EntreContos

Literatura que desafia.

O Clube dos Homens Respeitáveis (Alan Cosme Machado)

O Clube dos Homens Respeitáveis

– Bolivar, são cinco horas da tarde, a hora do chá. A importância desse momento não está na comida ou na bebida servida. Mas sim pelo fato de ser a ocasião em que os homens respeitáveis negociam e discutem assuntos relevantes. Entendeu, meu filho?

Encolhido no outro lado da mesa, a criança de oito anos confirmava com um balançar de cabeça exagerado. Com suas pequenas e desajeitadas mãos ele bebia o seu chá forte em grandes goles sem saber se de fato compreendia o que seu pai lhe dizia.

Enquanto bebia o chá, Bolivar analisava a figura que mais admirava no mundo, seu pai. Um homem que ele julgava perfeito. De porte altivo e roupa elegante, o terno alinhado impecável não apresentava um fio solto. Isso sem mencionar a cartola, o que mais chamava a atenção da criança. – Eu quero usar uma dessas. – Pensou o menino. Porém, seu pai nunca iria deixá-lo tocar em seu chapéu. Aquela peça de vestuário era mais do que um mero adereço, era um atestado de nível social. Bolivar apesar de muito novo compreendia o respeito que ela transmitia, inclusive não conseguia desassociar a imagem de um “homem respeitável” com a de uma boa cartola.

Naquela noite Bolivar e seus pais foram assistir à uma ópera. Um espetáculo bonito, mas que o menino era muito novo para conseguir apreciar. Percebendo que Bolivar não compartilhava da animação dos seus pais, sua mãe inventou uma desculpa para que seu marido os levassem embora.

O cocheiro aguardava na esquina, à poucos metros. Ele ouviu a voz de assalto, mas omitiu socorro devido a sua covardia. – Passa as joias! – Gritou o homem que portava uma faca. De modo não muito prudente, a mãe de Bolivar saiu à noite embelezada com os brincos e os cordões de pérolas que seu marido lhe presenteou no casamento.

Sem paciência, o assaltante tirou as joias da mulher à força e quando o pai de Bolivar tentou revidar com os punhos foi esfaqueado. Só por estar presente durante a ação, sua esposa morreu em seguida. O filho do casal foi poupado, pois em uma ética distorcida de criminoso matar crianças era errado. Se Bolivar fosse seis anos mais velho aí tudo bem, podia matar.

Bolivar perdeu a pouca cor de sua pele. Ele nunca tinha visto sangue em sua vida. Devido a sua criação super protegida o menino nem sabia que dentro das pessoas residia um líquido tão vermelho e, porque não dizer, bonito.

Bolivar melou as mãos com o sangue dos seus pais tentando acordá-los. – Pai? Mãe? – Eles não atenderam aos seus chamados. A criança demorou a perceber que não mais acordariam. Bom, mas pelo menos havia um ponto positivo naquela tragédia.

Bolivar conseguiu pegar a cartola do seu pai já que não havia mais quem o impedisse. Porém, o acessório ficou folgado em sua cabeça. A criança então começou a amassar com as mãos e a pisar no chapéu. A cartola elegante se tonou uma coisa amassada, rasgada e suja de sangue. Mas pelo menos se ajeitou melhor à cabeça do garoto. Bolivar sorriu com o resultado do seu trabalho. – Sou um homem respeitável, papai. Veja.

– Por decisão judicial o menor ficará sob tutela de um guardião até possuir a idade legal para gerir os bens dos seus finados pais. – Disse o juiz.

O homem beirava os cinquenta, era obeso, careca e cheirava a azedo. Enquanto a decisão judicial não saia, ele checava o seu relógio de bolso feito à ouro várias vezes. O pai de Bolivar tinha um irmão. O parente mais próximo do menino se prontificou a cuidar da sua criação. Apesar de parecer altruísta, sua meta não era nem um pouco honrosa. Ele queria a herança do garoto e já trabalhava em um plano maléfico para tanto.

A casa do seu tio era um chiqueiro, mesmo tendo uma condição financeira boa, ele morava em meio à bagunça e sujeira. Não acostumado à imundice, Bolivar reclamou do mau cheiro, o que lhe rendeu dois tabefes. Seus pais nunca haviam batido nele antes. O garoto nem sabia que os adultos conseguiam agredir as crianças. “Papai do Céu protege os inocentes” sua mãe lhe dizia.

No sótão da casa, Bolivar dormia em um colchão recheado com palha. Cama desconfortável e fedida a suor. Não raramente Bolivar acordava no meio da noite para vomitar em um balde, tal era a intensidade do odor. Com o tempo a criança aprendeu que era melhor dar fim em seus dejetos antes que seu tio percebesse. Pois quando o crápula via vômito no quarto do jovem, ele o espancava com um cinto até suas costas ficarem vermelhas e feridas se abrirem.

– Acho que o senhor meu tio está agindo de má-fé com o poder legal a ele concedido. – Sempre que dava cinco horas da tarde e seu tio não estava em casa, Bolivar realizava um ritual. Apesar de muito novo, ele conseguia falar difícil e impor a voz, truques que aprendeu com o pai.

Bolivar realizava uma hora do chá, mas tinha que improvisar. Como não havia xícaras de porcelana na casa, ele usava uma caneca de ferro enferrujada. Ele não sabia preparar chá, então pegou água da torneira. Como não tinha a disposição uma cartola ou chapéu de qualquer tipo, o garoto pôs uma panela na cabeça. Do outro lado da mesa um coelho de pelúcia velho ouvia suas queixas. O brinquedo foi encontrado ao acaso no terreno do fundo da casa em meio ao entulho de lixo acumulado. Apesar disso, Bolivar acreditava piamente que o coelho foi até ele, o escolhendo e não o contrário.

– Talvez eu deva expor minhas queixas as autoridades competentes. Oi? O quê? É. O fato dele me manter cativo em sua propriedade dificulta as coisas. Amigo, você tem algum plano de fuga viável?

Como de se esperar de coelhos de pelúcia, ele permaneceu mudo diante à pergunta. Mesmo assim Bolivar ouviu uma resposta. – Nunca ouvi falar desse país. – O coelho continuou em silêncio, mas a criança seguiu ouvindo. – Dá para chegar à esse lugar com magia?! O que tenho que fazer?

A conversa foi interrompida por um puxão de orelha tão forte que parecia poder arrancá-la. O tio do menino havia voltado do trabalho antes do tempo. – Que maluquice é essa que você está fazendo?! Sujando a panela com a qual faço comida com esse cabelo seboso! – Aquela tarde as agressões excederam aos costumeiros tapas e cintadas. Bolivar deitou-se na sua cama à noite com um olho roxo. O menino tremia com medo do bicho papão. Um bem real, que dormia no quarto de baixo.

Engolindo o choro, para não chamar a atenção do seu tio, Bolivar repetia baixinho como uma oração. – Eu tenho que viajar à esse país! Papai do Céu me mostre o caminho para lá.

De tão assustado e triste Bolivar não conseguia dormir. A agressão do seu tio o deixou de tal maneira que ele não lembrava se trouxe o boneco de pelúcia para o seu quarto, no sótão. De qualquer forma, o coelho estava lá.

Nada mudou, o coelho não falava, mas Bolivar ouvia. – Sério que tenho que fazer isso mesmo? Tem que ser agora?! Não pode esperar o meu tio sair de casa? Não tenho muito tempo? Por quê? – O garoto levantou da cama, limpou as lágrimas em seu rosto e, ainda fungando, desceu as escadas. A criança juntou toda a coragem do seu coração para realizar a missão do coelho. A casa estava escura e havia um monstro, ainda que dormindo, a solta.

Para evitar fazer barulho, Bolivar tirou os sapatos e tentou prender a respiração. No fundo da casa começou a remexer no entulho. Havia muitas peças de ferro e outros objetos que gostavam de provocar ruído quando mexidos. A missão era perigosa. Se seu tio despertasse e o pegasse acordado só mesmo o Papai do Céu para protegê-lo.

A cada ranger um pouco mais alto, o coração pequeno da criança ficava ainda menor. “Está bem lá no fundo”, Bolivar ouviu do boneco de pelúcia. O menino estava quase desistindo e voltando correndo para a proteção do seu quarto, quando para o seu pavor ele viu uma luz de lâmpada a sebo. Seu tio acordou.

Deixando de se preocupar com o silêncio, Bolivar removeu o que estava à sua frente desesperadamente até encontrar o que o coelho disse que era necessário para a sua viagem. Uma cartola de cano alto com uma fita vermelha amarrada. Bolivar a colocou na cabeça e se imaginou sendo teleportado para o lugar mágico, mas nada aconteceu. A criança se sentiu traída pelo brinquedo de pelúcia. O monstro o pegou e sua punição foi severa.

Missão cumprida. O menino conseguiu ficar com a cartola apesar de ter ganhado mais alguns hematomas para a coleção.

Além das agressões físicas, Bolivar foi trancado no sótão pelo dia inteiro. Mas isso teve um ponto positivo. Ninguém o interrompeu durante o chá das cinco. Ele não recebia comida, água e nem saia para tomar banho ou para fazer suas necessidades. Para essa última ação o garoto se valia de um balde. Aquele mesmo a qual o garoto vomitava durante os seus primeiros dias, enquanto se acostumava ao fedor do seu colchão.

A medida que o dia ia passando, Bolivar ficava cada vez mais enfraquecido.

Bolivar usava a cartola que pegou do entulho e a “xícara de chá” era sua mão fechada imitando um copo. O coelho de pelúcia continuava a ouvi-lo. – Cadê a viagem mágica que me prometeu?! Tenho que encontrar uma fonte de magia primeiro? Como?

O coelho era inclemente e devido a inocência de Bolivar ele aceitava suas tarefas sem questionar. Essa era ainda mais difícil e perigosa do que a anterior. “Seu tio usa um relógio de ouro preso à um cordão, traga-o para mim”.

– Mas se ele me pegar roubando o seu precioso relógio ele certamente irá me espancar até a morte.

“Sinto muito, mas esse é o único jeito. Não nasci um coelho de pelúcia, já fui de carne e osso. Porém fui enfeitiçado por uma bruxa terrível chamada Zamira. Para quebrar seu feitiço preciso do meu relógio de volta. Ele é mágico e já passou pela mão de piratas, garotos fada e agora está em posse de seu tio obeso. É o destino, sábio como sempre, que o reaproximou de mim. Essa é minha chance de quebrar a maldição que me atormenta e a sua de fugir das torturas do seu tio e salvar sua vida.”

– Como assim, salvar minha vida?

“Desde que se tornou seu guardião legal seu tio planeja matá-lo. Você só continua vivo porque ele não havia encontrado os meios necessários para cometer o crime e fazer com que parecesse uma morte natural ou acidental. Sinto muito, Bolivar, mas ele já encontrou esses meios. Cada minuto que você permanece nessa cassa é um flerte com a morte”.

A fome, a sede, a preocupação e, principalmente, o acumulo de maus tratos, fizeram com que Bolivar parecesse um pequeno zumbi. Seus olhos se tornaram fundos e sua constituição frágil. Durante a noite, prostrado em sua cama, sem conseguir se levantar, a criança teve uma alucinação movida pela febre alta que interpretou como sendo um vislumbre de magia.

O sótão se transformou em uma floresta rica em tons de roxo. Uma boca aberta em um sorriso macabro pairava no ar sem dono, até que um rosto e um corpo tomaram forma a completando. O ser era um gato mágico feito de fumaça, grande o suficiente para amedrontar. – Pobre menino rico, acha que conhece a dor? Você não sabe de nada! Quer se refugiar no meu país? Boa sorte. Aqui as ameaças são maiores do que um simples tio fedorento. Aqui a dor e a morte são belas e têm um nome. Seu nome é Rainha Vermelha! – Dito isso o gato avançou na direção do menino com sua bocarra parecendo querer engoli-lo. Mas quando ia encostar em Bolivar o animal mágico simplesmente desapareceu.

Primeiro foram seus olhos, depois o sorriso e em seguida o resto do seu corpo. O gato reapareceu longe de Bolivar, atrás de uma árvore. – Você quer ver maravilhas, garoto? Que bom, porque o meu país é cheio delas. Tic tac, diz o relógio. O seu tempo está acabando. Acorda, garoto! Levanta daí! – O gato contorceu seu corpo ao ponto de parecer ter virado do avesso, ao fim da transformação ele se tornou o tio da criança. – Ele está vindo!

Bolivar acordou suando frio, mais por causa do medo do que pela febre. Com a boca seca e o corpo tremulo, a criança ergueu-se da cama tropego e se dirigiu até o seu coelho e sua cartola. A cartola pôs na cabeça, o coelho prendeu na calça. De tão debilitado, o simples movimento de se agachar para pegar tais itens o fez ficar tonto. A porta do sótão estava aberta, em algum momento em que estava inconsciente o seu tio entrou ali. Talvez para checar se o menino já tinha morrido.

Seu tio só largava o relógio de ouro quando ia dormir, fazendo com que a missão de roubá-lo só pudesse ser realizada com o monstro em casa. Era de tardinha, o homem gordo tirava um cochilo. Usando de suas habilidades furtivas recém descobertas, Bolivar roubou o objeto desejado da escrivaninha sem emitir nenhum som. Assim que saiu do quarto do seu algoz, Bolivar encostou o relógio no coelho e falou: – Tome o que é seu e me dê o que é meu.

– Bolivar!

Infelizmente, o tio do garoto tinha sono de passarinho. Assim que saiu de seu quarto e viu Bolivar com seu precioso relógio na mão, brincando com o coelho de pelúcia, ficou colérico. O homem já preparava o seu cinto para uma sessão de espancamento homérica quando o impossível aconteceu.

O coelho cresceu de tamanho e perdeu sua textura de algodão. Se tornou de carne e osso, mas permaneceu como uma figura estranha. Um animal humanizado, que chegava ao ponto de usar um terno azul e óculos sem pernas.

– Valha-me Deus! O que é isso?! – Exclamou o tio de Bolivar.

O coelho branco mágico abraçou seu relógio junto ao rosto com tanto carinho que Bolivar se apiedou dele e se lembrou da própria condição de miséria. – Há quanto tempo não recebo um abraço? – Pensou. Então se lembrou dos seus pais.

– Para você isso aqui era só um objeto de ostentação, certo? – Enquanto o coelho ia acusando, o homem cruel se encolhia. – Pobre macaco pelado, se soubesse o poder que tinha em mãos. – O coelho fez um movimento circular segurando o relógio e em resposta um portal se abriu atrás do tio de Bolivar. – Adeus, homem mau. – Aos gritos o tio de Bolivar foi tragado pelo vórtice místico sumindo logo em seguida.

– Você mandou ele para onde a gente vai? – Perguntou Bolivar.

– Claro que não, eu o enviei para onde homens do seu tipo merecem ir. Agora esqueça aquele ser deplorável! Vamos logo para o meu país.

O coelho pegou Bolivar pela mão e saiu correndo pela casa. – Se você só precisava do relógio por que me fez pegar essa cartola? Podia ter me poupado muitas surras, sabia?

– Não há tempo, estamos atrasados! – Disso o coelho guiando o garoto e olhando para o seu relógio.

– Me responda!

– São quatro e cinquenta e oito, está quase na hora do chá! Para onde vou te levar ninguém acreditará que você é um homem respeitável se não aparecer com uma cartola.

No fundo do terreno da casa, na região do entulho, o coelho começou a cavar. Era estranho chamar aquilo de buraco de coelho levando em conta o tipo da criatura que o cavava. O animal mágico apontou seu relógio para o buraco e fez sua magia. Como resultado, outro portal.

Quatro e cinquenta e nove. Bolivar titubeou, tinha medo de ir parar em um lugar desagradável. – Portais mágicos podiam levar para tantos lugares. – Pensou. – E se eu for parar junto do meu tio? Eu fui um bom menino? Acho que não, deixei meus pais morrerem. – Enquanto divagava os ponteiros dos segundos iam se passando.

– Se ficar sozinho nesse mundo você vai viver na rua ou, pior, parar em um orfanato. – Disse o coelho. – Lá você enfrentará trabalhos forçados e terá colegas e tutores tão ou mais cruéis que seu tio. Pobre menino rico, acha que conhece a dor? Você não sabe de nada!

Nos últimos segundos, Bolivar afundou sua cartola na cabeça e deu um salto de fé. – Papai do Céu me ajude!

Era como estar caindo no epicentro de um tornado, porém seu corpo não era eviscerado pela velocidade do vento. Enquanto caia rumo a um destino incerto, Bolivar via móveis e pessoas no mesmo estado em que ele se encontrava.

Após a queda veio o impacto macio. Bolivar caiu perfeitamente sentado em uma cadeira acolchoada extremamente confortável. À sua frente uma mesa grande e retangular repleta de guloseimas e bebidas. Devido ao dia passado sem se alimentar, a criança estava com tanta fome que devorou o que suas mãos conseguiram alcançar. Comeu tão rápido que chegou a engasgar. Havia perto dele uma xícara cheia que ele bebeu em um gole só. Era chá. O líquido delicioso lembrava a bebida que sua mãe preparava e que ele tomava junto ao pai.

Cinco horas da tarde.

