EntreContos

Detox Literário.

O Preço (Elicio Nascimento)

Amélia corrige o teor das suas panelas. Abre e fecha-as entre uma mexida e outra nos temperos buliçosos escorre o suor da testa e prova o grosso cozido de carnes, do jeito que o seu esposo mais gosta. Quando, ao longe, ouve as pisaduras ressacadas a boa doméstica respira fundo o vapor culinário que se impregna no recinto, plena de cumprir o melhor dos seus papéis. João estaca à entrada da cozinha coça a cabeleira desgrenhada e boceja largo, antes de caminhar até a mesa soltando as suas bufas e murmúrios de costume. Tá quase pronto, homem! Amélia adverte cerrando a face e costurando uma prece de última hora. João para rente à sua senhora retesa-se por inteiro e orquestra o silêncio estranho de todo dia que Amélia já conhece o deságue. Quase pronto?! Rumina o homenzarrão quando toma o seu assento. É, homem… Mais um pouco e eu te… Um pouco o cacete! João esbraveja inúmeros impropérios à medida que soca a mesa das refeições como se os seus punhos ficassem mais rígidos a cada golpe; as suas faces sobressaltam-se muito vermelhas e as órbitas dos seus olhos trepidam arregaladas. Por um fôlego duro e descompassado, João vai se arrefecendo enquanto Amélia acelera o seu preparo, esfregando as suas pálpebras inchadas.

João recebe o seu bocado fumegante e de pronto entope a sua boca desdentada estreitando as porções frescas e densas ao máximo da capacidade. Amélia assenta-se defronte. Examina o seu senhor que respinga a barba grisalha de molho e transpira afoito entre as garfadas que mancham a toalha, recém-lavada, com largos pontos engordurados. João só mira o seu prato, Amélia filma-o durante a refeição, mas, dessa vez, com a face prazerosa e a memória alternada.

***

            E aí, mulher… Como foi na igreja? João interrompe uma mastigada e chupa os seus dedos embaçados. Durante o processo, ele atenta-se a Amélia, cheia de “misericórdias!” na cabeça. Não diz nada, né?… Também, vagabunda vai dizer o quê?… Só vai pra igreja por causa dos macho… Vadia! De santa só tem a carinha… Franze o rosto paralisa e, de brusco, estapeia Amélia. Cadela! Vaca! Berra e puxa a sua senhora pelos cabelos durante os rogos encharcados das crianças, no quartinho.

***

            Amélia, com olhares dedicados, fotografa cada gesto. Sorri com canto de boca, sobrancelhas pontiagudas. Até que enfim, vadia! Saliva forte e arrota. A boa senhora, de tão compenetrada, sequer incomoda-se com o odor. O quê?… Até que enfim essa comida presta!… Vagabunda! É? Ela tá gostosa?… Pior que tá, vaca!

Recipiente quase vazio, João não prossegue pelo excesso de tremor que lhe invade. Ainda no mesmo assento defronte ao seu marido, Amélia suspende a grande saia e cruza as grossas pernas reveladas. Alisa-as, sensual, à medida que exprime os seus casos em vários tempos e modos, mas nunca apenas verbais. Como é que… cê tem essa coragem?!… João se ergue com os braços estendidos e as mãos tensas, direcionadas ao pescoço de Amélia, mas, ao fim de poucos passos, ele se sente tonto. O grande homem estatela-se como alguém eletrificado. Convulsiona-se por vários espasmos musculares distorcidos e expele uma espuma grossa e amarelada da boca até ter o seu rosto dissolvido na mistura orgânica que cheira a gozo, para a boa senhora.

Mãe! Mãe! Oi filhos! Como foi na escola? Ué, por que o pai tá assim? Nada não… Ele bebeu muito hoje, sabe como é!… Amélia abraça-os. Tem o que pra comer, mãe? Carne cozida filho, mas a gente vai comer fora… que tal? Oba! Oba! Antes da saída, pelo celular, Amélia convida um irmão de fé para a refeição, bem como garante a providência dos seus vizinhos acerca do mau gosto que empecilha a sua cozinha tão asseada.

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11 comentários em “O Preço (Elicio Nascimento)

  1. Rubem Cabral
    9 de setembro de 2015

    Olá, Elício.

    Eu especialmente gostei das descrições: estão bem vívidas, com cores e cheiros. Dá quase pra se sentir o calor da cozinha.
    A trama da estória é simples, mas achei boa para um miniconto. Lembra um pouco o meu continho humorístico “U açaçinato du portugueis”.

    Para mim, a mistura de diálogos e narração atrapalhou a leitura. Não chega a ser um erro, mas fica bem mais fácil quando os diálogos são “marcados”, com travessões (padrão usado no Brasil), ou com aspas (padrão dos países de língua inglesa).

    Outra coisa que prejudicou a leitura foi o mau uso da vírgula, em especial a ausência dela. Lembre-se que a principal função da vírgula é gerar uma pausa curta, como que para respirar. Releia o texto e você notará a ausência dessas pausas em algumas frases, que ficaram “esticadas”.

    Abraços.

  2. Anorkinda Neide
    5 de setembro de 2015

    Rapaz! Eu gostei!
    Achei a narração do homem casca-grossa bem fidedigna… rsrsrs
    O texto bom, muito bom. Parabéns.
    A última frase que me deixou confusa… os vizinhos vão fazer o q? tirar o corpo de lá? acho que é isso.
    Aqui no EntreContos a gente dá sempre sugestões nos contos uns dos outros, não leve a mal. Aproveite pra dar pitaco nos nossos tb!

    Abração

    • elicio nascimento
      6 de setembro de 2015

      Isso mesmo, Neide. A última frase reflete o auge do repúdio transmitido pelo morto, tanto a sua família quanto à vizinhança, exibido no derradeiro parágrafo quando os filhos dele chegam conversam com a mãe e não se dão conta de que o pai está morto, pois a ausência do patriarca não traz pesar algum aos componentes do lar, muito pelo contrário. Da mesma forma os vizinhos se alegrarão em dar um bom fim ao defunto, o mau gosto da vida de Amélia e de todos que o conheciam. Fiquei feliz ao saber que alguém gostou do conto. Grande abraço!

  3. elicio nascimento
    5 de setembro de 2015

    Conclusão: o texto está uma porcaria. Obrigado!

    • Fabio Baptista
      5 de setembro de 2015

      Não chega a tanto, Elicio.
      E também, quem somos nós para dizer o que é porcaria ou não?

      A intenção foi apontar algumas coisas que talvez poderiam ser melhoradas.

      Desculpe se soei rude. Não foi essa a intenção.

      Abraço!

    • elicio nascimento
      5 de setembro de 2015

      Tudo bem. Vou reescrevê-lo.

    • Fabio D'Oliveira
      8 de setembro de 2015

      Não desanime, Elicio.

      O fato do texto não agradar a todos não quer dizer que ele seja ruim, ou que você seja um péssimo escritor. Gosto é gosto. E ninguém aqui está tentando desanimá-lo. Algumas pessoas, como eu, simplesmente preferem apontar o que poderia ser melhorado. Prezo esse tipo de comentário por motivos pessoais, pois foi através dele que pude me identificar e moldar como escritor. Sendo que ainda estou em fase de crescimento! Além disso, os comentários rasos geralmente são descartáveis! Exceto nos casos onde o autor escreve para satisfazer o ego. Fica ao seu critério analisar quais críticas são válidas para você. Não existe regra para isso!

      Espero ver um novo conto seu por aqui!

    • Davenir Viganon
      8 de setembro de 2015

      Cara, pegue as dicas que ler daqui, e julgue aproveitáveis, e esqueça o resto.
      Eu vejo este sitio como uma escola em que se aprende na prática. Então pratique para satisfazer a sua alma e some a sua prática as dicas que esse pessoal te oferece.
      Eu estou fazendo isso e bem… no próximo desafio vou saber se está me ajudando hehehehe
      Um abraço!

  4. Fabio D'Oliveira
    5 de setembro de 2015

    ☬ O Preço
    ☫ Elicio Nascimento

    ஒ Físico: Acredito que o autor seja novato na arte da escrita. A estrutura está bem precária, como podemos ver na construção ruim de frases e na má distribuição de vírgulas. No entanto, vemos que o autor tem um dicionário extenso. Um grande leitor, talvez? Mas a aplicação de algumas palavras deixaram o texto feio, fato que dificulta a leitura. Primeiramente, oriento que o autor se preocupe com a estética do texto. Dividir os diálogos da narrativa comum. E se focar na construção de frases e aplicação de vírgulas. Depois disso, procure melhorar a narrativa estudando um pouco mais sobre a técnica “Show, Don’t Tell”, vulgo “Mostre, Não Conte”. Mas tente encontrar um equilíbrio.

    ண Intelecto: O enredo não tem nada de interessante. Na realidade, o assunto abordado está tão desgastado que já sabemos o que vai acontecer no final da primeira parte. O interessante seria mostrar a estória com uma nova roupagem. Ou fazer personagens fortíssimos e construir uma narrativa envolvente.

    ஜ Alma: O autor revelou sua falta de habilidade. Com isso, talvez, podemos crer que ele é novo nesse mundo. Ou nunca procurou se aprimorar. Bem, essa é a chance dele. Cresça, Elicio, junto com todos daqui! No fundo, acredito que você gosta muito da literatura. Vejo isso através do cuidado do texto. É possível notar, apesar dos erros, a sua dedicação.

    ௰ Egocentrismo: Gosto da magia. E daquilo que é belo. O texto não possui nenhum desses atributos. Mas admirei o novo autor e a forma como cuidou do texto.

    Ω Final: A estrutura física do texto está bem precária. O autor precisa melhorar muito. A estória não inova em nenhum sentido e existem muitos pecados quando se trata do desenvolvimento dos personagens e cenário. Há uma pequena faísca no autor. Se ele nutri-la muito bem, poderá se tornar uma grande fogueira no futuro.

    ௫ Nota: 4.

  5. Fabio Baptista
    4 de setembro de 2015

    Olá, Elicio

    Um conto de tiro curto que pecou pela previsibilidade, na minha opinião.
    Logo no começo já se pode imaginar o desfecho.

    Travei um pouco também no regionalismo (não sei se posso chamar assim) da escrita e nos diálogos sem delimitação, ao estilo Saramago. Achei um pouco exagerado também o uso de “seus/suas”, acredito que alguns poderiam ser limados para dar mais fluidez ao texto.

    Abraço.

  6. elicio nascimento
    4 de setembro de 2015

    O que acharam do conto?

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 3 de setembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .