EntreContos

Detox Literário.

Sonata em noite sem luar (Marco Piscies)

Em 2065, as lendas urbanas que envolviam Carlos, o Violonista, tornaram-se muitas. Elas nasceram na faculdade de música que ele nunca conseguiu terminar. Era o maior violonista que o mundo já tinha visto, mas não teve tempo de mostrar seu talento. Tinha vendido a alma ao diabo para ter o dom que possuía: por isso morreu cedo. Conhecia músicas que tocariam os cantos mais profundos da sanidade de quem as ouvisse. Certo dia, após um ritual macabro, ele conjurou um instrumento musical do além. Alguns diziam que ele era o próprio flautista de Hamelin, mesmo que não tocasse flauta alguma.

Eram todas histórias interessantes para serem contadas de aluno para aluno, especialmente nas noites de luau em praias desertas. Todos tinham certeza, é claro, que Carlos jamais existira. Até que o respeitável professor de música, Cléber, faleceu, aos seus oitenta e cinco anos. Seus filhos vieram à faculdade buscar seus pertences, mas esqueceram uma pequena  caixa, largada em uma gaveta. Os alunos a encontraram.

Dentro da caixa, um caderno.

 

 

Conheci Carlos durante uma das aulas de Noções de Piano para Não-Pianistas da faculdade. Era uma matéria eletiva que muitos gostavam de pegar por ter um bom professor e diversificar o conhecimento. O instrumento era particularmente difícil de ser manejado para a maioria dos alunos, mas havia aquele garoto, o Kelvin, que executava alguns números divertidos com as teclas pretas e brancas. A música era sofrível, mas ele compensava a falta de perícia – comum a todos da turma – com tons divertidos e truques desconcertantes. Tocava o instrumento com as mãos nas costas, de cabeça para baixo e, certa vez, conseguiu marcar um encontro com uma das alunas da turma quando segurou gentilmente suas mãos e tocou uma melodia a dois.

O professor parecia ignorar o teatro quando considerava as notas dos exames, apesar de rir sempre que Kelvin fazia algo inusitado. Aquilo deixava a turma inteira com a sensação de que ele ganharia uma nota ligeiramente superior apenas por saber truques baratos. A maioria não se importava, menos Carlos, um garoto que até então eu só reconhecia a existência por achar engraçado vê-lo contorcer o rosto sempre que Kelvin iniciava um de seus números. Ele odiava as apresentações de Kelvin. Certo dia, já nas últimas semanas de aula do período, ele não conseguiu se conter. Levantou-se durante uma das apresentações que Kelvin costumava fazer quando o professor se ausentava para beber água e ir ao banheiro, falando em tom alto:

– Isto aqui não é aula de teatro. A maioria nesta turma não consegue começar um tom decente no piano, mas você é ainda pior do que todos.

O silêncio que seguiu, enquanto nós trocávamos olhares confusos, foi desconcertante. Nunca antes eu havia visto alguém angariar a antipatia de uma turma inteira com apenas uma frase.

Kelvin havia parado de tocar o que quer que estivesse tocando, os dedos a meio caminho das teclas. Primeiro esboçou uma reação confusa, depois sorriu e baixou a cabeça na direção de Carlos com uma mesura.

– Vamos lá então, mostre-nos como se faz.

Carlos não hesitou. Levantou-se e andou em passos duros na direção do então adversário, que se levantou do banco, abrindo espaço para o aluno invocado. O professor abriu a porta ao voltar para a sala, bem a tempo de ouvir a primeira nota perfeita emanando dos dedos do estudante.

A segunda; a terceira; a quarta. Todas as notas eram perfeitas. Durante alguns segundos a turma permaneceu em um silêncio místico, envolta por aquela música ímpar. Até que, antes que pudéssemos absorver o que ouvíamos, veio a primeira nota desastrosa. Então a segunda, a terceira e a quarta. Dali em diante Carlos não tocava música, mas sim uma cacofonia de sons inteiramente desconexos, que machucavam quase fisicamente os tímpanos.

– Ok, ok. Boa tentativa Carlos.

O professor falou, tocando nas suas mãos para que parassem. O aluno sorriu e fez uma mesura para a turma, que estava dividida entre aplaudi-lo e rir de sua performance pobre; talvez a mais pobre que houvéssemos visto naqueles seis meses de demonstrações fracassadas atrás de demonstrações fracassadas.

Um minuto depois estava tudo acabado. Ninguém mais se lembrava do ocorrido, nem mesmo Carlos, que voltou sua atenção à aula, como deveria ser de praxe. Kelvin continuava rodeado de mulheres, o professor prosseguia sua aula e ninguém parecia pensar naqueles poucos segundos de música perfeita que Carlos havia conseguido retirar daquele instrumento diabólico.

Na saída corri para alcançá-lo no corredor, antes que ele descesse as escadas e sumisse de vista.

– Cara – exclamei, chegando ao seu lado e acompanhando-o na descida dos primeiros degraus. – Você tinha algo bom ali, quando começou a tocar. Depois tudo desandou. O que houve?

– Eu errei umas duas notas. Tenho que treinar mais o piano. – Ele respondeu, sorrindo de forma simpática.

Duas notas? Pensei. Não fosse o professor para impedi-lo que continuasse, havia grandes chances de que o aluno que passasse casualmente pela porta de nossa sala achasse que estivéssemos ouvindo uma criança de cinco anos tocando uma daquelas miniaturas de piano de plástico. Ao invés de expressar a ideia desta forma, porém, apenas apertei sua mão e me apresentei, então seguimos caminhos diferentes. Não nos falamos pelo resto das duas semanas de aulas que tivemos.

É importante ressaltar aqui que Carlos não tinha ideia, na época, que sua música feria os ouvidos de qualquer pessoa – letrada no assunto ou não. Ele vivia em uma realidade alternativa, onde suas notas pareciam fazer sentido exclusivamente para ele e para mais ninguém. Por isso foi com grande assombro que, quando acessei o sistema online de alunos da faculdade para verificar minha nota em Noções de Piano, deparei com o nome dele em primeiro lugar, ao lado de uma magnífica nota nove. O segundo lugar – Kelvin, obviamente – havia atingido um modesto sete. Eu mal havia encostado a superfície do passável com cinco e meio.
Minha perplexidade não durou mais do que alguns minutos. Eu estava diante da minha confirmação de que havia passado em todas as matérias da faculdade e agora tinha quatro meses de férias pela frente. O assunto ficou guardado – mas não esquecido – em um canto dos meus pensamentos, junto com a sensação que tive ao ouvir aquelas primeiras notas perfeitas tocadas por ele durante a aula.

 

Voltei para a faculdade após as férias com espírito renovado e pronto para o meu último ano de estudos. Apenas dois períodos letivos me separavam do sonho de me tornar Bacharel. Um mundo de possibilidades descortinava-se diante de mim e, em um dia em que acordei especialmente empolgado, resolvi ir para a aula com o meu violão de estimação nas costas.

Ao mal ultrapassar os portões de entrada, ouvi uma música horrível, aparentemente tocada em um violão, vinda do pequeno anfiteatro da faculdade. Movido pela curiosidade e pela não tão vaga possibilidade de a pessoa por detrás daquela tortura musical ser Carlos, andei até lá.
O anfiteatro era cravado no chão da faculdade, em meio às árvores que a cercavam, no puro estilo grego, com direito a pilares que simulavam a arquitetura da época e até algumas rachaduras – estas não tão simuladas – que remetiam a um lugar ancião. Muitos alunos usavam a arquibancada para se alimentar durante os intervalos entre as aulas ou mesmo dormir um pouco. Em raras ocasiões, um ou outro mais corajoso subia ao palco e tocava músicas, obtendo a eventual ovação ou mesmo dicas para melhorias. Naquela tarde, quem tocava no palco era Carlos.

Ele estava sentado na beirada do palco, tocando o violão com a destreza de uma criança recém-nascida. Eu não sabia se exigia mais coragem da parte de Carlos para tocar em público ou da parte do público para continuar ouvindo aquela música grotesca. A resposta veio a mim quando, ao passo que eu me aproximava do lugar, diversas pessoas começaram a se levantar, decidindo retirar-se para um lugar mais pacífico do que perder tempo pedindo para que Carlos parasse. Quando finalmente cheguei à arquibancada éramos apenas eu, Carlos e sua música.
Em algum momento durante o conjunto aleatório de notas, ele parou e esbravejou alguns impropérios, o que só pude deduzir que fosse uma nota que ele havia tocado “errada”, o que impediu que a melodia continuasse.

– Que diabos está tentando tocar?

Falei, aproveitando a pausa e andando até o palco.

– Uma música de autoria própria – ele falou, objetivamente, enquanto afinava algumas das cordas.

Graças a Deus, pensei. Fosse de autoria terceira, alguém estaria se revirando dentro de um caixão ou contorcendo-se de dor em algum lugar do mundo.

– Está péssima. – Falei, sentando-me ao seu lado na beirada do palco. Não me critique pela sinceridade. Eu tocava violão desde os meus oito anos e o considerava meu instrumento de proficiência. Naquele momento, movido por uma espécie de pena, imaginei poder ajudar um sofrível músico a melhorar sua técnica. – Onde está a partitura?

– N…não a escrevi ainda. Não se… sei como escrevê-la, na verdade. – Ele falou, olhando para mim com um meio-sorriso, terminando de afinar o violão pousado ao colo. Então continuou, controlando melhor sua gagueira. – Não de uma forma que as pessoas entendam.

Àquilo não tive resposta. Apenas muito tempo depois que entendi, assim como você entenderá, o que ele tentara dizer ali. Na época, porém, apenas resolvi mudar de assunto.

– Vi sua nota na aula de Noções de Piano. Parabéns cara, parabéns mesmo. Como conseguiu? Imagino que tenha treinado mais aquela música que você começou a tocar na sala da outra vez.

– Toquei Beethoven.

Fiquei em silêncio. Beethoven era uma pretensão bastante alta até mesmo para um aluno que havia passado com nove na nota final. De qualquer forma, imaginei que ele houvesse escolhido uma de suas composições mais simples.
Como que ouvindo meu silêncio perplexo, Carlos começou a tocar uma adaptação para o violão da décima quarta sonata do pianista alemão. Obviamente, fora com aquela música que ele concluíra o curso de Piano. Para mim, na época com o orgulho ferido por ver alguém tocar tão bem no violão uma música daquela dificuldade, especialmente alguém que assassinava o instrumento poucos minutos antes, sua performance foi excelente. Hoje entendo que ela foi perfeita.

Eu sei que quando falo em perfeição o leitor costuma diminuir a intensidade para “muito bom” ou “excepcionalmente excelente”. Não o faça. Não exagero ao expressar a forma como os dedos de Carlos deslizavam sobre as cordas e faziam emanar cada som em seu tom ótimo, cada nota com perfeição. Era como se Beethoven nunca houvesse tocado o piano de fato, e sim o violão, e agora invadia a mente de Carlos, psicografando cada nota com maestria. Quando ele finalmente terminou o pequeno trecho – apenas o segundo movimento da famosa sonata à Luz da Lua – senti-me acordando de um transe.

– C…como.. como você… – gaguejei, e continuei gaguejando por alguns momentos, até Carlos cair em gargalhadas, o que me fez rir também. Engoli meu orgulho então, puxei meu violão para o colo e pedi para que ele me ensinasse o que havia acabado de fazer. Passamos a tarde treinando a música.

Ali nascia uma grande amizade. Com o passar dos dias, descobri que metade das aulas nas quais eu havia me inscrito naquele período coincidiam com as aulas de Carlos. Em poucas semanas viramos grandes amigos e companheiros de violão. Tocávamos juntos entre as aulas e saíamos juntos com uma turma de colegas para beber e nos divertir uma vez ou outra. Encontrávamo-nos durante os fins de semana, bebíamos até cair e até jogávamos algumas partidas de futebol, quando conseguíamos marcar com pessoas o suficiente. Conheci sua família e fiz grande amizade com sua mãe, a simpática Dona Fernanda.

De certa forma, eu me sentia salvando Carlos do mundo recluso onde ele antes vivia e que eu não sabia que existia. Ele gaguejava quando nervoso, tinha a pele alva demais e se apresentava com os cabelos negros geralmente desgrenhados. Com o passar do tempo, conforme eu o levava para mais e mais eventos sociais, sua gagueira apresentava melhorias significativas e seu cabelo aparecia mais ajeitado. A cor da pele ainda era um problema, visto que saíamos geralmente à noite, mas quando o chamei para ir à praia ele rechaçou o convite com veemência. Acho que era um passo grande demais.

Eu também salvava os tímpanos de muitos alunos que costumavam usar a arquibancada do anfiteatro para relaxar, visto que, sempre que eu chegava por lá, Carlos parava de tocar suas músicas de autoria própria para que começássemos a treinar músicas eruditas. Nossa presença no pequeno palco acabou sendo reconhecida por muitos da faculdade, que passaram a aprender a evitar o local enquanto Carlos tocava sozinho, até a minha chegada. Nós também tocávamos violão em público em algumas ocasiões, quando estávamos no clima, nos bares ou churrascos aos quais éramos convidados. Carlos foi aos poucos conquistando o título de maior talento vivo que conhecíamos em pessoa no violão, o que, para a minha surpresa, não me incomodava nem um pouco.

Certo dia, durante um destes programas sociais, quando o relógio já ultrapassava a meia-noite e após quinze tulipas de chopp, Carlos me confessou que nunca tivera amigos como aqueles; especialmente um amigo como eu. Levantei meu copo com um sorriso e brindamos à nossa amizade.
Eu sabia que ele tinha dificuldades quando o assunto era interações sociais, e o ajudava como podia. Vê-lo evoluir daquela forma – muitas vezes contando piadas que faziam a mesa inteira contorcer-se de tanto rir – era gratificante. Mais gratificante ainda foi ouvir, poucos minutos após aquela declaração, que ele estava interessado em uma das estudantes que sempre andavam com o nosso grupo: a Valéria. Após dar-lhe algumas dicas de como abordá-la, observei enquanto ele se levantava, conversava com a linda morena e, após alguns minutos, a levava para dançar. Todos na mesa o observaram e então olharam para mim com incredulidade. Com ar de triunfo, puxei outro brinde.

Cheguei atrasado à faculdade na segunda-feira seguinte, como acontecia com a maioria das segundas-feiras. Esperei encontrar Carlos sentado na beira do palco do anfiteatro, tocando aquilo que chamava de “música de autoria própria”, expulsando todos os alunos que tentavam buscar ali alguma paz para estudar ou lanchar. Muitas das vezes eu o encontrava já diante de uma série de bancos vazios, acompanhado apenas pelo canto dos pássaros, aparentemente imunes à tortura musical. Naquele dia, porém, consegui avistar um casal que acabava de se levantar, torcendo suas feições em sinal de reprovação, e mais dois amigos que tentavam conversar mas descobriram ser impossível concentrar-se em alguma coisa com aquele som de fundo. Diante da cena, não consegui conter uma risada. O som saiu mais alto do que eu imaginava e, quando percebi, estava rindo a plenos pulmões em sonoras gargalhadas. Tive que parar para respirar e limpar as lágrimas dos olhos, avistando o último dos participantes da plateia sumir em uma esquina. Então notei.

A música que ele tocava era magnífica!

Continuei andando em sua direção sem conseguir parar de rir, a esta altura já não entendendo o porquê. Percebi que ele já havia notado a minha presença e ria também, sem nunca parar de tocar o violão. Retraçando o caminho feito até ali, percebi que estava ouvindo aquela música o tempo inteiro desde que chegara na faculdade, mas não a tinha ligado a Carlos, visto que ele nunca tocava algo daquele jeito quando treinava sozinho seus arranjos.  Era uma música alegre, harmônica, extremamente apaziguadora. As notas se encaixavam umas nas outras de tal forma que pareciam ser uma só.

Com um sorriso ainda estampado no rosto e sem entender por que as pessoas saíram do anfiteatro ao invés de ficar e ouvir aquela obra de arte, sentei-me ao lado de Carlos, deduzindo que ele tocava algo que não fosse de sua própria autoria.

– O que é isto? João Gilberto? Nunca ouvi esta. – Falei, secando algumas lágrimas resultantes das gargalhadas momentos antes.

– Não, esta é minha mesmo. Ainda sem nome – ele falou, rindo um pouco comigo. – Mas acho que acabei de descobrir. O nome desta é “Amizade”.

Concordei com o nome e passamos a treinar juntos, como sempre, diante de bancos vazios, com apenas as árvores como testemunhas.

 

As semanas foram passando em rotina: estudávamos, treinávamos, bebíamos e nos divertíamos. Duas ou três vezes por semana, como sempre, eu encontrava Carlos tocando no anfiteatro sozinho suas músicas horrendas. Nunca mais eu o ouvi tocando algo parecido com Amizade.

Poucas semanas depois de terem dançado pela primeira vez, Carlos e Valéria oficializaram o namoro. Valéria era uma garota encantadora e que odiava as músicas que Carlos escrevia tanto quanto qualquer pessoa normal. Como ela morava sozinha em uma casa herdada dos pais, separou o porão do lugar para que ele treinasse suas notas enquanto passava algum tempo em sua casa: assim, ninguém precisava ouvir suas notas desconexas a não ser ele mesmo. Ambos formavam um belo casal.

Na mesma época, não sei se envolto pelo clima romântico entre Carlos e Valéria, caí em amores por uma das minhas amigas da faculdade, uma estudante de Belas Artes chamada Érica. Eu e Carlos conversávamos sobre ela mas, como era de se esperar, ele não era muito bom em dar conselhos. Eu, por outro lado, não conseguia encontrar a coragem para me declarar àquela beldade. Com o início do namoro, Carlos e eu passamos a treinar menos no anfiteatro e, consequentemente, nos falar menos também. Minha queda por Érica foi ficando cada vez mais escondida dentro de mim, até que se tornou apenas uma sombra: um suspiro sempre que a notava, um gelar de coração sempre que a via conversar com outro homem.

Para o alívio de muitos estudantes, o namoro com Valéria fez com que Carlos diminuísse muito o ritmo com que treinava no anfiteatro. Havia semanas que eu o encontrava apenas uma vez por lá, e outras que eu nem o via.

A última vez que o vi no anfiteatro aconteceu meses depois de ter ouvido Amizade. Estávamos nos preparando para os testes finais do período e tínhamos apenas mais um período pela frente para nos formar. Muitos alunos já tinham o tema de suas apresentações finais em mente e trabalhavam no assunto, mas eu e Carlos continuávamos no escuro. Eu entrei na faculdade com o violão nas costas e ouvi a mistura bizarra de sons de longe, vinda do anfiteatro. Sorrindo, andei até lá.
Algumas pessoas já haviam se acostumado a não vê-lo ali com tanta frequência desde o início do seu namoro, então quando cheguei ainda havia muitas pessoas recolhendo suas coisas para se dirigirem a um local mais propício aos estudos ou à conversa. Qualquer lugar, na verdade, onde não houvesse uma vitrola com um disco arranhado tocando em seus ouvidos. Andei na direção do meu amigo e sentei-me ao seu lado pronunciando um mero “bom dia”, iniciando meu ritual com o violão, como de costume. Quando o último ouvinte desconformado sumiu no horizonte, ele parou de tocar com um suspiro.

– Eles não gostam da minha música, não é?

Soltei uma breve risada enquanto aguçava o ouvido para afinar uma das cordas, sem tirar o olho do braço do meu violão.

– Achei que você já tivesse notado isto há algum tempo.

Um novo suspiro, e então silêncio. Quando o mesmo se prolongou, parei o trabalho no violão e olhei para Carlos. O instrumento no seu colo servia de apoio para o seu queixo e seu semblante cabisbaixo, olhando o horizonte, focado em um ponto vazio qualquer.

– Carlos…

Tentei falar, mas percebi que aquelas palavras eram mais difíceis de formular do que eu esperava. Eu já havia me acostumado com o comportamento quase autista do meu amigo, e achava que até as pessoas ao redor haviam se conformado. Carlos tinha se tornado uma espécie de ícone da faculdade, alguém que todos estavam acostumados a ignorar, especialmente por causa do seu brilhantismo quando se tratava de qualquer outra música senão as que ele mesmo criava. Era esse o principal motivo, eu suspeitava, das pessoas preferirem se retirar do anfiteatro a expulsá-lo de lá para sempre.

– Por que você não tenta começar a compor músicas como todos fazem? Comece devagar, pegue uma partitura conhecida e…

– E o quê? – ele falou, levemente alterado. – Introduzir uma variante em um Villa-Lobos? Alterar um pouco a melodia de Garota de Ipanema? – Seu tom não era mais de frustração do que de raiva. Ele suspirou novamente, antes de continuar. – Cópias, Cléber. Nós vivemos aprendendo a copiar outros autores, alguns mortos há séculos.

– Mas é com os mestres que aprendemos. – Falei – Nós ouvimos o que já foi feito e adicionamos um pouco de nós mesmos no que já existe. Assim, com os anos – décadas, séculos – a música muda. Evolui. O que você quer fazer? Reinventar a música?

– Não. Aprimorá-la.

Eu ri.

– Carlos, dispor as notas de forma aleatória não é aprimorar a música.

– As notas não são aleatórias. As pessoas que não entendem. Este tempo todo eu venho tentando fazê-las entender.

Franzi o cenho. Carlos continuou.

– Você entendeu Amizade. Era uma música minha, como outra qualquer, mas você entendeu.

Eu continuava com o cenho levemente erguido, ao mesmo tempo entretido e confuso com aquela conversa. Frustrado, Carlos começou a fazer gestos para tentar explicar melhor.

– Imagine que Chopin descobrisse uma máquina do tempo e viesse aos dias de hoje. Então, alguém o levasse para um show do Metallica. O que você acha que ele iria pensar? O que ele ouviria?

– Acho que ele ia colocar as mãos nos ouvidos e sair gritando, achando que tinha aparecido no inferno – E ri. Carlos sorriu mas não parou sua explicação por sequer um segundo.

– Justamente! Sua vida inteira ele se acostumou a ouvir um determinado padrão musical. Seu cérebro ligaria a ideia de música a algo completamente diferente do que nós hoje ligamos. Para ele, um concerto de Heavy Metal é apenas um monte de barulhos em volume ensurdecedor.

– O que você está querendo insinuar? Que criou um novo estilo de música? -Falei. Àquela altura, Carlos já andava de um lado para o outro no palco, enquanto eu o olhava de baixo, sentado na beirada como sempre.

– Não! Não um novo estilo. Uma nova forma. As risadas… a tristeza… – E então ele pareceu gaguejar, como sempre fazia quando não conseguia expressar uma ideia em palavras. Com a frustração renovada, Carlos pegou seu violão e pulou do palco, dirigindo-se a passos largos na direção da saída da faculdade.

– Eu acho que já sei como resolver isto. É o instrumento. Preciso de um instrumento novo – Então saiu do local andando e sumiu após atravessar o portão principal.

Naquela tarde, treinei sozinho. Por instinto, comecei a tocar o segundo movimento da Sonata à Luz da Lua, de Beethoven. Haviam passado meses desde que eu ouvira Carlos tocá-la e até agora não chegava nem perto de executá-la tão bem quanto ele.

 

Carlos nunca mais apareceu no anfiteatro. Não posso dizer com certeza, mas alguns chegaram a demonstrar que sentiram falta da presença excêntrica dele por lá. Passamos a nos encontrar apenas nas aulas nas quais estávamos inscritos juntos, e foi durante uma destas que ele me contou que estava trabalhando em seu projeto final: um novo instrumento musical.
Quando Carlos me contou do novo instrumento no qual trabalhava, fiquei preocupado. Ele estava falando do seu futuro acadêmico, da imagem que teria diante dos professores ao tentar concluir o curso. Entendi que cabia a mim impedir que meu amigo fosse longe demais em seus devaneios da realidade, e tentei conseguir o apoio de Valéria para dissuadi-lo daquela empreitada. Ela concordou. Juntos, tentamos convencer Carlos a investir seu tempo em algum projeto mais simples; mais convencional. Ele foi irredutível. Após dias de tentativas frustradas, eu e Valéria chegamos a um acordo de não mais tentar impedi-lo. Só cabia a nós agora esperar que o bom senso caísse sobre ele antes que fosse tarde demais.

 

Após o final do período letivo, durante as férias de julho, não vi Carlos em lugar algum. Valéria ia aos encontros da turma sozinha, dizendo que ele estava no porão trabalhando em seu projeto. Resolvi deixa-lo em paz por um tempo.

Um pouco antes do início das aulas do último período, decidi qual seria minha apresentação. Sonata á Luz da Lua, de Beethoven. Eu tocaria a versão de violão que Carlos havia me ensinado, àquela altura já relativamente natural em minhas mãos. De qualquer forma, eu precisaria de uma permissão dele para prosseguir com aquela ideia, e também de ajuda para aperfeiçoar alguns trechos particularmente difíceis. Como ele havia se trancado no porão durante as férias, decidi esperar que as aulas começassem para abordar o assunto.

As aulas começaram, e ele não apareceu.

Após uma semana sem vê-lo em nenhuma das aulas, já bastante preocupado, fui até a casa de Valéria no sábado de tarde. Não foi surpresa vê-la abrir a porta para mim ao invés de Carlos. Assim que me viu, ela soube do que se tratava. Me convidou para que entrasse com um gesto simples com as mãos, então pediu que a seguisse até o porão, onde Carlos trabalhava.

– Ele sai de lá, por acaso? – Falei.

– Ai dele se ele não sair.

Ela falou em tom cômico. No curto caminho que seguimos juntos até a entrada do porão, Valéria me contou que ele passava bastante tempo lá, mas saía com frequência para namorar e ler livros.

– Os encontros sociais são mais difíceis. Ele fala que é muito tempo perdido. Tempo que ele não pode perder.

Fiquei feliz de saber que o meu amigo passava bem. Quando chegamos à entrada do porão, ela abriu a porta e a segurou, dando passagem para que eu descesse sozinho.

O som abafado que vinha lá de baixo era divino.

Estranhamente, Valéria estava com a expressão que ela sempre fazia ao ouvir a cacofonia que Carlos produzia com o violão; uma expressão zombeteira, quase de pena. Tive vontade de perguntar por que ela esboçava aquela feição diante de tão bela música, mas minha mente havia entrado em um estranho estado de torpor. Desci os degraus um passo de cada vez, de forma mecânica, prestando atenção nos sons e tons tão diferentes de tudo o que eu havia ouvido na vida; seu volume aumentando a cada degrau conquistado.

Não existe forma de comparar o som que Carlos produzia com seu novo instrumento a nada do que você já tenha ouvido. Tudo o que você ouve, por mais novo que seja, é de certa forma comparável a algo que você já ouviu. O canto de um pássaro. O som dos golfinhos. O som das águas do mar. A música de Carlos era um som único, magnífico, sublime. Aquela música em particular era, acima de tudo, extremamente revigorante e motivadora.

Quando terminei de descer as escadas, vi Carlos sentado em um banco de madeira com um instrumento que jamais tinha visto antes. Era de cordas e relativamente simples, mas com um formato retilíneo e sem o braço tão comum em instrumentos daquele tipo. As nove cordas eram tocadas com perfeição, e de repente me vi pensando em Érica e em conquista-la a qualquer custo. Meu peito se inflou de determinação e paixão. Meus olhos cruzaram com os olhos de Carlos e a mensagem que a música passava pareceu completa. Subi em disparada escada acima, correndo alucinado até o portão, ignorando as perguntas de Valéria atrás de mim, meros sons vagos em uma mente correndo a mil quilômetros por segundo. Entrei no carro, dirigi até a casa de Érica e, durante um sinal vermelho, liguei para ela avisando para me esperar na porta da frente. Confusa, ela tentou perguntar o motivo, mas a luz verde do semáforo indicava que eu já poderia acelerar, então desliguei. Parei o carro diante de uma Érica cheia de perguntas e preocupações. Afoguei todas elas com um beijo longo e profundo. Ela tentara articular qualquer frase, mas inundei-a com mais beijos, até que os seus braços tocaram as minhas costas e ela se entregou por completo. Foi só depois que nos separamos – cinco minutos depois? – que vi que seus pais, seu irmão, e até o cachorro, estavam na janela a nos observar. Todos começaram a bater palmas em aprovação, transformando-nos em um casal de camarões.

Passei aquela tarde quase inteira na casa de Érica conversando com sua família e aproveitando o que parecia ser o início de um namoro. Todos haviam ficado preocupados com minha ligação misteriosa, achando que eu estava precisando de algum tipo de ajuda; alguma emergência. Quando me perguntaram de onde toda aquela motivação surgiu, eu não soube explicar. Eu sabia de onde ela havia surgido, mas não iria dizer que era de uma música. Da música de Carlos, naquele porão isolado, com aquele instrumento musical estranho.

Érica e eu combinamos de passear em um parque florestal no dia seguinte, às sete da manhã. Ambos estávamos empolgados com a situação e dispostos a passar horas e mais horas juntos, descobrindo tudo o que podíamos um do outro. Conforme a noite terminava, expressei, em algum momento durante nossa conversa, minhas preocupações sobre Carlos e seu isolamento. Então tudo veio à tona. Lembrei-me de como fui parar ali e de onde saiu minha determinação. Minha mente ficou confusa, sem entender direito como aquilo tudo começou.
Diante do meu olhar confuso, Érica falou:

– É. Eu via vocês dois sempre juntos antigamente, mas agora ele sumiu. Quer chamá-lo para o parque amanhã conosco? Ele está namorando a Valéria, não está?

Sua voz doce tirou meus pensamentos da confusão e pareci acordar, concordando sem demora com o que ela dizia. Resolvemos ir para o parque um pouco mais tarde, para dar tempo de estender o convite ao meu amigo atribulado.

No dia seguinte, às nove horas de um domingo, bati à porta da casa de Valéria. Carlos foi quem abriu a porta e, quando me viu, sorriu. Ficamos por um momento em silêncio, em uma espécie de conversa muda. Ele sabia. Sabia o que havia acontecido, sabia o motivo de eu ter saído em disparada de sua casa. Ao invés de esperar que eu o contasse da novidade, simplesmente acenou com a cabeça; um sinal de aprovação e de parabenização. Então, nos abraçamos.

Passamos bons vinte minutos conversando à porta sobre o que tinha acontecido na noite anterior, mas nunca tocamos no assunto da música. Ele riu quando falei que toda a família assistiu ao beijo, e deleitou-se ao saber que já estávamos marcando um passeio no parque no domingo.

– Se continuar assim, mês que vem tem noivado – Ele falou, e eu o respondi com uma risada. Finalmente fiz o convite, que era o motivo principal da minha visita. Falei que ele poderia levar Valéria para um encontro a quatro no parque, curtir um domingo comendo coisas saudáveis e simplesmente jogar papo fora. Carlos hesitou, mas quando Valéria saltou de alegria por saber do nosso namoro e do passeio, ele admitiu a derrota e consentiu.

Durante o passeio conversamos sobre tudo. Érica ainda era um mistério para mim em diversos aspectos; um mistério muito agradável de desvendar. Conversamos sobre música, obviamente, mas também sobre livros, seriados, e problemas familiares. Depois, fizemos uma pequena seresta, onde aproveitei para perguntar para Carlos se eu poderia usar a versão dele da décima quarta sonata como projeto final, ao que ele ficou lisonjeado e aceitou de bom grado.
O domingo corria excepcionalmente bem, mas eu sabia que algo estava faltando. A música da noite anterior. O instrumento. Tudo o que tinha acontecido. Eram assuntos não resolvidos, silenciosos, que não saíam de minha garganta. Certo momento, quando ambas Valéria e Érica foram ao banheiro e eu e Carlos ficamos a sós, o silêncio perdurou mais do que o esperado. Carlos foi quem o quebrou, novamente parecendo ler meus pensamentos.

– Chamei o instrumento de Amizade também, em homenagem à primeira música que consegui fazer alguém entender. É um nome idiota para um instrumento, não é?

– Bota em latim que fica tudo certo. Como é mesmo? – Falei e, usando um serviço de tradução online no celular, encontrei. – Amicitae.

– Putz, ficou pior – Ele falou, e ambos rimos. Começamos a procurar em todas as línguas possíveis, até que encontramos, em Espanhol, algo que soou razoavelmente bem.

– Amistad. Está aí -Ele falou, em tom final. Assenti em aprovação, enquanto ouvíamos as duas namoradas lavando as mãos lá dentro do banheiro, rindo de qualquer coisa que tinham conversado.

– A música de ontem. Resolvi chama-la de ‘Desde o princípio, amor’ – Carlos falou, com certo ar de orgulho – Já era hora de você e Érica estarem juntos.

Ambas as namoradas saíram do banheiro. Érica já segurava o meu braço, falando qualquer coisa, mas meus pensamentos estavam em outro lugar. Eu pensava em como Carlos esteve certo desde o princípio, como sua música era diferente de tudo o que eu havia experimentado na vida, e como ele jamais duvidara daquilo.

Carlos foi à aula no dia seguinte, e nos dias subsequentes. Estava quase sempre bem-humorado, mas nunca mais treinamos no anfiteatro: ele dizia que estava muito ocupado treinando para sua apresentação no final do período letivo e que eu deveria fazer o mesmo.

Aquele período foi especialmente agitado para todos nós, fazendo o tempo passar como o vento. Eu fiquei mais tempo com Érica do que poderia ter imaginado, mesmo estudando e treinando constantemente para fechar a faculdade com chave de ouro. Ela era minha plateia, minha avaliadora e minha amiga. Acima de tudo, minha paixão. Quando percebi, estávamos a três semanas do final das aulas. Três semanas para terminar a faculdade e cravar mais um marco em nossas vidas.

 

Foi em uma terça-feira à noite, enquanto eu treinava em meu quarto sem notar o tempo passar, que recebi aquela ligação dos pais de Carlos. Muito preocupados, eles pediram para que eu me dirigisse até o hospital, pois “algo de muito sério” havia acontecido. Olhei o relógio e vi, com espanto, que eram onze e quarenta da noite. Eles se negaram a falar mais por telefone, pedindo urgência.

Vesti qualquer roupa decente que encontrei no armário e saí, tentando não pensar no pior. Cheguei ao hospital em menos de cinco minutos. Procurei pelo leito de Carlos na enfermaria e avistei ao longe seus pais ao lado de uma cama, com semblantes preocupados. Sua mãe foi quem me viu e, quando o fez, esboçou alívio. Não consegui desferir dois passos, porém, antes que uma mão forte tocasse meu peito.

– Você é o Cléber?

Olhei para o indivíduo. Demorei em processar que era um policial, mesmo estando fardado. É o tipo de pessoa que você não espera encontrar assim, de repente. O homem me dirigia um olhar inquisitivo, e seu companheiro, alguns passos atrás, não possuía semblante melhor.

– Sim, sou eu. O que está acontecendo?

– Teremos que fazer algumas perguntas…

– Esperem. Deixem-no falar com o meu filho primeiro – Falou Dona Fernanda, gentilmente. Ela tinha coberto a distância entre nós e recostava sua mão sobre a mão do policial. – Ele se recusa a falar com qualquer um de nós. Está muito aflito.

O policial negou da forma mais gentil que pôde, iniciando ali mesmo um interrogatório, sob a promessa de brevidade. “Você sabe de algum problema que tenha acontecido entre Carlos e Valéria?”, “Você sabe se eles estavam bem ultimamente?”, “Você notou algum comportamento estranho entre os dois?”. A aflição de Fernanda era palpável, me contaminando de forma automática. A voz do policial parecia distante. Respondi com monossílabas durante uma eternidade, até que ele me liberou. Diante da aprovação de Fernanda, continuei meu caminho.

Carlos estava sentado no leito com as pernas esticadas e os olhos vidrados. Suas bochechas exibiam linhas secas de lágrimas.

– Eu toquei uma música, Cléber – ele começou a falar no momento que me aproximei. Sentei-me em um assento ao seu lado, escutando. – Estávamos brigando por uma coisa qualquer. Não me lembro. Acho que era sobre o meu projeto final. É, era isso. Ela queria que eu desistisse do Amistad. – Conforme ele falava, movia os olhos de um lado para o outro, sem rumo. Parecia tentar continuar falando, mas o nervosismo não o permitia. Toquei seu ombro, comovido, e ele olhou para mim. Seu semblante desfalecido era horrível.

– Desci as escadas com raiva e comecei a tocar a primeira música que me veio à mente. – Ele falou, então ficou em silêncio. Parecia reviver os momentos passados há pouco. – Tanto ódio. Os olhos dela, Cléber. Tanto ódio. Ela me pegou e… e… – então começou a gaguejar, ao que o acudi, pondo meu braço por sobre seus ombros, deixando-o chorar. Quando ele já não soluçava, tentei consolá-lo da melhor forma que pude.

– Eu e Érica brigamos às vezes também. Essas coisas se resolvem.

– Ela tentou me matar.

Não consegui inventar mais nada para falar, e também não tentei. Ficamos em silêncio na enfermaria por muitos minutos, até ele finalmente ter forças para iniciar o processo eterno de conversação com a polícia.

Conversando com os pais de Carlos mais tarde naquela noite, entendi o que havia acontecido. Ele e Valéria brigavam por algo de pouca importância até ele começar a tocar uma música no porão, o que a deixou revoltada. Valéria desceu as escadas da casa com um vaso em mãos, pronta para quebrá-lo sobre a cabeça do namorado. Os vizinhos ouviram gritarias e sons de coisas quebrando, então chamaram a polícia. Preocupado, um dos vizinhos entrou na casa pela porta aberta e encontrou Valéria com as mãos sobre o pescoço de Carlos, que já perdia a cor do rosto, tentando encontrar ar em vão. As unhas dela haviam deixado marcas profundas em seu pescoço.

Aquele não era o comportamento da Valéria que eu e o resto do mundo conhecíamos. Algo dentro de mim gritava, tentando botar para fora a real motivação daquele incidente. Coloquei o pensamento de lado. Músicas não faziam pessoas cometerem tentativas de homicídio.

Aquela foi a última noite que vi Carlos antes da apresentação final na faculdade. Por insistência dele, mesmo indo contra os conselhos dos pais, todas as acusações contra Valéria foram removidas. Ele recolheu seus pertences e foi morar novamente junto com os pais. Eu tentei visita-lo nos dias que se seguiram, porém seus pais me passaram o recado de que ele não queria ver ninguém. Estava ocupado em seu quarto estudando e tocando suas músicas em sons toscos que eu podia ouvir do lado de fora da casa. Os pais dele sabiam tanto quanto eu que tudo aquilo era encenação para ficar sozinho e chorar suas mágoas, mas mesmo assim não me deixaram entrar para acudi-lo.

Com as mãos atadas, decidi que era melhor me dedicar ao máximo para minha apresentação de conclusão de curso ao invés de tentar forçar Carlos a ter uma conversa que ele não queria. Eu sabia que era isso que ele gostaria que eu fizesse de verdade. Por isso, passei as semanas seguintes treinando Beethoven no violão horas a fio, diariamente.
O dia da apresentação chegou. O palco recebia alunos nervosos, diante de uma plateia formada de alunos de graduação tensos, pais e mães ainda mais tensos e outros curiosos ou mesmo o ocasional caçador de talentos. As notas eram anunciadas pela banca apenas alguns minutos após a apresentação de cada aluno, diante de uma breve deliberação. Tudo contribuía para o nervosismo máximo.

Não vi Carlos aquele dia. Perguntando para algumas pessoas sobre o seu paradeiro, soube que alguns o haviam visto entrar na faculdade com a cabeça baixa, passos apressados e semblante nebuloso. Tentei não pensar naquilo enquanto esperava minha vez chegar. Apenas Carlos sabia realmente o que passava dentro de sua cabeça, e se ele achava que havia algum motivo para não me procurar antes da apresentação, não havia nada que eu pudesse fazer. Foi com esta determinação, a forte convicção de que eu nada poderia fazer para ajudar meu amigo, que subi ao palco e fiz a melhor performance da minha vida. Semana após semana de treinamento geraram um excelente fruto quando levantei e ouvi, após um silêncio eterno, a nota nove. Fiz uma leve mesura diante dos aplausos, com um sorriso no rosto estampado pela satisfação e o coração leve sabendo que eu iniciava uma nova fase da minha vida.

Após a minha apresentação, eu estava radiante. Meus pais e Érica, depois de terem me parabenizados com abraços, beijos e apertões, foram comprar lanches. Eu resolvi ficar para não correr o risco de perder a apresentação do meu amigo. Quando Carlos foi chamado e eu o vi subir as escadas, percebi o quão egoísta eu havia sido.

– O próximo aluno será Carlos Pereira da Silva. Sua apresentação será a “Sonata em Noite sem Luar”, música de composição própria, tocada em seu instrumento de criação também própria, o Amistad. – Anunciou o professor.

A plateia esperava a apresentação de Carlos com certa ansiedade, dado o status meio louco e meio gênio que ele construiu com o tempo. Não foi à toa então que muitos levaram as mãos a boca em surpresa ao observarem seu estado era lastimável.

Seus cabelos estavam desgrenhados e meio duros, como se ele não tomasse banho a dias. Seus olhos fundos não olhavam para nada em particular, enquanto ele sentava no pequeno banco posto no centro do palco. Estava mais magro, sua pele tendo adquirido uma palidez jamais vista. Ele se sentou e pôs o Amistad ao colo, sem nada fazer. Seus lábios formavam uma fina linha e seus olhos eram vítreos. Ele parecia segurar o choro. Não sei quanto tempo aquilo durou. Alguns segundos, talvez um minuto. Foi como uma hora para mim. Lutei contra as lágrimas e iniciei os passos determinados à frente. Eu iria subir no palco e tira-lo de lá. Iria dar um jeito naquilo e salvar o meu amigo de seu sofrimento.

Quando eu já percorria metade do percurso, Carlos iniciou sua canção e meus pés interromperam a caminha.

Se você encontrasse qualquer uma das pessoas que estavam presentes durante a apresentação de Carlos e pedisse para que esta pessoa descrevesse como era a Sonata em Noite sem Luar, receberia reações diversas. Alguns sentariam e assumiriam um olhar perdido, sem nada dizer. Outros o expulsariam sob uma chuva impropérios. Outros, porém, falariam que era uma música triste, então tentariam fugir de você o quanto antes. Isto seria verdade, é claro, mas uma verdade simplificada ao máximo. A música que Carlos tocou era a música mais triste que um ser humano pudesse conceber; a concepção da tristeza em si. Não há como conceber a tristeza perfeita, mas se eu tentasse, descrevê-la-ia como a Sonata em Noite sem Luar.
Carlos iniciou a sonata emitindo notas jamais antes ouvidas, saindo daquele instrumento estranho, mas que lembravam vagamente o primeiro movimento da famosa sonata de Beethoven. A semelhança acabou em pouco tempo, quando a música começou a criar vida própria, tomando a mente de todas as pessoas que a ouviam. Senti-me em um beco estreito durante uma noite sem luar, perdido na vida para sempre. Lembrei-me de todas as tristezas que já passei e, impossivelmente, de todas que ainda passaria. Refleti, enquanto executava minha caminhada eterna no beco vazio, que eu era pó, e que minha vida era um piscar de olhos de uma realidade colossalmente maior do que eu. As lágrimas que eu antes lutava para conter transbordaram livres pelo meu rosto. Chorei até soluçar, sem saber por que e ao mesmo tempo sabendo exatamente o que me afligia, a música de Carlos servindo como pano de fundo e ator principal. Cada nota uma imagem; cada som, um lamento.

Então acabou.

Entre uma nota e outra, entre um passo e outro no beco infinito, Carlos simplesmente parou de tocar, sem terminar. O eco de sua última nota ainda reverberava na mente de todos enquanto meus sentidos voltavam aos poucos. Percebi que todos na plateia choravam, cada qual tendo realizado sua caminhada, cada qual sem entender onde iriam chegar, sem entender por que Carlos havia parado.

Eu me sentia mais velho. Mais fraco. Mais triste.

Após novo silêncio, desta vez preenchido por soluços e lágrimas, Carlos se levantou e fez uma mesura. A plateia toda se pôs de pé e aplaudiu, mas eram palmas tristes e sem entusiasmo. Carlos esperou até o anúncio de sua nota: dez. Então se retirou pela escada traseira, mediante novos aplausos.

Corri atrás dele como pude. Minha vontade era de acudi-lo, mas eu não sabia quem precisava de maior ajuda: eu ou ele. Corri tentando parecer determinado, mas minha mente estava sombria, cheia de dúvidas e pessimismo. Alcancei os fundos do palco apenas para não encontra-lo lá. Ninguém parecia procura-lo. Vi seus pais chorando copiosamente em um canto e, quando perguntei sobre Carlos, eles simplesmente apontaram um corredor. Segui-o sem pensar onde ele me levaria. Atravessei esquinas e portas furta-fogo, subindo lances de escadas, até finalmente lembrar que estávamos no sexto andar do prédio e que o próximo lance de escadas me levaria para o terraço.

Abri a porta com um empurrão e vi Carlos em pé na beirada do prédio, ao longe, olhando para baixo com Amistad em mãos. O vento soprava forte e frio.

– Carlos! – Gritei, ao que ele olhou para trás. Seu olhar era mais vazio do que a própria ideia do vazio.

Em uma fração de segundo, pensei em milhões de coisas para falar que pudessem dissuadi-lo de cometer aquele ato insano. Então, de todas as coisas que eu poderia falar, meu cérebro, inconscientemente, expressou a única coisa que eu não entendia.

– Qual é o final, Carlos? Qual é o final da música?

No segundo seguinte, enquanto eu me perguntava por que eu havia falado aquilo, Carlos desviou seu olhar para baixo, sem nada dizer, então deixou que seu corpo caísse.

 

 

Eu fiquei lá, na soleira da porta que levava ao terraço, por horas. Ouvi a gritaria, a polícia, a confusão. Talvez eu ficasse ali a noite toda, não fossem os meus pais finalmente me encontrando e me levando para fora, apoiando-me em seus ombros. Eu desferia passos mecanicamente, tomado de pensamentos sombrios demais para expor em palavras. Meus pais não estiveram presentes naquela apresentação, nem Érica. Não havia ninguém ali que me entenderia. Eu estava completamente sozinho.

Os dias que vieram após aquilo passaram com poucas memórias; foram praticamente inexistentes. Minha mente estava dormente, cheia de pensamentos de tristeza e suicídio. Lembro de calcular formas de me matar que não chamariam atenção, sem saber o motivo; sem precisar de motivo. A única coisa de que tenho certeza hoje é que não fosse Érica eu estaria morto. Ela agiu como um anjo de luz, consolando-me e me guiando constantemente para fora daquele beco solitário e sem fim no qual a música de Carlos havia me colocado, sem nem mesmo entender o que se passava. Dias se passaram até que eu finalmente aceitasse a sugestão que ela fazia diariamente: “Carlos está vivo, Cléber. Vá visita-lo no hospital. Ele está te chamando constantemente”.

Eu não queria ver Carlos, mas também não queria ver ninguém. Só queria a Érica. Eu sabia que tinha de visita-lo, mas não o desejava. Precisei de muita força para me levantar e sair do meu quarto, rumo ao leito hospitalar onde jazia meu amigo quebrantado.

Só quando saí de casa que percebi que eu não via a luz do sol a dias. Ser tocado por ela não desanuviou minha mente mas trouxe algo de volta; algo que eu não sabia explicar. As vozes ao meu redor faziam sentido novamente. Percebi que os sons longínquos que eu ouvia durante minha solidão eram conversas de terceiros.

– Você soube? Já foi reportado o décimo segundo caso de suicídio. Todos de pessoas que estiveram presentes na apresentação – Meu pai falou, enquanto dirigia para o hospital. Eu assistia a paisagem passando rápido pela janela com olhar perdido, sentindo o carinho de Érica sobre meus cabelos.

– Que horror! – Minha mãe respondeu. Eu fiz eco à sua resposta mentalmente. Era um horror, de fato. Eu sabia que todos os presentes naquele momento estavam dentro daquele beco, com os mesmos pensamentos que eu tinha, mas muitos não tinham uma Érica ao seu lado para impedi-los de prosseguir com seus planos sombrios. Em um canto da minha mente, pequeno e esquecido demais para ter poder sobre mim, eu sabia que aquilo era o efeito da música de Carlos. Eu já tinha presenciado seu poder, e sabia o que ela fazia com as pessoas. Agora eu tinha certeza. Permaneci em silêncio, porém, até que finalmente chegamos ao hospital.

No estado mental em que eu me encontrava, eu esperava qualquer tipo de recepção menos aquele sorriso que ele abriu – ou tentou abrir – ao me ver.  Carlos estava em péssimas condições, é claro. Tinha o corpo enfaixado quase em sua totalidade. Amistad jazia deitado em uma cadeira, parcialmente destruído pela queda. Mesmo naquele estado ele conseguiu sorrir para mim, o que pareceu derrubar uma enorme muralha que eu esperava existir agora entre nós.

Sentei ao seu lado sem saber o que falar. Não percebi que todos ao redor se retiraram silenciosamente, deixando-me sozinho com o inesperado amigo que eu havia conhecido a não mais de um ano. Carlos apresentava dificuldades até mesmo para respirar. Cada levantar e baixar de pulmões parecia uma vitória. Permaneci ali, observando o corpo quebrado do músico mais brilhante que tive a oportunidade de conhecer, em silêncio, acompanhado apenas pelos sons das máquinas que o mantinham vivo. Quando minha mente começou a me atormentar novamente com pensamentos negros, senti sua mão deitar-se sobre a minha. Levantei meu olhar e percebi que ele olhava para mim.

– Cléber… – ele falava em longas pausas. – … você está péssimo… Te falei… para …não beber…a sagatiba… inteira…

Soltei uma risada espontânea, que morreu em um segundo. Ainda assim, foi a primeira risada que soltei em dias. Percebi que começava a esquecer como era o som de uma risada minha; como era estar feliz. Carlos percebeu e estremeceu um pouco, o que entendi como uma leve risada de sua parte também.

– A pergunta… que você me fez…-  ele tentou continuar, mas eu o silenciei. Não queria que ele lembrasse daquilo.

– Eu deveria ter te salvado naquela hora, Carlos. Não sei o que aconteceu. Eu sou um idiota.

Carlos balançava a cabeça em negação. Ele parecia estar ansioso para falar algo, e irritado pelo fato de que seu corpo não conseguia acompanhar seus pensamentos.

– Não… ouça. Sua mente… está confusa. A música… o final… eu não quis… tocar… por que… enquanto tocava… entendi. Eu não queria… ser feliz…- e, com grande esforço, ele moveu sua mão na direção de Amistad. Tentei impedir que se movesse muito. Quando ele percebeu que era inútil tentar fazer qualquer tipo de esforço, continuou. – Você… deve … consertá-lo, Cléber. Você deve…. terminar… a canção.

Franzi o cenho. Terminar aquela canção maldita, que ainda ecoava dentro do meu coração; da minha própria alma? Será que Carlos queria me torturar? Estes eram meus pensamentos, mas algo além deles, algo não racional, queria desesperadamente saber o final. Era a mesma parte inconsciente que me forçou a fazer aquela pergunta no terraço da faculdade, ao invés de correr e tentar salvá-lo. Eu precisava daquele final, eu sabia que precisava, mas não sabia por que. Por isso, assenti quase que por reflexo diante do pedido do meu amigo, e ele assentiu em resposta, da melhor maneira que pôde.

Carlos me explicou brevemente onde estava o plano de construção de Amistad e então me entregou a partitura da Sonata em Noite sem Luar. Tentei lê-la de pronto, para entendê-la antes de tocá-la, como fazia com muitas músicas, mas nada fez sentido para mim. Assim como todas as suas composições, aquela partitura que Carlos me dera parecia uma coleção aleatória de notas.

Quando levantei determinado a cumprir aquela tarefa, ele segurou fracamente minha mão.

– Leve… Érica… com você. Não saia… de perto… dela….

Ele olhava dentro dos meus olhos, direto no meu cerne. Concordei novamente e saí do quarto hospitalar com os pedaços quebrados de Amistad comigo, puxando Érica no caminho. Ela estava confusa, mas sabia que algo de importante estava em jogo.

– Venha comigo. Eu vou fazer algo importante nos próximos dias, e eu preciso que você não me deixe desistir.

Foi o que ela fez. Érica sentou ao meu lado quando comecei a consertar Amistad, seguindo os planos que Carlos havia me dado, e não saiu de lá até que eu terminasse. Ela dormia comigo, me amparava quando eu resolvia desistir, segurava minha mão e a guiava para o caminho correto. Ela me puxava pela gola, fazendo-me andar pelo beco escuro sem fim, prometendo, vez após vez, que um dia encontraríamos seu final. Certa vez, quando eu insisti que não tentaria mais fazer o instrumento, ela continuou meu trabalho com as próprias mãos. Só após muitas horas percebi a besteira que eu fiz e tomei as ferramentas dela, continuando o trabalho.

Amistad ficou pronto em duas semanas. Eu não tinha como ter certeza de que ele estava realmente pronto, visto que suas cordas e entonações não faziam sentido nenhum para mim, então tive que contar com o instinto. Peguei a partitura que Carlos havia me dado e comecei a tocá-la a partir do segundo movimento, que era a continuação do que ele havia tocado na apresentação, agora parecendo ter acontecido há anos atrás. Eu esperava ouvir uma confusão de sons desconexos.

Ao invés disto, ouvi o céu.

Ouvi o mar e as estrelas. Ouvi os pássaros, as nuvens, o sol. Senti a brisa tocando minha pele, senti a alegria do privilégio de simplesmente estar vivo. Meus dedos começaram a encontrar seus caminhos nas cordas. No início era apenas uma música sobre felicidade e harmonia, mas conforme fui aprendendo a ler aquelas notas e saber como elas se encaixavam, comecei a me ver saindo do beco solitário no qual a música de Carlos havia me colocado. Errei diversas vezes, tendo que recomeçar do ponto inicial. Cada tentativa era uma nova descoberta, e cada nova descoberta me tirava mais e mais da escuridão.

Érica me falou, tempos depois, que fiquei lá tocando a mesma música sem tirar os olhos da partitura, por horas a fio. Ela ficou ao meu lado, assombrada.

– Era uma música maravilhosa – ela falou – algo que eu nunca havia ouvido antes.

Quando finalmente terminei de tocar, me vi de volta ao meu quarto. As cores estavam mais vivas, os sons mais claros e a luz mais brilhante. Quando me virei, vi que Érica chorava em um canto do quarto. Eram lágrimas de felicidade.

 

Saí do meu quarto de mente e alma renovadas. Fazendo uma breve pesquisa, descobri que quarenta das pessoas que estiveram presentes na apresentação já haviam tentado algum tipo de suicídio, dentre estas vinte e cinco bem-sucedidas. A polícia não sabia o que fazer. Também descobri que Carlos estava em coma. Cabia a mim terminar o trabalho que eu acreditava que ele gostaria que eu fizesse em seguida.

Da melhor forma que pude, reuni, ao longo de alguns dias, todas as pessoas que estiveram presentes na primeira e única apresentação da Sonata em Noite sem Luar. Todas apresentavam graus variados de depressão. Érica, sua família e meus pais me ajudaram, especialmente com aqueles que estavam acamados em hospitais. No final, conseguimos reunir trinta e duas pessoas no hospital onde Carlos estava internado, sem contar seus pais, que se encontravam na mesma situação mental de todos. Eles estavam lá no hospital desde o princípio, e graças talvez à vontade de estarem junto com o filho acamado, não tinham tentando nenhum tipo de suicídio. Não ficaria melhor do que aquilo.

Puxei o banco mais alto que pude encontrar e, com a porta do quarto de Carlos aberta, toquei o segundo movimento da canção. Errei diversas vezes novamente, até me lembrar como era sua real forma, mas mesmo nos erros era possível ver a cor retornando aos rostos de todos os presentes. A música por fim fluiu dos meus dedos, livre para tomar a forma que fosse na mente de cada um que a escutava. Médicos, pacientes, parentes e enfermeiras; todos que ouviram o som pararam para apreciá-lo. Os alunos e outros curiosos que conseguimos reunir a escutaram ainda mais maravilhados, visto que, como eu, finalmente se viam longe das correntes negras que antes os aprisionavam. Sorri ao ouvir risadas e exclamações de espanto, ao passo que continuava a tocar continuamente a música, até o seu fim verdadeiro: emocionante, impressionante e, principalmente, feliz. Era a epopeia da vida; o ciclo que todo ser humano tinha que cumprir vez após vez.

Todos estavam curados.

As máquinas que monitoravam os sinais vitais de Carlos indicavam a ausência dos mesmos. Um enfermeiro citou que ele falecera ao fim da canção. Ninguém pôde deixar de notar o meio sorriso em seu rosto, estampado para sempre enquanto ele partia deste mundo. Meu coração é até hoje mais leve em saber que ele se fora com bons pensamentos para confortá-lo.

Eu e Érica decidimos, após muito deliberar, esconder Amistad e todas as partituras escritas por Carlos. Não encontramos resistência da parte dos pais dele quando anunciamos nossa decisão. O mundo não estava pronto para entender o que Carlos sabia fazer e, hoje, quarenta anos depois, ainda não está. Há de existir uma época onde nosso entendimento nos permitirá ouvir suas canções sem sermos arrebatados de forma tão fulminante por elas. Quando ela vier então, suas partituras poderão ser reveladas; por quem e por qual meio, eu não vou falar aqui. Também não escreverei mais sobre isto. Esta é a primeira e única memória que escrevo sobre Carlos e suas músicas, por respeito e pela certeza de que algum dia elas serão novamente apreciadas.

Às vezes, quando me sinto triste, pego meu violão e toco algumas das notas que resistiram ao esquecimento. Meus filhos sempre contorcem o rosto quando o faço, sem entender como eu poderia tocar uma música tão ruim. Érica, porém, sempre que a ouve, solta um leve e espontâneo sorriso.

8 comentários em “Sonata em noite sem luar (Marco Piscies)

  1. Andre Luiz
    8 de novembro de 2014

    Piscies, fez-me viajar pela imaginação ao ler este conto, e retirar minha mente um pouco deste desafio de filmes que o blog se encontra. Enfim, apreciei o conto do início ao fim, ansiando em saber o desfecho da trama toda, que por sinal é tão bem amarrada que não deixa nenhuma ponta solta. Parabéns pela belíssima obra!

    • piscies
      19 de novembro de 2014

      Muito obrigado! Que bom que gostou =)

  2. marcopiscies
    7 de outubro de 2014

    aparentemente a passagem do original para o blog fez com que algumas palavras se juntassem misteriosamente… isso pode causar certa confusão na leitura. =(

    • Anorkinda Neide
      7 de outubro de 2014

      Eu sempre tenho problemas assim, também. Quando envias o original no e-mail, a dica é enviar em word (no caso de usares o word…) configurado em JUSTIFICADO, para que o teu espaçamento seja respeitado aqui pelo wordpress. E nunca jamais enviar o conto no corpo do e-mail, experiências traumatizantes me levam a dar este conselho! hehehe

      • pisciez
        10 de outubro de 2014

        Hahaha! Obrigado pelas dicas!

        Eu sempre envio em Word, mas a dica do justificado eu não sabia. Vou passar a fazer isso. Obrigado!!

  3. Anorkinda Neide
    7 de outubro de 2014

    Pisces, que coisa linda isso aqui! Parabens e aplausos!
    Obrigada por me prender nesta leitura hj… 🙂

    Pq não participastes do desafio de música com ele?
    Há algumas palavras que eu estranhei, como ‘desferi alguns passos’.. acho q este verbo não está bem colocado.. e mais umas duas palavras assim, que achei q o significado não condiz… mas as perdi.. por isso nao vou cita-las agora..hehehe

    O texto todo é magnifico demais! Parabens pela inspiração!

    • pisciez
      7 de outubro de 2014

      Obrigado!

      Eu tentei revisar o máximo que pude mas alguns erros sempre escapolem, rs rs rs.

      Não pude participar com este conto por que ele ficou com mais que o dobro do limite máximo de palavras permitido. Comecei a escrevê-lo com o intuito de participar do conto mesmo, mas enquanto escrevia percebi que não dava para terminá-lo com menos de 4 mil palavras. Acabou que deu 9700. Hahahahah!

      Obrigado novamente pela leitura e apreciação =)

      • Anorkinda Neide
        7 de outubro de 2014

        ahh é mesmo… o famigerado limite de palavras! hehehe

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Publicado às 6 de outubro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .