A saideira é uma espécie de Santo Graal. Ela é inalcançável, inatingível. É um sopro de esperança para um bêbado desolado e solitário – apesar de acompanhado.
Ela reluz sobre a espessa camada de gordura que reveste o balcão. Quando aberta transpira raros resquícios de ousadia – esquecidos na juventude – que ornamentam as vestes ébrias da existência pacata.
O abridor enferrujado desperta o suspiro inicial que traz consigo a leveza do espírito. A derradeira felicidade engarrafada. O amor, a música, o esporte, a política e as artes – que zombam desengonçadamente da complexidade cotidiana do mundo “moderno”.
Aplaca a dor existencial e consome os desalinhos de nossa falsa linearidade. Clama pela insensatez subjugada, encorajando toda a originalidade esquecida nas agendas do colégio. Supre – sempre que possível – a ausência que não pode ser suprida. Brinca, sem frescura, com a seriedade e desafia todas as unanimidades. Cospe em teorias, rasga leis e tratados, dança sobre cadáveres e ri no final de tudo.
Entende qualquer teoria nonsense, para então desconstruir as obviedades ditadas. Vilipendia a morte na esquina, assopra a vela dos outros e sorri, mais uma vez. Vive o famigerado “carpe diem”, acerta o latim, mas erra feio no português – ninguém liga. Na hora da saideira não há espaço para corretores de texto.
Gargalha e chora na mesma profundidade – trepidando nas depressões. Murmura berrando impropérios elegantes que não dizem nada. Grita, baixinho, mentiras verídicas que tudo tem a dizer. Porém, não importa a ninguém.
Na última gota, o grão de areia da ampulheta descompromissada. O fim, que marca o início de tudo. A brisa do resto de vida findando o momento. A verdadeira saideira sem volta.
A morte da noite, a nossa morte.
Quando li o título do texto em inglês, pensei se tratar de alguma viagem etílica em um pub qualquer. Não sendo assim, o título ficou fora de contexto já que não utiliza-se de anglicismo para desencadear a trama.Também não encontrei lirismo nas frases para conceder ao texto um tom de prosa poética: soou como depoimento, com impressões aprofundadas, do eu lírico sobre os efeitos e sintomas perante a “saideira”. Cabe perfeitamente na categoria crônica elaborada com esmero.
Oi, grande!
Ótimo jogo de palavras ali no meio. Começa de um modo brando e vai crescendo de um modo que até causa tontura. Deixa eu me segurar por aqui. Ótimo!
Vejo que cada leitor retira um trecho que lhe toca, a mim coube este:
‘Na última gota, o grão de areia da ampulheta descompromissada. O fim, que marca o início de tudo. A brisa do resto de vida findando o momento. ‘
Conclui tudo o que vinha dizendo, como todo fechamento deve fazer.
E conclui para uma visão tão desanimadora da vida, infelizmente. Parece uma crônica, onde não me é muito possível separar o ‘eu’ personagem do autor.
Não vi poesia nas frases, para que seja uma prosa poética. Achei o texto mais pra crônica mesmo e podem me apedrejar,pq na verdade, não apreendi os conceitos certinhos dos ‘nomes das coisas’ e posso estar falando um besteirol gigante,mas enfim, é preciso falar :p
Não gostei do titulo em ingles, se houvessem citações em ingles no texto,mas não há… ficou voando.
Não gostei muito do texto não 😦 Não me conectou, sabe como é.
Abração!
Valiosíssimas impressões, Anorkinda!
Grato pelo comentário.
Bjs
“Gargalha e chora na mesma profundidade – trepidando nas depressões.” – que fóda! Muito bom, mesmo. A ironia impregnada é outro ponto forte. Parabéns!
Sir Sollberg!
Cara, eu me empolguei no primeiro parágrafo, mas por minha própria culpa acabei me decepcionando depois.
Criei a expectativa de um texto ágil ao melhor estilo Bukowski (que acho que casa perfeitamente com o seu estilo), mas não foi necessariamente o que encontrei. Quando digo que foi minha culpa, é porque em nenhum momento o texto, cadenciado e sereno, “prometeu” que seria da forma como eu o imaginei.
Mas está longe de ser um texto ruim. Eu que não entrei em sintonia com ele mesmo.
Abraço!
O José Leonardo tem razão. Eu gostei pra caralho do texto, mais pra prosa do que pra poesia, marcado, costume em seus textos, por ironias e ótimas reflexões. Viva a saideira, porra! Abraço.
Olá, Rafael Sollberg. Sempre escapando de clichês! Sempre superando qualquer resquício que possamos imaginar disso. Não é a primeira vez e nem será a última que elogio copiosamente os seus trabalhos. Vou me contendo aqui rsrs.
Abraços.
Na hora desta saideira não espaço para corretores de texto, nem para mais nada e ninguém. Adorei.
“Na hora da saideira não há espaço para corretores de texto.” Adorei isso. Claro que a prosa poética teria de ser sobre bebedeira..rs. Muito bem, gostei de cada parágrafo transformado em verso. 🙂