EntreContos

Detox Literário.

Max (Victor O. de Faria)

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O som de cristal quebrado ecoou pela sala. Como em um passe de mágica a mãe apareceu, segurando a jarra de café.

— O que estão fazendo?

— Foi o Max!

— Desculpe senhora, mas a informação está incorreta.

A menina apontou o dedo para o autômato. Helena suspirou.

— Helen, querida. Ajude Max a recolher os cacos, e cuide para não se cortar!

— Por que, se foi culpa dele?

— Helen!

Seus cachos chegaram a pular, como molas. Cruzou os braços e franziu a face. Esperou até que a mãe voltasse para a cozinha.

— Grande amigo você é, hein?

O modelo MX 3000 não respondeu. Em vez disso, registrou aquelas interessantes reações. Seres humanos pequenos colocavam a fidelidade acima da verdade. Amizade era um sentimento complexo, pouco compreendido pela mente robótica.

— Pequena Helen, está na hora do café! Daqui a exatos vinte minutos, seu vizinho estará aqui e sua mãe terá de sair.

— Mas não estou com fome!

— É uma ordem nível um. Venha comigo, por favor.

— Chato!

Ainda emburrada sentou-se na cadeira rosa, seu lugar preferido. MX 3000 colocou os braços para trás e permaneceu imóvel, aguardando novas instruções. A mãe falou.

— Max! Alan ficará conosco essa manhã. Quero que cuide dele assim como faz com Helen.

— Sim, minha senhora.

— E sem doces escondidos!

— Ah, mãe! Que saco!

— Helen Ray Clarke…

Citar o nome completo sempre causava um efeito devastador em quem ouvia, uma habilidade única reservada exclusivamente às mães. A refeição ocorreu sem maiores problemas, sendo interrompida apenas pela campainha. O autômato saiu de sua posição de descanso e atendeu.

— Pequeno Alan!

O garoto o chutou na altura da canela e entrou correndo. Qualquer ser humano normal reagiria à dor, mas MX 3000 não fez nada. Comportamentos estranhos faziam parte da infância. A mãe segurou a bolsa, remexeu os itens e deu-lhes uma última ordem.

— Se comportem! Se precisarem, Max tem meu número e o telefone ficará sobre a escrivaninha. Utilizem somente em emergência, ok? Certo, Max?

— Compreendido, senhora.

Piscou e saiu. Um código que significava “não deixe as crianças fazerem muita bagunça”. Helen observou o ambiente distante até sua mãe trancar a porta.

— Vamos brincar de nos esconder?

Alan deixou o suco de lado.

— Isso é muito chato. O Max sempre acha a gente.

— E se ele fosse o escondido, só dessa vez?

— Hum… Seria legal. Mas só teria graça lá fora.

— Max, posso ir lá fora?

— Creio que não, pequena Helen.

— Só no jardim então!

— Não acho que…

— Lhe conto mais histórias quando voltarmos.

O modelo MX 3000 desconhecia o conceito de fábula, apesar de cuidar de crianças. Como seu intuito era aprender, apreciava quando a pequena menina lhe contava histórias que ouvia antes de dormir, em sua própria versão. A equação “fidelidade igual à recompensa” ultrapassava algumas ordens de nível mais baixo, como não deixar as crianças saírem. Ponderou. O significado real envolvia impedir que elas deixassem a casa. No entanto, o jardim era seguro. Decidiu.

— Somente no jardim.

— Eba! Vem, Alan!

Destrancou a porta cuidadosamente, registrou uma nota mental e quase foi derrubado pelos pestinhas. Helen colocou as duas mãos na cintura e falou.

— Agora, escute! Vamos fechar os olhos, contar até cinquenta e esperar você se esconder.

— Por qual motivo?

— Para o acharmos, ué. É uma brincadeira, bobo! Mas tem que ser um lugar bem escondido, senão vai ser fácil demais.

— Entendido. Em cinquenta segundos devo me esconder onde vocês nunca acharão.

— Vai sonhando! Sou boa nisso. Começou!

Antes de entrar no jogo, MX 3000 vasculhou os sistemas de segurança. As grades e portas externas permaneciam trancadas. Proteger os bens mais preciosos da família estava acima de qualquer outra diretiva. Correu até a parte de trás da casa, onde sentiu uma fisgada nos eletrodos.

— Alan, o que vem depois do dez?

— Os dedos dos pés!

— Ah… Onze, doze, treze…

Um beija-flor distraído atrapalhou a contagem. Observaram o pequenino pássaro verde-neon quebrar as leis da física enquanto voava praticamente parado.

— Você viu isso, Max? Max? Alan, cadê ele?

— Ué, você mandou ele se esconder!

— Ah é. Vamos!

Procuraram na floreira. Não encontraram nada. Olharam atrás dos vasos repletos de orquídeas, mesmo sabendo que seu corpo não caberia ali. Sem resultado. Então correram até os ipês roxos. Com certeza teria subido em um deles. Analisaram pacientemente as três árvores. Nada.

— Ele é bom nisso.

— No sótão!

— É verdade! Você não é tão burro quanto parece.

— Ei, olha quem fala. Quem tomou vinagre?

— Achei que era suco de azedinha.

— Burra!

— É você!

A porta estava aberta. Deixaram os tênis sob o tapete, senão teriam de enfrentar aquela choradeira mais tarde, e subiram a escadaria. Olharam nos quartos e na minúscula sala de leitura. Helen coçou a cabeça. Aquele era seu lugar preferido.

— Cansei disso. Max, já deu! Você ganhou. Tá com fome, Alan?

— Sim.

— Vem.

Segurou sua mão e o puxou até a parte mais baixa da cama de livros, o melhor lugar para se esconder chocolates, afinal, Max guardava seus segredos (sob a ameaça de gritos estridentes, é claro). Encheu a boca com vários pedaços.

— E o Max?

— Acho que ele não ouviu.

Desceram até a cozinha. Lavaram as mãos e o procuraram pela casa inteira, até cansarem. Alan colocou as mãos no bolso da calça e balançou a cabeça. Helen fez um beiço e de repente encheu os olhos de lágrimas. Vendo que a amiga estava preocupada, Alan lembrou-se do que sua mãe fez no mês passado, quando seu gato foi levado à veterinária.

— Sei chamar a médica do meu gato.

— Sabe nada!

Enxugou as lágrimas.

— Ela pode nos ajudar. Onde fica o telefone de vocês?

— Minha mãe usa aquele treco quadrado ali.

O garoto pulou e alcançou o retângulo transparente, sobre a escrivaninha, que escapou de sua mão em seguida. A tela emitiu um brilhou colorido. Juntou-o do chão. Uma voz feminina perguntou qual era o destino.

— Legal. A gente não tem um desses.

— DESTINO INCORRETO. POR FAVOR, REPITA.

— Dá pra ligar direto pra sua mãe.

— DESTINO: MÃE. PROCURANDO.

— Olha, tem joguinho!

— Alô! Quem fala?

— Ah, oi… É a mãe da Helen?

— Alan? Onde está o Max?

— Não sabemos.

— Como assim… Deixa eu falar com a Helen.

— Ó, é pra ti.

No instante em que ela pegou o telefone, desandou a chorar e a soluçar.

— Calma, querida. Conte o que houve.

Descreveu em poucas palavras tudo o que havia ocorrido até então, cuidando para omitir a parte dos chocolates. Helena ordenou que não saíssem dali. Em poucos minutos estaria de volta. Desligou de forma ansiosa, com certo receio em descobrir a verdade. Dentro da casa, as duas crianças sentaram na escada e não falaram nada por alguns instantes.

— Culpa sua!

— Eu? Você que deu a ideia!

Abraçou seu amigo. A próxima pergunta o pegou de surpresa.

— Me promete uma coisa?

— Depende.

— Você é meu melhor amigo. Promete que nunca vai me deixar sozinha?

— Ah. Isso eu posso fazer.

Deu-lhe um beijo na bochecha que o deixou mais vermelho que o tapete da escada. Conversaram mais um pouco sobre o beija-flor até que sua mãe apareceu na porta. Correram em sua direção.

— Ah, crianças… Um robô entende as ordens como literais.

— O que é isso?

— Esqueçam. Vamos procurá-lo.

A busca, que deveria durar apenas algumas horas, levou uma semana. Helen estava triste e já não se alimentava direito. A mãe decidiu ligar para o fornecedor, do outro lado do mundo. A empresa Humanoides Autômatos Ltda solicitou os dados do modelo, aparência, ano de fabricação e registro. Retornaram em seguida.

Teoricamente, aquele modelo não existia. Alguém lhe vendera um protótipo no lugar do verdadeiro. Seria reembolsada assim que possível.

— Mas, e minha filha?

— Me desculpe, senhora Helena. Essa questão foge de nossa alçada. Se lhe enviarmos um novo modelo garanto que será parecido, mas não será o mesmo. Todos os MX possuem características únicas. Alguns tocam, outros cantam e alguns até contam histórias…

— Vou falar com ela.

A pequena mantinha-se jogada no sofá de leitura. A mãe se aproximou.

— Ele gostava de ouvir “O mágico de Oz”.

— Ah é? Você nunca me contou isso. Sabe, a gente pode conseguir um novo…

— Não quero um novo! Quero o Max!

Passou a mão em sua cabeça. Ana, a veterinária, tivera uma experiência parecida. Seus filhos cresceram, mas não conseguiam se desligar da “babá eletrônica”. Consideravam-no um amigo, o que era um absurdo! Talvez um bichinho pudesse suprir a falta de companhia.

Péssima hora para aquele robô sumir. Um protótipo! Se tivesse guardado a papelada processaria aquela maldita empresa e o devolveria, com gosto. Deixou sua filha várias vezes com um produto defeituoso.

Largou as coisas e chamou sua irmã.

— Vai aonde?

— É uma surpresa, se você me prometer que vai melhorar esse humor.

— Não prometo nada. Mãe… O Max me deixou porque ele não gosta mais de mim?

— E quem resiste a essas trancinhas? Filha, você deve lembrar que ‘aquilo’ era uma máquina.

— Será que ele achou um coração, que nem o Homem de Lata?

Pensou em dizer não. Mas já estava na hora de colocar um ponto final nessa história.

— Acho que sim. Quem sabe ele voltou para a família dele.

Helen ficou pensativa. Sua mãe fechou a porta. Dormiu profundamente enquanto sonhava com uma família de robôs subindo a colina, depois da estrada de tijolos amarelos. Foi acordar somente duas horas depois, ao ouvir ruídos estranhos vindos da sala.

Desamassou o vestido e desceu as escadas. Um Beagle de orelhas coloridas correu ao seu encontro. Tropeçou, uma oportunidade não desperdiçada pelo cãozinho. Lambeu várias vezes seu rosto. Helen não conseguiu parar de rir.

— Ai… Sai totó.

— É seu!

— Meu?

— É, mas prometa que vai cuidar bem dele.

Abraçou o bichinho, quase o sufocando.

— Seu nome será Max.

— Max? Achei que diria Snoopy.

— Daquele desenho de gente velha?

— Tsc… Obrigada pelo “velha”.

Após duas semanas já não sentia mais falta de seu velho amigo – agora dava ordens, em vez de recebê-las. O cachorro corria, pulava e brincava com os dois. Alan manteve sua promessa (o que faria até a adolescência, quando outros interesses de Helen entrassem em cena). Sua mãe foi reembolsada e a rotina familiar voltou ao normal, exceto, é claro, por sua irmã ser a nova governanta. Mas aquela não era uma tia chata, como dizia sua filha, então tudo bem.

O som de cristal quebrado ecoou pela sala. Como em um passe de mágica a mãe apareceu, segurando a jarra de café.

— O que estão fazendo?

— Foi o Max!

Mas, desta vez, ninguém revidou.

(…)

Somente alguns anos depois, a Humanoides Autômatos Ltda descobriria um conflito interno em seus “autômatos babás”. Brincadeiras inocentes geravam paradoxos que fundiam os circuitos neurônicos das máquinas.

Um exemplo clássico era o famoso “esconde-esconde”. Diretivas de fábrica não permitiam que os robôs deixassem as crianças sozinhas durante muito tempo, no entanto, quando era a vez do robô se esconder, a fidelidade burlava certas regras, ocasionando curtos-circuitos internos.

De maneira incrível e incompreendida, a amizade falava mais alto. Os engenheiros ficaram perplexos diante da descoberta, abrindo caminho aos novos modelos, equipados com regras que diferenciavam ordens simbólicas de literais…

Max sabia. Aconteceria a qualquer momento. Levou um bom tempo para tomar uma decisão, enquanto as crianças lhe procuravam.

Deixaria a garotinha desolada por seu desaparecimento ou a deixaria perplexa por presenciar o derretimento de seu cérebro (um desligamento considerado horrível pelas máquinas)? Qual equação produziria resultados mais eficientes?

A lógica não traria respostas. Levou em conta o que havia aprendido com aquele pequeno, frágil e incrivelmente complexo ser humano: o valor da amizade.

Seria um robô desaparecido, mas não esquecido.

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3 comentários em “Max (Victor O. de Faria)

  1. Phillip Klem
    7 de janeiro de 2015

    Muito interessante o conto.
    Pode-se sentir a fragilidade da criança quanto à perda de um amigo.
    Muito criativa também a escolha de Max, perfeita.
    Meus parabéns

  2. Gustavo Araujo
    29 de novembro de 2014

    Gostei do conto no geral. Em alguns pontos me lembrou “A.I”, pela devoção da máquina às crianças. Eu mudaria os nomes dos personagens — Helen, Helena, Alan, tudo soa parecido. De resto, uma história bacana, bastante sensível e com um certo sabor de jardim de infância. Bom trabalho, Brian.

    • Brian Oliveira Lancaster
      29 de novembro de 2014

      Essa era a ideia, uma família comum (bem, nem tanto), que escolheu o nome mais fácil para sua filha. Mas tem um ‘joguete’ com todos os nomes, que não vou dizer aqui : ) – brincadeiras de uma mente difusa. O único nome fora do contexto é Max. Agradeço a leitura!

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Publicado às 28 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .