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Detox Literário.

A Diva (Rubem Cabral)

a diva

Monika Stuttgart era uma virtuose da ópera, justiça seja feita, sem dúvida alguma, sem dúvida alguma. Alcançava notas impossíveis, tinha ouvido supra absoluto, fôlego de mergulhador de apneia em profundidade. Era inumanamente afinada, responsável e profissional e, para culminar tudo, tinha uma presença de palco simplesmente arrebatadora. A moça era um misto de premiada atriz de teatro, multi oscarizada celebridade do cinema e a soma dos talentos de Maria Callas, Montserrat Caballé, Rosa Ponselle e muitas outras não tão famosas.

A simples participação daquela garota franzina e de baixa estatura, por mais singela que fosse, assegurava ao espetáculo bilheterias estouradas com meses de antecedência.

Quando interpretava personagens trágicos – coisa muito comum em óperas, diga-se de passagem – os espectadores saíam de rostos vermelhos e olhos inchados de tanto chorar, embora felicíssimos e extasiados.

Recordo-me que certa vez em Barnard II, Tribulus Ferocious, um superexigente e famoso crítico, ousou escrever um artigo atacando – ainda que levemente – seu desempenho (injustamente, pois este fora, como sempre, impecável). Ao sair às ruas, o velhaco ranzinza foi imediatamente linchado por uma turba furiosa de fãs, esquartejado, colocado em espetinhos, assado e devorado com molho e farofa, muito antes que as autoridades – que pareceram tolerantes demais com o crime – enfim chegassem. De Sirius a Betelgeuse, contando mais de cento e cinquenta sistemas estelares, não havia cantor ou cantora digno de sequer pisar em sua sombra.

Por tudo isso, e apesar de seu salário estratosférico, Monika começou a se tornar cada vez mais exigente e difícil no trato.

Felizmente, para tranquilizar acionistas e empresários, a Tentacular Companhia de Ópera de Órion resolvera bancar a contratação do famosíssimo Fúlvio Vulpino, um verdadeiro gênio do business, especialista em lidar com atores, cantores, celebridades e outras malas similares.

Creio que foi talvez naquela temporada no mastodôntico Teatro Le Pantagruel em Paris II, quando a competição entre eles começou.

— Fúlvio, quero cinquenta toalhas de algodão egípcio bio e não transgênico, dez garrafas de água mineral vulcânica com menos de zero vírgula um por cento de dióxido de enxofre, uvas do monte colhidas durante a madrugada pelas reclusas freiras mancas da Alsácia, rosas azuis do Nepal, chocolates artesanais suíços, feitos com cacau equatoriano da insuperável safra do verão de 2697.

Sem pestanejar, Fúlvio tudo providenciava. Monika se mostrou feliz de início, ao verificar no camarim exatamente o que pedira, nos mínimos detalhes. Entretanto, depois ficava imensamente irritada, por ter proposto um desafio talvez pequeno demais para satisfazer sua divindade.

Foi no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na apresentação de Aída, quando a tal disputa realmente tomou proporções grotescas.

— Preciso de três auxiliares anões albinos, gêmeos idênticos, e que falem Mandarim, Servo-Croata e Aramaico Galileu, cinco quilos de morangos dourados sul-africanos sem sementes, cinquenta toalhas de linho Lunar bordadas pelas freiras manetas de Botucatu, cinco mil rosas miniaturizadas, todas de cores diferentes.

Quando chegou ao camarim, Monika foi saudada em três línguas que ela não compreendia pelos três diminutos homens de cabelos brancos e olhos vermelhos, indistinguíveis entre si. Indignada, comeu todos os morangos, perfeitamente doces, não logrando achar uma semente sequer. Enviou o mini buquê de rosas a um laboratório de sua confiança, que confirmou, após examiná-las sob o microscópio; tinham todas, todas, cores distintas. Mesmo as toalhas prateadas exibiam pontos grosseiros, provavelmente feitos pelos pés das devotadas freiras manetas!

E assim se seguiu em cada novo espetáculo. Alguns espectadores e críticos – que jamais, jamais externaram suas sinceras opiniões – notaram certo esgotamento na voz perfeita de Monika, certo nervosismo em seus gestos antes sempre tão perfeitos.

A gota d’água foi seguramente quando a senhora Stuttgart foi convidada para cantar na abertura do Super Bowl de 2700, cujo jogo seria transmitido a pelo menos cem bilhões de telespectadores. Ela sorriu, malevolamente, ao entregar sua nova lista nas mãos peludas do Sr. Fúlvio.

— Exijo uma nova ajudante: uma sósia perfeita, embora canhota e com intolerância a glúten. Um colar de miniburacos negros primordiais, cinquenta travesseiros recheados de plumas de cauda de Dodôs de bico preto, rododentros incolores colhidos no solstício de inverno pelas freiras cegas, manetas, surdas e loucas de Amityville, cinquenta toalhas de cânhamo plantado a partir de sementes que foram recuperadas da tumba de Tutancâmon III.

A diva gargalhou ensandecida quando deixou sua lista e foi exercitar a voz e fiscalizar a qualidade do som, para o terror de todos os técnicos.

No dia seguinte, o estádio estava lotado, vendedores de cachorro-quente, tacos e cerveja lucravam então o que normalmente demorariam seis meses para ganhar. Uma esfera coberta por uma tela ultrafina flutuava no alto, exibindo comerciais: o novo Pineapple Heyphone XXXIII, genros virtuais para tolerar sogras reais, planetas e asteroides feitos sob encomenda, cães e gatos com personalidades de parentes falecidos…

A orquestra terminava de fazer os mais finos ajustes, quando finalmente Monika Stuttgart atravessou como um meteoro o acesso exclusivo das celebridades, numa das laterais do estádio. Flashes espocaram, câmeras flutuantes robotizadas zuniram no ar, capturando cada ângulo e nuance.

Meio abatida e estressada, a diva ricocheteou na multidão de repórteres e seguiu pelos corredores labirínticos, até a antessala que dava acesso a seu muito luxuoso camarim.

Desgostosa, observou uma moça idêntica a si, fazendo mesura e abrindo a porta gentilmente, com a mão esquerda! Lá dentro, travesseiros estavam empilhados de forma elegante sobre o sofá. Furou um destes últimos com as unhas compridas e arrancou uma pluma do recheio, despachando a seguir para a validação de algum laboratório. Ignorou as flores no vaso de cristal Dilithium, que mais pareciam águas-vivas. Sabia que não precisava checar a maldita procedência dos belos rododentros.

Finíssimas toalhas, carinhosamente dobradas e que cheiravam a maconha prensada foram então jogadas ao chão e pisoteadas até quase rasgar. Durante seu acesso, Monika reparou num maravilhoso colar junto do espelho, mantido encapsulado num sofisticado e transparente artefato gerador de campo de antigrávitons. A joia capturava e inclinava os raios de luz que ousassem se aproximar demais, brilhando de forma paradoxal, por justamente fazer a luz dançar ao seu redor antes de devorá-la.

Jogou a complicadíssima traquitana ao piso, ergueu uma cadeira e bateu o pé de madeira com toda força contra a caixa, que começou a piscar, a emitir bipes de aviso e a sublimar gás refrigerante em nuvens espessas e geladas. As pérolas negras do colar vibraram e começaram a se aglutinar, formando outras maiores. O artefato bipava, agora enlouquecido, e então, somente uma pérola, grande como uma bola de tênis, girava loucamente lá dentro, começando a deformar sinistramente o espaço ao redor.

Com um grito que alcançou tons nunca antes atingidos em toda sua carreira, Monika sentiu seu corpo sendo esticado como espaguete e seguir numa espiral louca ao redor da esfera cor de ébano. Antes que pudesse manifestar sua enorme indignação, foi tragada num tranco repentino, para dentro da coisa, que, enfim, já totalmente liberta da contenção, rasgou e varou o globo terrestre e se precipitou no espaço, do outro lado do planeta.

***

Menos de uma hora depois, o público aplaudiu de pé mais uma apresentação perfeita de Madame Stuttgart, que curiosamente acenou em agradecimento com a mão esquerda antes de descer ao camarim, já completamente reformado e arrumado, e certamente livre de alimentos ricos em glúten.

A carreira da diva continuou então, de vento e popa, navegando pelo mar encapelado do show business, sem jamais adernar para qualquer dos lados.

Creio que este modesto camareiro que vos fala jamais teria descoberto o segredo de Fúlvio, se não houvesse certa vez espiado através da fechadura de sua sala já muito tarde da noite, justamente no dia do desaparecimento da diva. Foi então que testemunhei, quando o sujeito ruivo e peludo se transformou em fumaça e entrou num objeto que se assemelhava a uma lamparina antiga.

Era verdade, senhoras e senhores, Fúlvio Vulpino, o maior experto, o mais incrível administrador de celebridades de todos os tempos. Seguramente, o sujeito era um gênio! Era um gênio!

6 comentários em “A Diva (Rubem Cabral)

  1. Maria Santino
    10 de outubro de 2014

    Bom dia!

    Hilário,rs. Lembrei de um congresso que fui defender um projeto, e a regalia era: Água e cafezinho ( quantos você fosse capaz de beber :\ ). Muito bom o conto, os “modestos pedidos” da Diva só poderiam ser atendidos por um gênio mesmo 😀 É muito estrelismo. Aff!
    Parabéns! Abraço

  2. Lucas Rezende
    10 de outubro de 2014

    Cara, eu rachei de rir com as exigências!!
    Demais, demais, demais.
    O gênio no final foi coisa de gênio. Surpreendeu total!!!
    Esse Rubem é fueda!

  3. Claudia Roberta Angst
    8 de outubro de 2014

    Muito bom e divertido. Diria mais: inspirador. Agora, já sei o que uma diva exige: “uvas do monte colhidas durante a madrugada pelas reclusas freiras mancas da Alsácia”. Mas do que fiquei mesmo com inveja foi dos ” chocolates artesanais suíços, feitos com cacau equatoriano da insuperável safra do verão de 2697.” Adorei! Parabéns pelo talento e, sobretudo, pela criatividade.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    8 de outubro de 2014

    Hahaha, muito bom. “genros virtuais para tolerar sogras reais” é sensacional. E só mesmo um gênio da lâmpada para realizar todos os pedidos. Ótima sacada. Abraços.

  5. Gustavo Garcia De Andrade
    7 de outubro de 2014

    Ô, daora, mesmo. Ele começa num tom leve que me lembra a sagacidade do Fernando Veríssimo, de verdade. Talvez eu não tenha curtido muito as partes em que você dá umas pirada MUITO loucas, mas decerto é um entretenimento válido. Só não sei muito o valor de releitura dele, sabe?

  6. Gustavo Araujo
    7 de outubro de 2014

    Excelente. Sabe onde se pode encomendar alguns desses colares? Gostaria de presentear algumas divas que conheço.

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Informação

Publicado às 7 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .