EntreContos

Detox Literário.

Numa Floresta de Borboletas Mudas (Nina Spim)

Às vezes, Amélia sonhava com borboletas.

Sonhou, um dia, que uma borboleta laranja tinha pousado na mão da Dona Mudinha, que se ria toda.

Dona Mudinha morava no final da rua, numa casa mais decrépita que a própria dona, e sofria de um problema que nunca ninguém soube explicar direito à pequena. O que todos sabiam é que a velha era muda, não falava mais do que uns sons cachorrescos. Uma mulher cuidava da Dona Mudinha todo dia, dormia lá com ela e preparava as refeições.

Às vezes, a alegria de Amélia era passar as tardes na casa da Mudinha para ficar assistindo programas antigos que não tinham graça alguma – embora a velha risse toda hora naquele tom de alguém que está se sufocando. Aqueles sons eram ininteligíveis para todos, no entanto, Amélia sabia o significado de cada um deles, mas nunca dissera para ninguém.

“Mulher doida”, era como a infeliz Dona Mari descrevia a velha muda. Mas, ao contrário de Dona Mari, Dona Mudinha era feliz. Ninguém sabia bem ao certo como tinha certeza daquilo, mas era só olhar no rosto enrugado da velha que todo mundo chegava à mesma conclusão. A velha era feliz, mesmo muda, mesmo que ninguém a entendesse.

Amélia tinha pouca concepção da felicidade. Havia dias que achava que ali estava: a felicidade, pulando a sua frente como uma louca mimada. Mas, se fosse agarrá-la, a maldita felicidade sumia. Como fumaça, tão rápida e tão onírica quanto a névoa branca.

E tinha gente que era tão névoa quanto felicidade.

A criança não sabia explicar e, se fosse explicar, não saberia usar as palavras corretas. Amélia diria: “Lembra do deserto azul? A felicidade é como aquele deserto, mas que toda hora troca de lugar. Porque a felicidade tá em tudo e, ao mesmo tempo, em nada. Vive se mudando de casa, essa tal de felicidade”.

Às vezes, para Amélia, a felicidade era o assobio de sua mãe, que tentava acompanhar uma música velha. Nunca sabia que música era, mas gostava. A felicidade se transvestia de riso, também. Num riso cachorresco, numas tardes; num riso de criança, outras vezes. Estalar os dedos era uma felicidade, também. Ler aquele livro que formava um castelo alto por entre as páginas, também.

Mas, muitas vezes, a felicidade era a Dona Mudinha. Que felicidade tinha a tal da velha! Nem Amélia entendia aquela alegria. Certa vez, perguntara à mulher que trabalhava lá sobre isso.

“Só o Senhor sabe, criança”, foi a resposta.

Amélia podia entender se o riso era por causa de um tropeção que alguém levara, ou de um ator com cara de bode. Mas o que não entendia era por que ria. Certamente, uma cara de bode era engraçada. Mas, sem a cara de bode, também. Então não fazia diferença. Se Dona Mudinha pudesse falar, Amélia gostava de pensar que ela responderia:

“Ih, minha filhinha, a vida tá tão ruim que eu rio pra vê se melhora, entendeu?”.

A vida de Dona Mudinha parecia engessada demais. E por isso ria, pra se libertar. Ela nascera congelada, era como Amélia pensava. E se descongelasse? Como viveria sua vida? Será que as pessoas entenderiam seus risos? Será que, então, a velha poderia mandar as pessoas pararem de falar naquele tom de eu-sinto-muito-pela-senhora?

Será que a Mudinha sentia muito por si própria?

Amélia não sabia. E nem queria saber. A velha era feliz. Ô, felicidade!

Talvez a felicidade seja mesmo muda.

E com um monte de borboletas ao redor.

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3 comentários em “Numa Floresta de Borboletas Mudas (Nina Spim)

  1. Alan Machado de Almeida
    8 de maio de 2015

    Primeiro um puxão de orelha: por que você não colocou foto no seu conto? Chamaria muito mais atenção e bastava uma pesquisa breve no google imagens. Deixe de preguiça na próxima vez. Agora as considerações: seu conto me lembrou uma passagem de Game of Thrones onde Tyrion comentava sobre um primo débil mental que passava tardes inteiras esmagando insetos no jardim sorrindo. Tyrion passava dias tentando entender o porquê do seu primo fazer isso. Assim como seu conto, o relato do anão se passa mais na mente do observador e não chega a conclusão nenhuma (e essa é a parte mais interessante), o conto inteiro nos instiga a querer ver o final. Que foi muito belo por sinal. Só reitero, da próxima vez coloque uma imagem.

  2. Fabio Baptista
    4 de maio de 2015

    Um conto doce e bem escrito.

    Gostei da leitura e da risada cachorresca da Dona Mudinha 😀

    Abraço!

    • Nina
      6 de maio de 2015

      Obrigada, Fábio! Fico feliz que tenha gostado! Abraços!

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Informação

Publicado às 2 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .