EntreContos

Literatura que desafia.

O Príncipe (Agnaldo Pereira)

Andei pelas suas ruas na noite passada. Observei com viva curiosidade e entusiasmo suas vidas fervilhantes no seu formigueiro de peles multicoloridas. Traguei seus cheiros, os aromas de seus intensos suores, tão abundantes no calor da noite tropical. Eu, entretanto, afeito ao frio intenso de minha terra, não suei. Há muito tempo que não posso suar. Tenho apenas a lembrança distante e especial do suor que deixei misturado ao meu próprio sangue nos campos de batalha. Mas isso também foi há muito tempo. O barco do tempo e as correntes marítimas me trouxeram a esta nova terra. Calorosa. Vibrante. Viva. Pulsante… Ouvi seus corações. Eu os ouço o tempo todo. Eu os vejo. Eu os percebo. E alguns me percebem também. Sinto o descompasso de seus corações e a dilatação de suas pupilas ao passar por mim. Estes têm almas que pressentem o Mal. São viajantes que, até mesmo sem saber, atravessam as fronteiras entre os vivos e os mortos…

A carruagem chegou pontualmente, e interrompeu os pensamentos do príncipe. O imperador mandou buscá-lo no ponto combinado. Pedro estranhou o pedido do visitante, de ser apanhado em plena rua, e não em sua hospedagem, mas atendeu diplomaticamente aquele pedido, que julgou ser decorrente da cultura do príncipe, certamente muito diferenciada da cultura brasileira. O cocheiro não teve dificuldades para identificar o passageiro que tinha ido buscar. A alguma distância, conseguiu distinguir o homem, muito alto, parado, destacando-se entre os transeuntes, e com sua roupa negra com detalhes vivamente dourados, como numa túnica de general. Ao se aproximar, o cocheiro teve a impressão de que os olhos do príncipe, ao se voltarem para ele, brilharam de forma estranha, como se faiscassem. O cocheiro encarou-o firmemente, e o convidou a entrar em nome de Sua Majestade. O príncipe assentiu com um movimento de cabeça e entrou, tentando lembrar-se de onde conhecia aquele cheiro, que lhe causava um misto de raiva e inquietação.

A carruagem seguiu pela rua que serpenteava, próxima ao mar, e dirigiu-se ao centro do Rio de Janeiro. Seu ocupante seguiu intrigado e irritado com o cheiro exalado pelo cocheiro. Chegando ao palácio do Paço Imperial, a carruagem parou. O príncipe desceu e olhou para o cocheiro, fingindo simpatia, e perguntou com sotaque carregado de nativo do leste europeu:

— Qual é o seu nome, meu amigo?

— Farid Aben Sur*, meu senhor!

— Tens sangue turco, Farid?

— Sim, meu senhor!

O príncipe olhou-o detidamente por um pequeno intervalo de tempo, meneou a cabeça positivamente e afastou-se dizendo:

— Somos todos filhos de alguém, não é? Mesmo os mortos são filhos de alguém… Boa sorte, Aben Sur!

O cocheiro respondeu com tranquilidade:

— Até o demônio tem seus filhos, meu senhor! Adeus!

O príncipe, que já se afastava, fechou o punho direito com força ao ouvir a resposta do cocheiro, mas não se deteve, e prosseguiu em seu caminho rumo ao comitê de recepção que o aguardava. Pensaria no cocheiro depois.

A sala de espera do imperador era imponente. O teto alto era decorado com pinturas de artistas europeus e dele pendia um enorme lustre que iluminava o ambiente. Havia muitas peças douradas na ornamentação da sala e também muitas cortinas de um vermelho vivo. A sala estava cheia. Nobres de todos os cantos do mundo estavam ali para tratar com o imperador do Brasil.

A figura excepcionalmente alta do príncipe entrou na sala, conduzida pelo pequeno comitê de recepção. Por um instante, todos se calaram, enquanto o príncipe atravessava a sala, cumprimentando a todos com um discreto movimento de cabeça. Ao postar-se em um canto da sala, o príncipe atraía olhares de curiosidade e admiração. Os demais ocupantes da sala de espera observavam a longa túnica negra, que possuía símbolos dourados na altura do peito, parecendo um tipo de distinção militar. Também chamava a atenção, o gritante contraste entre o negro da túnica e a extrema brancura de sua pele. Os olhos negros, pequenos e muito vivos, magnetizavam os olhares dos demais ocupantes da sala.

Enquanto esperava o chamado do imperador, o príncipe observava as pessoas na sala. Especialmente as damas. Como era radiante a beleza daquelas mulheres dos trópicos! Suas narinas estavam inundadas pelo embriagante cheiro de seus corpos. Podia mesmo ouvir o correr do sangue em suas veias. Parecia um gato em meio a uma festa de ratos…
Um homem velho, porém robusto, trajando uniforme de marechal, sai do salão imperial e se dirige ao príncipe, estendendo o braço para que este o acompanhe. De sua posição, o príncipe já pode ver Pedro II de pé, a sua espera, e gentilmente acompanha o marechal, que o conduz ao interior do salão. Ao entrar no salão, todos os olhares se voltam irresistivelmente para ele. O príncipe sorri discretamente, mostrando dentes muito brancos e pontiagudos.

O marechal o anuncia:

— Sua Alteza, o Príncipe Vlad Dracula*, da Valáquia!

……………………………………………….

(*Aben Sur significa “filho da muralha.”)

(*Dracula significa “filho do demônio”)

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4 comentários em “O Príncipe (Agnaldo Pereira)

  1. Anorkinda Neide
    24 de agosto de 2015

    OOhhh gostei!
    Mas e agora?! Continue!
    haihuha

    O que o Fábio falou está corretíssimo, pense em suas palavras!
    Quando da descrição da sala de espera lá no palácio real há uma repetição medonha da palavra ‘sala’… Reescreva, substituindo a palavra por sinônimos ou juntando frases de forma que não se repita a palavra ‘sala’ tantas vezes.

    Achei super legal mesmo… a princípio achei q falavas de fantasmas e só ao término da leitura foi que me dei conta de q estávamos no tempo imperial mesmo recebendo a visita de Drácula… não era Conde Drácula ao invés de Príncipe?

    Bem, eu gostei de receber esta revelação no finalzinho do conto, embora toda a ambientação fantasmagórica q eu fiz atrapalhou-me a leitura, será que vc poderia dar mais realidade ao cenário pra q não achássemos se tratar de fantasmas?

    Abração

    Ahhh e quem é Pedro, pelamordeDeus!! ?!!

    • Agnaldo Souza
      26 de outubro de 2015

      Olá, Anorkinda! Drácula era príncipe da Transilvãnia. Nada impede que um nobre tenha vários títulos. Veja o Príncipe Charles que é Principe de Gales e Duque da Cornuália. Pedro? Pedro II, imperador do Brasil.

  2. Fabio D'Oliveira
    19 de agosto de 2015

    ☬ O Príncipe
    ☫ Agnaldo Pereira

    ஒ Físico: É fácil identificar que o autor não possui uma habilidade refinada. Encontramos no texto diversas falhas, tanto na narrativa, quanto na gramática. Não tem problema! Isso se resolve com a prática. Simplesmente se foque e tenha determinação! A maior falha na gramática é o fluxo temporal. Num momento, o texto está no presente, noutro, está no passado. O autor precisa determinar o fluxo temporal do texto e adaptá-lo a ele. O formato do texto pode ficar completamente diferente dependendo de como você decide contar a história. Fora isso, atente-se na construção de frases. O inicio ficou excelente, mas o nível não foi mantido do meio para o final. Sobre a narrativa, algumas partes estão confusas. É necessário que o autor divida o foco muito bem. Por exemplo, no início do segundo parágrafo, acompanhamos o príncipe. Porém, sem aviso, o foco muda para os pensamentos do cocheiro. Sem mencionar que a organização no texto também faz uma diferença enorme! No início, você poderia ter colocado aspas, ou qualquer outra artimanha como o itálico ou negrito, para que o leitor identifique que a narrativa é diferente. Da forma como ficou, a mudança de primeira para terceira pessoa ficou abrupta demais, fato que atordoaria qualquer leitor. Enfim, essas são as maiores falhas que você precisa melhorar no momento. Vamos crescer devagar. O importante não é a velocidade dos seus passos, mas sim a constância deles!

    ண Intelecto: A estória revela que o autor trabalha muito bem com sua criatividade. Ele ousa. Ele arrisca. Ele cria, de fato. E isso é excelente. Realmente, o enredo é intrigante, mas não vinga. É muito pequeno. Não existe um objetivo maior, um clímax, ou algo semelhante. Parece o trecho de algo muito maior. As ideias também precisam de mais organização. A força criativa vai além de colocar Drácula no Brasil. Muito além…

    ஜ Alma: Encontramos um autor que possui uma mente audaciosa. Parece que ela exige que suas ideias tomem forma através de palavras. Talvez esteja exagerando, mas apenas o tempo irá provar isso. Com a habilidade limitada do momento, não tem como sabermos sua verdadeira natureza. Não tem estilo próprio. Digo que a parte viva do texto é o primeiro parágrafo. Verifique, Agnaldo, se essa narrativa faz parte da alma. Se for, invista nela.

    ௰ Egocentrismo: Não tem como gostar muito do texto. Nem odiar. Ele é incompleto e o autor ainda está em construção. Como podemos julgar por definitivo algo assim?

    Ω Final: O autor precisa melhorar muito. Sua habilidade está extremamente precária. Porém, a criatividade se mostra bastante ativa. Basta investir em si mesmo, Agnaldo. Mas não espero recolher bons frutos no início. Espere até começar a plantar boas sementes.

    ௫ Nota: 5.

  3. julianomarquesss3
    17 de agosto de 2015

    Gosto quando mistura-se a historia com o terror, muito bom.. Parabéns.

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Publicado às 15 de agosto de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .