EntreContos

Detox Literário.

A Queda (Fabio Baptista)

lucifer

Lúcifer, Estrela da Manhã, distraiu-se por alguns instantes, segurando a manopla de combate em frente ao rosto. Contemplou todas as nuances e detalhes da luva prateada que refletia o azul do céu e de seus olhos – certamente os mais belos de toda criação. Semblante estagnado em algum ponto entre a ansiedade e a hesitação; pensamentos perdendo-se nos meandros dos diminutos feixes luminosos que explodiam dentro dos diamantes que adornavam a última peça que restava para cobrir-se com sua magnífica armadura. Respirou fundo, enchendo-se do aroma celeste, sempre fresco e revigorante a qualquer hora do dia ou da noite. Sentiu o cheiro das rosas, dos jasmins, das orquídeas, das maçãs, dos pêssegos e da relva, ainda umedecidos pelo sereno da madrugada. Prendeu o ar por um longo momento de incerteza e, em seguida, soltou tudo de uma só vez, em um assovio grave de determinação. Desejou que os últimos resquícios de dúvida que ainda encobriam seu coração, como folhas mortas boiando num lago de água cristalina, fossem levados embora pelo vento suave que brincava com seus cabelos naquela manhã.

Mas eles não foram.

Mesmo assim, Estrela da Manhã colocou a luva, ficando totalmente equipado para a guerra. Para a grande batalha que viria ainda naquele dia, e haveria de se definir antes que o Sol tingisse de vermelho as nuvens no horizonte. A batalha que concederia a Lúcifer seu lugar de direito, que abriria espaço para que chegasse ao trono do Altíssimo e dali arrancasse seu velho Pai, tomando assim, com mão forte, o posto mais alto na hierarquia celestial. A batalha que apresentaria ao universo o seu novo Deus.

Abriu e fechou o punho algumas vezes, com a confiança avolumando-se em um leve sorriso no canto da boca. Gostava de ouvir o ranger produzido pelo metal nas articulações perfeitamente encaixadas que revestiam seus dedos. Refletiu por um instante, questionando-se se seria capaz de construir uma armadura com tamanha maestria. Concluiu que era óbvio que sim, afinal, não havia nada que seu Pai tivesse feito que ele, o anjo mais poderoso, não poderia fazer igual, ou melhor. Empunhou a espada conhecida entre os querubins como “Aniquiladora do Caos”: a arma mais destrutiva já criada, entregue pessoalmente por Deus, após ser forjada com energia que seria suficiente para costurar um milhão de quasares na malha negra do espaço. Segurou-a, com a costumeira sutileza, e a brandiu lentamente no ar. Partículas brilhantes marcaram o caminho percorrido pelo gume, flutuando em silêncio, como a neve que chega ao chão trazendo consigo os suspiros agonizantes do outono. Sentiu poder, confiança e certeza irradiando no punho, permeando a manopla de combate, infiltrando-se em sua mão e subindo pelo braço, atravessando-o de ombro a ombro, percorrendo todo corpo, dos pés à ponta do último fio de cabelo e, finalmente, invadindo e inflamando seu coração com as chamas da ousadia, que precisam arder para que um grande passo seja dado. As mesmas chamas que às vezes queimam demais e tornam-se loucura.

O tímido sorriso de canto de boca não tardou a transformar-se em gargalhada de dentes escancarados, enquanto nuvens cobriam o Sol, lançando sombras de mau agouro sobre os campos verdejantes do Paraíso. Lúcifer, o portador da luz, o primeiro e mais belo dentre todos os anjos, arcanjos e querubins, caminhou vagarosamente em direção às suas tropas, que o aguardavam em prontidão, lideradas por Belial, o valoroso.

— Comandante… – Lúcifer cumprimentou, batendo as asas para se erguer alguns bons centímetros acima do solo e assim conseguir olhar seu subordinado, que era o mais alto dentre os anjos, de cima para baixo.

— General… – Belial respondeu, com igual formalidade e frieza. Meneou levemente suas asas esplendorosas, mas permaneceu com os pés fincados ao chão.

— Como está a moral das tropas, Comandante? Observando daqui, vejo uma quantidade considerável de semblantes assustados, olhares que se esquivam buscando o solo quando encarados, lanças que tremem às mãos, espadas empunhadas sem qualquer confiança, escudos que parecem ter ficado mais pesados da noite para o dia… eu vejo isso em alguns, Belial. Na verdade, em muitos. – Disse Lúcifer, percorrendo suas hostes com o olhar e segurando o punho da Aniquiladora do Caos. – Mas não é o que vejo em uns e outros o que me preocupa, Comandante. O que me preocupa de fato é o que não estou vendo, em ninguém… quer que eu te diga o que é, Belial?

— … Sim… meu senhor… – As palavras só conseguiram sair após uma longa inspiração, que apaziguou o ímpeto de responder as primeiras coisas, certamente desaforadas, que lhe vieram à cabeça.

— Sabia que iria querer ouvir, Comandante… pois eu te digo: eu não estou vendo aqui a sede de sangue, a vontade de correr em direção às linhas inimigas e promover um massacre, a empolgação de brandir uma espada em direção ao pescoço desprotegido do oponente, de arremessar a lança à distância e ouvi-la assoviando no ar até encontrar um coração no caminho. – Enquanto falava, Lúcifer interpretava cada um dos ataques que descrevia. Então, após uma pausa e um suspiro carregado de decepção, continuou: – Não estou vendo aqui, Belial, o brilho nos olhos que os guerreiros precisam ter antes de uma batalha. O brilho que estava em nossos olhos, quando travamos a grande guerra contra as forças do Caos, lembra-te? Ah, não faz tanto tempo, Belial, tenho certeza que você lembra muito bem! Pois então, meu bom Comandante, estamos prestes a marchar rumo a uma contenda ainda mais importante e que pode se tornar ainda mais mortífera que aquela… e os soldados estão com cara de quem se encaminha a um recital de harpa. Você saberia me explicar o porquê disso?

Belial engoliu em seco e refletiu, ponderando se não seria melhor atacar Estrela da Manhã e acabar de uma vez com aquela insanidade, arrancando-lhe, à machadadas, o sorriso debochado que estampava no rosto ao proferir seus mandos, desmandos, caprichos e perguntas retóricas. A mão chegou a deslizar instintivamente rumo ao cabo do machado de guerra preso à cintura, mas o Comandante controlou-se a tempo. Lúcifer estava no auge de seu poder e de suas habilidades de batalha, dificilmente seria derrotado em combate direto. Era hora de aguardar, concluiu Belial. E assim respondeu ao General:

— A verdade, Lúcifer, Estrela da Manhã… é que brumas tempestuosas pairam bem acima de nossos elmos e constantemente trovões de dúvida explodem em nossos ouvidos. Ao contrário da guerra contra o caos, onde cada um sabia exatamente a razão de estar ali lutando e matando e sangrando e morrendo se preciso fosse, dessa feita não há uma convicção mútua acerca da… sensatez… em se travar a batalha que tu nos propõe. E, acima de qualquer outra coisa, os soldados estão deveras preocupados com as reais chances que temos de lograr êxito nessa investida. – Antes de terminar a frase Belial já estava alerta, pronto para se defender caso o General não reagisse muito bem à sinceridade da resposta.

— Estão com medo das tropas de Miguel, Comandante? – Lúcifer questionou com escárnio, encarando Belial como quem encara um inseto, um pequeno caramujo, ou talvez algo ainda mais insignificante.

— Miguel e suas tropas não, Estrela da Manhã… estamos receosos quanto a atacar o ALTÍSSIMO! – A última palavra saíra da boca de Belial num tom mais alto e mais imbuído de raiva que o esperado.

Foi a vez de Lúcifer dirigir a mão à arma. Tamborilou os dedos na empunhadura e então puxou a Aniquiladora do Caos, apenas o suficiente para que um pedaço da lâmina ficasse à mostra fora da bainha, sussurrando uma ameaça que fez Belial instintivamente recuar um passo e encolher as asas.

— Então eles duvidam que posso derrotar o Altíssimo? Então não têm certeza sobre o porquê de marcharmos em direção aos portões de safira nessa manhã… – Lúcifer balbuciou consigo, girando a cabeça lentamente de um lado para o outro, contemplando uma vez mais toda a extensão de suas fileiras. Em seguida falou, tão repentino, estrondoso e aterrador quanto uma estrela colapsando em si mesma para tornar-se buraco-negro: – ESCUTEM, SOLDADOS! Muitos de vós combatestes a meu lado, na árdua peleja que travamos contra as forças caóticas, que nos ameaçavam e faziam cerco a nossos portões desde tempos imemoriais. Eu quero que se lembrem, meus amigos… quero que se lembrem quem escalou a, até então intransponível, Montanha da Entropia, esquivando-se de vagalhão de energia após vagalhão de energia, derrubando gigante de mármore atrás de gigante de mármore, abrindo caminho por hordas de guerreiros etéreos até chegar ao topo, ao lugar mais mortal que existiu ou haverá de existir, onde um mínimo deslize poderia destruir qualquer alma para todo o sempre; onde o vento soprava tão forte que mesmo as estrelas mais pesadas deslocavam-se do firmamento e o chão tremia tanto que os planetas e suas luas partiam-se em milhões de fragmentos que perdiam-se junto à poeira cósmica. Quero que lembrem, meus caros, quem subiu lá e cravou a espada na massa amorfa de Caos em seu estado mais bruto e selvagem, quem sentiu reverberar no punho todo o ódio irracional, toda a angústia reprimida, todo o desejo por desordem e destruição que tal criatura indizível guardava dentro de si. Pergunto a vós, soldados sob meu comando: quem foi o autor de feito tão magnífico? Por acaso foi Miguel? – As tropas estavam mesmerizadas com o discurso do General e só despertaram quando ele reforçou a pergunta, com um grito rouco que abalou metade do Paraíso: – POR ACASO FOI MIGUEL???

— NÃO, SENHOR! – A resposta veio num uníssono mais assustado que convicto.

— Eu vos pergunto, companheiros de armas: quem liderou as tropas celestiais rumo à vitória improvável e concedeu a vós a oportunidade de ver a luz da vida por mais um dia… POR ACASO FOI GABRIEL OU RAFAEL?

— NÃO, SENHOR! – A dúvida começava a converter-se em confiança e ganhar volume no coração e na voz dos anjos.

— POR ACASO FOI YAHWEH, O ALTÍSSIMO???

— NÃO!!! – A confiança começava a virar frenesi.

— Então… QUEM FOI???

Seguiu-se um alvoroço de vozes que trespassavam e aglomeravam-se umas às outras. “Lúcifer!”, bradavam eles. E também “Seguiremos a ti até a morte!”, “Foi tu, meu General!”, “Estrela da Manhã!” e muitas outras coisas. A balbúrdia exalou o cheiro amalgamado de loucura, selvageria e coragem que permeia um exército confiante na vitória antes da batalha. E Lúcifer sorriu. Aguardou que os ânimos se aquietassem, saboreando o resultado de seu poder de persuasão e também a inveja que irradiava velada nos olhos escuros de Belial. Continuou com o discurso em seguida, com as palmas das mãos viradas para baixo subindo e descendo lentamente no ar:

— Por que atacar o Altíssimo, vós me perguntais. Por que participar de um levante contra nosso criador, contra nosso próprio pai? Acreditem… trata-se de uma ação extrema, que pode afigurar-se à primeira vista como a mais profana de todas as insanidades, mas vos garanto: esta é uma batalha de causa tão justa quanto necessária. O motivo é demasiado simples e ainda mais demasiado estarrecedor: Yahweh enlouqueceu. Sim, meus irmãos… é uma notícia que traz grande consternação à alma, uma constatação extremamente dolorosa, mas, não obstante, verdadeira. O pai amado, para quem compomos e cantamos as mais belas de todas as canções, por quem lutamos incontáveis batalhas e derramamos veios de sangue e lágrimas que formariam mares, a quem sempre olhamos como a personificação da santidade e da perfeição… está prestes a nos trair. Está a um passo de cuspir em tudo o que já fizemos por Ele, vilipendiando nosso amor irrestrito, nossa dedicação apaixonada, nossa prontidão incessante para protegê-Lo e adorá-Lo…

Lúcifer fez uma breve pausa e notou com satisfação que os olhares dos soldados, que há pouco se desviavam inseguros, agora brilhavam com a admiração de quem descobre um mundo novo, ávidos por mais detalhes daquela afirmação completamente desconcertante que o General estava fazendo. No tempo exato entre aguçar a curiosidade e dispersar a atenção, Estrela da Manhã continuou, com a entonação tão pesarosa que até mesmo as montanhas, a relva e as árvores pareciam ter se entristecido:

— Yahweh deixou de nos amar. Há muito, muito tempo. A guerra contra o Caos não foi mais que um embuste, onde nos usou como marionetes para conseguir o que queria e não teve a honradez, tampouco a coragem, de ir buscar sozinho. Ele nos disse que conter as forças entrópicas era imprescindível para que a criação pudesse ter continuidade. Todavia, em sigilo ordenou aos generais que não destruíssem totalmente a besta caótica, mas a contivessem e trouxessem ao menos um naco de sua essência aprisionado na volta ao Paraíso. Essa foi a primeira vez que desconfiei das intenções de meu Pai, mas, como bom filho e soldado, cumpri o que me foi mandado. Porém, muito me intrigou o destino que seria dado ao invólucro que entreguei pessoalmente às mãos do Altíssimo. Compartilhei tais dúvidas e angústias com o outro General, mas a fé de Miguel é cega e a ele parece não ser possível enxergar um palmo à frente do nariz. Tive que investigar sozinho e assim o fiz. Não tardou muito para que os planos sórdidos de Yahweh se descortinassem diante dos meus olhos, que o vigiavam à socapa. Eu descobri a verdade, meus amigos… e ela não poderia ser mais terrível.

O silêncio cobria a planície como uma névoa fria que parecia imiscuir-se às almas dos anjos ali enfileirados com suas armaduras prateadas, tão polidas que de longe podiam ser confundidas com espelhos d’água perfeitamente alinhados, alegres a refletir a luz do Sol, que naquele momento esgueirava-se entre gordas nuvens carregadas de altivez, decisões difíceis e caminhos sem volta. Já não estavam amedrontados, admirados ou curiosos. Estavam petrificados, numa perplexidade que só aumentou quando Lúcifer prosseguiu com suas revelações:

— Nosso outrora amado Pai, na quietude solitária de seus vastos salões de ouro e mármore, em segredo planeja criar uma esfera de realidade similar à nossa, mas feita com energia em vibração mais acentuada, de modo que com ela não possamos interagir diretamente. À essa esfera, meus amigos… Ele intenciona popular com uma vastidão incontável de animais e plantas, e, a um tipo de animal em particular, pretende dar centelha divina igual à que flui em nossas veias. Porém, nessas mesmas criaturas, Ele também imbuirá uma gota do Caos, que EU trouxe da Montanha da Entropia e Lhe entreguei de bom grado. Vidas de incontáveis soldados foram perdidas naquele dia e vejam só a troco de quê… traição! Sim, traição! Pois nos devaneios de Yahweh, esses seres substituir-nos-ão em Sua preferência. A eles será dado o poder do louvor, toda graça e todo amor do Altíssimo, enquanto nós seremos relegados à condição de serviçais, obrigados a agir como pajens, zelando e protegendo tão débeis criaturas. Pois eu, Lúcifer, o Portador da Luz, General de metade das hostes celestiais, vos digo: ISSO NÃO HÁ DE ACONTECER!!! – Os soldados vibraram com grande entusiasmo, gritando e erguendo suas lanças e espadas em resposta. – O universo pertence aos anjos e isso não deve mudar. ISSO NÃO VAI MUDAR!!! Mas, para que não mude, preciso que vós marcheis comigo uma vez mais, meus irmãos. Preciso que se interponham à frente aos portões de safira, que guardam a grande escadaria, e ali permaneçam contendo as tropas de Miguel, que certamente investirão contra nós quando se derem conta do levante. Haverá luta. Sangue inocente será derramado. Mas só até eu chegar ao Palácio Sagrado e de lá expulsar o Altíssimo. Depois haverá paz e, aos anjos que permanecerem fiéis a mim, será concedida uma eternidade de bonança…

— Não que duvidemos de tua capacidade, General… – Belial voltara a se manifestar após longo período sem esboçar qualquer reação, com uma amargura viscosa escorrendo na voz. – Mas ficaríamos deveras motivados se pudesse nos dizer de que forma pretende lutar sozinho contra o Altíssimo, Senhor. Contra Miguel e sua guarda pessoal, temos certeza que sairás vitorioso sem muita dificuldade, porém, contra o onipotente… ouso dizer, sob pena de soar extremamente pessimista, que nem mesmo se todos os anjos, arcanjos e querubins se juntassem, mesmo que nosso contingente se aliasse às forças de Miguel e juntos atacássemos, mesmo assim ainda não teríamos o menor vestígio de chance…

As brumas da dúvida voltaram a pairar sobre as tropas e os soldados entreolharam-se, desconfortáveis com a realidade que de súbito pesava-lhes novamente sobre os ombros. Lúcifer cerrou os olhos e encarou o comandante, deslizando a mão em direção à espada. Belial tinha certeza que dessa vez não escaparia do confronto e, ato contínuo, preparou-se para empunhar o machado, mas, ao tocar na empunhadura, viu Estrela da Manhã gargalhar e dizer às tropas, com as palavras carregadas de júbilo:

— Os senhores têm um comandante cauteloso, soldados! Durante a batalha, de pouco vale a cautela, pois quando o metal das espadas, lanças e escudos se encontra e pedaços de armaduras e de corpos começam a voar, tingindo o ar de vermelho para em seguida espalharem-se no chão, o que nos mantém vivos é a coragem e a ousadia que beira a imprudência, mas, antes disso, a cautela é bem-vinda. Fosse eu no lugar de Belial, teria feito exatamente a mesma pergunta caso um superior apresentasse tão ambicioso estratagema, como esse que acabei de apresentar. – Lúcifer voltou a encarar o Comandante com o costumeiro desprezo e dispensou-lhe um sorriso que era o próprio sarcasmo materializado numa fileira de dentes. Belial queimou por dentro, percebendo que de alguma forma o General já contava com seu questionamento e já trouxera consigo uma resposta para aproveitar o gancho e encerrar o discurso de forma épica, não sem antes humilhá-lo, é claro. – A dúvida procede: como derrotar o Todo-poderoso? Seria isso possível? Não tivesse eu participado da guerra primordial e subido aquela montanha, em verdade vos diria que não, que não há a menor chance de derrotar nosso criador. Mas eu participei… e, naquela oportunidade cumpri as ordens de Yahweh e trouxe a essência caótica aprisionada, mas, como general prudente que sou, não deixei de pegar meu quinhão…

Então, do embornal preso ao cinturão prateado da armadura, Lúcifer tirou uma esfera que parecia conter em seu interior todo um universo de incontáveis estrelas, nebulosas, galáxias, quasares e feixes de energia pura, que brilhavam e amalgamavam-se numa miríade de cores e formas. Ao simples vislumbre daquela arma de beleza e poder inimagináveis empunhada pelo general, os olhos dos soldados brilharam, enquanto em seus corações germinava a semente da cobiça. Sem disfarçar a satisfação, Estrela da Manhã continuou o discurso:

— Com essa pequena, mas, não obstante, mais que suficiente amostra da única coisa que Yahweh já temeu desde o início dos tempos, eu, Lúcifer, líder de quarenta e nove hostes celestiais, criarei a arma derradeira. A arma que destruirá o Altíssimo e livrará os anjos do destino humilhante que lhes está reservado nos planos do Criador. Se alguém aqui acha que nasceu para ser serviçal de criaturas inferiores, que se manifeste agora. Que vá embora e não volte nunca mais, pois não quero covardes em minhas fileiras. Porém, àqueles que almejam o lugar que sempre foi nosso por direito, que não estão dispostos a se submeter aos desmandos e caprichos de um tirano enlouquecido; àqueles que querem estar do lado vencedor quando chegar a próxima Lua… – Lúcifer fez uma pausa, com o braço esquerdo erguido movendo-se de um lado para o outro, exibindo a esfera do caos aos guerreiros – eu vos convido: marchem comigo.  Lutem a meu lado, pois a quem assim fizer, a quem se mantiver leal a mim… recompensas inimagináveis serão dadas. Asseguro-lhes, meus amigos, que serei generoso ao compartilhar os louros da doce vitória que nos aguarda além dos portões de safira, a vitória que é tão certa quanto o nascer de um novo dia. Assim, pela última vez eu pergunto: quem quer viver para saborear os deleites que meu reinado haverá de oferecer? Quem deseja esmagar as resistências que a nós se impuserem e banhar a armadura com o sangue impuro dos inimigos derrotados? Quem quer VENCER essa que será a última das guerras? Quem está comigo? QUEM ESTÁ COM O NOVO DEUS?

Os anjos abraçaram-se, bateram espadas em escudos e, aos urros entorpecidos de selvageria, juraram lealdade eterna a Lúcifer. Agora, despidos de qualquer dúvida quanto às chances de êxito, estavam ávidos pela batalha, ensandecidos pelo frenesi sanguinário que acomete um exército confiante. Porque, aos soldados, interessa mais a certeza, mesmo que ilusória, de lutar no lado que permanecerá de pé ao final da contenda que a certeza de lutar no lado certo. Deleitando-se com a balbúrdia gerada por seu discurso, Estrela da Manhã devolveu a esfera ao embornal e, com semblante vitorioso, disse a Belial:

— Parece-me que as tropas estão deveras motivadas agora, Comandante… – saboreou a ira que saltava vermelha nos olhos do grande anjo e então completou, dessa vez com voz e expressão mais frias que a lâmina da Aniquiladora do Caos: – Não vou tolerar desculpas para qualquer tipo de fracasso, Belial. E serei ainda menos compreensivo com qualquer um que ousar me trair… Espero que isso esteja claro o suficiente.

— Está claro o suficiente, Senhor. – Aquiesceu Belial, sem esboçar qualquer tipo de sentimento.

— Muito bom, soldado. Muito bom. Agora, siga-me. – Ordenou Estrela da Manhã, já virando as costas e voando em direção aos portões de safira.

* * *

Assim as tropas de Lúcifer marcharam pelo Paraíso. Cruzaram o Desfiladeiro da Fé, onde todos os louvores passados e vindouros ecoam como o som de harpas e flautas doces, reverberando eternamente nas rochas douradas que ladeiam a passagem. Atravessaram a Planície das Sete Virtudes, quase tão extensa quanto a bondade de Deus. Fizeram ouvir suas botas, tilintando igual uma tempestade de gotas metálicas desabando, ao pisar o chão ladrilhado de pedras preciosas que margeia toda a entrada do reino. Adentraram os jardins e comtemplaram uma vez mais a beleza da grande fonte. Então, finalmente chegaram aos portões, que davam acesso aos recônditos do Altíssimo. Uriel, o querubim que guardava a entrada, cumprimentou o General que se aproximava, com a honra que lhe era devida:

— Lúcifer, Estrela da Alva, primeiro entre os arcanjos, general de quarenta e nove hostes, campeão de Deus, herói celeste em incontáveis batalhas, orgulho para os antigos, inspiração que brilha nos olhos dos novos… A que vens, amigo? Com tamanho contingente atrás de ti?

— Uriel… – Lúcifer olhou para o alto, tentando puxar algo da memória – … guardião dos portões de safira… Trago notícias que anseiam chegar aos ouvidos de Miguel, com a maior urgência possível. – Disse Estrela da Manhã, caminhando despreocupadamente na direção do querubim, que encarava aturdido à chegada de todo aquele batalhão.

— Qual… qual é a natureza de tais notícias, Estrela da Alva? – Questionou Uriel, com uma incomoda sensação avolumando-se na garganta à medida que Lúcifer se aproximava.

— É o tipo de natureza que cabe aos ouvidos dos generais, não dos… guardiões dos portões, meu bom Uriel. Agora, queira me dar passagem, por gentileza. – Lúcifer falou de um jeito que indicava que aquilo não era exatamente um pedido.

— Miguel deixou ordens claras para que ninguém passasse sem prévia autorização, Estrela da Alva… – disse o querubim, com a voz um pouco mais hesitante do que gostaria de deixar transparecer.

— Eu não sou “ninguém”, Uriel. – Lúcifer gargalhou alto. – E, aqui entre nós… o Miguel anda com a memória meio fraca depois da última batalha. A guerra é uma coisa terrível, sorte sua ter sido criado depois disso, meu amigo. Toda aquela confusão, aqueles gritos, todo aquele sangue que escorria nas pedras enquanto nossas asas quase derretiam no calor da montanha maldita… bom, acho que isso mexeu um pouco com a cabeça dele, sabe?  Faz um pouco de tempo, mas quem pode culpá-lo? Quem pode culpá-lo, Uriel? Provavelmente ele tenha esquecido de lhe dizer que havia exceções óbvias a essa regra de “ninguém passar”. – O primeiro dentre os anjos encarou o querubim, que desviou o olhar. Pousando a mão direita no ombro de Uriel, Lúcifer continuou: – Agora, meu caro, se você pretende continuar vivendo… em tempos de paz… por favor, abra esse portão.

— Recebi ordens para que NINGUÉM passasse, Estrela da Alva… – Uriel afirmou num único fôlego, retomando a coragem e fitando Lúcifer com determinação, enquanto buscava a espada guardada à bainha.

Porém, antes que qualquer espada fosse sacada, uma voz se fez ouvir no lado de dentro dos portões. Uma voz inconfundível, poderosa como trovões que preludiam grandes tempestades e, ao mesmo tempo, serena como o cadenciado escorrer das águas num riacho. A voz do arcanjo mais temente a Deus. A voz de Miguel:

— És um bom soldado, Uriel. Tens a minha confiança, pois cumpriste bem as ordens que lhe foram atribuídas. Todavia, Estrela da Manhã estava correto quando falou acerca das exceções às regras. Lamentavelmente esqueci-me de instruí-lo sobre isso, fato que me leva a pedir sinceras desculpas. O General Lúcifer possui livre acesso em qualquer lugar de toda criação. Compreendeste, Uriel?

— Perfeitamente, meu Senhor. – O querubim assentiu, abaixando a cabeça.

— Ótimo! – Miguel abriu os portões de safira pelo lado de dentro. – Agora, General Lúcifer, Estrela da Manhã… por favor entre, para que possas me dizer quais são as notícias assaz urgentes que me trouxeste.

— Vamos subindo, Miguel. Eu te conto no caminho…

Lúcifer lançou um último olhar na direção de Belial, que meneou a cabeça em afirmação. O comandante ficaria ali fora, com a missão de conter as tropas lideradas por Gabriel e Rafael, que certamente viriam em socorro do Altíssimo quando o plano de usurpar o trono fosse descoberto. Em seguida, Estrela da Manhã cruzou a entrada que dava acesso à Escada da Purificação. Quarenta e nove são os lances dessa escada e em cada lance há trezentos e quarenta e três degraus feitos de ouro e adornados com faixas de prata e diamante. Sete côvados é a medida de cada degrau. Ao final da longa subida está o Pátio da Alvorada, onde jorra a fonte da vida, protegida pela guarda pessoal de Miguel: doze serafins com rosto de cobre, vestindo túnicas brilhantes e empunhando lanças imbuídas do fogo da justiça divina, que queima mais intenso do que todas as estrelas do universo. Depois do pátio, o caminho da perfeição e então, finalmente, o Templo Santo, o Palácio Sagrado, onde Deus habitava, habita e sempre habitará. Onde Deus é. A intenção de Lúcifer era chegar até lá. Para tanto, precisaria passar pelos doze serafins e, antes disso, pelo arcanjo Miguel, que subia a seu lado pela escadaria.

— … as forças do caos reagrupam-se? Por certo trata-se de algo demasiado grave, que deve chegar ao conhecimento do Altíssimo o quanto antes… – Miguel refletiu sobre as palavras que Lúcifer acabara de lhe dizer. – Tens certeza do que estás afirmando, Estrela da Manhã? – Questionou, batendo as asas vez ou outra para avançar com mais velocidade pelos degraus que ainda estendiam-se até perder de vista.

— Não faz ideia do quanto eu gostaria de estar errado, Miguel. Meu coração fica apertado com o mero vislumbre da possibilidade de passarmos por tudo aquilo de novo. Tanta dor, tantos amigos caindo em agonia. Mas eu vi o que vi… e as provas são inequívocas.

— Apressemo-nos pois!

— Sim, Miguel… apressemo-nos. Apressemo-nos…

Lúcifer cerrou os olhos com satisfação enquanto o arcanjo tomava a frente na subida dos degraus. Estavam então, à metade do caminho: longe o suficiente dos ouvidos de Uriel, que permanecera em seu posto junto aos portões, e igualmente distantes do olhar atento dos doze serafins, que os aguardavam lá no alto. Estrela da Manhã bateu suas longas asas, projetando-se alguns metros para o alto. Encheu-se do ar celeste, contemplou o Sol que refletia o esplendor divino acima das nuvens e despediu-se, não sem certo saudosismo, do mundo como o conhecia. Sacou a espada e, numa rápida investida desprovida de qualquer remorso ou hesitação, atacou Miguel pelas costas.

A lâmina da Aniquiladora do Caos assoviou durante sua curta trajetória. O golpe teria rompido a armadura sagrada e partido Miguel ao meio se, no instante derradeiro, como se já soubesse das intenções de Lúcifer, o arcanjo não tivesse virado e esquivado, jogando-se para trás. A esquiva, porém, não foi perfeita. O ataque cortou metade de sua face e continuou até lhe rasgar o peito. O impacto lançou-o em grande velocidade contra os degraus, onde se estatelou já coberto pelo sangue que jorrava dos ferimentos.

— Que insanidade é essa que estás fazendo, Estrela da Manhã? – Miguel questionou, contorcendo-se de dor, mas sem qualquer traço de rancor transparecendo em sua voz, enquanto levava a mão ao rosto, na vã esperança de conter o sangramento e recuperar a visão do olho esquerdo.

— Insanidade, Miguel? Eu não chamaria assim. – Lúcifer pousou ao lado do arcanjo, pisou em seu peito e gargalhou ao ver a agonia do inimigo caído. – Para falar a verdade, acho que insanidade é continuar ao lado Dele… – apontou em direção ao Templo Divino – mesmo sabendo os planos que reserva para nós. Sabe do que estou falando, não sabe, Miguel? Você também viu, eu sei. Você viu aqueles animais que Ele está criando em outras esferas. Você viu os planos Dele. Como pode aceitar perder o posto de preferido para aquelas criaturas débeis? Como pode aceitar tamanho disparate?

— Ele é o Senhor de todo o universo. Os caminhos que Ele traça são perfeitos… – Afirmou Miguel, tentando desencilhar-se da bota de Lúcifer que lhe travava a respiração. – Quem és tu para julgar as decisões do Criador, Estrela da Manhã?

— Ah, Miguel… você sempre foi um belo de um bajulador. – Agora Lúcifer agarrara o pescoço do arcanjo, pressionando-o com força o suficiente para esmagar uma pedra de diamante. Chegou bem perto, observou o rosto dilacerado de Miguel, que se debatia inutilmente raspando pés e mãos no chão dourado, e então continuou: – Quem sou eu, você me pergunta? Eu sou o anjo mais belo e mais poderoso, meu amigo. Sou aquele que tomará o lugar de um Deus obsoleto. Sou aquele que governará o universo através dos séculos e séculos; aquele a quem todas as canções, adorações e louvores serão destinados. Pois Ele pode ter nos criado, Miguel… mas não foi Ele quem nos protegeu contra o caos. Fui eu! Eu venci a guerra e salvei a pele de todo mundo, enquanto Ele ficou aqui sentado só olhando, como o covarde que é. E os anjos merecem um líder mais forte, meu caro.

— Tu és louco, S-Samael… – Miguel gaguejou, com os últimos resquícios de força.

— Samael? – Lúcifer recuou, demonstrando curiosidade e um estranho desconforto com o nome inesperado pelo qual fora chamado.

— Veneno de Deus. – Respondeu Miguel, recobrando o fôlego, com as mãos protegendo instintivamente a garganta. – De hoje em diante não mais será conhecido como Estrela da Manhã, mas como Samael, a serpente.

— De hoje em diante eu serei conhecido como DEUS. – Lúcifer esbravejou, sem esconder a irritação que aquele nome lhe causara. – E você, Miguel… beijará os meus pés no final dessa história, será meu capacho, meu lacaio. Por isso vou deixá-lo vivo.

— Hei de cravar minha lança em suas costas no final dessa história, Samael…

— Veremos…

Lúcifer apoiou o joelho sobre o peito de Miguel e começou a golpeá-lo com grande fúria. Um soco, depois outro e mais outro. Incontáveis. Bateu até que o rosto do arcanjo se tornasse uma pasta ensanguentada. E continuou batendo depois disso. Então, quando já não aguentava mais esmurrar aquele corpo inerte, levantou-se e seguiu com a escalada. Não poderia gastar toda sua energia ali, afinal, havia ainda doze serafins que precisariam ser derrotados lá no alto. Doze. Esse era o número de inimigos que Lúcifer esperava encontrar. Contudo, quando pôs os pés no último degrau, teve uma grande surpresa. Ali se encontrava um contingente tão vasto que teria dificuldade de suplantar mesmo com todo seu exército. Hesitou por alguns instantes, completamente desnorteado. Estava claro que seu plano de atacar furtivamente havia caído por terra e concluiu que agora a única chance seria descer, matar Uriel e abrir os portões, para que suas tropas pudessem ajudá-lo na batalha de larga escala que tentara evitar. Nesse instante, porém, trombetas de guerra soaram ao longe.

E as últimas esperanças de Lúcifer desmoronaram nos primeiros acordes.

Olhou para baixo, para o imenso campo onde seus soldados estavam agrupados, sob o comando de Belial. Daquela distância, assemelhavam-se a pequeninos grãos de areia prateada, refletindo os últimos vestígios de inocência dos dias que em breve seriam esquecidos. Lúcifer viu que pelo flanco esquerdo de suas tropas aproximavam-se as forças de Gabriel e pelo direito, as de Rafael. Eles já sabiam do ataque. De alguma forma já sabiam. “Mas como poderiam saber?”, perguntou-se. Decerto alguém o traíra. Sim, uma traição, com certeza. Mas quem? Belial? Azazel? Baal, talvez? Não importava mais. Tudo estava perdido de qualquer forma.

— Tudo bem então… quem vai ser o primeiro? – Estrela da Manhã sacou a espada e falou, virando-se para o enorme contingente de Serafins que protegia a entrada do Templo Sagrado. Decidiu que se fosse para cair, cairia lutando.

            Lúcifer investiu contra a primeira linha de anjos, que se enfileiravam formando uma parede de escudos, resguardada pelas lanças empunhadas pelos aliados postados na fileira logo atrás. Porém, toda e qualquer estratégia, tática ou formação de batalha acabou desabando quando o general de quarenta e nove hostes celestiais desferiu um chute contra o primeiro escudo que encontrou no caminho. O impacto, além de partir metal e ossos, fez o desafortunado serafim ser projetado dezenas de metros para trás, abrindo um túnel no meio do exército. Foi nesse túnel que Lúcifer entrou, esquivando-se das pontas de lanças e das lâminas de machados e espadas que vinham em sua direção. Com a Aniquiladora do Caos ele começou a golpear e os serafins de rosto de cobre e túnicas cintilantes começaram a tombar. Logo o chão ficou escorregadio e não se via mais prata na armadura de Lúcifer, tampouco a pele alva do mais belo entre os anjos, pois agora ele estava completamente banhado em vermelho. Caíram doze. Depois mais doze. Caíram doze vezes doze. E Estrela da Manhã continuava a golpear. Talvez assim tivesse continuado, até que todos os inimigos tombassem, se uma lança não lhe atravessasse as costas, levando-o ao chão.

— Cometeste uma grande tolice ao me deixar vivo, Samael… – Falou uma voz serena como o cadenciado escorrer das águas num riacho e, ao mesmo tempo, poderosa como trovões que preludiam grandes tempestades.

— Miguel… atacando pelas costas? Para onde foi sua honra, nobre guerreiro? – Lúcifer riu debochado, tentando se levantar. – Voltou para apanhar mais? Não acha que já está feio o suficiente?

— Amarrem-no e depois o levem até a fonte. Aguardarei lá. – Miguel ordenou aos seus soldados. – Preciso lavar o rosto…

Os serafins prenderam Estrela da Manhã, não sem antes espancá-lo com uma cólera que desconheciam possuir. Depois o conduziram à presença de Miguel. A água da vida restaurara a maior parte de seus ferimentos, mas a grande cicatriz provocada pelo corte da Aniquiladora do Caos, bem como a cegueira do olho esquerdo, permaneceria para sempre. O arcanjo então desceu com o prisioneiro até a planície. Lá em baixo, as quarenta e nove hostes de Lúcifer, comandadas por Belial, mediam forças com as tropas de igual número, divididas entre Rafael e Gabriel. O mesmo contingente compunha o exército de serafins que seguia Miguel pelas escadarias douradas.

Vendo-se em desvantagem numérica de dois para um e, principalmente, ao notar que seu general havia sido capturado, as hostes de Lúcifer sofreram um abalo irreversível na moral. O resto foi um borrão de espadas, lanças e fugas desesperadas. Quando todos estavam afugentados para além dos jardins, Miguel disse a Lúcifer:

— Agora vós sereis expulsos do Paraíso, Samael. Cairão em desgraça e não mais poderão levantar-se, até a batalha derradeira que ocorrerá nos últimos dias.

Estás cometendo uma grande tolice ao me deixar vivo, Miguel…

— Se assim são as ordens do Altíssimo, assim faço eu. – O arcanjo respondeu sem hesitar, encarando Estrela da Manhã.

— Então Ele… já sabia? – Lúcifer perguntou, sem muita surpresa.

— É claro sim! Ele é o que tudo pode e tudo sabe. Das cousas que já aconteceram e ainda hão de acontecer. Tu bens sabes disso, Samael. É isso que não consigo entender… – Miguel apertou o semblante e balançou a cabeça, decepcionado. – Em algum momento tu realmente achaste que esse levante poderia dar certo? Diga-me, antes que eu expulse-o daqui junto com teu exército e nunca mais veja nenhum de vós. Diga-me, Lúcifer, em nome dos velhos tempos em que com sinceridade tu me chamavas de amigo. Por favor, eu preciso saber… onde estavas com a cabeça ao te empenhardes em semelhante empreitada? Por que fizeste essa loucura, meu irmão?

Lúcifer olhou para o alto, apreciando as nuvens que desvaneciam indiferentes, tingidas em tons alaranjados pelas luzes do crepúsculo que se aproximava. Contemplou a planície que se estendia até o horizonte infinito: o solo sagrado agora estava embebido de sangue, o verde perdido em uma profusão desoladora de asas, corpos e destroços de armas, armaduras e pureza. Atentou-se ao silêncio e à calmaria, que já começavam a retomar o espaço que lhes fora usurpado pela batalha recente. Ouviu harpas ao longe, entoando louvores de paz. Então baixou os olhos e refletiu por alguns instantes. Depois deu de ombros e, com um raro sorriso amigável delineando-se no rosto alvo, encarou Miguel e respondeu:

— Na verdade, Miguelito… acho que eu só estava um pouco entediado.

O arcanjo empurrou Lúcifer para junto de seu exército derrotado e declarou, alto o suficiente para que todos ouvissem e com firmeza mais que suficiente para que ninguém questionasse, que aqueles anjos seriam expulsos do Paraíso e ali nunca mais voltariam a pisar. Disse também, que dali em diante, Estrela da Manhã seria conhecido como Samael, o veneno de Deus, a serpente traiçoeira. Em seguida, com a lança que pelos serafins era chamada de “Ira do Criador”, golpeou o chão e um abalo como nunca antes fora visto estremeceu todo o universo.  Rachaduras começaram a eclodir e se ramificar no solo das Planícies das Sete Virtudes, alargando-se cada vez mais até que a terça parte do céu desabou, levando consigo Lúcifer e seus anjos em direção ao abismo de trevas eternas. Dez mil dias e dez mil noites foi o tempo que durou a queda.

E os gritos de ódio e agonia proferidos pelos anjos caídos ecoariam nos pesadelos da humanidade por todo o sempre.

15 comentários em “A Queda (Fabio Baptista)

  1. infoman32
    14 de dezembro de 2015
    Avatar de infoman32

    Publiquei seu conto na minha timeline.

  2. agnaldo souza
    5 de setembro de 2015
    Avatar de agnaldo souza

    Gostei muito! Penso que tem uns traços de Lúcifer Morningstar, dos quadrinhos do Neil Gaiman, e me lembrou muito de “Anjos Rebeldes”, filme da década de 90. Talvez por causa das HQ’s do Constantine e do Sandman, mas eu gostei do nome “Estrela da Manhã”. Já pensei em escrever algo envolvendo o Anjo Caído, e achei seu conto foi muito interessante, muito visual. Gostaria de ter tido, eu mesmo, esta idéia.

  3. Marquidones Filho
    10 de maio de 2015
    Avatar de Marquidones Filho

    Excepcional. Me lebrou “A Batalha do Apocalipse”, de Eduardo Spohr, e algumas outras histórias que li. Fiquei esperando por uma “cena de luta”, mas a surpresa de Lúcifer no topo da escadaria também foi muito interessante. Fora que você criou todo um clima de forma muitíssimo interessante. Parabéns =)

    • Fabio Baptista
      10 de maio de 2015
      Avatar de Fabio Baptista

      Valeu, Marquidones !

      Estou revendo essa parte em que ele chega ao topo da escada.
      Acho que vou colocar um pouco mais de ação.

      Abraço!

  4. Neusa Maria Fontolan
    9 de maio de 2015
    Avatar de Neusa Maria Fontolan

    Faço minhas as palavras do Alan Machado, e reforço, (Anjos Rebeldes é ótimo) o último que li foi Fallen e não gostei do todo, nele Deus é retratado como mulher. Em muitas escritas os anjos são retratados como hermafroditas. Estrela da manhã não é um apelido, é um dos nomes, Lúcifer e Estrela da manhã significam a mesma coisa. Fabio, você deve estar aborrecido comigo, mas eu gosto muito de você, me desculpe se o ofendi.
    Fica aqui uma dica, acho que poucos sabem e você pode aproveitar em seu livro.
    Porque Estrela da manhã?
    Porque Lúcifer?
    A referida manhã não é a impressão que temos de imediato, é a manhã de Deus.
    Lúcifer é a primeira estrela, a primeira inspiração divina, a primeira centelha de luz no despertar de Deus.

    • Fabio Baptista
      10 de maio de 2015
      Avatar de Fabio Baptista

      Neusa!

      Ficarei aborrecido se um dia alguém disser que gostou sem ter gostado.
      A melhor coisa aqui do EC são as opiniões sinceras e imparciais, não podemos perder isso de jeito nenhum.

      Todas essas críticas e sugestões foram muito úteis, tanto que até reescrevi o prólogo e acho que ficou melhor. Se todo mundo tivesse gostado desse aqui, eu não teria o ímpeto de escrever outro.

      Abração!

  5. Alan Machado de Almeida
    8 de maio de 2015
    Avatar de Alan Machado de Almeida

    Curto bastante ficção religiosa, as minhas produções preferidas nesse sentido são a HQ Constantine da Vertigo ( o do selo DC Comics é um lixo), a revista Lúcifer, também da Vertigo e a série de filmes dos anos 1990 Anjos Rebeldes. Gostaria até de escrever um conto nesse gênero, mas confesso que sou meio ignorante em relação a Bíblia para tecer uma história. Já até pensei em escrever sobre o que aconteceu com Barrabás após ser liberado da crucificação, um projeto para o futuro talvez, ou uma ideia jogada ao vento para alguém mais capacitado desenvolver (podia ser você Fábio). Minha única queixa são os parágrafos excessivamente longos que cansam demais. Tente dividi-los no próximo conto. E só por curiosidade, Estrela da Manhã não foi um nome inventado pelo autor, é um dos nomes da entidade, sendo feminino ou não (até porque as vezes a entidade se apresenta como mulher). O engraçado é que já vi até igreja evangélica com esse nome. Claro que o pastor fez isso por ignorância, só por achar o nome bonitinho. Mas, enfim. Nada a ver meu comentário final. Sucesso. Ah, e divida mais os parágrafos.

    • Fabio Baptista
      10 de maio de 2015
      Avatar de Fabio Baptista

      Opa, valeu pela leitura, Alan!

      Já estou aplicando sua sugestão de quebrar os parágrafos. Realmente fica melhor, dando mais espaço pro leitor respirar. 😀

      Barrabás, se não me engano, começou a pregar a palavra de Cristo depois daquele episódio. Mas não me lembro ao certo.

      Uma história que acho muito foda, e que renderia um belo romance, é a de Davi.

      Abraço!

  6. Virginia Ossovski
    6 de maio de 2015
    Avatar de Virginia Ossovski

    Olá… Achei um bom prólogo e leria o livro com certeza. Assim, não cheguei a me apegar aos personagens apesar de ter ficado com pena do Miguel espancado (que dó). Também não gostei muito do apelido de Estrela da Manhã, achei que ficou meio feminino, só uma opinião. O que mais gostei foi a forma como termina o texto: “E os gritos de ódio e agonia proferidos pelos anjos caídos ecoariam nos pesadelos da humanidade por todo o sempre.”, dá mesmo a impressão que a história vai continuar. Não tenho conhecimento para uma análise melhor, só posso dizer que história me interessou, bom, nem tanto quanto a do Sherlock Holmes, mas ficou bom, parabéns !

    • Fabio Baptista
      7 de maio de 2015
      Avatar de Fabio Baptista

      Valeu, Virginia! Muito obrigado pela leitura.

      Já estava quase deletando tudo aqui antes de ler seu comentário rsrsrs

      Abraço!

      • Virginia
        8 de maio de 2015
        Avatar de Virginia

        De nada ! Ah, acho que se trocasse por “o Portador da Luz” Ou “filho da Alva” ia ficar mais legal. Boa sorte !

  7. Gustavo Castro Araujo
    6 de maio de 2015
    Avatar de Gustavo Castro Araujo

    No primeiro capítulo de “O Silêncio das Montanhas”, o autor Khaled Hosseini conta uma lenda afegã – a história de um demônio que chega a um vilarejo empobrecido para roubar uma criança. Os pais, temerosos, a escondem mas, impotentes, a entregam à criatura logo depois. Anos mais tarde, o pai sai em busca da menina e, para sua surpresa, a encontra vivendo feliz com outra família. Compreende, ao fim, que muitas vezes a separação é um meio doloroso para que se dê aos outros a felicidade.

    Essa história se projeta de modo perene no decorrer do livro – que trata, exatamente, da separação de dois irmãos — Pari e Abdullah — ainda crianças e de como seus destinos se tangenciam à medida que envelhecem.

    Esse prólogo mostra-se fundamental para que o leitor compreenda os desígnios de ambos. Mais do que isso, para que compreenda a dor de seus pais.

    Considerando que “A Queda” é o prólogo de um romance, fico aqui me perguntando se o que se desenvolverá na sequência será algo do mesmo gênero fantástico, ou se a história servirá apenas como metáfora para algo mais mundano.

    Sinceramente, torço pela segunda hipótese.

    Digo isso porque sou fã do autor quando o objetivo é falar do cotidiano de pessoas comuns, como se vê em “Vento que Passa”, em “Mil pedaços de um coração tatuado à nanquim” e até mesmo em “Homens de Preto”. Nessas oportunidades, descrições especialmente inspiradas sobre aspectos ordinários me levaram a refletir sobre a vida em si, fazendo com que os textos permanecessem no meu pensamento mesmo dias depois da leitura.

    Por outro lado, se “A Queda” é uma introdução para uma longa narrativa acerca de embates celestiais, penso que o resultado será bem diverso.
    Digo isso porque não reconheci nesse texto a mesma pegada filosófica, que nos faz entrar na cabeça dos personagens, como se vê nos contos antes citados. Talvez seja um experimento do autor, não sei… Não consigo me aferrar a essas descrições enormes e ao excesso de adjetivos.

    Também não gostei dos diálogos. Percebo que a ideia foi emprestar uma aura épica, típica de “Os Herois da Biblia”, mas para mim pareceu muito forçado. E piora, aliás, quando se tenta fazer um pouco de humor, quando, p.ex, Lúcifer chama Miguel de “Miguelito”. Foi como se o demônio-mais-poderoso-de-todos-os-tempos se transformasse, do nada, em um traficantezinho de meia tigela.

    Sinceramente falando, eu não me interessaria por um livro inteiro nessa toada. Claro, eu prestigiaria o autor por conhecê-lo, por saber quem é e do que é capaz. Do contrário, dificilmente, com tanta coisa para escolher numa livraria, um romance completo sobre guerra celestial me fisgaria.

    A boa notícia é que eu represento uma minoria no universo de consumidores literários. Há muita, muita gente que se interessa por esse estilo, de modo que seria possível angariar uma rede de seguidores fiéis, possibilitando até mesmo a edição de uma trilogia e a conquista de fama e fortuna 🙂

    Deixando de lado o gosto pessoal, percebi algumas oportunidades de melhoria no texto, como p.ex, no momento em que Lúcifer pergunta a Belial sobre “a” moral da tropa. O correto é “o” moral, já que aquela se refere à moralidade, à ética, ao fazer o que é correto, ou algo assim, enquanto que a última diz respeito ao entusiasmo, à predisposição para a batalha, para enfrentar as agruras do combate.

    O diálogo entre Lúcifer e Belial, bem como a maneira como Lúcifer se dirige aos seus seguidores pareceram para mim uma reprodução em loop das cenas que antecediam as batalhas em Coração Valente – sem nunca chegar, entretanto, ao enfrentamento em si. Parece que vai, mas não vai. Muito cansativo.

    Outros trechos que não desceram redondo:

    – “Eu quero que se lembrem, meus amigos… quero que se lembrem quem escalou a, até então intransponível, Montanha da Entropia, esquivando-se de vagalhão” – tenho dúvidas se essas vírgulas são mesmo necessárias.

    – “Por acaso foi Gabriel ou Rafael?” – Não deveria ser “Por acaso FORAM Gabriel ou Rafael?”?

    As vezes em que se refere a Deus, usando o pronome “Dele”. Acho que o correto seria “D’Ele”, mas não tenho certeza.

    Entendo que para não repetir o nome Lúcifer, o autor às vezes o chamou de “Estrela da Manhã” ou “Estrela da Alva”. Pode até ser desconhecimento de minha parte, mas a mim esses nomes lembraram aqueles das amigas da Tinker Bell nos desenhos da Disney. Ou seja, longe de passar temor ou reverência, tanto um como outro pareceram esses apelidos que os amigos se dão de sacanagem.

    Também achei Lúcifer muito burro. Na posição de general mais antigo dos exércitos de Deus, como ele pôde ignorar que o “Altíssimo” está ciente de tudo? Não era óbvio que um ato de rebeldia, que uma revolta fosse conhecida por Ele antes mesmo que Lúcifer colocasse a mão no cabo da espada? Além disso, acho que a decisão por enfrentar o Altíssimo e a partida para o combate foi muito abrupta. Mais estranho ainda foi como Lúcifer foi facilmente derrotado. Seus combatentes sequer chegaram a se engajar na batalha…

    Enfim, não gostei. Sim, queria saber como tudo iria se desenrolar, mas achei o resultado pouco satisfatório.

    Como eu disse, se a ideia é usar esse prólogo como metáfora de uma história diferente – p.ex, um funcionário de baixo escalão da Microsoft que tenta derrubar o Bill Gates – acho até válido. Do contrário, ou seja, se a ideia for fazer um romance inteiro com essa temática, receio não estar inserido no público a que se destinará a obra 😦

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Publicado às 5 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .