EntreContos

Literatura que desafia.

Smartphone (Sandro Vita)

smathphone

– Amor, cheguei.

Jarbas trancou a porta e cumpriu seu ritual ao largar os sapatos pelo meio do corredor. Sobre o braço do sofá largou seu paletó com tudo o que tinha dentro. Percebeu a televisão desligada e sabia que aquilo era um mau sinal.

– Amor!? Ele repetiu mais alto à procura da esposa.

Foi até ao quarto e nada. Deu uma espiada no banheiro, depois no quartinho de serviço, mas nem sinal da mulher. Ficou intrigado com a situação e se deu conta que durante todo o dia, não tinha falado com ela. Era raro ela não fazer nenhum contato. Mesmo quando estavam brigados ela fazia um drama básico ao mandar mensagens de texto com várias carinhas tristes.

Coçou a cabeça e foi até a cozinha, mas logo que bateu os olhos na geladeira suspirou aliviado. Por alguns instantes, Jarbas se lembrou de quando conheceu Mariana e de como era bom trocar bilhetinhos apaixonados. No papel amarelo a mensagem: “Meu amor! Volto já! Por favor compre o jantar.” O sentenciava a ir para o mercado em plena noite de sexta-feira. Para Jarbas, nem o inferno era pior do que enfrentar filas e se estapear com um monte de gente feia pela promoção da carne ou da cerveja.

Fez uma careta e arrancou o bilhete, mas ao se virar quase não acreditou no que viu sobre a mesa, largado, ao lado da cesta de frutas.

– Meu Santo Expedito! Eu não acredito que ela esqueceu isso aqui.

Ao pegar o telefone de Mariana, sua esposa, uma mistura de curiosidade e pensamentos pervertidos moldaram a expressão de seu rosto. Olhou sobre os ombros e esticou o pescoço para observar a porta, apenas para certificar que estava realmente sozinho. Alisou o objeto como se fosse uma jóia e começou a balançar a cabeça, incrédulo com o bom estado do aparelho, apesar de tanto tempo nas mãos de sua desastrada esposa. O telefone foi o presente de casamento mais estranho que ele já viu. Sua cunhada Maria, com receio de não ter mais contato com a irmã, comprou dois telefones exatamente iguais, um para cada uma e Jarbas nunca considerou aquilo como um presente oficial, até porque somente um dos cônjuges fazia proveito.

Puxou uma cadeira e ficou ali pensando em ser um cavalheiro, em não bisbilhotar o smartphone alheio. A tentação era gigantesca e a oportunidade única, principalmente porque nos últimos tempos sua esposa andava cheia de segredinhos e sempre agarrada ao telefone. Os amigos do trabalho de Jarbas costumavam dizer que se o telefone está no modo avião quando você está acompanhado, é porque tem outro passageiro embarcando nesse vôo. Apesar de não gostar das piadinhas, Jarbas levava na esportiva, afinal ele também cometia seus pecados.

Não demorou para a curiosidade vencer os princípios da confidencialidade. Jarbas pressionou o botão e a visor iluminou. Ele sabia que o código de acesso não seria problema, pois já tinha decorado o jeito como Mariana deslizava os dedos pela tela, na forma de um M, para destravar o aparelho.

Ficou em dúvida se iniciava sua investigação pelo histórico de conversas ou pelas fotos. Deu mais uma olhadela ao redor e antes de começar, posicionou o cesto de frutas bem a sua frente, assim caso alguém chegasse ele poderia rapidamente disfarçar, sem ser pego no ato. Já com toda a estratégia montada, abriu a galeria de fotos e para sua frustração achou apenas fotos de sua esposa com a irmã, Maria. Decidiu ir mais fundo e vasculhou as categorias de fotos uma a uma, até que achou uma pasta chamada “sigilosas”.  Cerrou os olhos e projetou a cabeça em direção ao pequeno aparelho.

Abriu a pasta e um monte de fotos de homens pelados saltaram à vista. Jarbas ficou horrorizado, principalmente com as fotos amadoras. Algumas estavam editadas e continham mensagens eróticas altamente comprometedoras. Jarbas ficou perplexo. Ele não esperava encontrar tudo aquilo, afinal estavam casados por quase dois anos e ainda se sentia em lua de mel. Desligou de qualquer jeito o aparelho e o colocou de lado, passou as mãos pelo rosto e tentou encontrar um motivo que justificasse tudo aquilo. Seus olhos esbugalhados começavam a ficar com as bordas vermelhas.

Não demorou e ele voltou a investigar o conteúdo do telefone. Agora ele precisava ir até o fundo da história. Abriu o histórico das conversas que curiosamente estavam todos vazios, complemente apagados.

– “Filha da mãe. Ela apagou.” Jarbas começava a perder a cabeça e sacudia as pernas incontrolavelmente. Um tique nervoso o fazia tremer repentinamente a cabeça para o lado esquerdo, como se levasse um choque, vez por outra.

Retornou a galeria para se certificar do que tinha visto, mas desta vez percebeu que no meio das imagens havia um vídeo de dez segundos com o título sugestivo de: “Casório mana_Pedrão/eu”.

Sua mente foi tomada por ódio ao recordar que durante a festa do casamento da cunhada, sua esposa havia desaparecido por um longo tempo. Jarbas nunca engoliu a explicação que ela tinha ido socorrer sua irmã por ter derramado bebida no vestido. Agora sim, fazia todo o sentido, ainda mais por ela ter reaparecido logo depois que Pedrão, do nada, decidiu ir embora e mau cumprimentou o noivo que estava bebendo ao meu lado.

Jarbas tomou coragem e assistiu o vídeo. A imagem era escura e não dava para ver nada, mas o áudio era inconfundível. Entre gemidos e frases picantes, não teve dúvidas, que estava sendo traído a mais tempo do que poderia imaginar.

Nervoso, largou o telefone no mesmo lugar onde achou e tentou se acalmar. Levantou com fúria jogando a cadeira para o lado. Coçava a barba e andava de um lado para o outro, com os olhos arregalados, fixos no faqueiro pendurado mais a frente.

-Não. Ela não merece algo assim, tão simples. Uma boa vingança precisa ser como uma transa, cheia de preliminares.

Voltou para o telefone, ativou a rede sem fios e acessou a conta de uma das redes sociais que estava gravada. Com seu ar já completamente psicótico, selecionou o vídeo, umas três fotos mais reveladoras e publicou como se fosse sua esposa. No título da publicação escreveu: “Tô na pista para negócio.”

Não demorou nem um minuto e uma das amigas de Mariana comentou: “Finalmente deu o troco para aquele traste. Estamos juntas amiga.

Outro comentário, logo em seguida, agora de um colega do trabalho de Jarbas: “Alguém vai dormir com a cabeça pesada hoje! Kkkkkkk.

Em menos de cinco minutos já havia onze comentários, a maioria solidários a esposa, os outros fazendo piada com o marido traído. Jarbas ficou descontrolado e partiu o aparelho em pedaços ao arremessa-lo contra os azulejos da parede.

– Agora vocês vão ver quem é quem nesta casa.

Jarbas queria que Mariana sentisse na alma a dor de ser traída e correu até seu computador no quarto. Sem hesitar acessou sua pasta de arquivos ocultos onde guardava fotos que fez na cama, com uma garota do trabalho, na época em que ainda era apenas noivo de Mariana. Escolheu as imagens mais pornográficas e publicou. Não satisfeito, publicou também dois vídeos gravados em uma despedida de solteiros, da qual participou tempos atrás. No título escreveu: “Dando o troco em uma noite sem lei”, seguido por uma pequena imagem de um coração partido.

Imediatamente os comentários começaram a surgir no monitor, porém Jarbas estava transtornado e queria mais. Largou o computador sozinho, pegou o paletó e voltou até a cozinha murmurando seu plano doentio.

– Vamos ver o que ela deseja para a última refeição.

Jarbas pegou o bilhete esquecido sobre a mesa para conferir o que deveria comprar e escrito no verso estava: “Ovos, carne em bife, parmesão, farinha de trigo e manteiga.” No canto, um TE AMO em letras de forma, seguido por um “PS: Minha irmã comprou um telefone novo e vai deixar o antigo aí para eu usar. Quebrei a tela do meu hoje cedo. Beijos

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4 comentários em “Smartphone (Sandro Vita)

  1. silvanofilho
    19 de agosto de 2015

    É um conto leve. Que prendeu minha atenção. Na metade do texto descobri que o celular não era da esposa e sabia que isso se confirmaria no final, mas a atitude dele diante do que descobriu foi o que me surpreendeu. Esse final faz o leitor pensar: e agora? Continue escrevendo e aprimorando a escrita!

  2. Fabio D'Oliveira
    19 de agosto de 2015

    ☬ Smarthphone
    ☫ Sandro Vita

    ஒ Físico: A estrutura do texto representa muito bem que o autor possui certa destreza na hora de escrever e aplicar suas ideias. Sim, existem algumas falhas, que realmente mostram que o escritor precisa melhorar sua habilidade, mas não vamos nos apegar ao que vai melhorar com o tempo e a prática. A narrativa flui quase naturalmente, com exceção de algumas pequenas travadas. No geral, o texto representa um autor em crescimento.

    ண Intelecto: Não encontramos grandiosidade nesse texto. O enredo se trata de uma história simples e uma situação nada inusitada. É normal, em praticamente todos seus aspectos. Isso não é ruim, na realidade, mas também não é bom. É só mais uma história entre tantas. O desenrolar da história é um pouco estranho, tendo partes onde o argumento não convenceu e ficaram algumas pontas soltas, como os nomes dos arquivos comprometedores. Vale ressaltar que a reviravolta no final deu um toque humorístico ao conto, ficou muito bom, mas também não inovou. Outra coisa comum nesse tipo de história do cotidiano. Nem a sequência das imagens ficou fora do comum. Dessa forma, fica a entender que talvez o autor não exercite sua criatividade, ou talvez, pode ser esse o caso, apenas decidiu não se arriscar. Mas vale aquela máxima… Quem não arrisca, não petisca.

    ஜ Alma: A alma do texto mostra que o autor é uma pessoa comum. Simples não seria o termo ideal. Ele pode ser complexo dentro da normalidade das pessoas complexas da atualidade. Não seria a excentricidade uma moda? Talvez o autor seja talentoso, mas não mostrou nesse texto. No entanto, se isso é tudo que ele pode fazer, bem, acredito que o melhor investir na habilidade. Mas o futuro nessa área nunca será garantido.

    ௰ Egocentrismo: Não gosto do cotidiano. Muito menos do assunto abordado no texto, sempre fico incomodado. Sendo assim, estaria mentindo descaradamente se falasse que gostei. O estilo não é tão medíocre, mas possui algumas falhas que atrapalham o resultado final. Mas aprecio o estilo e a tentativa. Isso vale muito!

    Ω Final: Um texto que denota certa mediocridade, mas que revela, também, o potencial do autor. O conto irá agradar aqueles que se interessam pelo tema, mas nunca irá impressionar. Nenhum leitor irá se apaixonar por esse texto, com exceção do escritor, é claro.

    ௫ Nota: 6.

  3. Claudia Roberta Angst
    17 de agosto de 2015

    O conto gostoso de se ler. Curto, sem grandes reviravoltas, mas prende a atenção do leitor. Tive uma intuição de que o final seria mais ou menos esse, talvez por causa da coincidência das iniciais das irmãs.
    Foi uma narrativa bem bolada, que poderia acontecer a qualquer pessoa mesmo. A maldição da tecnologia…rs.
    Alguns detalhes escaparam na hora da revisão. Algumas delas:
    (…) e mau cumprimentou > e MAL cumprimentou
    (…) e assistiu o vídeo.> e assistiu AO vídeo
    (…) solidários a esposa > solidários À esposa
    (…) ao arremessa-lo > ao arremessÁ-lo
    (…) e vai deixar o antigo aí > e vai deixar o antigo AQUI /ou COMIGO = já que Mariana estava escrevendo o bilhete em casa.
    Gostei do conto. Parabéns.

  4. mariasantino1
    15 de agosto de 2015

    Oi, Sandro!
    Kkkkkk. Que divertido seu conto. Puxa! Essa Maria aí é uma bela bisca… Gostei bastante do conto, li querendo saber mais e mais. Parabéns! Como gosto dessas perdas e danos de pessoas comuns. Caraio! E agora? É exatamente assim que a vida está, não prestamos mais 100% de atenção em nada e não confiamos mais em ninguém.
    O texto carece de uma revisão, mas eu curti a historinha.
    Abraço!

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Publicado às 15 de agosto de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .