EntreContos

Literatura que desafia.

Reverberação (Victor O. de Faria)

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As sombras gigantes do paredão sem fim assemelhavam-se a um relógio de Sol, moderno. O ponteiro menor, criado indiretamente por um jovem solitário, demonstrava que a manhã recém-nascida trazia consigo promessas de um passado esquecido. Quando os primeiros raios de Sol surgiram, lá estava ele, sentado, estudando os minuciosos detalhes de sua estrutura singular. Uma barreira. Um enigma. O que haveria do outro lado?

Admirava aquela muralha, todos os dias, desde que descobrira sua intrigante existência. Era tão alta que somente as nuvens, fugitivas do desconhecido, podiam ser avistadas. Imaginava figuras engraçadas e fantasiosas ao deitar a cabeça sobre o extenso planalto. Se formações como aquela atravessavam tranquilamente lugares inexplorados, um dia conseguiria fazer o mesmo.

Certa manhã, escorado à muralha enquanto lia na tela de celulose um exemplar de Viagem ao Centro da Terra, escutou ruídos inconstantes. Seria a fauna nativa? Improvável, pois estavam próximos demais, audíveis. Olhou para os dois lados e não encontrou nada suspeito. Observou o céu por alguns minutos. Nenhuma anormalidade. Deu de ombros. Como não tinha nada a perder, decidiu bater três vezes na imponente estrutura.

Nas três vezes foi respondido.

Levantou-se de uma vez só, deixando o raro exemplar ser levado pelo vento. Sons distorcidos que desapareceram em questão de segundos. Realmente havia alguém além dos pilares de seus antepassados? Arrepiou-se apenas de pensar na possibilidade. Afinal, por que construiriam uma muralha tão alta se o objetivo não fosse aprisionar algo ou, quem sabe, alguém? A curiosidade o levou a estabelecer contato. Encostou o ouvido no estranho material gelado e bateu duas vezes.

Nas duas vezes foi respondido.

Alguém o imitava. Coçou a cabeça. Como poderia perguntar “quem era” somente através de ondas sonoras sem sentido? Testou o diálogo uma última vez, primeiro com a mão esquerda e depois com a direita.

Em cada vez foi respondido.

A conclusão mais óbvia se tornou apavorante. Um ser inteligente encontrava-se do outro lado da enigmática barreira sombria. Pelo menos conhecia bem o sistema de pergunta e resposta. Não levou nem um minuto e a sinapse perdida encontrou o caminho à consciência. Como não havia pensado nisso? Um sistema binário podia ser encontrado em qualquer lugar, através da linguagem universal: zero e um.

Adaptou o conceito. Transformou o “sim” em duas batidas e o “não” em apenas uma. Gritou o mais alto que pôde, informando o código, a fim de estabelecer uma comunicação direta. As ondas sonoras seriam carregadas pelo vento ou então, transmitidas pela estrutura. Apostava na segunda opção, pois permanecer gritando o dia inteiro o cansaria rapidamente.

Iniciou um diálogo hipotético, perguntando se gostava de meditar naquele local, como vinha fazendo nos últimos dias. Encerrou com duas batidas para demonstrar que ele próprio achava deveras interessante permanecer ali, no período matinal.

Duas batidas.

Sorriu. Pelo menos entendera o código. Perguntou sobre livros, gostos pessoais e idade, sempre enviando suas respostas primeiro. Incrível como eram semelhantes, independente do muro que os separava.  As características e preferências combinavam de tal forma que, após um dia inteiro de conversa, chegou à simples, mas complexa, conclusão: encontrara sua alma gêmea.

Não queria encerrar a experiência, mas precisava voltar para casa. Estariam lá, novamente, no dia seguinte?

Duas batidas. De cada lado.

Seus pais estavam acostumados com seus retiros diurnos e peregrinações. Atravessar os vales escarpados era uma tarefa para poucos. Sua busca pelo conhecimento era elogiável, no entanto, a muralha construída em tempos remotos sempre estivera lá, além das montanhas, desde que nasceram. Já não se importavam mais em descobrir seus segredos. Os mais jovens, quando atingiam certa idade, começavam a questionar seus limites e frequentemente faziam o mesmo.

Apesar de sua família ignorar a descoberta, voltaria lá, pela manhã. Cheio de ideias e novas perguntas. Estranho saber onde encontrá-lo, nos dias que se seguiram, mas descartou esse fato. Experimentou um breve período de conversas agradáveis, cheias de sentido e, sobretudo, curiosas. Jamais conhecera alguém tão disposto a compartilhar medos, receios e esperanças.

Pelo menos, por um tempo. No quarto dia, seu senso de desconfiança despertou. Possuíam tantas coisas em comum e semelhanças mórbidas… Por que a divisão foi necessária? Seus instintos diziam que ela, ou ele, eram seres iguais. Atravessaria o impossível de alguma forma.

O outro lado teve a mesma ideia.

Utilizou pás e picaretas. Nada. Precisava de algo maior. Buscou um dos veículos agrícolas de seu pai e agradeceu pelo sistema de oscilação gravitacional estar reparado. Infelizmente, obteve o mesmo resultado. A estrutura, dotada de uma resistência incomum, já perdurava por séculos. Qualquer coisa menor que um planador espacial não conseguiria perfurá-la – o último se fora com seu avô, uma lembrança de eras passadas. Agora, apenas ferro-velho. Desistiu.

O outro também.

Uma ideia estúpida tomou forma em meio aos planos mirabolantes e divagações, depois de tantos dias. Ponderou. Afinal, foram de ideias aparentemente estúpidas que surgiram as maiores invenções da história antiga. Iniciou um último diálogo, antes de largar tudo e voltar para casa. A pergunta “Quem é você?” veio acompanhada de silêncio.

Nenhum som. Nenhuma palavra.

Aprendera tanto de si mesmo naqueles quatro dias que teve um vislumbre do passado distante, acompanhado de um lapso do futuro. Se estava confuso? Certamente. “Quem sou eu?” foi a próxima pergunta.

Novamente, sem resposta.

Quem era ele naquela imensidão do cosmos? Se “eu” interior finalmente despertara. Admirado com a descoberta, deixou seus pertences no local e passou a caminhar, sem rumo, tendo as estrelas como guia. Meditou.

Voltou aos seus afazeres como se nada tivesse acontecido. Seus pais claramente demonstraram alívio. No entanto, a nova geração evoluía de forma espantosa. Seu desenvolvimento precoce o fez trocar a pergunta fundamental e finalmente entender o que fazia. O que havia do outro lado já não importava mais, assim como seus pais a encaravam.

Havia apenas uma única explicação. Assim como o som produzido por uma taça de cristal dependia do movimento correto sobre sua superfície, a muralha possuía um elo estrutural aberto a estímulos. E respondia, dependendo da pressão exercida. O som a atravessava e voltava, devido à sua rigidez. Milhões de pequenos cristais enrustidos em toda sua extensão cantavam. Uma enorme elipse.

O código, as semelhanças mórbidas e gostos pessoais ganharam novo sentido. Entendeu porque os adultos desistiam. Seria aquele um ritual secreto de iniciação? Falava consigo mesmo, todo esse tempo… Ecos…

Ecos de outrora, quando aquela elíptica e gigantesca colônia espacial desfilava pelo manto estelar; hoje, enterrada.

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7 comentários em “Reverberação (Victor O. de Faria)

  1. Anorkinda Neide
    18 de outubro de 2014

    Olá, Brian! Gostei bastante…
    Gostei do ambiente futurístico e das reflexões levantadas!
    Abraço

  2. Lucas Rezende
    13 de outubro de 2014

    Como dito pelo Gustavo, é bem confuso.
    Eu adorei a construção do conto, a forma como foi escrito.
    O fato de ser algo “descompromissado” me agrada.
    Fiquei curioso o tempo todo, apesar de já ter uma ideia do que estava acontecendo.
    Parabéns!

    • Brian Oliveira Lancaster
      13 de outubro de 2014

      A maioria dos “contos” são assim – se você analisar do ponto de vista de um romance, está cheio de falhas. Mas esse é imediato, com a intenção de manter o suspense até o final e levantar alguns questionamentos (não gosto de explicar cem por cento das coisas, fica chato). Agradeço a crítica e leitura!

  3. GARCIA, Gustavo
    12 de outubro de 2014

    Ó, eu achei meio confuso ao mesmo tempo que previsível… tipo, dá pra sacar desde o começo o que tá rolando MAS não dá pra discriminar ~exatamente~ o ocorrido, os fatos concretos que se deram pra gente presenciar o que estava acontecendo naqueles instantes. Uma boa construção poética, no entanto um conto em que falta objetividade e/ou uma melhor harmonia entre objetivo e subjetivo, penso eu!

    • Brian Oliveira Lancaster
      13 de outubro de 2014

      Agradeço as críticas. Gosto de “forçar” a imaginação do leitor, mas talvez isso tire a objetividade, a qual você mencionou. Neste caso, quis apenas demonstrar o cotidiano de um jovem em meio às descobertas da vida, cercado por um contexto bem maior. Caso tenha notado, não mencionei por qual pergunta ele trocou a pergunta fundamental – mas é bem óbvia (e um pequeno exercício enigmático).

  4. Maria Santino
    12 de outubro de 2014

    Oi!

    Muito bom. Desdo início que eu já imaginava o que estava acontecendo, mas foi prazeroso ler e constatar. Lembrei daquele conto seu “Utopia” por causa da muralha (lá redoma, Sasami).
    Abraço!

    • Brian Oliveira Lancaster
      13 de outubro de 2014

      Concordo, ficou parecido. Mas naquele o devaneio é bem maior (e apenas você acompanhou). Bem, meu caro(a) Watson, estou ficando previsível. Hora de girar a roda. Agradeço a leitura!

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Informação

Publicado às 10 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .