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O Inferno de Treblinka – Resenha (Gustavo Araujo)

Hell.of.Treblinka

É extremamente doloroso ler isto. O leitor deve acreditar em mim quando digo que é igualmente difícil escrever isto. ‘Por que escrever, então?’, alguém pode perguntar. ‘Por que recordar coisas assim?’ É dever do escritor contar a terrível verdade, e é dever do leitor conhecer essa verdade.

O escritor Vassily Grossman acompanhou o Exército Vermelho durante boa parte da II Guerra Mundial. Seu romance mais conhecido, “Vida e Destino”, teve como pano de fundo a Batalha de Stalingrado, talvez o ponto de inflexão mais importante do front soviético.

Dentre os inúmeros registros que Grossman produziu, um se destaca pelo impacto. “O Inferno de Treblinka”, escrito em 1944, como fruto da visita do escritor ao mais terrível de todos os campos de extermínio construídos pela Alemanha Nazista.

Confesso que a literatura de guerra – especialmente da II Guerra Mundial – me atrai muito, de modo que não me considero inexperiente no que se refere ao contexto retratado em diversos livros do tipo que já tive a chance de ler. Obras como os clássicos “É Isto um Homem?”, do italiano Primo Levi, e o Diário de Anne Frank, além de “Companhia de Heróis”, de Stephen Ambrose, “Berlim, 1945: A Queda”, de Antony Beevor, até o brasileiro “Irmãos de Armas”, de Sérgio Campiani Maximiano, tornaram familiar a mim a terrível realidade de pessoas comuns e soldados que viveram e morreram nessa época infame.

De fato, por algum tempo, acreditei que estava anestesiado, que nada mais, por mais extraordinário que fosse, me faria balançar com relação a esse assunto.

Então, veio Treblinka, descrito por Grossman como “o local a leste de Varsóvia cercado por pântanos e florestas, evitado por viajantes devido às suas estradas estreitas, que afundam as carroças até os eixos em suas areias profundas.

O primeiro livro que li sobre o assunto me fez perceber o tamanho da minha ingenuidade. Chamava-se “Eu Sou o Último Judeu”, escrito por Chil Rajchman um dos raríssimos sobreviventes do campo. Foi uma leitura difícil, apesar de curta. E então eu pensei: “nada pode ser pior do que isso.”

Veio o livro da Gita Sereny, “No Meio das Trevas”, em que ela debate o nazismo por intermédio de entrevistas com o ex-comandante de Treblinka, Franz Stangl, preso no Brasil nos anos 1960, quando trabalhava na Volkswagen – pasmem – usando seu nome verdadeiro. Um livro interessantíssimo, em que ela examina o lado psicológico de um monstro, desconstruindo-o e, ao final, jogando ao leitor a desconfortável pergunta: o que você faria no lugar dele.

De certa forma, Treblinka encerrou por um tempo meu interesse sobre o assunto. Creio que fiquei enjoado. Algum tempo se passou, porém, e logo tive acesso ao relato de Vassily Grossman.

Ler ou não ler?

Eu sabia que a leitura seria complicada, que me tiraria o sono. Relutei por algumas semanas mas não resisti. E digo a vocês: nada do que eu li antes se compara às descrições de Grossman. Sim, o livro de Chil Rajchman é um soco no estômago, mas se trata de uma narrativa seca, um testemunho de alguém que se acostumou à presença constante da morte. Já Grossman é um escritor. Ou melhor, é um Escritor, assim, com “e” maiúsculo.

Seu texto é envolvente porque, mesmo tendo acompanhado os soldados soviéticos durante muito tempo, ele consegue transmitir ao leitor as impressões de alguém comum, indignado, estarrecido e horrorizado pelas barbáries cometidas pelos alemães durante a guerra.

Vasily-GrossmanTreblinka é o alvo de sua análise, mas ele aproveita para examinar também a metodologia de guerra e os assassinatos sistemáticos organizados pelos nazistas, tudo organizado meticulosamente, em escala industrial.

Grossman não poupa o leitor. Faz inicialmente uma aclimatação, descrevendo o complexo do campo, suas divisões e rotinas. Mas a todo tempo permite entrever que a qualquer momento passará às cenas de horror que tornaram Treblinka tão famoso. E de fato, isso não demora a acontecer.

Sem perceber, o leitor se enxerga em meio às famílias de judeus que chegavam ao campo. Por alguns momentos, acreditavam estar em uma estação de trem verdadeira. Viam os relógios, os quadros de horários, os destinos. Depois as famílias eram separadas, crianças eram colocadas de lado. Todos eram despojados de suas roupas e pertences. Nus, eram enfileirados e postos em marcha imediatamente para galpões onde seriam mortos.

Essa rotina, porém, é conhecida. Dura, terrível, mas conhecida. O que Grossman faz é apresentar os detalhes, o sadismo dos guardas no campo, as humilhações e as torturas. Houve momentos em que pensei em largar o livro. Sentia um gosto amargo, um aperto no peito. Mas depois de um ou dois dias, voltava à carga.

As descrições são vívidas como um tapa no rosto. Aspectos que normalmente passariam despercebidos são explorados com maestria dolorosa. A certa altura, Grossman relata a visita de Himmler a Treblinka. Descreve como o líder da SS Nazista caminhou sobre as covas coletivas onde centenas de milhares de corpos haviam sido jogados, e como decidiu que todos os cadáveres deveriam ser desenterrados e queimados.

Exatamente como eu disse, Grossman faz do leitor testemunha dessa barbárie. Traz à mente a imagem de centenas de corpos ardendo em grelhas gigantescas, produzindo cinzas que depois seriam espalhadas pelas estradas vizinhas ao campo.

Essas estradas, ele diz, representam toda a agonia dos mortos de Treblinka. É dessas estradas que, muito tempo depois, ainda brotavam tufos de cabelos, brinquedos, peças de roupa, óculos, panelas e documentos.

Em seus treze meses de funcionamento, Treblinka ceifou a vida de três milhões de pessoas. Você não leu errado. Três milhões. Testemunhos corroboram esse número surreal, que só não foi maior porque uma rebelião conseguiu atear fogo ao complexo. Poucos conseguiram fugir e sobreviver, mas o campo terminaria de ser destruído pelos próprios alemães, numa tentativa de apagar os traços de seus crimes, ao perceber a aproximação dos soviéticos e a derrota iminente.

Grossman finaliza seu relato com um apelo à paz, criticando ferozmente o racismo, o nacionalismo e qualquer forma de exceção. É um belo discurso, que faria sucesso hoje em dia. Dá até para imaginar um meme de facebook com o rosto do escritor e alguma citação oportuna. Porém, essas palavras contrastam com uma exortação um tanto desmedida que ele faz das façanhas do Exército Vermelho.

É esse o ponto fraco de seu relato. Em diversas passagens, Grossman expõe as mazelas do Nazismo, de modo a explicar os motivos que levaram à adoção do extermínio dos judeus pelos alemães. Nessa linha, estereotipa o próprio povo germânico. Como contraponto, assevera que foi graças à tenacidade do soldado soviético e ao “glorioso” Exército Vermelho que foi possível dar fim à barbárie. Pode até ser verdade, mas isso não esconde e nem justifica a série de atrocidades cometidas pelos russos quando da invasão da Alemanha e da chegada a Berlim, algo que Antony Beevor descreve minuciosamente em “Berlim 1945: A Queda”. Pela proximidade que tinha com os militares soviéticos, me parece bastante provável que Grossman soubesse disso.

De todo modo, o relato é obrigatório para quem se interessa pela II Guerra e pelo Holocausto. Reflexo de sua força, foi utilizado como prova nos julgamentos de Nuremberg, logo após o fim do conflito.

Bem, talvez você tenha se sentido um pouco desconfortável lendo esta resenha. Se isso aconteceu, é porque consegui seguir à risca as palavras de Grossman, citadas lá no início.

Embora a II Guerra tenha acontecido há mais de setenta anos, é sempre interessante lembrar que ocorreu no chamado “mundo civilizado”. E, se prestarmos atenção à natureza humana, é algo que pode se repetir, mesmo hoje. Se duvida, sugiro a leitura de “Eles não machucariam uma mosca”, de Slavenka Draculic, sobre a Guerra da Bósnia – assunto para uma resenha posterior.

“O Inferno de Treblinka” ainda não possui tradução para o português, se bem que li uma notícia recentemente dizendo que os relatos de guerra de Grossman, inclusive esse, serão lançados aqui no Brasil ainda em 2015.

De todo modo, se você lê em inglês, deixo aqui o link para a versão completa da obra. Claro, para o caso de você estar psicologicamente preparado.

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2 comentários em “O Inferno de Treblinka – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Domingos José Zordan
    20 de setembro de 2015

    Muito bom!!!

  2. domingos José Zordan
    20 de setembro de 2015

    Nota dez……….ainda não tinha lido nenhum comentário a respeito…….vc tem uma maneira “gostosa” de escrever……..e isso torna a leitura prazerosa…..parabens!!!

E Então? O que achou?

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Publicado às 29 de agosto de 2015 por em Resenhas e marcado , , .