EntreContos

Detox Literário.

Requiem para a Inocência (Thiago Mendonça)

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Os dedos de Gwendoline deslizavam pelas cordas do alaúde com precisão matemática. A garota conduzia o instrumento com naturalidade, como quem escova os próprios cabelos. Tocava o instrumento de olhos fechados, sentindo cada nota acariciar seu rosto, e até mesmo o vento parecia se acalmar com a melodia suave e afinada que reverberava através das colunas de pedra do salão.

À sua frente, uma mulher assistia impassível enquanto Gwendoline se concentrava em seus acordes. A espectadora encarava a aluna com olhos graves e frios e um olhar de desaprovação. Quando se deu por satisfeita, agarrou o braço do alaúde, interrompendo a atuação da garota.

Surpresa, Gwen fitou sua professora, que balançava a cabeça negativamente.

— Eu errei alguma nota, senhora Elena? — perguntou a menina, confusa.

— Você se deixa levar pela melodia, Gwendoline. Está se desconcentrando. — a mulher tocou a mão da garota que segurava o instrumento. — Lembre-se, a música vem dos seus dedos. Se você improvisar, vai acabar errando.

— Sim, senhora Elena. — disse a garota, suspirando.

— Muito bem. O rei chegará em breve à cidade, e eu prometi a seu pai que você faria a melhor apresentação de alaúde que a cidade já viu. Além do mais, se o espetáculo for de agrado do rei, ele pode oferecer sua mão para algum jovem nobre da capital. Você seria o maior orgulho da família. — a professora deu as costas à menina. — Agora guarde o instrumento e vá descansar. Amanhã recomeçaremos.

— …maior orgulho da família… — sussurrou Gwen, cabisbaixa.

— Disse algo, Gwendoline? — a mulher deteve-se, esperando por uma resposta da garota, sem virar para encará-la.

— Não, senhora Elena. Tenha uma boa noite. — disse a jovem, assistindo a professora deixar o salão.

A garota se levantou, guardou o alaúde no baú de madeira e deixou o recinto, as palavras da professora ainda girando em sua mente. A cada dia que se passava, agradar a mulher tornava-se uma tarefa árdua.

Estava prestes a fechar o portão atrás de si, mas, como um vento que repentinamente troca de direção, Gwen mudou de ideia e entrou novamente no salão de instrumentos. Sem saber exatamente o motivo, retirou o alaúde da caixa e se sentou.

Correu os dedos através do braço do instrumento, sentindo as minúsculas imperfeições da madeira. Conhecia cada uma daquelas ranhuras como se fossem partes do seu corpo. Acomodou-se no assento e encaixou o corpo redondo do alaúde em seu colo.

Gwen posicionou os dedos nas cordas e fechou os olhos.

Enquanto tocava, o tempo e o mundo ao seu redor tornavam-se insignificantes. Experimentou novos acordes, deixando-se levar pela própria melodia, e sentia a música sossegar seus ouvidos e a vibração das cordas guiar o seu corpo.

Quando abriu os olhos, viu o garoto parado ali na porta, e quase caiu da cadeira.

O menino, ao perceber que fora avistado, derrubou as inúmeras flautas que carregava, criando um estrondo. Ele aparentava uma idade similar à de Gwen — não mais que quatorze primaveras — e suas roupas despojadas e cabelos malcuidados denunciavam sua posição social.

— D… disculpa, madame! — disse o garoto, sem saber se se curvava ou recolhia os objetos que derrubara.

Gwen sentia-se tão assustada quanto o rapaz. Nunca dirigira a palavra a um plebeu, a não ser às suas aias, que a serviam desde que nascera. De início, assustou-se com a súbita aparição do garoto, mas ao vê-lo ali atrapalhado e sem reação, constatou que ele não lhe apresentaria nenhuma ameaça.

— Está tudo bem. — disse, abrindo um tímido sorriso. — E eu não sou uma madame.

— Mil perdões, mad… sinhorita. — o garoto tentava recuperar os objetos espalhados pelo chão, mas a cada instrumento que recolhia, derrubava mais dois. — eu passei aqui só p… pra guardar essas… essas flautas.

— Tudo bem, eu já estava de saída. — disse a garota, levantando-se e ajustando o longo vestido.

Gwen viu a face do menino corar.

— Você está bem? — perguntou-lhe.

— Si… sim, sinhorita. — respondeu o rapaz, escondendo o rosto por trás das flautas.

Enquanto Gwen armazenava seu instrumento de corda, o menino depositava as flautas num baú. Com o canto do olho, percebia as espiadas que ele dava em sua direção. O rapaz a fitava como se quisesse dizer algo, mas sempre acabava recuando.

— Por que fica me encarando? — perguntou, arqueando as sobrancelhas numa expressão de raiva. — Há algo de errado comigo?

— Não, madam… sinhorita. — o garoto plebeu se curvou, envergonhado. — é que…

— Pode falar, não se acanhe. — disse Gwen, e um formigamento esquisito atingiu seu estômago.

— Não seria certo…

— Fale, ou vou embora.

Uma gota de suor escorreu pela testa do menino.

— O alaúde… ele é muito bonito.

— Então era só isso? — perguntou, sentindo o formigamento sumir.

— O corpo dele é feito de cidânia dourada. Uma das melhores madeiras do reino. — respondeu o rapaz.

— Como sabe de tanta coisa?

— Meu pai é o luthier da cidade. Foi ele que esculpiu esse alaúde.

Os olhos de Gwen brilharam.

— E você… — continuou o garoto, encabulando-se mais uma vez. — … toca muito bem. De verdade.

Dessa vez foi Gwen quem corou.

— Eu… eu treino todos os dias. O rei vai chegar à cidade em breve e meu pai quer que eu toque no banquete real.

— Deve ser um sonho se tornando realidade. — disse o garoto, sorrindo.

— É… um sonho… — respondeu, sem ânimo.

Os dois se olharam por um instante, e o silêncio tomou conta do salão.

— Como você se chama? — disse Gwen, quebrando o gelo. — Meu nome é Gwendoline, mas pode me chamar de Gwen.

— Prazer, sinhorita Gwen, meu nome é Dylan.

— Você falou que eu toco bem, mas você sabe tocar também? Deve ter aprendido bastante com seu pai.

— Ele nunca tem tempo para me ensinar, mas treino sozinho no ateliê. — respondeu.

A garota estendeu o alaúde na direção do garoto.

— Poderia tocar para mim? Me deixou curiosa.

O garoto deu um passo para trás, arregalando os olhos.

— Não posso… e se eu quebrar?

— Então seu pai conserta, oras! — disse, sorrindo.

O rapaz hesitou por um momento, mas cedeu ao pedido da menina. Tomou o alaúde nas mãos, se sentou na cadeira e ficou imóvel, olhando para o instrumento.

— O que está esperando? — perguntou a garota, impaciente.

— Não sei se posso…

— Claro que pode. Quero ouvi-lo tocar.

— Mas eu não sou bom, e…

— Toque. Logo.

O rapaz engoliu em seco e tocou sua primeira nota.

A primeira reação de Gwen foi de pena. O garoto não possuía técnica alguma. Sua postura desleixada impedia que ele segurasse de maneira adequada o alaúde, que emanava um som arranhado. Cada arranjo exótico que criava incomodava seus ouvidos.

A música, entretanto, foi conquistando o coração da nobre garota.

Quanto mais Gwen a escutava, mais a melodia fazia sentido. Os tons que antes pareciam desafinados e grosseiros se complementavam com o som imperfeito que o rapaz produzia. Apesar de possuir a técnica de um iniciante, conduzia o instrumento de corpo e alma, e seu ritmo descompassado e destoante coloriam a música.

Várias emoções a atingiram de uma só vez. Sentiu-se triste e alegre ao mesmo tempo, e memórias vieram à tona. Lembrou-se da primeira vez que provara pudim de amêndoas, sua sobremesa favorita, e da vez em que reencontrara seu pai quando ele voltou de uma expedição à capital. Gwen jamais ouvira algo tão excêntrico e belo ao mesmo tempo.

Quando ele terminou de tocar, lágrimas corriam pelos olhos da garota.

— Como… como você fez isso? Foi lindo. — disse,  batendo palmas e deixando escapar uma risada.

— Eu não sei. Vem de dentro de mim. — respondeu, encabulado.

— Minha professora me diz que a música vem dos dedos, mas eu discordo. — Gwen encostou o dedo indicador na testa. — A música vem da mente. Entendê-la é mais importante do que decorar escalas e acordes.

O rapaz balançou a cabeça em negação, confundindo a garota.

— Errado e errado. Meu pai me ensinou que a música, assim como todas as coisas que fazem a vida valer a pena, vêm do coração.

Gwen levou a mão ao peito, e sentiu seus batimentos acelerados. Os dois se entreolharam num diálogo sem palavras, e tudo que a garota ouvia era o seu coração.

— Gwendoline? — uma voz masculina percorreu o corredor e adentrou o salão. — Cadê você?

Um calafrio subiu pela espinha de Gwen. Se seu pai a flagrasse conversando com um plebeu desconhecido, os dois teriam problemas. O menino, entretanto, agiu com prontidão e, antes que ela pudesse esboçar alguma reação, ele guardou o alaúde e correu em direção à janela.

— Não pule, você vai se machucar. — sussurrou a garota.

— Não se preocupe comigo. — respondeu o rapaz, atravessando uma perna para fora da janela. — Eu sei me virar. Adeus, sinhorita Gwen!

— Calma! Quando é que eu vou…

O garoto havia sumido.

— Ah, aí está você! — o dono da voz masculina adentrou o cômodo.

— Desculpa, papai, eu estava guardando os instrumentos. — disse a garota, fazendo de conta que fechava o baú.

— Eu estava preocupado. Vá se trocar, a ceia está quase pronta. — o homem afagou os longos cabelos dourados da filha.

Gwen foi embora com o pai, mas não sem antes olhar para trás, na esperança de encontrar um rosto na janela.

Desde então, as aulas deixaram de fazer sentido para Gwendoline. A cada dia que passava, concentrava-se menos nas lições. As melodias que antes lhe pareciam impecáveis e belas tornaram-se cinzas e sem vida. Após cada classe, Gwen permanecia no salão tocando seu alaúde, tentando imitar aquela melodia estranha e magnífica que o garoto havia criado, mas suas composições soavam apenas desinteressantes. Sempre que terminava de tocar, abria os olhos na esperança de encontrá-lo parado na sua frente, sorrindo aquele sorriso inocente.

O garoto, porém, nunca mais aparecera.

Gwen perdera as esperanças de encontrá-lo. Precisava vê-lo outra vez e entender o significado de tocar com o coração, mas desde que Dylan desaparecera, suas fartas e variadas refeições perderam o gosto e suas amigas lhe pareciam fúteis. Tocar com o coração parecia ser uma ideia tão intangível quanto o próprio som que saía de seu instrumento.

Uma noite, entretanto, o mar resplandeceu, refletindo a lua colossal que reaparecia no céu estrelado, e, da mesma forma que a lua crescente se transforma na lua cheia, a sorte de Gwendoline se transformou.

A jovem participava de sua aula habitual de música. A professora Elena mantinha sua expressão enfadonha usual no rosto. Gwen, porém, já deixara de se importar com aquilo, desde que a música se tornara uma obrigação.

A menina de cabelos dourados, portanto, não demonstrou emoção alguma quando a professora lhe deu mais um sermão.

— Trate de manter-se concentrada até amanhã, garota. — Elena lhe disse, apontando o dedo indicador em sua direção. — Você não tem errado uma nota sequer esses dias, mas isso não significa que pode relaxar. Amanhã é o grande dia, e você não pode estar menos que perfeita.

— Sim, senhora Elena.

— Agora recolha-se aos seus aposentos, não vá se deitar tarde.

— Sim, senhora Elena.

A garota esperou a mulher deixar o salão e iniciou seu ritual. Levantou-se da cadeira, ajustou seu vestido, abriu o baú de madeira e depositou o alaúde dentro. O instrumento tornara-se mais uma vez um estranho para Gwen.

Trancou o baú e espiou pela janela. A majestosa esfera branca no céu noturno a observava como uma mãe que vigia seus filhos para que nada de mal lhes aconteça. Assim que aquela mesma lua aparecesse no dia seguinte, Gwen estaria no saguão do castelo, longe do seu alcance, mas ainda assim à vista de dezenas de pares de olhos.

Com um longo suspiro, olhou para baixo, apenas para dar de encontro com um vulto, preso na janela pelos braços.

— Por favor, não grite, sou…

A garota esperneou, desabando para trás, e o menino teve de se equilibrar no parapeito para não cair muro abaixo.

— Sinhorita Gwen, sou eu! — o garoto disse, olhando para os lados, com medo de que alguém houvesse escutado o grito da garota.

Ele terminou de pular a janela e ajudou a menina, atônita, a se levantar.

— Mas… como… você? — ela falou, tentando juntar as palavras numa frase.

— Eu já te disse que sei me virar. Uma das vantagens de crescer na Cidade Baixa é ter que aprender a correr, pular cercas e se esconder de ladrões.

— E onde está a vantagem nisso?

Os dois riram. Gwen não podia conter a surpresa e alegria de encontrar o garoto depois de tanto tempo. Haviam se encontrado apenas uma vez, mas parecia que se conheciam há várias primaveras.

— Escuta, sinhorita Gwen, tenho uma coisa pra te dizer. — ele tomou uma expressão séria em seu rosto.

— Primeiro você tem que tocar para mim outra vez, estou morrendo de vontade de tocá… digo, ouvi-lo tocar. — ela disse, atropelando as palavras. — E depois você tem que me ensinar como tocar com o coração.

— Calma! — o garoto precisou segurar os ombros da menina para que lhe prestasse atenção, mas logo depois a soltou, recuando. — A sinhorita tem que me ouvir.

— Tudo bem, mas só se prometer tocar pra mim depois.

— Não posso. Meu pai acha que estou dormindo. Se ele descobre que fugi, é meu fim.

O sorriso desapareceu do rosto da jovem.

— O que poderia ser tão importante para que você corresse um risco tão grande para me ver?

O rapaz hesitou antes de falar, e Gwen achou que ele fosse chorar.

— Dois dias depois daquela noite quando te encontrei, a guarda da cidade começou a recrutar jovens saudáveis. Há uma lua eu venho treinando com soldados experientes pra entrar no exército real e lutar na batalha contra os rebeldes.

Gwen não esperava ouvir aquilo.

— Não se preocupe, eu vou falar com meu tio, ele é um oficial do exército, e posso pedir para que te dispense.

— Você não tá entendendo, sinhorita Gwen. Vai haver uma guerra, o comandante nunca vai permitir que um homem saudável deixe de lutar.

— Eu vou dar um jeito, você vai ver! — ela disse, balançando a cabeça de um lado a outro. — Vou exigir ao meu pai que você trabalhe aqui consertando os instrumentos.

— Sinhorita Gw…

— Além do mais, eles não podem enviar gente tão jovem e inexperiente pra guerra, co…

— Sinho…

— Eu vou esperar você voltar, vou treinar todos os dias, você vai ver!

— Sinh…

Ela caiu em prantos nos braços do menino, que segurou-a desajeitado. O perfume dela embriagava seus sentidos e o calor de seu rosto em seu peito o aquecia. Segundos tornaram-se minutos e minutos tornaram-se horas enquanto ele a segurava.

— Desculpa. — ela disse, limpando as lágrimas do rosto com as costas da mão. — Eu não… não sei o que deu em mim.

— Chorar é bom, pois o choro também vem do coração. — ele pôs a mão no peito.

— Do coração? — ela perguntou, ainda esfregando os olhos.

— Sim. O choro é a tristeza ou alegria acumulada no coração. Quando começa a transbordar e não dá mais pra guardar, ele despeja tudo nos olhos, e a gente chora.

Ele gesticulou, como se caíssem lágrimas de seus olhos e ele tentasse segurá-las com a mão.

Gwen mordeu a isca e desatou a rir.

Eles olharam-se por um instante com cumplicidade, enquanto as chamas das lamparinas bruxuleavam na parede, iluminando os rostos dos dois. Dylan então fez um sinal que precisava se despedir, mas foi interrompido pela garota, que o surpreendeu com um beijo na bochecha.

O rosto dele nunca parecera tão confuso como agora.

— Mas por que… a sinhorita me beijou? — perguntou.

— Ora, somos amigos. Não é mesmo?

— Somos?

A garota assentiu.

— E se não posso beijar meus amigos, quem posso? — ela disse, o sorriso retornando a seu rosto manchado pelas lágrimas que há pouco escorriam por sua face.

O garoto não soube responder. Apesar de tudo, ainda era uma criança.

— Boa sorte, Dylan, filho de Gunter, o luthier. Você vai voltar em breve para casa, e vai me tocar de novo aquela melodia. Prometa-me isso.

— Eu prometo. — ele respondeu, resoluto.

Os dois se despediram e cada um foi para sua casa. Dylan pulou a janela e desapareceu na escuridão enquanto Gwen sumiu pela porta do luxuoso salão.

No dia seguinte, a cidade festejava a chegada da comitiva real. Os aldeões algomeravam-se pelas praças enquanto bandas de fanfarra tocavam pelas ruas e guardas rondavam o castelo para proteger a caravana que se aproximava.

Gwendoline vestia seu melhor vestido de renda vermelho para a festa. Sentava-se no saguão principal do castelo com sua família, prontos para receber a comitiva real. A mesa de cear ostentava dezenas de tipos diferentes de frutas, carnes e especiarias, além de dúzias de jarras de vinho.

Num canto, o alaúde de Gwen a esperava pacientemente.

— Milorde, a caravana chegou à cidade! — o portão se abrira, revelando um guarda, que anunciou a chegada do rei.

Assim que a comitiva adentrou o castelo, cornetas anunciaram o rei, que atravessou o tapete vermelho em direção ao trono, onde o pai de Gwen se sentava.

As apresentações iniciais seguiram sem surpresas. O pai da garota curvou-se perante o rei, que, como de praxe, devolveu a cortesia. Quando seu pai apresentou a filha ao jovem soberano, ele elogiou sua beleza e beijou sua mão. Após cumprimentar os nobres ali presentes, o rei seguiu para seus aposentos para descansar antes do grande banquete.

Criados e criadas atravessavam o salão com pressa, carregando cumbucas e pratos para os convidados, caldeirões cheios dos mais variados sabores de sopa e enormes travessas que sustentavam porcos inteiros. Bobos da corte dançavam e davam piruetas pelo saguão, divertindo as crianças.

Enquanto isso, Gwen se preparava mentalmente para a apresentação.

A professora Elena, por sua vez, encarava Gwendoline do outro lado do salão, com um olhar de reprovação — o único que ela possuía.

Quase uma hora se passou, e o momento do espetáculo se aproximava. A cada instante, suas amigas e aias paravam para lhe desejar sorte, mas as palavras de incentivo sumiam como poeira no vento.

Quando o rei retornou ao saguão, os convidados sentaram-se à mesa, e o coração de Gwen parou. Ficou sentada com as mãos no colo, fria como uma pedra de gelo, tentando se concentrar diante dos murmúrios, o tilintar de copos e o cheiro inconfundível de pernil assado. A qualquer momento seu pai se levantaria e tocaria o pequeno sino à sua frente.

E foi exatamente o que aconteceu, e o silêncio dominou o saguão.

— Caros convidados, — a voz de seu pai reverberou através do recinto. — é uma imensa honra receber cada um de vocês em nossa humilde cidade e compartilhar convosco nossa comida. Façamos um brinde ao nosso rei, que vem para defender nossa grande nação!

— Longa vida ao rei! — as dezenas de pessoas presentes acompanharam-no, erguendo suas taças e gritando em uníssono.

— Antes de dar início ao banquete, gostaria de fazer um anúncio.

As entranhas de Gwen se reviraram, e seu coração ameaçou sair por sua boca.

— Minha filha e meu maior orgulho, Gwendoline, é uma exímia musicista, e nos fará uma belíssima apresentação de alaúde em homenagem ao nosso querido soberano. — disse, estendendo a mão para a filha.

A garota segurou a mão de seu pai e se levantou ao som de palmas. Andou em linha reta até o seu instrumento, sem olhar para as pessoas que a vigiavam. Sentou-se e agarrou o instrumento pelo braço. Seu corpo frio tremia em espasmos, e Gwen quase o derrubou.

Encostou seus dedos nas cordas do alaúde como fazia diariamente, mas dessa vez o instrumento lhe era um desconhecido. Suas mãos tremiam como nunca, e não sentia as ranhuras na madeira da mesma maneira.

A garota preparou-se para tocar e percebeu que seus dedos apertavam as cordas com força e doíam, antes mesmo que começasse a dedilhar. Respirou fundo e tocou a primeira nota.

Então, para seu alívio e desespero, o inesperado aconteceu.

A porta do recinto se escancarou e meia dúzia de soldados invadiu o saguão, desviando a atenção de todos os presentes.

— Os rebeldes! Eles estão atacando a costa! — um dos soldados gritou.

— Convoquem a guarda! — o pai de Gwen tomou a frente da situação. — Protejam a cidade!

As próximas horas demoraram-se como dias. Gwendoline, juntamente com outras mulheres e crianças, escondeu-se numa sala secreta no castelo, enquanto o exército real e a guarda da cidade batalhavam contra os rebeldes. Apenas duas velas iluminavam a minúscula sala subterrânea, espalhando um odor de fumaça pelo ar. O esporádico som de crianças chorando e gritos de guerra abafados cortavam o silêncio e impediam Gwen de cair no sono.

A garota manteve-se impassível durante toda a noite, pensando em como escapara da apresentação, mas, principalmente, pensando em Dylan. A cada grito que ouvia, imaginava o garoto segurando uma espada grande demais para o seu corpo e cambaleando, investindo contra guerreiros com duas vezes o seu tamanho.

Quando um soldado abriu a porta, adicionando a luz de mais uma vela ao porão, Gwendoline não sabia dizer se o sol já havia nascido. O sentinela anunciou o fim da batalha e retirou as mulheres e crianças do cubículo aos poucos.

— Vencemos a batalha! — disse, comemorando.

Mas Gwendoline não via motivos para comemoração.

Os dias que se passaram foram longos e cinzas. A rotina de Gwen resumia-se a cumprir suas tarefas diárias, ouvir fofocas de suas amigas, e a sentar-se sozinha no salão de instrumentos com seu alaúde, sem nunca dedilhar uma nota sequer.

Não tivera mais notícias de Dylan, e nem seu tio soubera lhe dizer o nome dos que perderam sua vida na batalha. “Algumas dezenas de soldados plebeus, gente sem importância,” dizia. Suas aulas de música também haviam sido suspensas, e Gwen agradecera por não ter que ver a cara de sua professora a cada dia. Tentava achar a inspiração para tocar, mas só encontrava a solidão.

A notícia veio uma lua depois, quando uma noite, sozinha no salão de instrumentos, avistou a figura de um homem à sua frente. Achou seu rosto familiar, mas não sabia dizer exatamente de onde o conhecia.

— Não tenha medo, senhorita. — o homem disse, recuando. Apesar de grande e peludo, Gwen não sentiu-se ameaçada por seu semblante.

— Não tenho medo. O que quer de mim?

— Meu filho… ele… pediu para te entregar isto, caso algo… — o homem gaguejava, coçando os raros fios de cabelo que lhe sobravam. — bem… caso algo acontecesse.

O homem entregou-lhe um pedaço de papel e, com uma reverência, se despediu.

— Ele gostava muito da senhorita, sabia? — disse, quase em prantos, antes de desaparecer.

Gwendoline desdobrou o papel para encontrar uma carta escrita em garranchos, e teve de se esforçar para entender o seu conteúdo.

Sinhorita Gwen,

Eu nunca aprendi a escrever, então paguei uma moeda de cobre a um mercador pra escrever pra mim. Espero que a carta nunca chegue a você pois isso significa que ainda tô vivo.

Nunca achei que eu fosse conhecer a felicidade além de meus instrumentos musicais. A vida aqui na Cidade Baixa é brutal e sofrida, mas a música era meu único refúgio. Bem, até eu te conhecer.

Sei que não posso ser seu amigo como gostaria, pois estamos separados por muros e guardas, e nunca poderia trocar uma palavra com você sem correr o risco de ser preso.

Tudo o que eu queria dizer é que você é a pessoa mais especial que já conheci, e espero que você cresça segura no conforto de seu castelo, e se torne a melhor musicista que o reino já viu.

Dylan, filho de Gunter , o luthier.

Gwendoline leu a carta pelo menos uma dezena de vezes. A cada vez que a lia, queria acreditar que o garoto lhe pregava uma peça, e olhava para a janela na esperança de encontrar o menino sorrindo, inocente.

O rapaz, infelizmente, não estava lá.

A garota de cabelos dourados não derramou uma só lágrima e, calma como a lua que a vigiava do céu, repousou a carta na mesa ao lado e tomou o instrumento em suas mãos.

Seus dedos deslizaram pelas cordas sem precisão, mas com a harmonia de uma dançarina. A garota dedilhava acorde após acorde, e o alaúde chorava, acompanhando seus movimentos. Naquela noite, Gwendoline compôs com o coração a mais bela melodia que o reino algum dia já ouvira.

43 comentários em “Requiem para a Inocência (Thiago Mendonça)

  1. Eduardo Barão
    4 de outubro de 2014

    Meu conto preferido até o momento. Linda história, personagens bem caracterizados, final emocionante. Terminei a leitura completamente arrepiado.

    Só não levará um 10 por conta da frieza presente na narrativa. Não me leve a mal, achei muitíssimo bem escrito. Só penso que não há ousadia no texto e, por conseguinte, o mesmo terminou da mesma forma como começou: linear. Contudo, a história é maravilhosa e me conquistou.

    Parabéns.

  2. Angélica
    4 de outubro de 2014

    O conto ficou bem longo e cansativo, mas a ideia central foi boa, porem ocorreram vários acontecimentos ate se chegar ao desfecho que poderiam ser suprimidos em minha opinião. Gostei da ambientação da historia, da construção dos personagens e da época em que os eventos acontecem. Boa sorte!

  3. Alana Santiago
    4 de outubro de 2014

    Queria gostar muito desse conto, mas apenas simpatizei com ele, achei tão bonito o nome da personagem, ver que foi ambientado em uma época diferente. Até a imagem, boa escolha, me fez iniciar o conto já no clima… Mas acho que ficou faltando um desenvolvimento maior nas personagens, com exceção da Gwen, a meu ver. Apesar de ter fica um pouco longo, não percebi o tamanho, mas nesse caso isso não foi algo muito positivo. Acho que ele ficou com uma narrativa muito “corrida”, seria interessante alguns detalhes a mais, algumas “cenas” terem sido mais bem desenvolvidas para ele ficar muito, muito bom. Mas parabéns pela ideia, e por dar vida a ela. Boa sorte!

  4. Carolina Soares
    4 de outubro de 2014

    Gostei da sua escrito e do conto de modo geral, se é que eu posso fazer uma crítica nesse épico seria melhorar um pouco o final. Boa sorte no desafio!

  5. tamarapadilha
    4 de outubro de 2014

    Gostei muito, me senti mergulhar no texto quando eles tocavam a música, quase pude ouví-los. Era para ser um clichê, mas você soube conduzir muito bem, ficou belo.

  6. Andre Luiz
    4 de outubro de 2014

    Gostei bastante de sua narrativa, com um enredo definido, inusitado e emocionante. Enfim, a desenvoltura de Gwen é sensacional, de forma que o autor faz-nos imergir na trama e, no meu caso, até mesmo principiar a ouvir as músicas que a garota tocava. Além do mais, a questão da música foi muito bem trabalhada, sendo que, o desafio era sobre o tema música, logo, poucos pensaram em fazer sobre a música em si. Parabéns pela obra!

  7. Edivana
    3 de outubro de 2014

    Considero um conto muito bem escrito, bem conduzido, sensível, com personagens marcantes, o final é até previsível, pois uma hora ou outra ela daria com a forma de tocar com o coração, mas a maneira como isso foi narrado, ficou boa.

  8. Fabio D'Oliveira
    3 de outubro de 2014

    Que escrita divina! Gostei muita narrativa, que fluiu naturalmente. A história também ficou boa. O maior pecado, na minha opinião foi o desenvolvimento de Gwen e Dylan. A relação deles parece artificial, não tem motivos maiores para ser o que foi. Além disso, achei estranho ele falar somente o sinhorita errado. Se fosse para simular um linguajar desleixado teria que ter mais palavras. Sem falar que ele ainda fala bonito, com poesia, dando a impressão que o sinhorito foi forçado. Enfim, foi um bom conto, em geral. Parabéns.

  9. felipeholloway2
    3 de outubro de 2014

    A história é bastante convencional, o que não é desculpa para que as ações dos personagens também sejam. A relação entre Gwen e Dylan é construída de forma até gradativa, mas algo soa artificial. Neste sentido, não ajudou muito a incapacidade do narrador de descrever o diálogo sem entupi-lo de marcações discursivas: disse, perguntou, respondeu… Além de extirpar TODA a naturalidade do diálogo, isso irrita tanto quanto alguém que conversa cutucando.
    O arremate com a leitura da carta do rapaz e a produção do réquiem propriamente dito foi bastante digno.

  10. rsollberg
    2 de outubro de 2014

    Um bom conto. Tem um estilo infanto-juvenil épico, com uma história de amor impossível.

    O texto flui bem e os diálogos são bem utilizados.
    Achei muito boa a ambientação.
    Também foi muito feliz na escolha de um instrumento para ajudar a construir a estória, tendo em vista o tema do desafio. (alguma música especifica inspirou essa narrativa ou apenas a música como conceito geral?)

    Parabéns e boa sorte no desafio!

    • Lee
      3 de outubro de 2014

      Olá!!
      Agradeço o comentário. Não me baseei numa música em específico, mas devo dizer que minha inspiração inicial foi a história de Paco de Lucia e Camarón de dla Isla, mestres do flamenco espanhol. A história de cooperação deles é muito bonita e interessante 🙂

  11. williansmarc
    1 de outubro de 2014

    Olá, gostei do conto. Me lembrou a invasão de porto real no segundo livro das crônicas do gelo e fogo; Se eu fosse esse autor(a), investiria fortemente em tentar escrever um romance épico, tendo um pouquinho de cuidado em evitar os clichês já expostos nos comentários anteriores e com uma trama mais surpreendente, acredito que poderia sair daqui um dos melhores livros épicos tupiniquins.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • williansmarc
      1 de outubro de 2014

      Só um adento, faria um romance a partir de outra história original e não usando esse conto com base, porém sua técnica beira a excelência.

      • williansmarc
        1 de outubro de 2014

        Correção: adendo (maldito corretor do ipad…)

  12. Felipe Moreira
    1 de outubro de 2014

    Esse texto foi bem trabalhado tecnicamente. Alguns clichês desgastados, é verdade, mas no geral o texto é leve e agradável de forma que seus pontos originais disfarçam o que há de repetitivo. Não sei se esses amores ou amizades que surgem de forma abrupta são reflexos de pessoas reclusas e impossibilitadas de ir e vir num mundo muito mais fechado e rigoroso, mas a relação de Gwen com Dylan pareceu pura realmente.
    A ambientação é excelente, coerente com o limite físico do desafio e a narrativa é boa, embora em alguns momentos pareceu forçar emoções. Gostei da forma como foi trabalhado esse dilema de Gwen, a expectativa, cobrança e responsabilidade de cumprir algo imposto, bem medieval. Eu já esperava que em algum momento do final do texto, Gwen pudesse desenvolver a habilidade de tocar o alaúde com o coração, mas não esperava pela morte do Dylan e a carta humilde de despedida. Isso me agradou bastante. Como se – involuntariamente – a tragédia de sua morte despertasse nela essa capacidade adormecida, justamente pelo acúmulo de emoções que transbordavam no coração, tal qual o ensinamento do próprio Dylan.

    Resumindo, é um texto sensível e seguro. Parabéns pelo seu trabalho e boa sorte no desafio.

  13. fmoline
    30 de setembro de 2014

    Olá,

    O texto esta escrito de forma clara e com passagens bem graciosas. O autor(a) soube explorar as questões socias de antigos regimes, nobreza x plebeu, sem fugir da própria história, o que é excelente, pois deu espaço para aprofundar os personagens, além de carregar uma ideia bacana.
    Em suma, gostei do texto.

    Parabéns e boa sorte.

  14. Camila H.Bragança
    30 de setembro de 2014

    Prezado/a colega

    Vim por meio deste comentário discorrer acerca das impressões causadas pelo seu texto. Vossa escrita simples deu agilidade ao conto. Discordo que deveria haver maiores detalhes quanto aos rebeldes e demais personagens. Só atente para os clichês devidamente apontados e a previsibilidade que retira o mistério a ser desvendado. Como dito no comentário anterior feito por minha pessoa, gostei da fuga. Muitos contos inspiraram-se em uma música, vosso texto não.

  15. Swylmar Ferreira
    29 de setembro de 2014

    O texto apresentou estrutura semântica adequada. Tema relevante ao desafio, o autor(a) optou por uma história de época.
    A linguagem é objetiva onde o autor(a) mescla narrativa e diálogo.
    A conclusão dada ao conto foi a esperada.
    Bem, o texto é interessante, talvez por eu gostar de contos de época. Achei um belo conto de fadas, daqueles de amores perdidos.
    Parabéns Lee e boa sorte.

  16. Davi Mayer
    28 de setembro de 2014

    Muito bom o texto
    Possui todos os elementos para um bom conto. E, mesmo com o fato de ser tão longo, a história e o seu desenrolar, nem percebi o grande tamanho.

    O que quero salientar é que, apesar do texto tão esmerado, não senti nenhum elemento novo, ou pungente, que me atraísse. Pareceu ser mais do mesmo, pois logo no começo, na introdução de Dylan, já antevia o seu fim trágico, e o fim de um romance nem mesmo iniciado.

    Apesar disso, é um dos melhores contos e está no páreo. eheheheh

    Fiquei curioso em conhecer outros escritos seus.

    Parabéns e boa sorte.

    • Lee
      29 de setembro de 2014

      Olá, agradeço seu comentário e por ter curtido meu texto. Assim que terminar o concurso, posso te passar links para meus outros trabalhos (não passo agora para não revelar minha identidade, acho que isso quebraria as regras do desafio).

      Valeu mesmo 🙂

  17. Lucas Almeida
    28 de setembro de 2014

    Belíssimo. Meus parabéns, apesar do final um tanto obvio para mim, que gosto de ser surpreendido, seu conto me cativou bastante, perfeito para ser lido ao som de um alaude ou quem sabe uma melodia de Vivaldi. 🙂

  18. Andréa Berger
    27 de setembro de 2014

    Gostei muito de seu conto. Um cenário épico, bem desenvolvido e com personagens que correspondem ao tempo utilizado. Só não consigo comprar esses sentimentos surgidos do nada, mas pelas histórias que já ouvi de gente mais velha, isso era bem comum antigamente (imagina então na época que você retrata), ou seja, é só uma implicância de fundo pessoal. Também acho que poderia dar um outro tratamento à carta de Dylan, achei ela meio estranha, muito distante para a amizade que ele mesmo diz que sentia pela moça.
    Um abraço e boa sorte.

  19. Leandro
    27 de setembro de 2014

    Caro autor, foi um dos poucos aqui que consegui ler do começo ao fim, sem me cansar e necessitar de um folego extra, seu conto ficou claro, de facil entendimento e o leitor entra facil na historia, uma virtude dos contos neste estilo, acho tb que ficou ao mesmo tempo evidente que o garoto ia morrer, algo que seria retratado melhor com mais suspense ( uma dica ), mas ficou muito bom. Boa sorte!!!

  20. Fabio Baptista
    26 de setembro de 2014

    ======= ANÁLISE TÉCNICA

    Nada muito encantador, mas muito bem escrito no geral.
    Lembrou-me um pouco aquela pegada de Game of Thrones, nos capítulos da Sansa Stark.

    – Os dedos de Gwendoline deslizavam pelas cordas do alaúde com precisão matemática
    >>> Eu sei que é um detalhe besta e que sou chato pra caramba… mas veja se essa frase (que tem a enorme responsabilidade de abrir o texto) não ficaria mais “limpa” dessa forma: “Os dedos de Gwendoline deslizavam com precisão matemática pelas cordas do alaúde”.

    – repetição de alaúde / instrumento

    – O rei chegará em breve à cidade, e eu prometi a seu pai que você faria a melhor apresentação de alaúde que a cidade já viu
    >>> Esse segundo “cidade” poderia ser trocado por algo diferente. E esse algo diferente poderia, de quebra, ajudar na ambientação.

    – da família. — a professora
    – Tenha uma boa noite. — disse a jovem
    – Está tudo bem. — disse, abrindo
    – …
    >>> Minúscula após ponto final

    – que a música, (…), vêm do coração
    >>> Concordância

    – na sua frente, sorrindo aquele sorriso inocente.
    >>> rima involuntária (acho…)

    – O garoto, porém, nunca mais aparecera
    >>> Não estou numa cruzada contra o “mais que perfeito”, mas tem horas que não há necessidade de utilizá-lo.

    ======= ANÁLISE DA TRAMA

    Então… achei que foi uma trama “ok”. Li com a expectativa de um “algo a mais”, um final mais “épico” ou algo assim. O desfecho não é ruim, mas não supriu as expectativas criadas ao longo da narrativa.

    Achei o desenrolar um tanto arrastado em algumas partes, chegando a cansar (é o 3º conto grande que leio hoje, talvez isso tenha contribuído para essa sensação).

    ======= SUGESTÕES

    Tiraria esse “sinhorita”

    Tentaria deixar o conto mais conciso.

    Pensaria em um final mais trágico.

    ======= AVALIAÇÃO

    Técnica: ****
    Trama: ***
    Impacto: ***

  21. Thata Pereira
    26 de setembro de 2014

    Eu gostei. De tudo. Da narrativa, da história, dos personagens. Essas amizades proibidas na infância, que terminam em finais tristes, me cativam. São encantadoras… quando eu li, pensei em comentar que os dois ficaram muito pouco tempo juntos para criar tamanha afeição, mas depois percebi que não tinha nada a ver eu dizer isso. Casos assim podem acontecer e acontecem.

    Boa sorte!!

  22. rubemcabral
    26 de setembro de 2014

    Achei que assemelhou-se muito a um conto de fadas, até bonitinho. Contudo, o início, com tanta repetição da palavra “instrumento”, incomodou-me. Achei também que as personagens foram pouco exploradas, sem muita personalidade.

    O resultado foi bom, porém nada assim de muito especial, infelizmente.

  23. piscies
    25 de setembro de 2014

    Com técnica impecável, ficou fácil de ler este conto. Suas palavras fluem facilmente, e suas descrições são muito acuradas e belas. Parabéns !

    Achei o conto bom, mas com algumas lacunas estranhas. Não consegui visualizar Gwen direito, por exemplo. Ela era uma criança? Uma adolescente? 12 anos, 10 anos, 15 anos? Ela tinha mesma idade de Dylan, ou Dylan era muito criança mesmo? Eu imaginei Dylan como uma criança de 8 anos, no início, mas crianças assim não são convocadas para exércitos, até onde eu saiba. Também senti que o clima entre os dois era de puro romance infantil… mas não sabia decidir se era romance ou amizade, por que a imagem de Gewn na minha mente era de uma mulher quase feita (o que, naquela época, condizia com 14 ~ 15 anos) e a imagem que eu tinha de Dylan era de uma criancinha que nem sabia direito o que era uma mulher.

    Sempre achei muito fantasiosos estes amores ou amizades flamejantes que surgem em um piscar de olhos, a partir de um encontro que não dura mais que alguns minutos, mas existem autores que usam bastante isso e públicos que gostam disto, então essa é mais uma opinião pessoal. Só achei que as reações de Gewn não combinaram no final: ela caiu em prantos quando soube que o garoto ia à guerra, mas não derramou nem uma lágrima sequer quando soube que ele morreu? É uma reação bem diferente da que ela teve antes.

    Enfim, o conto tem potencial mas parece que acabou da forma errada. Não sei por que TODOS os contos presentes neste desafio de música estão assim tão tristes !! hahahahah!! Até o meu acaba em morte, pra você ver. Coisa de doido. Mas este conto tinha tudo para ser um conto com um final bem mais feliz. A história quase gritava isso.

    De qualquer forma… foi muito bom ler o seu texto!

    PS: Aliás, tiro meu chapéu para este conto que foi o único até agora que li que fala “sobre” música ao invés de basear-se na letra de uma música conhecida. Quando o desafio foi lançado aqui no blog, imaginei que leria muitos contos com “música” como tema, mas o que tenho visto aqui são contos baseados nas letras de músicas. Estranho, rs.

  24. Lucimar Simon
    25 de setembro de 2014

    Um bom conto, boa narrativa, sem muitas atrações. como apontei em alguns este também é muito longo, mas também diferente de outros não se perdeu pelo caminho. Possui começo, meio e fim, uma coesão marcante, link com contextos passados, brinca com a música. o que denota e concretiza os personagens e sua amplitude. Os ânimos se acirram. a disputa chega ao fim e a acidez dos comentários dão um toque a mais na disputa. o bom é que somos felizardos duplamente porque temos que buscar escrever um bom conto, expô-lo, comentar os contos e ainda ler os outros comentários. Como aprendemos, por um modo ou outro. Vamos que vamos. Parabéns, boa sorte.

  25. Gustavo Araujo
    24 de setembro de 2014

    Se eu pudesse adivinhar, diria que este conto foi escrito com um manual ao lado. Está tudo ali, certinho: um ambiente exótico, uma protagonista carismática e o conflito que ameaça um amor impossível.

    No entanto, falta algo, uma centelha para a narrativa pegar fogo. Na verdade, apesar da boa apresentação – refiro-me à ausência de erros e a à estruturação impecável – o texto está carregado de clichês. Nada contra, desde que essas abordagens clássicas sejam bem feitas. O problema, aqui, foi que não houve um tratamento mais ousado. A professora severa, a lição “de que se deve seguir o coração” e a invasão dos “rebeldes” bem na hora em que a mocinha insegura estava prestes a tocar o alaúde, bem, tudo isso me deixou um pouco frustrado. São trechos já vistos em um sem-número de histórias e por isso refletem uma certa falta de criatividade, ou de preguiça, quem sabe, de inovar.

    Por favor, não me leve a mal, creio que todos passamos por isso: a pressa de terminar um conto faz com que busquemos completá-lo apelando para situações já consolidadas como “adequadas” em outras paragens. De qualquer maneira, não quero que você, autor, fique com uma má impressão deste comentário. Sua perícia em escrever é notável. Você está acima da média, pode acreditar. As críticas são mais ácidas quanto melhor é o autor. Tenho plena certeza de que você poderá nos contemplar com trabalhos fantásticos nos próximos desafios.

  26. Claudia Roberta Angst
    24 de setembro de 2014

    Texto bem trabalhado, narrativa sem pontas soltas, trama algo ingenua. Lembrei dos contos de fadas. Singelo conto, longo,mas de leitura ágil. Faltou um pouco mais de densidade ou tensão. Não senti muita atração pelos personagens ou ambientação. Questão de gosto, creio. Boa sorte!

  27. Anorkinda Neide
    23 de setembro de 2014

    Bom, me apaixonei por Gwendoline e foi o segundo conto que me fez chorar 🙂 adooro
    Vi assim, a narrativa de um acontecimento importante na formação desta mulher, que se tornará uma pessoa que respeitará os plebeus, comprando muita briga com a nobreza no futuro.!
    Amei a delicadeza do conto, da condução das personagens, até da música que nao ouvimos, mas cada um compõe a sua, no coração.
    Bem… bem ao gosto de uma poetisa. Obrigada por este conto, Lee…!

    tô aqui tentando achar um defeito para lhe dar nota menor que dez, mas não to encontrando… ^^

    Abração
    e parabens!

    • Anorkinda Neide
      23 de setembro de 2014

      agora subi a página e percebi que o conto é longo!!!
      Não tinha percebido mesmo… lembrei que na primeira leitura eu lia ansiando por saber o que iria acontecer e por isso não senti o tamanho. 🙂

  28. José Leonardo
    22 de setembro de 2014

    Olá. autor(a).

    De fato, é um conto muito bem escrito (exceto em alguns pontos finais antecedendo travessões de maneira equivocada). Ainda que não saibamos a época do enredo, o requinte (certo rebuscamento) está a contento. O todo me pareceu uma alegoria da dualidade razão/emoção: Gwen quer tocar muito bem, mas está presa aos moldes de Elena e sabe que estes não a farão tocar; porém, descobre a fonte de seu talento (o “tocar com o coração”) por intermédio de Dylan.

    Entretanto, a meu ver o enredo deixou a desejar. O final soou meio “cantiga de amor” do Trovadorismo e não gostei disso. Desculpe-me (talvez até pela falta de um pouco de sensibilidade para absorver a história), mas a carta está num tom excessivo de apelo emocional que, ao menos comigo, não funcionou. Imagino que todo o desenvolvimento anterior deveria culminar na leitura de tal carta e, em minha opinião, fracassou.
    Os diálogos, no geral, ficaram rasos e repetitivos (entendo a submissão da aluna diante da professora, mas aqueles “senhora Elena” poderiam ser modificados para evitar repetições à moda militar).
    Por fim: Dylan afirmou na carta: “Eu nunca aprendi a escrever, então paguei uma moeda de cobre a um mercador pra escrever pra mim”. Mas por que motivo o mercador — um ser geralmente instruído — escreveu “sinhorita”? Era ele a escrever e não Dylan, certo? A meu ver, o mercador teria escrito certo, ou seja, “senhorita” (uma opinião, repito).

    Boa sorte.

    • Lee
      22 de setembro de 2014

      Olá,

      Agradeço muito a opinião! Realmente, quanto a essa questão do mercador, concordo contigo. São coisas que acabam passando uma, duas, três revisões, e só mesmo um olhar de fora pra perceber isso 🙂

  29. Gabriela Correa
    22 de setembro de 2014

    Esse cenário épico me agradou muito, acho uma delícia de ler. Sua narração é bem fluida, clara: escreve muito bem. O trabalho com a linguagem de Dylan foi bem realizado, gostei. E gostem também, especialmente, da sua abordagem do tema: fugiu ao conto baseado em letra me música, mas trabalhou como em uma homenagem à arte. Por isso gostei tanto de sua trama: você traz uma história tocante, bem escrita… Parabéns! E boa sorte! 🙂

  30. Brian Oliveira Lancaster
    22 de setembro de 2014

    Luthier. Fazia tempo que não via essa palavra. Curti muito a ambientação conto de fadas aristocrática. Me lembrou um pouco aquele filme Escola do Rock. A história destes dois jovens conquista, ainda mais com a escrita fluente e fácil de entender. Só achei a situação da guerra um tanto corrida. O final diferente e melancólico nos faz ouvir uma música interna, inconsciente e resgata muitos sentimentos perdidos.

  31. JC Lemos
    21 de setembro de 2014

    Olá, tudo bem?

    Gostei do que fez aqui. Imergi nesse cenário épico e me senti levado pela mesma sensação que tenho quando leio minhas aventuras épicas (As Crônicas de Gelo e Fogo e As Crônicas Saxônicas).
    E sim, houveram algumas repetições, mas do meio para o fim o conto ficou bem melhor e fluido. Não vi nenhum problema com a narração, só achei que poderia ter mais ai. O conto merecia mais e tinha história pra isso.

    De qualquer forma, ficou bom mesmo.
    Parabéns e boa sorte!

  32. Rogério Moraes Sikora
    20 de setembro de 2014

    Apesar da ambientação, não considero que tivesse que usar palavras mais rebuscadas. Ficaria muito forçado. A autora utiliza exageradamente a expressão “garota”, algumas vezes, desnecessariamente. Percebi, também, que algumas vez alterna garota/menina. Penso que deveria usar sempre o mesmo termo. Facilita a leitura. A narrativa é simples (isso é um elogio) e fluente, porém a trama é fraca e previsível. A autora escreve muito bem e possui talento. De qualquer forma, parabéns e boa sorte.

  33. José Geraldo Gouvêa
    20 de setembro de 2014

    Achei a história meio chocha, por ter sido narrada com certa frieza, com certa convenção. A ambientação distante contribui para isso, ao remover a identificação e a emotividade do texto. A história, ao se passar em algum reino fantástico genérico e indefinido, fica desprovida de fatores que prendam o afeto do leitor — e isso, nesse tipo de história, é extremamente importe para lhe dar mais peso.

    Não quero dizer com isso que a história seja ruim ou que o texto esteja mal escrito, apenas que ele padece dessa aversão desnecessária ao mundo real, que tantos jovens autores têm. Eles pensam que ambientar sua história em uma pseudo-Camelot torna suas histórias melhores, mas é o contrário. Vou exemplificar.

    Os rebeldes, por exemplo: quem são eles? O que querem? Eles são citados apenas como um nome e em momento algum parecem realmente ameaçadores. Por que atacam o porto e não o castelo? Isso é estranho. Se quisessem tomar o poder não deveriam atacar o porto.

    E o rei? Ele é um personagem positivo ou negativo? Não sabemos o suficiente sobre ele para ficarmos felizes ou tristes com a sua vitória. Sequer sabemos seu nome.

    A instrutora de Gwendoline? Por que ela é tão seca a fria? Nem ao menos uma frase é usada para dizer se ela em algum mmento teve algum trauma que a tornou assim, ou se tem uma obsessão de poder, etc.

    Nenhum personagem, a não ser Gwendoline, recebe qualquer tratamento profundo. Todos são rasos e unilaterais. Não são personagens, são esquemas. Eles desempenham um papel único e limitado.

    Essa falta de identificação e de aprofundamento é que faz o texto parecer chocho e superficial.

    Mas como o/a autor/a parece ter certo domínio da escrita (eu posso apostar que é uma pessoa bem jovem, com muito tempo para ainda aprender), isso não chega tornar o texto realmente ruim. Só que o autor deveria olhar para a própria ideia que ele exprssa no texto. Se a música não vem dos dedos, mas do coração, a boa história não vem da meticulosidade da escrita, mas da capacidade de dar alma aos personagens. Se ele for capaz de trabalhar conforme o conceito que ele mesmo pôs na boca de seu herói, então tenderá a melhorar muito.

    • Anorkinda Neide
      21 de setembro de 2014

      desculpe por me intrometer aqui, mas se o autor(A), desenvolvesse todos este detalhamento que pedistes, o conto transformaria-se num romance. o que seria ótimo.
      mas aqui estamos focados nos contos, e um conto nao consegue abarcar tantos fatos e explicações. mas ele narra um fato pontual. e pensando assim, achei bastante coerente a centralização da historia em Gwendoline.
      (depois eu venho fazer o meu comentario propriamente dito, agora tô apenas metendo o bedelho 🙂 ).
      abraço

    • Lee
      22 de setembro de 2014

      Agradeço suas palavras! Todo feedback embasado é muito positivo. Estamos sempre querendo melhorar, â procura também do nosso “escrever com o coração” 🙂

  34. mariasantino1
    20 de setembro de 2014

    Bom dia, autor/a!

    Gostei da ideia e da ambientação, mas não gostei da narrativa. Um conto com ares antigo, casaria bem com uma narrativa mais curada, palavras rebruscadas (opinião somente, você pode ter escolhido narrar assim para dar uma quebra, eu apenas estou dando meu parecer). Outra coisa, repare que o termo “garota” repete muito e você sinalizou tanto, que li meio que sabendo como iria terminar. Reitero que gostei, só estou apontando algo que que (ao meu ver) poderia dar um brilho maior ao seu texto.

    Parabéns pelo bom trabalho. Ótimo desafio para você. Abraço!

    • Lee
      22 de setembro de 2014

      Agredeço sua opinião! Estamos sempre tentando melhorar 🙂

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Informação

Publicado às 19 de setembro de 2014 por em Música e marcado .