EntreContos

Literatura que desafia.

Christmas Blues (Marquidones Morais)

Man in bar sipping cocktail

Estava sentado em uma das mesas do lado de fora do restaurante próximo ao cais. Sua bebida permanecia quase intocada à sua frente enquanto seu olhar varria a cidade do outro lado do rio. Era como se aquele lado estivesse inacessível e fosse uma terra cheia de surpresas. Mas não era.

Do outro lado do rio, à beira deste, mais precisamente de frente para a mesa onde estava, caso pudesse fazer esse comparativo, apesar da grande distância entre as duas margens, ficava a sua casa. Pensava ser por isso que escolhera aquele restaurante para divagar.

Olhou para seu copo e bebeu o conteúdo quente, um contraste com a cidade fria. Deixou o pagamento sob o copo e se agasalhou o melhor que pôde antes de voltar para casa. Andando.

Atravessou a ponte sem olhar para os lados, como sempre fizera, apenas para descobrir que era seguido por uma moça em uma moto. Ela o chamou pelo nome, talvez pela quinta vez, e ele acordou de seus devaneios.

Ele a conhecia. Eram velhos amigos dos tempos de escola. Conversaram o resto do caminho até sua casa. Ela parando a conversa aqui e ali para oferecer-lhe carona, mas ele sempre recusava.

Quando chegaram, se despediram. Ela lhe deixou um cartão de visita para caso quisesse entrar em contato. Ela era advogada e ele não era nada.

Ia começar uma batalha interna contra si mesmo e sua ausência de conquistas quando sua mãe o chamou para juntar o lixo da casa e jogá-lo na rua.

Era natal. Eles tinham uma árvore enfeitada montada no canto da sala, como na maioria das casas. Mas não tinham chaminé que permitisse que Papai Noel viesse, e mesmo que viesse, nenhum deles acreditava em sua existência. O suficiente para fazê-lo desaparecer, caso aparecesse.

Não havia presentes. Para nenhum deles. Fosse pai, mãe ou filho. Ela fez o favor de lhe lembrar de que filho sem emprego decente não merecia presente. Esquecia-se de que ele não tinha mais idade para acreditar nessas coisas, mas o fazia para atingi-lo. Na cabeça dela, para fazê-lo despertar para a vida.

Não importava a finalidade, era um natal sem sentido. Ele trabalhava a semana toda e continuava ouvindo aquele tipo de comentário, então ia até o restaurante ou bar para beber um pouco do seu dinheiro em uma bebida barata.

Era natal. Sim, ele sabia, mas continuava trabalhando para pessoas que comemoravam aquilo, pois seus salários lhes permitiam. O dele não. Mas lhe permitia sentir um pouco do sabor do seu em um bar.

Na noite de natal seus pais estavam em casa, mas não havia ceia. Ele também não estava lá para desejar feliz natal para eles. Estava na mesa do restaurante, na de sempre.

Podia ter sido uma noite como todas as outras não fosse à mão que lhe deu uma tapinha no ombro enquanto outra puxava uma cadeira à sua frente. A amiga que ele havia encontrado, na realidade que o havia encontrado, na ponte estava ali, sentada à sua frente.

Ela lhe desejou feliz natal e lhe entregou um embrulho pequeno em papel de presente. Ele olhou sem conseguir esboçar uma reação, há tempos não recebia nada em papel de presente. Sendo mais exato, há tempos não recebia nada de presente. Presenteava a si quando tinha dinheiro para isso.

Ele agradeceu sem jeito e abriu o embrulho. Era um relógio. Um bonito, não de marca cara, mas elegante se comparado às roupas que ele usava. Ela sorriu para ele e o convidou para um abraço, que ele aceitou de muito bom grado, mas ainda assim estranhando a situação.

Ela foi embora e ele tornou a se sentar. Olhou para o embrulho sobre a mesa e para o relógio, recém-colocado em seu pulso. A hora estava errada. Aquele presente viera em um momento aleatório, a seu ver. Parecia tão errado quanto a hora no relógio. Não queria criar falsas esperanças. Quando chegasse a sua casa, tudo estaria como sempre fora. Os filmes com finais felizes são só filmes e aquele presente era apenas um relógio, não um milagre.

Suspirou.

Ajeitou a hora no relógio e tornou a olhar para a margem oposta do rio. O copo em sua mão estava quase vazio, como sempre. O frio era opressor, como sempre. Esvaziou o conteúdo do copo e anulou um pouco o frio, mas aquilo era passageiro, tanto quanto a surpresa que sua amiga lhe fizera.

Em seu coração o clima voltou ao dos dias anteriores, antes dela reaparecer, antes das coisas parecerem diferentes. E tudo voltou a ser como era antes.

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Um comentário em “Christmas Blues (Marquidones Morais)

  1. Alan Machado de Almeida
    18 de junho de 2015

    Pena que não consigo escrever nesse estilo. Contos que possuem pouca ação (não no sentido de brigas ou tiroteio, mas de movimento). A parte inicial, muito legal, que descreve o personagem no restaurante, podia ser resumida em um parágrafo, mas o autor destrinchou o ambiente criando uma sensação ao leitor. Isso ficou muito bom. Lembrou um pouco a ideia do seriado Seinfield, apesar de sua história ser um drama e não comédia. Um conto “sobre o nada”. Sobre algo cotidiano, nada miraculoso, revelador ou surpreendente.

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Publicado às 16 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .