EntreContos

Literatura que desafia.

Diretriz (Leonardo Stockler)

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Dentes da rua, pasta de dente, escova de dente, fio dental imprescindível. Um androide escova os dentes após a refeição, já há vinte minutos trancado no banheiro do bar, sem que seja o suficiente pra chamar a atenção dos bêbados envolvidos em problemas bem mais graves, como o problema da imigração na Itália, o calote da dívida na Grécia, o roubo de um banco na Moldávia, ou, por exemplo, esta mulher encostada ao balcão, o problema mais grave da espécie, dois movimentos artísticos rivais envolvidos em ameaças com cartas-bomba e acusações gravíssimas, a ressaca causada por uma garrafa de mescal que o umbigo desta senhorita apresentou a eles. Há um atirador no prédio da esquina. Um usa um chapéu, o outro não. Tudo o que havia pra ser visto despertou naqueles que contemplavam a irresistível vontade de prostrar-se em posição fetal e regressar para o calor de algum útero do qual devemos todos ter saído – o umbigo. Todos, menos aquele cuja mente obsessiva processa essa abundância calórica e ultrasugestiva de informações entrecruzadas, o nosso Andróide, Romeu XVI-Z, modelo 3.2, plenamente capaz, como já tantas vezes ofereceu em farta evidência, de simular tudo aquilo que as Grandes Corporações Humanas gostariam de vê-lo simulando, o que, em outras palavras, quer mais ou menos dizer um tiroteio sob o semáforo, rasteiras em eixos de caminhões ou aviões parados em pistas empoeiradas no centro-oeste, dois homens embarcando, um de capacete, o outro carregando uma mala de despachos, protocolos, programas e dossiês, algo que, na mente de nosso andróide, indicava alguma ligação relativamente obscura entre uma rajada de metralhadora disparada contra um homem que cortava o cabelo em uma barbearia às nove horas do dia anterior e duas semanas de visitas regulares ao controle remoto masturbante de uma sala de estar burguesa, adquirindo memórias para serem usadas como referenciais úteis quando em situações envolvendo escolhas, julgamentos, alguns mais subjetivos outros menos, para os quais nosso andróide fora programado – a própria vinda dele ao estabelecimento, por exemplo: o bar em frente ao antigo convento, final da rua do liceu, um carro rabo-de-peixe fazendo a curva, esquina de paralelepípedos, a motorista despediu-se d’O Alvo, aquele a quem o nosso andróide espera, as mãos respirando o frescor de uma loção pós-barba, tamborilando sobre a mesa em falsa ansiedade, pois que do lado de cá do vidro que nos separa do mundo que persiste do lado de fora do bar, a senhorita encostada ao balcão vê o garçom entregar uma garrafa de gim ao casal de cavalheiros bebericando um encontro secreto, algo substancialmente bem diferente do clube de cartucheiros que andou disparando contra a sinagoga, em vinganças passadas, milhares de vinganças armazenadas nas nuvens do meu HD, as nuvens pretas que fecham o tempo de uma cidade que não é nem Tegucigalpa, nem Katmandu, mas que consta no trajeto das nuvens pretas, a memória do deus Ymir, memória núbil, de cirros nimbus pairando feito alcatifa sobre o holocausto horizontal de repetitivas e pélvicas genuflexões, um pen-drive entrando e saindo desse espaço não-euclidiano a que chamamos de noosfera, no qual trafega a mente aventurosa de nosso andróide, tamborilando os dedos em gigantescas e intermináveis prateleiras de memórias românticas de senhas e contrassenhas que constam em sonhos cabalistas, de vertiginosas e místicas justificativas dadas aos pecados que os andróides da Central andam pagando à prestação. O Alvo – ele vem, pela calçada, mas antes de abrir a porta, Romeu, o nosso andróide, a barba feita, o chapéu panamá enterrado na cabeça, os dedos tamborilando, hesitavam, um pouco antes, em chamar o garçom, em pedir pra ele uma dose dupla de conhaque, algo forte o suficiente pra lubrificar engrenagens, que todos sabem que os robôs de madeira rangem mais que os de ferro, por algum motivo insólito não-declarado e que, até hoje, passou completamente desapercebido da população leiga em geral, ainda não acostumada ao fato de que há andróides perambulando por aí, em roupas e camuflagens tão perfeitamente ajustadas ao comportamento humano, que muitas vezes, quando somos deixados no vácuo após uma despedida não correspondida, ou quando acordamos preenchidos por uma vontade indesculpável que nos fazer querer continuar na cama por horas a fio, ou então quando usamos o fogão pra acender um cigarro, mal sabemos que estamos, justamente aí, no procedimento trivial de todas essas banalidades cotidianas, sendo observados, ininterruptamente observados por seres inteligentes, colegas de espécie, subordinados à esquemas de monitoramento mental invisíveis às mentes nuas, as nossas mentes, as mentes que eles observam e copiam em cada detalhe miserável, em cada gesto aparentemente desperdiçado em horas desocupadas, emprestadas às filas de banco, lotéricas lotadas, fenômenos favoráveis às especulações de uma cabeça paranóica o suficiente pra juntar os pontos e desvendar, no decurso de uma vida, um complô de camareiras de hotel imerso em trevas e drinques exóticos, de pacotes perseguidos e emendas feitas por terceiros, segundo espelhos que nos permitem atravessar clandestinamente a fronteira de certos países, coiotes que com suas carrocerias conduzem bolivianos pro lado de lá da floresta, fronteiras protegidas por cães de guarda e campos minados, tudo isso por algumas migalhas garantidas em notas de rodapé, comentários ambíguos em alguma coluna obscura de um jornal lido apenas por cinegrafistas amadores e cocainômanos insones – algum sinal subterrâneo vindo de Vladivostok ou de Bornéu, querendo ser captado por uma antena montada numa garagem. Há um atirador na esquina, prestando atenção no esbarrão. Um usará chapéu, o outro não. Café Polenta: doses que te deixam acordado até receber a próxima carta – a próxima ação programada, repetidamente exercitada no treinamento, como queriam os professores do nosso amado andróide, que tem inúmeras razões para sentir-se inquieto, entre elas, as mais recentes, a gosma roxa que ele têm notado em lugars diferentes. Na mesma semana pensou tê-la visto outra vez, próxima ao lixo de uma lanchonete. Noutro dia viu-a de relance na calçada em frente à borracharia, e algo, não sabemos o quê, o impediu de conferir de perto. Na quarta vez a gosma roxa se espalhava próxima a um acidente entre uma motocicleta e um automóvel num cruzamento movimentado. A gosma roxa que pinga do teto da Realidade. O inimigo cresce feito fungo, brota do chão e prolifera-se o micélio com chuvas de verão. A azêmola, ameaçada pelas sicofantas, pelos cupinchas & carcamanos, capangas de capuzes e capotes misturados aos ambientes esfumaçados e cinzentos, impressos em papel jornal, modelos de chapéu para salões em palacetes assobradados. Um furo no queixo parece indicar tudo. Aquele telefonema atrasado alguém deixou cair do bolso, o atirador na esquina, mirando no que está sem chapéu. No hotel, quarto vizinho, um casal briga. Apenas a voz do homem, e ele parecia agredir a mulher, que não dizia nada, nem gemia, nem protestava. Como eu sabia que era uma mulher? Como eu sabia que era um casal? Pelo conteúdo do que o homem dizia: flagras, cobranças, ciúmes… Enquanto acontecia eu falava ao telefone – a conversa não podia ser postergada. Eram ordens. Eu as recebia enquanto ainda acontecia. A ligação, assim como a briga, durou mais de hora. A mulher, talvez, fosse muda. Talvez não existisse mulher alguma. Nunca há mulher alguma, uma secretária pedindo meu endereço e telefone – uma carta estranha aparece três dias depois no hall de entrada. À época o elevador se encontrava avariado. As ordens são claras, mais limpas que o papel higiênico antes de prestar-se à sua função. Os balcões são palcos para traições perpetradas por punhais de becos e cápsulas de veneno deixadas dentro de xícaras discretas. Gente já morreu assim. Óculos escuros homogenizam reações faciais. Permitem certas coisas, certos olhares que não devem passar despercebidos pelos nossos ombros – as dragonas prestam-se às ameaças, mas quase nunca as querem cumprir. Não acredite nos telejornais, nas notícias, nos programas de mesa redonda – quase sempre os que estão ali saíram de bueiros e sarjetas muito mais poluídas que os balcões de uma conspiração de bastidores e boemias. O Alvo – o andróide não sabe nem quem é, qual é o seu nome, sua procedência, qual a razão de sua vinda, qual é a essencial justificativa que o torna um alvo: um senhor, barba sefardita, olhos baixos, sobrancelha circunflexa, a fisionomia de um triângulo isósceles – por que é interesse de alguém que ele caia morto? Por que é que o seu nome consta em listas negras? Informações lacunares, propositalmente omitidas pelos programadores, que se limitaram a dar diretrizes vagas demais ao nosso andróide, pra que ele não se apegasse, não fizesse perguntas, não mudasse de ideia na última hora, como tantos outros fizeram antes dele, que há um problema bem comum no ramo da robótica que é a dificuldade com que os programadores têm de acertar a tênue linha que impede o nosso amigo máquina de ser ora emocional demais, ora frio demais, o suficiente pra que ele continue produzindo raciocínios relativamente poéticos, guardando ainda para si sua capacidade de produzir obras de arte tão relevantes quanto aquelas feitas pelos controles remotos na Era de Ouro da robótica, porque hoje, muito depois, findado todo o pensamento mágico que floresceu e frutificou naqueles dias, hoje, no estéril presente, algumas corporações possuem redes de mentiras com mais milhas de extensão que as estradas incas. Tudo pra que um algum disco consiga armazenar todas as idiossincrasias e subjetividades humanas em algum banco de dados obscuro. Self-replicating machines. O material é barato e abundante. Cada androide é único – flocos de neve dotados de consciências prontas para serem desperdiçadas. Andróides com caras de paisagem – um dispositivo que os façam passar despercebidos com suas metáforas. Não é preciso mais investir em pessoas pra que se faça o trabalho sujo. Esbarrar no alvo, que está sem o chapéu. É o sinal pro atirador. Mentiras que são constelações, lunetas que vão jogar nossa vista no vácuo, e há órgãos públicos que se ocupam única e exclusivamente de desmentir boatos – boatos que foram plantados, eles mesmos, por outros androides, posicionados em outros lugares e degraus da hierarquia da conspiração, e Romeu, o nosso andróide aqui em questão, se lembra muito bem de quando teve a oportunidade de trocar uma ideia, ainda que muito breve, com outro andróide, que trabalhava em outro departamento do complô todo, e o sujeito, Romeu guardou voz fanha, dizia que era assim mesmo, que os mais heroicos androides deste século provaram seu valor em atitudes triviais e insuspeitas, como encontrões de mãos, sugestões suspiradas na pérgula do ouvido, esbarrões – esbarrões! É o caso do nosso andróide, Romeu, que agora contempla entusiasmado O Alvo, a porta do bar, o sininho repica e o garçom é levado automaticamente a olhar pra porta que vai abrindo e Romeu, já nesse instante, vindo de encontro ao Alvo, conforme programado, conforme recitado em sonhos premonitórios e agourentos. Espero que, um dia, esta mulher encostada ao balcão possa regressar ao lar dos lábios que a esperam, sem ter de dar olhares como esmolas àqueles que naufragam tentando transpor essa distância metafísica que existe entre o corpo e aquele que o deseja. Minhas mãos enxergaram mamilos no fim do tato. Sob as ordens, sob a supervisão, com a permissão de quem, quem foi que disse, alguém por favor se pronuncie! As ordens que me deram são incompatíveis com a realidade que se apresenta. Por onde começar? Por onde começar? Os fatos não se encontram. O Alvo vestia um chapéu – algo que não estava previsto. Foi tudo o que disseram para o atirador, que chegou atrasado demais e não teve tempo de saber da história toda: um com o chapéu, o outro sem. Não era um boato. Mas o Alvo, assim como Romeu, vinha com um chapéu – um chapéu coco. Ao vê-lo entrar, ainda fora, Romeu deixou o seu chapéu na mesa e apertou o passo. As ordens que aqui são dadas, aqui têm se cumprido desde 2034 d.C, o primeiro ano de funcionamento da Central. Um de chapéu, outro sem. Pouco importa quem. O atirador não vai errar o alvo – sua mira é infalível, mesmo lidando com imprevistos.

O tiro acertou-o em cheio no peito que pensava.

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55 comentários em “Diretriz (Leonardo Stockler)

  1. Leonardo Stockler
    13 de agosto de 2015

    Olá povo, obrigado pela atenção. Fiquei feliz demais em saber que teve gente dividida: ao mesmo tempo em que alguns amaram, outros não conseguiram chegar até o final.
    Muitos disseram que estava confuso, o que é óbvio. Tentei usar a confusão como elemento estruturante pra narrativa. Por isso a opção pelo parágrafo único, e pela forma de fluxo de consciência – por isso tantas repetições, frases enormes, mudanças bruscas de direção, a voz narrativa dividida, enfim, coisas que geralmente são entendidas como defeitos.
    É muito bacana participar de mais um desafio. O fi-de-beque de vocês é sensacional.
    Abraços!

    • Bia Machado
      15 de agosto de 2015

      Oi, Leonardo! Que pena eu não ter absorvido isso tudo que você falou. Mas parabéns por ter executado o conto da forma como queria, mesmo sabendo que muitos não entenderiam. 😉

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Publicado às 6 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .