EntreContos

Detox Literário.

Armazém Nove (Marco Antônio)

Vazamento de água. Basta uma brecha pra ela invadir, a água é foda, rapaz. Ela acha a saída, por menor que seja, ela sempre passa. A água invade, basta uma brecha. Quem passa ali em cima só vê os telhados dos armazéns. A água me acordou. E aquela grande sombra chamada Perimetral, que cobre o porto todo, não saiu do lugar — nem com aquela água toda ali na frente.

– Alô?

– Concessionária Águas Cariocas.

– Quero pedir um reparo.

– Vou transferir sua ligação, senhor.

– Ah, tá tudo certo.

Fica uma musiquinha e o problema fica ali esperando. A musiquinha piora tudo. Quem é que escuta o tema do Alex Kidd quando está puto com alguma coisa?

Uma outra voz, diferente da do primeiro atendente.

– Águas Cariocas, setor de manutenção e reparos, qual é o problema?

– Tá feio aqui, rapaz.

– Me informe o número do cliente, esse que aparece no canto superior direito de sua conta de água, para que eu possa identificar o seu cadastro.

– Num tenho conta nem número de cliente. E o negócio aqui tá feio.

– Não estou entendendo, senhor. Sua residência inundou por conta de um vazamento nosso? Preciso do número para localizar seus dados, do contrário não há como iniciar o atendimento.

– Moro aqui numa via bastante movimentada, com nome de presidente e tudo.

Aquele era um sujeito que não tinha mais o que fazer. A chamada era monitorada pelo setor de qualidade da empresa. A ligação não pode demorar. Seja objetivo, foque, focar na necessidade do cliente é a chave do atendimento eficaz, diz o supervisor quando corrige um atendimento, foco, foque, esteja focado, estamos todos focas, não, focados. Bons atendimentos valem uma boa remuneração variável junto ao salário que vem somente no começo do mês que vem e, meu Deus, ainda faltam duas semanas pra receber. E esse cara na linha.

– É o seguinte, garoto: eu moro na cidade do Rio de Janeiro mas não tenho um endereço fixo, sabe? Moro de acordo com a conveniência. E a conveniência é um bichinho que não parrueta sozinho, ela não rói mas é bandida. E lugar pra ficar nessa cidade tá cada vez mais raro.

Prosseguiu.

– Num tenho endereço, mas moro em algum lugar. Vou me adaptando. Mesmo sabendo que logo vou me mandar dali ou daqui. Tô aqui faz uma semana só.

– Senhor, estou encerrando a ligação, tenha – disse o garoto antes de ser interrompido. – Escuta aqui, garoto: por menos que o sujeito tenha ou ele seja, num é bom que ele desperdice o que num tem – tu só sabe quanto tempo jogou fora quando tu num tem mais tempo nenhum. E mesmo assim, tu desperdiça. Eu moro aqui na Rodrigues Alves, aquele bacana que fez obra pra cacete, aquele inferno todo pra todo lado. Me botar na rua, entra época, presidente, sai época, sai presidente e me colocam na rua. Fala isso pra ele, pode falar que eu num tenho medo de bacana.

O rapaz sabia que já deveria ter desligado. Desperdício de tempo. E prejudicando seus ganhos, dinheiro é dinheiro, mesmo nesse caso, em que não era muito. Estava sendo indulgente com as normas do atendimento prosseguindo com a ligação. Seguiu na linha, escutando. É sedutor demais negligenciar um trabalho chato antes das 8 e 15 da manhã.

– Num tenho casa não, já te disse, mas tenho um vazamento monstruoso bem em frente à minha cama. É cano de vocês fazendo baderna. E aqui o ônibus não passa na ponta do pé não, num pede licencinha. E a água é foda, rapaz. Passou aqui o 350, Passeio-Irajá, passou outro que eu não lembro, molhou tudo que eu tenho aqui, imagina você. Acordar assim. Aquele sol meio matusquela, aquele frio, tudo meio azulado ainda do fim da madruga e isso aqui rebenta. Tu num fala nada não?

– Em que altura da Rodrigues Alves o senhor está?

– Altura nenhuma, tô no nível do mar e quase naufragando nessa poça.

Respirou e seguiu.

– Num é por nada não, nem por frescura, eu não tenho dessas coisa não, banho é onde dá pra ser, quando dá, mas é eu que sei, num é com vocês aí me dar banho não. Tu tomou um banho de chuveiro, rapaz, chuveiro, não tem palavra mais linda, sai bonita da boca e tudo, chorava que nem um chuveiro debaixo dum chuveiro agora. Tu tem um chuveiro de bacana?

– Eu? – foi o que conseguiu dizer o rapaz.

– Sim, e na tua casa tem aquele lençol bonito com uns raminho e outras merda na borda, aquelas listra que tu nunca olha, né, mas aqui eu reparo em tudo, eu uso jornal para forrar o papelão, bom é embalagem de geladeira. Se empacota a geladeira de três barão, por que num ia me servir também? Tu nunca dormiu numa cama de três prata que eu sei. Mas num pensa que é sopa. Porque num é. Aí vem o 350 nessa poça. Só cum sol agora. Sorte que num molhou o papel aqui que eu escrevo minhas coisa. Sorte não, foi sacola de plástico. Tem a marquise mas e essa poça? Jornal? Jornal nunca falta não. Serve pra limpar o rabo, pra forrar, prum embrulho. De vez em quando eu leio, mas é muita besteira que sai.

– Como é que o senhor foi parar aí? Na rua?

– Eu perdi o emprego, o rumo, mas o que é que é agora? Tu vai me dar lição de moral pelo telefone? Foda-se, deixa essa merda vazando mesmo. Cês são tudo filha da puta mermo, tão nem aí pra porra nenhuma. Deixa vazar essa merda mesmo, tô nem aí. Parar aqui, num fode, eu paro e ando onde eu quiser e tu num tem nada com isso não. E tu, hein, e tu, me diz, emprego de merda esse teu e fica falando dos outros. Vacilão. Desligou. O rapaz abriu o chamado e logo foi um carro lá pra resolver o vazamento. Uma fissura elegante, rasgando sem escândalo o duto, não fosse toda aquela água. A Rodrigues Alves ficou algum tempo paralisada por causa do reparo, depois começou a passar uma fila só, de carro e ônibus. Tem gente nos ônibus que levanta e se estica pra olhar o reparo, a poça. E todo mundo revoltado, todo dia é isso, que bagunça essa cidade, não tem mais jeito. – “Olha só o malandro ali” — disse o trocador pro motorista do 100, que passava lento pelo local do reparo. “Obra, tudo parado e o sujeito ali rabiscando papel e falando sozinho. Já acorda chapado. Um vida mansa.” O 100 avançou e seguiu pra Niterói. Lia tudo o que escrevia o sujeito ali sentado na calçada do armazém nove, sem dar qualquer ruído opinativo, em seu silêncio de vigas e concreto, aquela sombra-monumento que é o viaduto da Perimetral.

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Informação

Publicado às 5 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .