EntreContos

Detox Literário.

Uma vez, na primavera (Paulo Verçosa)

– Por que contemplais tanto a esfera dos humanos?

– Eu não sei. Há algo dentro de mim que ouço chamar-me, num sussurro, para junto das jovens, quando as vejo passar com seus vestidos balouçantes e suas tranças encaracoladas.

– E o que é exatamente isso que dizes sentir? Um tipo de prurido?

– Não, Semente-de-Alecrim, não é bem isso. Parece que você confunde sensações do coração com sensações da pele. Eu sinto pruridos apenas quando a brisa sopra e faz com que as flores de dente-de-leão se enleiem na penugem de meus braços. O que sinto é como quando nos deitamos nas planícies desabitadas e o sol incide seus raios suaves, no começo do crepúsculo. É uma espécie de quentura.

– E você sente isso com qualquer humano?

– Apenas com aquelas criaturas esquivas que, sendo do sexo feminino, ainda não chegaram à plena maturação da carne.

– E o que pretendes fazer? Irás passar para o lado dos humanos?

– Ainda não sei. Mas não é nosso pai Olho-de-Coruja que diz sempre para seguirmos os impulsos agradáveis que nascem denós?

– Sim, sim. Assim ele afirma.

Era desta maneira que conversavam os andróginos Pata-de-Coelho e Semente-de-Alecrim, enquanto o sol tombava para o lado do Oriente e incendiava a superfície do Oceano Pacífico em labaredas fugidias. Os andróginos eram espécies de humanoides alados que eram invisíveis aos olhos dos mortais, por passarem seus dias dentro de uma esfera que, permitindo-lhes a contemplação do que sucedia no mundo dos homens, impedia-lhes a menor intervenção. Como não precisavam trabalhar para comer pois viviam do pólen errante que a brisa do fim da tarde trazia, eles se compraziam em olharem através da esfera como se através de uma janela altíssima, que desvendava à vista um panorama que nenhuma outra janela do mundo poderia oferecer.

Era permitido aos humanoides que perambulassem livremente entre os homens e se fizessem conhecer, mas como eram deuma raça excessivamente poética, preferiam viver de sonhos e de imaginação. Muito poucos foram os que transpuseram os umbrais entre-mundos e tiveram relacionamentos com os terráqueos. Os únicos que fizeram essa aventura foram movidos por estranhos chamados que diziam oriundos de suas almas, e nunca mais retornaram.

Foi numa manhã de primavera, em que as abelhas voejavam nos campos ao redor dos narcisos e das campânulas, semelhantes a operários barrigudos que tornavam de seus afazeres diários e perdiam as horas vagas com as moças dos botequins, que Pata-de-Coelho decidiu obedecer de uma vez à voz que tanto importunava seus devaneios.

 

“- Virás?

– Não, não irei!

– Oh, diga-nos que sim!

– Parem de me perturbar!

– Veja bem, é você quem nos chamou…”

 

“Feliz, toca campainhas

Dlim, dlim, dlim!

Quem é na porta? O Destino?

Vejam só! É sim, é sim!

 

Ao longe ouvimos, solene,

O sino que faz dlom, dlom, dlom!

Casam-se Sonho e Desejo?

O futuro é belo e bom!”

 

Pata-de-Coelho estendeu as palmas das mãos diminutas bem devagar, para sentir o toque líquido e fresco da face da esfera que rebrilhava em tons esfuziantes, com cores que variavam ininterruptamente dentro da escala do arco-íris. Quando a passagem fora feita, ela sentiu pela primeira vez a carícia do sol e da brisa de modo tão penetrante, já que do outro lado as sensações eram tidas como em estado de sonhos.

Ela sobrevoou um pouco sobre as colinas e áreas cultivadas da região para onde se dirigira, ouvindo com estupefação o canto dos pássaros e o barulho da floresta pela primeira vez, já que os sons não transpunham a superfície invisível que pairava entre as duas realidades. Os andróginos ouviam-se apenas a si mesmos, e julgavam que os humanos certamente não falavam, transmitindo os seus pensamentos ora através de gestos ora através de ações.

Após passear por muito tempo, Pata-de-Coelho se cansou e resolveu procurar um local para passar a noite. Voando um pouco mais baixo para poder enxergar melhor, de maneira que passava quase esfregando o corpo nas frondes cheias das árvores, às vezes era surpreendida pelo voo de uma coruja assustada que fugia de sua presença, temendo-a certamente como temeria um ser humano de estatura normal e que estivesse no chão.

Quando finalmente encontrou um celeiro, entrou nele e repousou sobre um monte de feno. Nessa noite, Pata-de-Coelho dormiu como pedra, devido ao cansaço da travessia dos dois mundos e ao passeio deslumbrado que deu entre os bosques e montanhas. Ao romper da manhã, ela foi acordada pelos latidos de um cãozinho que pulava e corria atrás de um pedaço de pau que uma jovem de rosto angelical e cabelos loiros lançava sempre que ele se aproximava para devolver-lhe.

Olhando as duas criaturas na brincadeira que durou todo o período vespertino, Pata-de-Coelho só deu conta de si quando uma voz de dentro da casa, que ficava do lado do celeiro, chamou a jovem pelo nome:

– Isabela, venha se lavar que o almoço está pronto!

A jovem, agora identificada como Isabela, correu para dentro de casa acompanhada de Xodó, o cãozinho, sendo imediatamente seguida pela presença invisível de Pata-de-Coelho. Tirando na maior naturalidade a camiseta com movimentos rápidos, Pata-de-Coelho pôde ver, fascinada, as duas colinas de neve que sobressaíam do tronco delicado da jovem.

Mudando o foco de sua visão, que estava mais ou menos no perfil de Isabela, Pata-de-Coelho voou para sua frente, onde viu, ainda em estado de graça, os dois botões rosados que coroavam as formações níveas, cheios de frêmitos, arrepiados ao toquede um vento ligeiro que invadiu o quarto pela janela escancarada. Percebendo que a jovem deveria se enrolar na toalha para passar pela sala até chegar ao banheiro, Pata-de-Coelho adentrou no tecido e passou a ter as sensações táteis grosseiras daquele emaranhado de fiapos desiguais. Mal pôde sentir, contudo, a rudeza de seu novo estado, e Isabela já cobrira seu perfil com a toalha, fazendo com que Pata-de-Coelho sentisse o contraste embriagante entre seu corpo maleável e a maciez daquela pele nua.

Pata-de-Coelho preferiu não acompanhar Isabela até o banho, pois estava feliz demais e queria extravasar de alguma maneira aquela energia transbordante que sentia subir por seu corpo e que se transformava em listras de cores logo que atingiam a atmosfera. Voou pela casa e, encontrando Xodó deitado perto da lareira, entrou nele e o fez levantar-se e correr para junto da porta do quarto de Isabela, latindo.

– O que foi, Xodó? Por que está tão animado? – perguntou Isabela ao sair do quarto, afagando-o com ternura.

Era estranho para Pata-de-Coelho ver Isabela sem cores através da opaca visão canina. E a sua palidez com tons rosados, e as matizes tão vivas de suas roupas, onde estavam? Com a umidade do focinho de Xodó, perscrutava o tapete e a caixa debonecas da menina, meio empoeirada e escondida debaixo da cama.

Seguiu Isabela até a cozinha e fez-lhe companhia enquanto comia. Às vezes, ela lhe lançava um pedaço de carne, que Xodó abocanhava avidamente, o que permitia à Pata-de-Coelho sentir no palato o sabor acre da pimenta e do limão pela primeira vez.

– Você irá para a festa com o Fernando, filha?

– Ainda não sei, mãe, mas acredito que sim.

– Passou a se dar bem com ele, ou continua com as briguinhas de sempre?

– Ele é que é muito implicante… nunca sai do meu pé.

– É porque ele gosta de você, filha.

Isabela já se levantava da mesa quando a mãe dizia a última frase, e andou pensativa até até o seu quarto, onde se estendeu sobre a cama. Pata-de-Coelho já se havia despido da pele de Xodó, que voltou a deitar-se encostado da lareira, e entrou no corpo enlanguescido de Isabela, cuja brancura atuava como um foco de luz na semi-obscuridade que ocultava o quarto pelas cortinas cerradas.

Quando Pata-de-Coelho sentiu-se dentro daquele corpo macio, esperava que as sensações em seu íntimo fossem mais vivas, já que era o momento em que seu anseio se casava com a sempre fugidia realização. Mas pareceu ver e sentir as coisas como quando ainda atrás da esfera invisível que a separava dos homens, e essa tibieza das coisas foi se transformando cada vez mais numa escuridão serena, trespassada infatigavelmente por sinuosas serpentes e círculos mágicos que se perdiam num labirinto inacessível, num mundo todo matizado por cores arroxeadas e lilases.

Enquanto naufragava nessa miríade de visões, Pata-de-Coelho viu pela primeira vez um traço nítido de realidade, chegando a pensar que Isabela tornara a acordar, mas em outro lugar que não o quarto. Pata-de-Coelho viu que a jovem estava num salão decorado de sedas e enfeites preciosos, com inúmeros bancos e um longo tapete vermelho que se estendia na área central do salão e seguia até uma mesa marmórea, diante da qual um rapaz a esperava, sorridente.

Era estranho para Pata-de-Coelho, mas ela se sentia mais presa ao corpo daquele jovem do que do corpo de Isabela, junto do qual adormecera. Quando Isabela estava perante o rapaz, foi-lhes perguntado se eles se amavam. Sem hesitações, a respostade ambos foi sim, e em seguida se beijaram, num toque de lábios no qual, contudo, Pata-de-Coelho nada sentiu.

Mal terminou essa visão, Isabela despertou perturbada. Pata-de-Coelho sabia disso pela respiração rápida e pelo movimento displicente dos olhos da jovem, que se moviam de um móvel a outro sem se fixar em nenhum. O único ponto que olhou com atenção foi no relógio, no qual estavam marcado 18 horas em ponto. Um rumor de passos próximo do quarto a fez dar uma ligeira olhada por seu corpo, alçando uma das mangas da camiseta, que estava caída.

– Você não vai com o Fernando, Isabela? Daqui a pouco ele vai estar aí para te buscar.

– Não, mamãe. Diga a ele que não vou.

2 comentários em “Uma vez, na primavera (Paulo Verçosa)

  1. Paulo
    17 de junho de 2015

    Valeu, Fábio! Você quer dizer que o sentido não está bem claro?

  2. Fabio Baptista
    17 de junho de 2015

    Olá, Paulo.

    No começo torci o nariz para a linguagem rebuscada, recheada de palavras pouco usuais. No decorrer acabei assimilando e até gostei, pois notei que esse modo de escrever serviu muito bem ao propósito de ambientação. Mas chegou um ponto em que ficou cansativo, jogando contra a fluidez do texto.

    A história é doce, mas não me agradou muito. Principalmente o final que ficou aberto demais.

    Abraço!

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Publicado às 16 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .