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A pessoa e o personagem – Artigo (Eduardo Selga)

pessoa personagem

Temos a tendência de confundir o símbolo com o simbolizado. Essa confusão,  mesmo não sendo total, costuma ser bastante para reduzir o significado da coisa simbolizada. Assim, por exemplo, quando associamos a pomba branca à paz estereotipadíssima associação–, a ideia do que seja paz está muito diluída em nosso imaginário, mesmo que disso não saibamos, a ponto de, se nos aprofundarmos, não sabermos o que seja isso exatamente. Seria ausência de guerra enquanto conflito bélico, do modo como imaginamos num primeiro momento? Não parece, pois mesmo inexistindo embates desse tipo, a paz não está posta: as muitas guerras internas ao sujeito impedem que ele viva em paz. Apesar desse esvaziamento, a imagem icônica da pomba permanece no imaginário, muito mais forte do que aquilo por ela supostamente simbolizado. Afinal, todos queremos a paz, mas qual delas? A paz dos cemitérios, por exemplo?

Mas eu não venho aqui falar de paz. Faço esse preâmbulo porque com variáveis graus de explicitude é muito comum, mesmo entre autores, confundir personagem com pessoa, o que se assemelha, pouco mais ou menos, a supor que a voz do bandido no filme dublado é a dele, quando, na verdade, é a de um dublador. Embora guardem similaridades, personagem e pessoa não são um mesmo ente e desse modo não podem ser confundidos. Pertencem a dinâmicas distintas.

O personagem literário antropomorfizado é a representação da pessoa, ou seja, funciona como seu símbolo. É a reconstrução do humano fora do meio social, ambiente responsável por muitas de suas características. Ele é, portanto, previsível. Mesmo aqueles que supomos “imprevisíveis”. E isso porque na literatura existe uma entidade chamada autor a funcionar como uma espécie de deus: ele determina comportamentos e situações. Assim, como existe um plano traçado para o enredo, o autor escolhe tais e quais características de comportamentos, em detrimento de outras tantas, e trabalha apenas com elas, sem abrir possibilidade para o imprevisto. Uma “explosão” temperamental do personagem não é fruto da pressão social ou da interação com outros, do modo como frequentemente ocorre entre as pessoas: é uma decisão equilibrada do autor, seu deus.

O homem, ao contrário, é em larga medida imprevisível. É por isso, diga-se de passagem, que as instituições sociais fazem tanta força no sentido de contê-lo em caixinhas etiquetadas. Mesmo o mais equilibrado dos sujeitos possui suas estalagmites, suas cavernas escuras nas quais nem ele quer penetrar, e quando isso vem à tona, temos o desequilíbrio. O ser humano tem consciência, subconsciência e inconsciência. É feito de camadas sobrepostas, que se interligam de modo nem sempre conhecido ou perfeitamente mensurável.

O personagem, não. Ele é planejado, antes de existir no papel; é construído na consciência do autor. Portanto, quando este diz frase do tipo “o personagem tomou conta de mim e decidiu por si mesmo os seus rumos” é equivocado –apesar de simpático–, pois o personagem não possui autonomia, sua “vida” inicia-se ao abrir das páginas e se encerra quando elas se fecham, de um modo geral. Sim, há os que resistem e sobrevivem na exata medida em que são continuamente revisitados, como Dom Quixote e Capitu, mas são poucos e ainda assim dependem do abrir e fechar do livro, ou seja, do leitor. O personagem é a manifestação estética do autor, é uma peça construída por ele para conduzir a trama, o que significa que não vai saltar das páginas, pôr o dedo na cara do escritor e dar-lhe ordens. Ele é apenas um símbolo. E mesmo os personagens de romances históricos, que “vivem” tramas ficcionais não são pessoas de papel, e sim a representação de alguém. E por serem representações, serão sempre símbolos, nunca o simbolizado. Ou seja, um D. João VI de algum romance será o personagem de um romance, jamais o próprio monarca. O que me lembra a confusão que o senso comum faz quando diz a respeito de algum filme “baseado em fatos reais”: diz-se coisas do tipo “foi assim mesmo que aconteceu”.

Mas eis que o personagem adquire substância no real. Os discursos sociais nos moldam, tentam nos fazer pensar e agir por estereótipos, e muitas vezes obtêm êxito. Assim, as narrativas midiáticas nos mostram, por meio de personagens, modelos de comportamento, aos quais muitos aderem sem se darem conta disso. Desse modo se construiu, por exemplo, a “loira burra” e o “neguinho esperto”, estereótipos que desde a mais tenra idade são abarcados pelos sujeitos, e funcionam no meio social como personagens agregados ao homem. Como cordéis de marionetes, essas estruturas diminuem o ser humano ou, repetindo o que disse no início, a coisa simbolizada é reduzida pelo símbolo.

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4 comentários em “A pessoa e o personagem – Artigo (Eduardo Selga)

  1. Gustavo Castro Araujo
    28 de agosto de 2015

    Interessante essa abordagem. De fato, existe um senso comum entre escritores que gostam de se levar a sério de que alguns personagens adquirem “vida própria” depois de criados. Como você bem demonstrou, Eduardo, esse dogma não resiste a uma análise mais fria. Claro, no fundo, não só os personagens, mas o próprio contexto geral são frutos da imaginação do autor. Dito de outra forma, os personagens representam diferentes aspectos da personalidade daquele que os cria. É como se, ao escrever, o autor se transformasse, desse vazão a diversos de seus medos, anseios e verdades. Por isso, ao ter a sensação de que determinado personagem assumiu as rédeas de seu próprio destino, o autor, na verdade, está sucumbindo ao desejo inconsciente de permitir que aquele personagem, que aquela característica sua inserida em um símbolo da história, se desenvolva. Talvez tal permissão se trate de um exercício narcisístico, quem sabe?

    No entanto, creio que alguns personagens, de fato, adquiriram luz própria, escapando dos desígnios de seus criadores originais. Você citou Dom Quixote e Capitu. Não sei se Cervantes, se hoje vivo, ou se Machado, idem, teriam coragem ou capacidade para dar-lhes outros destinos que não aqueles pelos quais tornaram-se conhecidos. E mesmo personagens mais contemporâneos — poucos, naturalmente — se tornaram maiores que seus idealizadores, como o Pequeno Príncipe, de Exupéry, e até mesmo Mickey Mouse. Sim, a vida deles continua regulada pela imaginação daqueles escritores e roteiristas que atualmente compõem suas histórias, mas esses autores têm sua criatividade limitada pelos parâmetros já traçados pelos criadores e, muito mais, pela repercussão que tais personagens adquiriram como cultura de massa.

    • Eduardo Selga
      29 de agosto de 2015

      Gustavo,

      Também acredito que a literatura seja um exercício narcisístico, e que o personagem seja uma face do autor, mas esse último aspecto está relacionado à complexidade do personagem. Se eu construo “alguém” apenas com base em esterótipos sociais, por exemplo, não necessariamente é necessário que em minha alma existam traços desse personagem, basta que eu obedeça os padrões estabelecidos. Agora, quando temos construções mais elaboradas, que desafiam esses padrões e que pareçam verossímeis ao leitor médio, aí, sim, essa construção precisa estar em mim de alguma maneira.

      Sim, um personagem solidificado pela cultura de massa ou pela tradição canônica apresenta poucos pontos de manobra aos autores futuros que com eles trabalham. No entanto, não foi o escritor que primeiro lhe deu a luz o responsável por isso. Pelo menos, não apenas ele. A grandeza de um personagem passa pela interpretação que o leitor ou a crítica literária lhe dá, a despeito de ser bem ou mal construído. Se ele tocar em algum ponto que cala fundo, será por esse motivo que ele se eternizará. Falando mais especificamente, são personagens que de alguma maneira, tocam em algum arquétipo humano.

      Exemplificando, por que Eva nos cala tão fundo, independentemente de sermos ou não religiosos? Importante dizer, cito-a porque a considero personagem, não pessoa. É que ela representa um dos arquétipos mais fortes na espécie humana, o fato de o feminino trazer em si um traço de impureza, de “perdição”. A partir dessa narrativa, outras tantas Evas foram construídas, ainda que disfarçadas. A “fêmea fatal” do cinema, por exemplo, é uma releitura de Eva, adaptada a outros interesses.

  2. Eduardo Selga
    28 de agosto de 2015

    Calos Henrique,

    Como representação do ser humano, é preciso que o personagem, a depender da proposta estética do texto, pareça tão humano quanto possível dentro da total impossibilidade de ele ser de fato (ele não é de carne e osso). Quanto ao personagem se fazer perguntas, evidentemente é uma metáfora: o autor deve vestir a pele do personagem que ele construiu (e que em alguma instância possui elementos dele, autor) e nessa condição fazer as perguntas. Ou seja, não é o personagem se perguntando, e sim o autor. Mas não ele literalmente, e sim transmutado para uma criatura imaginária.

    Ou seja, produzir literatura de qualidade não é para gente normal. O que não significa que o autor de qualidade seja um ser humano abençoado.

  3. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    28 de agosto de 2015

    Não adentrei à profundidade do seu artigo, como ele realmente merece, mas enquanto lia, lembrei da genialidade de Érico Veríssimo ao construir os personagens de “O tempo e o vento” e como são tão humanos. Faz pouco tempo, li um artigo na internet, não lembro de quem, que dizia que o personagem deve se fazer a seguinte pergunta: o que é importante para mim (personagem)? E, mais adiante na trama, se fazer a mesma pergunta. Diz o artigo que essa segunda vez que o personagem faz a pergunta a si mesmo, a resposta dada é diferente, porque o personagem “não é mais o mesmo”. Aí gera um desequilíbrio, um conflito, e o personagem fica mais humano. Sair do lugar comum dos esteriótipos e das causas e efeitos “tradicionais” é um trabalho árduo.

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Publicado às 26 de agosto de 2015 por em Artigos e marcado .