Após se satisfazer, Bolivar prestou atenção nas pessoas que o acompanhavam à mesa. Tirando o fato de que todos usavam uma cartola, aquele grupo era o mais heterogêneo possível. Entre eles, um coelho marrom com riso solto, um homem azul incrivelmente magro e uma mulher bonita com lindos cabelos ruivos. Bolivar se perderia na beleza daquela jovem, se não fosse o homem na outra ponta da mesa.

– Pai? – Se não era o pai do menino, era alguém muito parecido, ao ponto de se passar por um gemio. O sósia se levantou de sua cadeira e não se importou em caminhar sobre a mesa. Os presentes não acharam estranho, apenas riram e protegeram seus pratos.

Ao chegar perto da criança, o homem levantou sua cartola revelando dois pequenos chifres na testa. Atrás dele Bolivar percebeu uma calda comprida vermelha com um triângulo na ponta. – Chapeleiro Sinistro, ao seu dispor.

Sinistro se agachou para que seu rosto ficasse mais próximo ao da criança. – Então é essa coisinha pequena, pálida e assustada que irá substituir o finado senhor Jabuti? Então que assim seja. Diga-me. meu rapaz, qual o seu nome?

– B-B-Bolivar.

– Bem vindo, B-B-Bolivar, ao Clube dos Homens Respeitáveis.

– E mulheres! – Se queixou a moça ruiva que despertou a simpatia de Bolivar. Talvez por não ter gostado de ser interrompido, ou por pura loucura, sem olhar para trás, o homem encapetado pegou um bule com sua calda e o arremessou na menina. Ela desviou por pouco e todos riram do ocorrido.

– São cinco horas da tarde, a hora do chá. – Disse o Chapeleiro Sinistro. – A importância desse momento não está na comida ou na bebida servida. Mas sim pelo fato de ser a ocasião em que os homens respeitáveis negociam e discutem assuntos relevantes. – Todos aplaudiram aquele discurso que Bolivar achou familiar ao ponto de se sentir incomodado. – E o assunto em pauta desse dia, assim como no anterior e no pregresso a este é o seguinte: como derrotar a Rainha Vermelha?

– Quem é a Rainha Vermelha? – Perguntou Bolivar. Quando fez isso todos os animais, humanos e criaturas exóticas à mesa que estavam bem humorados se calaram e ficaram subitamente sérios.

– A mais bela forma de morte e dor. – Respondeu o Chapeleiro Sinistro. – Gostaria de conhecê-la?

Devido a sua imaturidade Bolivar era muito transparente, o Chapeleiro Sinistro não tardou a perceber um encantamento que ele tinha pela bela menina ruiva. – Leilane e eu o levaremos até a tão famosa rainha que você desconhece. – A garota tinha dezesseis anos, o dobro da idade de Boliva. A diferença de idade, pelo menos nessa faixa etária, tornava um romance, mesmo que inocente, inviável.

O trio caminhou por uma floresta rica em tons de roxo familiar a Bolivar. O menino temia que a figura do gato macabro de seus sonhos reaparecesse. Para sua sorte ele não o viu, mas o animal mágico estava lá, invisível. O Chapeleiro Sinistro, o líder daquela expedição, sabia de sua presença. Mas fez questão de ignorar.

– Bem vindos a capital do País das Maravilhas! – Anunciou Sinistro, pegando sua cartola e abrindo os braços de maneira bem teatral.

A cidade desapontou um pouco Bolivar, parecia mais uma vila medieval. Cheia de camponeses e pequenas criações de gado bovino e caprino. Dentre as casas e estabelecimentos comerciais simples, como açougue e sapataria, o que chamou a atenção de Bolivar foi uma loja cheia com as mais belas cartolas que ele já tinha visto em sua curta vida. Na placa de madeira na entrada estava entalhado: “Chapelaria”.

– Ah, a nobre arte da chapelaria. – Disse Sinistro. – Desde que o vi percebi que tem uma quedinha por chapéus.

– Meu pai me ensinou que todo homem respeitável deve usar uma boa cartola, e agora que eu conheci o seu clube…

– Seu pai deve ser um homem sábio. Você gostaria de aprender essa arte? Desenhar seus próprios chapéus e moldá-los em cabeças de pobres necessitados que precisam de um símbolo que expresse seu lado mais nobre.

A pergunta ficou solta no ar enquanto o trio adentrou mais na capital e avistou a edificação principal. O castelo suntuoso onde morava a tão temida Rainha Vermelha. Coincidência ou não, naquele exato momento ela estava se exibindo no pátio de cima. Seu vestido comprido que arrastava no chão mexeu com Bolivar, pois sua tonalidade o recordou da noite em que seus pais morreram. O vermelho belo e vibrante do líquido que pulsa nas veias. Quando a rainha se aproximou mais do muro de proteção Bolivar tomou um susto, ela era igual a sua mãe.

– Com vocês, Zamira, a Rainha Vermelha! – Anunciou o guarda trajado como se fosse uma carta de copas. Em sua mão direita ele segurava uma lança cuja ponta tinha a forma de um coração, mas que era afiada e letal.

– Mas ela é minha mãe! Eu não posso lutar contra ela. – Disse Bolivar.

– Aquela bruxa nojenta tem útero? Duvido.

Bolivar só teve a certeza de que aquela mulher não era a sua mãe, a despeito de sua semelhança, com o que viu a seguir. Distraído com a beleza da rainha, o menino nem havia notado o homem preso à troncos de madeira como se estivesse crucificado. – Ele é um dos desafetos da rainha. – Disse Sinistro. – Tentou matá-la, infelizmente sem sucesso. – Zamira apontou sua mão para o seu prisioneiro e nele lançou um feitiço que removeu sua pele, mas o deixou ainda com vida. Os músculos expostos se tornaram muito sensíveis. A dor era excruciante e o homem não parava de gritar desejando a morte.

– Ela chegará, criminoso. – Disse a rainha. – Mas não hoje. Ainda não extraí dor suficiente de você.

– Minha mãe nunca faria isso. – Pensou Bolivar enquanto tremia diante daquilo que acabara de presenciar. – Tem certeza que o Clube quer mesmo lutar contra ela?

– Por mais poderoso e cruel que um ditador possa ser, é importante que haja homens corajosos que os enfrentem. – Sinistro se agachou para ficar no mesmo nível do olhar da criança. Ele pegou o menino nos ombros e com sua calda pontuda o cercou. – Eu soube de sua coragem ao enfrentar um tio cruel. Sinto em você uma fibra que desconhece. Não esmoreça, Se você não merecesse fazer parte do Clube dos Homens Respeitáveis, o Senhor Coelho nem teria o enviado.

Os dias se passaram, assim como os meses e os anos. Regularmente Bolivar participava do chá do clube, porém a maior parte das discussões eram galhofas ou conversas sem sentido. – Como eles almejam derrotar uma rainha poderosa desse jeito? – Pensava Bolivar. Com o tempo o menino deixou a infância e se tornou um rapaz. Aprendeu o ofício de costurar, consertar e desenhar chapéus e se tornou um exímio chapeleiro, tudo sob a tutela de Sinistro. Aos quinze anos, a relação dele com Leilane mudou. O interesse que ele nutria por ela quando ainda era criança se tornou reciproco.

Sozinhos na floresta mágica, Leilane corria com um largo sorriso no rosto enquanto Bolivar a perseguia. Ela era muito mais ágil e veloz do que ele, por isso teve que se esforçar para fingir que foi capturada por mérito do garoto. Bolivar a derrubou no chão, e com o corpo em cima do dela a beijou.

– Quer conhecer mais uma maravilha desse país? – Perguntou Leilane.

– Claro.

Ela tirou de dentro do seu vestido um frasco pequeno com um líquido azul e brilhante. – Beba só a metade e deixe o resto para mim. – Os dois secaram o frasco e logo a poção mágica fez efeito. Seus corpos perderam massa, encolhendo ao ponto de caberem na palma de uma mão. Soterrados por suas próprias roupas, que continuaram com o tamanho normal, o casal teve dificuldade de chegar ao ar livre. Quando conseguiram um viu o outro pela primeira vez como vieram ao mundo. Leilane correu para a proteção da manga do seu vestido enquanto Bolivar se escondeu no colarinho.

Os dois ficaram envergonhados, apesar de também se sentirem realizados por se verem como marido e mulher se veem. Eles não planejavam fazer sexo, ambos foram criados com o pensamento de que a demonstração máxima de afeto só podia ser feita depois do casamento. Mas isso não os impedia de aproveitar alguns prazeres, como essas “brincadeirinhas”.

Com a habilidade de costura de ambos, os dois criaram roupas minusculas no improviso. Bolivar e Leilane estavam vestidos com algo parecido a roupas de bonecos. – Então qual era a maravilha que queria me mostrar? Você?

Leilane enrubesceu. – Não, seu bobo. É lá.

O cogumelo tinha uma porta, algo incomum, mas naquele país o incomum era encontrar algo comum. O casal entrou de mãos dadas e se deparou com um bar restaurante badalado. Repleto de clientes e garçons únicos. Insetos humanoides em sua maioria. Em um lugar privilegiado, fumando um narguilé com uma expressão bem relaxada, uma lagarta azul com cara de gente.

– Senhor Absolen. – Disse Leilane. – Pode contar nosso futuro?

A lagarta se virou em direção da menina com uma letargia que incomodou Bolivar. – O que será que ela fuma tanto nesse narguilé? – Pensou.

– Todos vem até mim com a mesma pergunta e minha resposta é a mesma para todos. Não importa qual estrada se escolha no final todas levam ao mesmo destino, a morte.

– Sim, claro, ninguém vai viver para sempre. Mas o que irá acontecer conosco enquanto isso?

– Um breve período de felicidade extrema, interrompido pela morte prematura de um dos dois e a loucura do outro. Sinto muito, as vezes é melhor descobrir o futuro só quando ele chega até nós. Tomem uma boa dose de bebida essa noite, se divirtam e esqueçam minha previsão.

O casal fez exatamente o que Absolem sugeriu. Durante a noite toda beberam, dançaram e sorriram. Na manhã do dia seguinte, só quando o bar restaurante fechou, é que os dois saíram. Ao comerem pequeníssimos cogumelos encontrados pela área eles recobraram seus tamanhos originais. Novamente se viram despidos, só que dessa vez não conseguiram se conter e cederam ao amor.

Naquele momento o País das Maravilhas não era só romance, era também traição. Uma chuva de moedas de ouro despencava sobre um coelho marrom à ponto de soterrá-lo. Ele usava cartola, era membro do Clube dos Homens Respeitáveis. Porém, com tal atitude, o animal provou não ser tão respeitável assim. Era o castelo da Rainha Vermelha, ele estava tendo uma audiência com a feiticeira.

– Eles planejam tirá-la do trono há anos. São chamados de Clube dos Homens Respeitáveis. Todos são identificáveis por uma cartola.

Sentada em seu trono, a rainha não esboçava muita preocupação com o que lhe era dito. O que não faltava em seu reino eram inimigos. – E me diga, caro coelho. Eles têm alguma chance de se tornarem uma ameaça? Por todo esse tempo eu nunca soube deles.

– Eles foram advertidos por uma profecia. Não desejam um combate aberto contra vossa alteza. Eles esperam a chegada de uma menina vinda de outro mundo, A Escolhida. Ela sim está predestinada a arrancar a sua cabeça e eles a querem guiá-la a esse objetivo.

– Me mostre onde se escondem.

Cinco horas da tarde, hora do chá. Todos os membros do clube se reuniam em sua habitual comilança e bebedeira de chá. Dentre eles, dois em especial eram os mais felizes. Leilane e Bolivar trocavam caricias com os pés e as mãos embaixo da mesa. O casal era sorriso só. O Chapeleiro Sinistro percebeu a felicidade dos enamorados e se alegrou por eles. A tarde começou bonita, mas terminaria trágica.

Do lado de fora da tenda, o coelho marrom indicava à feiticeira e ao seu exército de homens cartas o endereço do inimigo. Com uma ordem lanças começaram a voar pelo céu e a irromper o local da reunião do clube. O primeiro a ser trespassado foi o mais pacato de todos, o pobre senhor Tartaruga.

– Fomos descobertos! – Gritou o Chapeleiro Sinistro. O pânico e a correria começaram. A saída da tenda era pequena para que muitos passassem de uma só vez, o que tornou a situação mais desesperadora. Mais e mais morriam. As lanças das cartas da Rainha Vermelha não tinham clemência.

Bolivar puxava seu amor pelas mãos e a guiava pela floresta. Ele achava que estava longe o suficiente para ter despistado o inimigo, mas de súbito sentiu o corpo de Leilane pesar. Ao se virar descobriu que uma lança havia a atingido. Estava morta. Como da vez em que seus pais morreram, Bolivar tentou acordá-la. Só conseguindo sujar as mãos de sangue.

Após lágrimas e gritos de desespero saírem de seu peito, Bolivar desatou a rir feito um histérico. – É o meu destino, ver a beleza que há dentro das pessoas que eu amo escorrendo em minhas mãos.

Destruição. Ao voltar para a tenda após a batalha ter findado, Bolivar descobriu que todos estavam mortos. Seus colegas de anos. Inclusive seu tutor, o mais nobre de todos a despeito de seu nome e aparência.

Bolivar sentou na cadeira que antes pertencia a Sinistro continuando a rir copiosamente. Sua sanidade estava se esvaindo.

– Ei, você. Ainda há esperança.

O adolescente olhou para os lados e não conseguiu ver o dono daquela voz, só quando prestou atenção em um pontinho azul na mesa é que identificou a lagarta azul Absolem. – Maldita previsão! A culpa é sua! – Disse Bolivar pegando um bule para amassar o inseto.

– O que é isso? Está louco?

– A tragédia me deixou biruta. Me chame de Chapeleiro Louco, que tal?

– Aproveite a insanidade o quanto quiser, mas o clube tinha uma missão e como você é o último membro ainda vivo ela recaí sobre os seus ombros.

– Durante anos eles não avançaram em nada, como poderei fazer isso sozinho?!

– Com a ajuda de uma garota não muito mais velha do que você quando veio a esse mundo. Ela está chegando, seu nome é Alice.

No dia seguinte, às cinco horas da tarde, cumprindo com sua obrigação, Bolivar seguiu com o horário do chá do clube.

– Senhor Tartaruga, há alguma ideia relevante? – Ninguém respondeu, sentado à mesa não havia ninguém além do adolescente de cartola. O garoto fez uma careta quanto bebeu de sua caneca, suas habilidades culinárias não melhoraram muito com o passar dos anos. Ele ainda não sabia preparar um chá.

– Senhor Azul! Ótima ideia! O quê? Leilane tem algo a dizer. Oh, amor, aqui na mesa não. – Bolivar acariciou o próprio rosto com uma das mãos, fingindo que aquele afago vinha de sua amada. Se refugiar na loucura era bom, principalmente quando a realidade era dura demais para encarar.

De súbito, um lampejo de sanidade seguido por um de fúria. Lágrimas jorraram do rosto do chapeleiro quando ele se deu conta que não iria encontrar mais nenhum dos seus amores. Seus pais, ou sua mulher. O chapeleiro levantou-se da mesa e começou a bater em tudo o que via na frente até suas mãos ferirem. – Maldito País das Maravilhas!

No dia depois ao último, às cinco horas da tarde, outra reunião solitária do chá.

– A importância desse momento não está na comida ou na bebida servida. Mas sim pelo fato de ser a ocasião em que os homens respeitáveis negociam e discutem assuntos relevantes. Entendeu? – A cada vez que Bolivar repetia aquela pergunta, ele se autoflagelava com um tapa na testa forte o suficiente para a pele ficar vermelha. – Entendeu? Entendeu?

Terceiro dia, mesmo horário, mesmo evento.

– Hahahahaha! Quantas maravilhas esse país reserva aos seus visitantes! Venha Alice, venha querida! Uma menininha de oito anos tem toda a chance do mundo de derrotar uma feiticeira dona de um exército! Claro, Papai do Céu, protege os inocentes.

Oito anos depois. Desde o incidente, mesmo sem esperança, por simples falta de perspectiva, Bolivar repetia o ritual do chá das cinco. Nesse tempo alguns animais o acompanharam em sua loucura. Animais falantes também com muito pouco juízo.

– Hoje é o dia em que a salvadora irá nos defender e bláblábláblá. – Dizia o Chapeleiro Louco, seu nome de batismo foi esquecido e com o tempo esse se popularizou. Suas palavras já não tinham um pingo de esperança. Eram praticamente mecânicas. – Alice, Alicinha, Aliçoca. Cara de pasta de mandioca.

O vestido azul era coberto por um avental branco, seu corpinho era diminuto, sua tez clara ao ponto de parecer porcelana. Seus cabelos eram negros como a graúna. Era uma menina bonita de oito anos. – Por que você tanto fala o meu nome?

Com um salto, o Chapeleiro Louco foi parar de sua cadeira em cima da mesa. – Diga, minha doce Alice, você acredita em destino? Temos uma Rainha Vermelha à derrotar.

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3 comentários em “O Clube dos Homens Respeitáveis (Alan Cosme Machado)

  1. infoman32
    14 de dezembro de 2015

    Obrigado pelo comentário, pensarei sobre sua proposta.

  2. Alan Cosme Machado de Almeida
    14 de dezembro de 2015

    Obrigado pelo comentário, seguirei sua proposta.

  3. Juliano MARQUES
    19 de junho de 2015

    Tá ai uma ótima sinopse para um romance, Achei muito bacana as ligações que fez com Alice, bacana mesmo. Parabéns.

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Publicado às 16 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .