível. O universo inteiro se formou a partir do caos, de uma equação inexplicável sem produto final. O caos está presente na essência de quase tudo que nos cerca, desde os átomos incontroláveis que nos formam até os acontecimentos desconexos que chamamos de destino. Sempre vi nas metáforas uma forma de compreender o caos, de juntar as partes quebradas do que entendemos por vida em linhas que pudessem ser lidas. Lembro-me de ler na adolescência que metaphorá, do grego, significa “mudança”. Talvez durante todo esse tempo, desde o momento que descobrimos o fogo até o momento em que o usamos para destruir civilizações, caminhamos para uma mudança. Mudamos a nós mesmos para sobreviver, e sobrevivemos para que pudéssemos a tudo mais mudar, até o ponto que paramos e percebemos, olhando para o reflexo de nossos olhos, que aquilo que tentamos mudar também nos mudou, até o ponto em que nada poderíamos mais fazer, além de tentar, nos últimos de nossos sôfregos passos, sobreviver.

A luz fria do laboratório por fim se apaga e percebo, num derradeiro momento de lucidez, que a metáfora das metáforas seria descobrir que somos apenas personagens na mão de um escritor qualquer, participando de um concurso de contos sem pretensões de ganhar. Poderíamos descobrir no fim que somos a diferença do produto da equação que explica o universo decaído em caos ou até mesmo, quem sabe, apenas uma pedra que, irresoluta, parou no meio do caminho e no meio do caminho ficou.

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31 comentários em “A Metáfora das Metáforas (Pedro Viana)

  1. Gustavo Aquino dos Reis
    5 de novembro de 2015

    Mestre(a), obrigado por ter enviado a continuação desse trabalho que, embora possua alguns deslizes narrativos, apresenta pontos de excelência. Gostei muito do jogo de palavras que arremata o término do quinto parágrafo:

    “(..) Nunca pude, afinal, estacomprar, pragavar, andavrionar e comestapar”.

    Muitos leitores-autores torcem o nariz para esse tipo de recurso literário, eu, por outro lado, enxergo nisso uma confiança e ousadia muito bem dosadas. Escrita é isso! Jogar!

    Parabéns pelo trabalho e parabéns por não ter se deixado abalar pela desclassificação. Você é grande, autor(a).

    Que venham mais desafios.

  2. Claudia Roberta Angst
    5 de novembro de 2015

    Olá, adorador de zumbis! Primeiro, parabéns por ter escrito e postado a segunda parte do seu conto.
    Há um errinho aqui e ali, deslizes de revisão, nada grave.
    O que ainda me perturba na sua narrativa é a morte do garoto. Não ficou nada verossímil. Se tivesse acontecido algo com o filho, a mulher dele teria ligado como louca atrás dele, né? Ele não a encontraria chorando placidamente. A não ser que você invente uma viagem, sei lá.
    Gostei da passagem que fala das maçãs e da camada podre. O mundo das aparências, né?
    O último parágrafo também ficou muito bom, reflexivo, filosófico, além de ser uma referência aos coleguinhas daqui.
    Continue a explorar essa sua incrível imaginação e criatividade sem fim. 🙂

  3. Gustavo Castro Araujo
    4 de novembro de 2015

    Gostei do conto até o momento em que o protagonista, num acesso de loucura, mistura os produtos químicos que levam à explosão e à morte de tudo. Até esse momento a narrativa vinha numa levada filosófica bastante interessante, com digressões pessoais profundas e deliciosamente perturbadoras. Só que, a partir do momento em que tudo e todos vão pelos ares, o conto adquire um ar de fantasia inesperado. Não que esteja ruim, mas eu, pessoalmente, não estava preparado para algo tão súbito. Cheguei a pensar que os mortos que rondavam o narrador seriam uma espécie de metáfora, habitantes de um sonho que, no fim, se mostraria irreal. No entanto, a condução do texto levou a morte ao pé da letra, transformando a digressão numa espécie de spin off de “Eu sou a Lenda”. Interessante, mas não condizente, ouso dizer, com a primeira proposta. Enfim, é um trabalho competente, mas que, pela guinada experimentada a partir da segunda metade, não me cativou. De modo bastante egoísta, tenho que dizer que se fosse dada sequência à toada presente na primeira parte, eu teria achado bem melhor. Definitivamente, não gosto de zumbis. Em todo caso, há que se louvar o espírito do autor em remeter ao desafio o complemento de seu trabalho, mesmo não tendo passado à segunda fase. Só isso já faz o conto, como um todo, merecedor de apreciação. Parabéns.

  4. catarinacunha2015
    3 de novembro de 2015

    O título interessante foi brutalmente massacrado com a explicação no final.
    O que aconteceu com o hamster diabólico? O autor criou uma tensão forte entre os dois e, quando a desgraça caiu sobre o homem destruindo a vida na Terra, perdeu a oportunidade de desenvolver essa relação. O homem sobreviveu por milagre e manteve o cotidiano, agora com zumbis de verdade; por quê? Ou ele morreu? Ou o autor criou uma grande onda de metáforas metafóricas que se sobrepunham intercalando com a realidade? Se era esta a intensão acho que perdeu o controle do texto ou eu não entendi nada.
    Resolveu finalizar com uma divagação existencial confundindo o personagem falando na primeira pessoa com a narração do próprio autor. Isso confunde a gente. Sugiro que leia seu texto em voz alta e marque os pontos “cegos” e aproveite as reflexões para enriquecer o personagem. Espero ter ajudado.

  5. Brian Oliveira Lancaster
    30 de outubro de 2015

    Primeiro, parabéns pela continuação. Não são todos que se dispõe a fazer isso. Segundo, a segunda parte ficou bem densa, combinando muito com a primeira parte – reflexivo e sarcástico na medida certa. Minhas opiniões anteriores se mantém, mas dessa vez, consegui visualizar melhor o objetivo final, incluindo a metalinguagem na conclusão.

  6. Rogério Germani
    21 de outubro de 2015

    Olá, Alameus!

    Cabuloso! Este é o adjetivo apropriado para a visão dos humanos como ratos de laboratório engaiolados em seus próprios destinos. Talvez, daí, o fato de seu conto ter utilizado sempre a mesma metáfora na 1ª fase do concurso.
    Na 2ª fase, já com a reviravolta da humanidade ter se transformado em zumbis, o discurso se manteve, mudando apenas o núcleo da metáfora. As gaiolas saem, entram as maçãs podres.
    Acredito que a maioria dos leitores aguardava um “estudo filosófico mais aprofundado” sobre A Metáfora das Metáforas, não as frustrações de um cientista… Indiscutível é o seu talento para contar estoria, foi o título do seu conto que gerou expectativas além da metáfora.

    Parabéns pelo conto e por disponibilizar a continuação do mesmo!

    Namastê!

  7. Anorkinda Neide
    20 de outubro de 2015

    Não havia comentado antes, mas gostei bastante… Uma escrita agradável de ler, claro que os zumbis .. ahh os zumbis… kkk destoaram um pouco. Mas vc os trouxe diferentes, gostei da cena com a esposa se desfazendo.. impagável a cabeça que geme… adorei! kkkk
    Gostei muito das metáforas e das reflexões, foram bem executadas, viajei junto.. nesse quesito a segunda parte até foi melhor que a primeira. Se bem que o hamster foi um personagem marcante!
    Parabéns e obrigada por este texto.
    Abração

  8. Antonio Stegues Batista
    17 de outubro de 2015

    Se o tema fosse sobre
    Zumbis eu daria nota= 8

  9. Ricardo Gnecco Falco
    30 de setembro de 2015
  10. vitormcleite
    29 de setembro de 2015

    não gostei e pareceu-me haver muito cinzento escuro na historia e perdi o entusiasmo ao ler, de saber o que vem a seguir. Escreves bem mas esta historia quase me deixou deprimido

  11. Wilson Barros Júnior
    29 de setembro de 2015

    Na minha opinião, o valor do conto está na conjunção das várias ideias: o comportamento isolacionista urbano, a ficção científica e os zumbis. Assim, as pessoas de hoje já são zumbis de direito, e graças à “pedra no meio do caminho” passa a ser de fato. A história é interessante, a morte do filho dando um toque dramático e o hamster parecendo um gato preto de allan poe. Uma mistura em vários tons, mas fácil de ler.

  12. rsollberg
    29 de setembro de 2015

    Caro (a), Alameus Tromboni.

    A introdução do seu conto é sensacional. É um parágrafo daqueles de ficar na memória. Real e potente.

    Esse trecho é muito bom “Lembro-me perfeitamente de como eu me sentia preso aos meandros de ferro daquele cotidiano infernal, como um pássaro que olha para sua gaiola e percebe que não pode mais escapar. Nunca pude, afinal, estacomprar, pragavar, andavrionar e comestapar…”

    O conto tem uma história completa e me surpreendeu. Pensei em algo e o autor me levou para o oposto do que tinha em mente. O título (que é muito bom) teve muita relevância nessa minha confusão, rs.

    Soube demonstrar bem a essência do protagonista e criar os conflitos existenciais, que deixam até mesmo um apocalipse zumbi em segundo plano. Lembrei-me do Stand do Sk, uma das poucas coisas legais que li sobre o tema. Ponto positivo!!!

    Como leitor, as analogias sistemáticas com gaiolas e liberdade me incomodaram um pouco, são muitas em um curto espaço. Porém, é apenas uma questão de opinião.

    Vai levar um ponto de bonificação porque eu adoro zumbis e apocalipses.
    Parabéns e boa sorte.

  13. Maurem Kayna
    28 de setembro de 2015

    Histórias de zumbis não me emocionam e neste caso ficou parecendo um enxerto não cicatrizado… o drama familiar + acidente científico resultando em fim da raça humana simplesmente não convence. Mas há trechos muito bons, em que as cenas se formam com nitidez e impacto, como o incidente que abre a narrativa e a acareação como hamster

  14. Davenir Viganon
    27 de setembro de 2015

    O mundo do cara desabou e ele está numa deprê (justificavel). E um apocalipse zumbi não fez diferença na vida dele, porque já estava fu…. Não sei se a deprê do cara justifica o tom monótono da história. Sei lá, não curti. O cara não fez nada, nem se matar o pobre coitado fez.

  15. Pedro Luna
    23 de setembro de 2015

    Bem louco. O conto funciona, apesar de não ter gostado muito do rumo tomado ao final. Eu mudaria a descrição de como ele descobriu a morte do filho. Sei lá, ficou muito frio e dificilmente uma criança morre, tem todo um tempo até ser diagnosticado um traumatismo e o pai só descobre quando chega em casa. O que vem depois foi surpreendente, mas achei que ficou tudo muito apressado. Não gostei muito, mas a escrita é muito boa.

  16. G. S. Willy
    23 de setembro de 2015

    Conto lento e em alguns pontos tedioso. O momento da morte do menino foi algo gratuito, pois não houve nenhuma reação imediata e real por parte dos personagens. Idem com o hamster, usado apenas como metáfora e sem peso na história.

    Porém acredito que foi feito uma minuciosa pesquisa sobre biologia, ou o escritor(a) trabalha na área. O que não deixa de ser interessante.

    Também há alguns erros de ortografia e falta de palavras que poderiam ser consideradas pelo autor(a).

  17. Piscies
    23 de setembro de 2015

    Aí sim ein. Caraca! Gostei muito!

    Que reviravolta sensacional. Impossível ver este desfecho chegar. Me pegou de surpresa. Com certeza, o conto que li no desafio que mais se adequa ao tema e, mesmo assim, conseguiu trazer uma história louca como essa!

    Notei apenas 2 problemas de revisão, coisa boba:

    – “Depois graduar-me em microbiologia” – acho que falta um “de” aí.

    – “Acredito esta característica faz parte da nossa programação” – Aqui, acho que falta um “que”.

    Novamente: PARABÉNS! Um dos melhores do certame!

    • Piscies
      23 de setembro de 2015

      Ah, e a metáfora. A METÁFORA! rs rs rs. Genial.

  18. Leonardo Jardim
    21 de setembro de 2015

    A Metáfora das Metáforas (Alameus Tromboni)

    ♒ Trama: (4/5) muito interessante. O texto prende desde o primeiro parágrafo (achei genial). A parte do filho emocionou. No fim, a parte da doença ficou interessante e serviu como uma grata reviravolta. Acho que funcionou bem como conexão com a metáfora do texto, embora tenha ficado muito corrida.

    ✍ Técnica: (3/5) é boa, consegue criar muitas reflexões interessantes. Alguns conectivos foram engolidos ou trocados (anotei abaixo).

    ➵ Tema: (2/2) narra muito bem as mazelas do cotidiano (✔). Foi o primeiro texto que trabalhou com a forte ruptura.

    ☀ Criatividade: (2/3) o uso de zumbis me fez tirar pontos. Podia ter sido outro tipo de doença mais original.

    ☯ Emoção/Impacto: (4/5) gostei do texto e me emocionei com a parte da criança. O final ficou corrido, mas conseguiu criar o impacto desejado.

    ➩ Nota: 8,5

    Frase de destaque: “Nunca pude, afinal, estacomprar, pragavar, andavrionar e comestapar…”

    Problemas que encontrei:
    ● Acredito *que* esta característica faz parte da nossa programação
    ● dizia o recepcionista, indiferente, *ao* me ver entrar
    ● Depois *de* graduar-me em microbiologia

    • Leonardo Jardim
      3 de novembro de 2015

      📝

    • Leonardo Jardim
      4 de novembro de 2015

      Segunda Fase:

      📜 Trama: a trama da primeira parte é mais completa, a segunda funciona mais como um fluxo de pensamentos do personagem que como uma história, já que pouca coisa acontece.

      📝 Técnica: manteve o mesmo nível.

      🔧 Gancho/Conexão: essa era uma história que tinha gostado muito e infelizmente não passou de fase, mas tinha dúvidas como ela continuaria. Acho que o autor conseguiu se sair bem contando a vida do protagonista nesse mundo de mortos, mesmo não tendo muito o que fazer.

      🎭 Emoção/Impacto: achei boas as metáforas (😀) usadas, a história do pai e da mãe, da fruta estragada, eu penso un pouco assim: os poucos ruins acabam contaminando os bons. A parte que ele encontra a mulher poderia ter passado sem a lágrima no rosto dela, deixar a “conversa” dos dois mais na imaginação dele. Não gostei muito do final, contudo. Além de previsível, foi anticlimático.

      • Leonardo Jardim
        4 de novembro de 2015

        Ah, e parabéns por ter enviado a continuação mesmo sem estar classificado. Fiquei muito feliz com isso 🙂

  19. Fil Felix
    20 de setembro de 2015

    Nossa, o desfecho deste conto ficou bem fora da curva o.O

    Gostei muito de como tratou o cotidiano no início, principalmente com a ideia do “não atrapalha meu caminho”, de como as pessoas estão cada vez mais individualistas, seguindo seu próprio caminho, quase que cegamente (como usando o celular). De como perdemos esse sentido de união e harmonia, de como a sociedade não está vivendo em sociedade.

    Interessante também como associamos o cinza ao monótomo e cotidiano, a famosa “Vida em Preto e Branco”. Mas quando o filho do cara morre, acho que o conto desandou. A morte achei bastante brusca e pouco realista. A mãe não teria ligado do hospital ou algo assim?

    Quando ele volta ao trabalho e retoma a metáfora do hamster, o conto meio que volta aos trilhos, pensei se talvez não fosse necessário esta tragédia para que ele mudasse, como acontece com a gente. Mas então a Umbrella Corporation baixa no laboratório, todos viram zumbis e o conto vira Resident Evil?? Dessa parte, não gostei :/ Não por ser de mortos-vivos, mas por ter contrastado muito com o início.

  20. Lilian Lima
    16 de setembro de 2015

    Até momentos antes da morte do garoto Nicolas, está bem interessante a estória. O uso das metáforas foi bem executado. Não sei se a intenção era fazer um conto de ficção científica mas as duas partes (antes e depois da morte de Nicolas) me parecem duas propostas diferentes. Elas destoam uma da outra em minha opinião. A primeira parte muito bem executada com muitos significados e muito interessante. A segunda destoa da primeira e não tem as mesmas características.

  21. Ricardo Gnecco Falco
    16 de setembro de 2015

    Gostei da escrita, do tom e das palavras diretas. Igualmente, curti o questionamento filosófico que paira nebulosamente sobre o conto. Algumas palavras se perderam devido provavelmente a uma revisão apressada, mais a partir do meio da narrativa para o final. Nem o Apocalipse zumbi e a inexplicável imunidade do narrador me incomodaram, pois é possível visualizar as cenas finais como metáforas da morte interior experimentada pelo protagonista narrador. A única coisa que me desagradou neste conto foi a cena/narrativa da morte do filho do mesmo. Ficou inverossímil.
    Ironicamente, mais inverossímil do que o fim do mundo…
    Parabéns pelo trabalho!
    Boa sorte,
    Paz e Bem!
    😉 👍

  22. Evandro Furtado
    15 de setembro de 2015

    Tema – 10/10 – adequou-se à proposta;
    Recursos Linguísticos – 10/10 – texto muito bem escrito, sem dúvida o título entregou o recurso mais utilizado;
    História – 9/10 – proposta bacana, só acho que a morte do garoto veio de forma muito abrupta, poderia ter trabalhado um pouco mais nela;
    Personagens – 10/10 – muito bem descritos psicologicamente;
    Entretenimento – 10/10 – você terminou com zumbis, quer algo melhor?;
    Estética – 8/10 – a maneira como você trabalhou essa ideia da zumbificação da sociedade foi muito bem feita na primeira parte. A partir da morte do garoto, tudo aconteceu muito rápido. Não que tenha ficado ruim, pelo contrário, mas se talvez a primeira parte fosse para a primeira fase do desafio e a segunda para a segunda parte, a coisa ficaria bem melhor.

  23. Fabio D'Oliveira
    14 de setembro de 2015

    ☬ A Metáfora das Metáforas
    ☫ Alameus Tromboni

    ஒ Físico: A estrutura completa do texto revela a capacidade do autor. E ela é gigantesca! O talento é inato. Não identifiquei nada que pudesse diminuir o conto nesse quesito. Parabéns!

    ண Intelecto: A estória é bem interessante. Saquei o final quando percebi sua raiva em relação ao mundo, só não consegui prever que seria acidental. Achei o desastre um pouco exagerado e rápido demais. O maior pecado do conto é não se focar em outros personagens. Entendo que é um relato, mas poderia se aproximar um pouco mais do filho, pelo menos. O texto ficou um pouco frio demais.

    ஜ Alma: O conto se encaixa no tema do desafio. Nota-se que o maior inimigo da humanidade é o cotidiano. Um tanto exagerado, mas é a visão do protagonista. O maior problema é a falta de um gancho forte para uma continuação. O conto se sustenta sozinha. E parece que terminou de vez.

    ௰ Egocentrismo: Gostei muito da leitura, mas achei o conto frio demais. Poderia dizer que o protagonista está um tanto superficial, pois suas palavras denotam muitas emoções, mas não transmitem nada ao leitor. Fiquei dividido nesse questão.

    Ω Final: O autor é talentoso. Conseguiu fazer um conto com uma estrutura perfeita. A estória é interessante e bem construída, mas muito distante e o protagonista ainda mais. Está dentro do tema, entretanto, não foi possível encontrar um gancho poderoso para uma continuação.

    ௫ Nota: 8.

  24. Brian Oliveira Lancaster
    14 de setembro de 2015

    EGUA (Essência, Gosto, Unidade, Adequação)
    E: Um texto bem reflexivo e triste, mas que atinge seu objetivo em cheio. – 9,0.
    G: O cotidiano está bem descrito, mas infelizmente, pareceram três textos diferentes. O início é bem diferente do meio e do final, que foram um tanto corridos em minha opinião. A ideia é ótima, mas foge um pouco do escopo nas linhas finais. Mesmo assim, retorna à condição de dia a dia, mesmo que de um jeito inusitado – apocalipse zumbi. Pelo menos, conseguiu cativar a curiosidade sobre o restante. – 7,0.
    U: Apenas esta frase soou estranha “Eu não me lembro ao certo o que me fez jogar todas as amostras de materiais genético num mesmo tubo de ensaio levá-lo até a centrífuga”. Faltou um conectivo. O resto flui muito bem. – 8,0.
    A: Está dentro do tema, apesar da “insanidade” final. O gancho ficou interessante e lembrou muito o filme Eu sou a Lenda. – 8,0.
    [8,0]

  25. Antonio Stegues Batista
    13 de setembro de 2015

    O personagem é um homem atormentado com o mundo, com a sua rotina angustiante e somente o filho lhe dá alguma alegria. Certo dia ele causa um acidente no laboratório onde trabalha, de onde escapa um vírus que se espalha pela cidade transformando as pessoas num zumbi,
    Não é todo dia que acontece uma coisa dessas. Acho que esse conto, apesar de bem escrito, não está adequado ao tema cotidiano.

  26. Jefferson Lemos
    12 de setembro de 2015

    Olá, autor (a)!

    Você escreve muito bem, e o seu cotidiano estava sendo o melhor de todos… pelo menos até os zumbis chegarem. Cara, o conto tinha um cotidiano o tão bacana e tocante, que quando apareceram zumbis eu pensei “Não, ele (a) não fez isso…”. Sério, o conto estava muito bom, mas essa inovação (muita gente vai gostar, tenho certeza) não me agradou muito. Fugiu demais da linha do cotidiano, e foi uma pena mesmo.
    A gramática é ótima. Você formou belas frases e imagens ainda melhores, com uma narração continua e suave. Teria dado um 10 se não fosse pelo final.

    De qualquer forma, você mandou muito bem. Vamos ver como será essa segunda parte.

    Parabéns e boa sorte!

  27. Claudia Roberta Angst
    12 de setembro de 2015

    Impressão minha ou senti uma contaminação de ficção científica aqui?
    Triste a história do homem, perdendo o filho tão novinho, a pedra mais preciosa em seu caminho. Só achei que a passagem em que conta sobre a sua morte ficou muito ligeira. Tudo bem que por ser um assunto extremamente doloroso, o pai possa ter assumido um ar científico para lidar com a coisa toda.
    O conto está bem escrito, só estranhei o uso do verbo esbarrar com pronome oblíquo:
    – esbarrei-me num homem = esbarrei num homem
    – (…) quando eu me esbarrava em alguém, ou alguém se esbarrava em mim = quando eu esbarrava em alguém ou alguém esbarrava em mim.
    O gancho ficou com tom apocalíptico – a pedra colocada no cotidiano era a devastação da população? E como o narrador sobreviveu? Por que o pessoal da esterilização não resistiu? Não estavam também usando roupas de proteção?
    Boa sorte!

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Publicado às 12 de setembro de 2015 por em Cotidiano Veríssimo e marcado .