EntreContos

Detox Literário.

A Leoa Edêntula (Jowilton Amaral)

Nota do autor: Este foi um dos contos que escrevi depois da leitura do livro o Lobo da Estepe de Hermann Hesse. Escrevi com o intuito de enviá-lo a um concurso literário, acabei desistindo da ideia. É um conto triste. Depois de várias leituras achei que ele correria o risco de ser interpretado como piegas, ou forçado demais, contudo, é um conto que gosto muito de ter escrito. É muito provável que esteja precisando de revisão. E, antes que eu me esqueça, e alguém pergunte, não é autobiográfico ou baseado em fatos reais. (Acho estranho ter que esclarecer isso num blog de escritores).

 

Eu tinha nove anos quando tia Sofia se hospedou em minha casa. A passagem dela em minha vida foi marcante e perturbadora. Guardo a lembrança de sua esguia e fina silhueta, tão fresca em minha cabeça, como se ela houvesse se despedido ontem. Nunca conheci ninguém como ela, com aquela solidão fincada no olhar, desenhando seu rosto com tintas incolores e berrantes. Era alta, elegante e magra como um atleta que corre longas distâncias. Mostrava traços de uma beleza perdida.  Sua pele e sua esclerótica eram de um amarelo doentio; ictérico. Os cabelos loiros e volumosos chegavam a sua cintura, tinha olhos verdes dormentes, alcoólicos. Possuía um cheiro inebriante do sabonete preto da Phebo.

Eu calçava meus sapatos para ir ao colégio quando ela entrou na sala com minha mãe. Fiquei impressionado com sua magreza anoréxica e seu olhar de embriaguez. Andava com passos inseguros como de uma velha caquética, apesar dos seus trinta e cinco anos, dois anos a menos que minha mãe. Parecia que se equilibrava em pernas de pau, medindo cada passo com extrema atenção. O tombo parecia iminente, mas nunca aconteceu, não para os meus olhos. No entanto, eu soube que ela tinha caído muitas vezes na marcha da vida.

Chegou num vestido verde que dançava frouxo quando ela se movimentava, trazia na mão direita uma enorme sacola da Sears, onde levava suas roupas, e arrastava, com a mão esquerda, um carcomido baú marrom, que com o tempo descobri tratar-se de sua biblioteca. “Aqui dentro está todo o meu tesouro, Max, e tesouros devem ser guardados em baús”; ela me confidenciou uma vez. Chegou até mim, ao lado de minha mãe, e sorriu. Um sorriso antagônico a sua aparência de tristeza e desamparo, era um sorriso sincero, alegre, enternecedor; de dentes postiços. Afagou minha cabeça e beijou meus cabelos, foi a primeira vez que senti seu cheiro imperecível de sabonete.

Ela se acomodou no quarto bem acima do meu. Pude acompanhar seus passos, repercutindo no piso de taco marrom, pelas inúmeras noites de aflição e delírios que a acompanharam no tempo que esteve hospedada entre nós. Muitas vezes ouvi sua conversa com seus visitantes invisíveis, envolta com seus demônios e sua eterna dor. Dor da alma. Era essa a dor que a definhava, mais que a física, hoje eu sei. Também ouvia o ranger feroz da cama quando ela recebia as visitas clandestinas do Norton, quando minha mãe fazia suas viagens de negócios. Outras vezes escutava versos sendo rugidos com fervor febril, além das várias discussões entre ela e minha mãe.

Ficava reclusa por muitos dias, só saindo na hora do jantar. De quando em quando, escapulia a noite, na ponta do pé, e só retornava ao alvorecer, cantando feliz.

Tia Sofia foi quem me ensinou a ter estima aos livros, tratá-los como um grande amigo; o melhor amigo. Passei muitas tardes no seu quarto, ao retornar das aulas, enquanto minha mãe trabalhava. O quarto era envolto por uma névoa nicotínica, que muitas vezes me fez tossir. Garrafas e mais garrafas espalhavam-se pelo cômodo, principalmente as de Velho Barreiro, carteiras de cigarros vazias e amassadas, de cor vermelha, estavam jogadas pelos quatro cantos do lugar. Uma caixa de sapatos repousava em cima do criado mudo abarrotada de medicamentos. Os livros escorriam da abertura do anacrônico baú, tombado ao chão, como num vômito de letras expelido por uma garganta culta e ébria. Roupas acumulavam-se em um canto. Seu cinzeiro era um imenso jarro de barro cheio de água que reinava no centro do quarto. A aparência daquele lugar era de desalinho, abandono e sujeira, abrandada somente pelo indefectível cheiro de sabão aromatizado que exalava de sua pele ressequida, afirmando que ela, ao menos, mantinha seu asseio pessoal.

Eu ficava horas a fio ouvindo suas estórias. Ela mostrava-me seus livros e lia passagens deles em voz alta para mim, muitas delas incompreensíveis para um menino de nove anos. Algumas vezes, eu apenas a observava nos seus longos momentos de contemplação, olhando aquele rosto esculpido pela dor. Ela tinha um ar de mártir, um olhar altivo e doce, beatífico. Carregava em seus olhos a pureza dos que buscam a luz mergulhando profundamente na escuridão. Mas também fui expulso, algumas vezes, do seu quarto, de baixo de urros de fera. E aquele olhar santo se transfigurava em ira e desespero, e que, paradoxalmente, parecia pedir ajuda. Um afago. Um consolo. Nestes dias eu corria dali, com meu coração despedaçado. “Por que ela fazia aquilo comigo?”; Perguntava-me. Nos dias felizes ela sorria e dizia: “Pode entrar meu pequeno Aliosha”. Eu não sabia por que assim me chamava, e ela me explicou que era o nome de um personagem de um livro de Dostoievski, que mais tarde eu conheci. Também me chamava de Quincas, Tom, Bentinho, Bandini, Aureliano, Rieux, Gregório, Policarpo, e tantas outras personagens que povoavam sua mente. E, quando a raiva a possuía, só saia de sua boca o meu verdadeiro nome; “Max, saia já daqui seu menino maldito!”, ela rugia.

 

Sua busca por Deus era comovente.  Seguia um rumo torto para chegar até Ele, e a esse caminho, duvidoso e curvilíneo, ela entregava sua vida, mortificando sua alma. Travava uma batalha anímica e solitária. Minha cabecinha de infante achava seus meios de buscá-Lo uma grande perda de tempo, era muito fácil encontrar Deus, bastava apenas acreditar e fim, ponto final. Todavia, ela procurava respostas às perguntas que suas entranhas de leitora voraz e pensadora compulsiva faziam, e quanto mais não às recebia, mais perguntava, era um círculo desesperançoso e sádico, que a fazia sofrer. E esse sofrimento era o alimento para ela continuar. Sua investigação era empírica, ela queria provas concretas, mas nunca as encontraria daquela forma, hoje eu compreendo.

 

E quanto mais encarniçada sua aparência se tornava, mais amor e admiração eu sentia por ela, mais atraído ficava por sua mente, por sua vida, eu queria saber o que ela pensava; o que sentia. Eu ansiava acalmar seu padecimento, e isso era um grande martírio para um menino com menos de uma década de vida. Minha tia me fez homem precocemente, não por vias sexuais, é claro, mas, pela pior forma de todas: o amadurecimento através da dor. Eu a amava tanto quanto amava minha mãe, mas também a odiava por suas atitudes, por sua fraqueza, por sua coragem, por sua força e desequilíbrio, por sua loucura e desapego, por suas bebedeiras… E isso doía e eu sofria.  Vivia num turbilhão de sentimentos torturantes.

 

Dois dias antes de sua última viagem fui visitá-la em seu quarto. Ela estava na janela em seus momentos de reflexão. Um cigarro numa mão, um copo na outra e o olhar perdido de estranheza ao mundo que a rodeava. Sua debilidade era assombrosa, o corpo macilento anunciava sua eterna partida. A perda de peso fez com que as próteses não vedassem mais em suas gengivas murchas.  Quando percebeu minha presença, se virou e sorriu, no mesmo momento em que o sol iluminou suas faces. E a luz solar reverberando na vasta juba cor de ouro, fez-me ver a felina que se escondia nela. Foi naquela hora que vi a leoa edêntula; sua ânsia de viver; a ferocidade de sua luta pela vida. Sua fome de sobrevivência, de caçar todos os sentidos da existência, era insaciável.  Ela queria mastigar a vida e devorá-la em migalhas, todavia, a privação de suas presas, fazia com que ela a engolisse em grandes pedaços indigestos. Simultaneamente sentia as mordidas impiedosas e dolorosas da boca do destino devorando sua carne, triturando seu espírito. Ela veio até mim, abraçou-me e beijou meus cabelos, foi a última vez que senti seu cheiro de sabonete.

 

Faleceu aos trinta e seis anos, dois dias após a minha última visita ao seu quarto, um dia depois de seu internamento no hospital, em virtude de uma incurável doença hepática. Seu vício na bebida acelerou o processo de morte. Convivi com ela por oito meses, e estes foram os melhores e piores momentos desses trinta nove anos de minha vida. Depois da doença avançada, tia Sofia se entregou suicidamente ao abismo, e viveu com ele um tórrido caso de amor e ódio.

 

Lembrei-me dela hoje ao dar banho na pequena Sofia, minha filha de apenas um ano. O perfume do sabonete escuro entrou por minhas narinas formando a nítida imagem elegante e triste de minha querida tia, a leoa; uma leoa sem dentes.

2 comentários em “A Leoa Edêntula (Jowilton Amaral)

  1. Claudia Roberta Angst
    7 de maio de 2015

    Uau, gostei bastante! Muito boa essa história sobre a tia Sofia. Gostei da caracterização, mas acho que esguia e fina resultam em redundância. Bastava dizer que era esguia. No mais, só deixou o cheiro de banho, do sabonete escuro… (olha a propaganda!). Uma leoa sem dentes – muito boa essa imagem, simbólica também. Parabéns.

    • Jowilton Amaral da Costa
      10 de maio de 2015

      Obrigado, Claudia. Na época que escrevi o conto, que não é tão antigo assim, deve ter uns dois anos só, eu cometia muito destes erros, era muito redundante. Hoje estou melhor. O conto precisa de uma boa revisão, tem umas cacofonias também, muita repetição de ela e mãe, e eu usava muito o tinha, hoje abuso do havia, penso que fica mais literário. Abraço.

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Informação

Publicado às 5 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .