EntreContos

Detox Literário.

Os Observadores (Jowilton Amaral)

Liguei a seta e entrei a direita numa rua de paralelepípedos escura e deserta, ladeada por um manguezal sombrio. A pavimentação mal conservada me obrigava a ir bem devagar, eu fumava um cigarro e olhava para a amedrontadora paisagem. A lua nova iluminava as árvores retorcidas do lugar. Foi nesta hora que eu vi um veículo prateado sendo engolido pela garganta do lodaçal. O carro submergiu na lama de forma silenciosa. Os pneus da frente afundaram na água, enquanto a traseira se ergueu, parecendo que iria dar uma cambalhota, no entanto, não tombou, ficou imóvel por alguns segundos, rigorosamente na vertical, com metade do capô dentro d’água e o porta-malas para cima, em seguida foi tragado, vagarosamente, e desapareceu. Uma grande bolha emergiu e estourou como um arroto de satisfação. Um vulto correu e sumiu entre as siriubeiras. Simultaneamente, duas figuras surgiram das entranhas da lagoa e vieram ao meu encontro. Fiquei aflito e meu coração apertou.

O vento uivou por minhas costas e notei que me encontrava fora do automóvel. Um calafrio percorreu todo meu corpo e estremeci. O estômago revirava. Era uma noite gelada de inverno. Eles pararam ao meu lado. O mais baixo deles movimentou seu braço como se fosse pegar um revólver. Arrefeci de medo, minhas pernas petrificaram, não conseguia me mexer. Naquele momento não pensei em nada, não me lembrei de ninguém, nenhum filme passou por minha cabeça. Simplesmente esperei o tiro e a chegada do fim. No entanto, ele, o tiro, não veio; nem o fim. O homem não tinha arma nenhuma em suas mãos. Sua mão direita tentou me tocar. Afastei-me e ele perguntou em um tom galhofeiro:

— Cadê a sua namorada, aquela vadia? — Falou, e de novo tentou segurar-me. “Filho da puta!”, pensei. O medo e a raiva me fizeram atacar. Parti para cima dele com meus punhos cerrados.

— Tenha calma, Pedro, não se importe com essa criatura. — Falou o homem mais alto. Segurou seu companheiro pelo braço e o retirou de perto de mim e emendou: — Não lembra como chegou aqui, não é?

— Para falar a verdade, não. Não sei como cheguei até aqui, estou completamente chapado. — Afirmei.

A pouca iluminação e minha embriaguez não permitiam que eu visse seus rostos nitidamente, havia uma névoa encobrindo suas faces.

— Quem são vocês? De onde me conhecem? Por que jogaram o carro no manguezal? — Perguntei curioso. O baixinho riu, e o mais alto respondeu.

— Não jogamos o carro no mangue.

— Jogaram sim que eu vi. Vocês vieram de dentro do carro.

— Sim, viemos de dentro dele, estávamos lá. Contudo, especialmente hoje, éramos apenas observadores. A decisão foi toda daquela pobre alma.

— Que pobre alma? — Perguntei espantado.

— A que está dentro do carro, no ventre do pântano. — Gargalhou.

— O quê? Tem uma pessoa dentro do carro? — Falei e fiz menção de correr para tentar resgatar o infeliz.

O mais baixo me segurou impedindo minha locomoção e puxou-me de encontro a ele. Desta vez pude vê-lo de muito perto. Ele não tinha olhos, no lugar deles viam-se dois buracos escurecidos, como tuneis sem luz no final, e todo seu corpo era envolto por uma aura acinzentada, lembrando nuvens tempestuosas. Quando percebeu meu terror, sorriu mostrando seus dentes rotos. Aquilo não era humano. Sua pele era pegajosa e gelada, e só agora eu percebi que ele flutuava a poucos centímetros do chão, seus pés não existiam. Comecei a tremer. Ele sorriu de novo e falou:

— Nem desconfia de quem seja a pobre alma?

— Não faço a mínima ideia. Eu conheço? Consegui dizer, apesar da secura na boca, e dos espasmos que me acometiam.

— Claro que conhece; Pedro. Faça um esforço, ponha essa sequelada cuca para funcionar. Ou não sairemos daqui hoje.

Eu não entendia o que ele queria dizer. Nem imaginava quem pudesse estar dentro do carro, foi quando num estalo entendi o que estava ocorrendo.

— Isto é um sonho. É isso, claro. Estou sonhando. — Falei em voz segura e descontraída. Senti-me aliviado. “A qualquer momento acordarei na segurança de minha casa”; pensei.

Os dois homens me olhavam com uma expressão divertida. Suas faces, por um breve momento, pareceram normais, comuns, como de qualquer pessoa. No entanto, isso durou pouco.  De repente, eles escancararam suas bocarras imundas, fazendo que seus maxilares luxassem, as maxilas projetaram-se para frente e para cima e as mandíbulas para frente e para baixo, aumentando ainda mais o diâmetro das cavidades bucais, como no ataque de um tubarão, e de lá de dentro, daquelas cavernas fétidas, um arrepiante cantochão melodiou; um réquiem apavorante.

Senti o sangue fugir de mim, achei que fosse perder os sentidos e desmaiar. Eu estava enganado, ao invés de cair, levantei; levitei. Meu corpo parecia não ter peso, flutuava no ar, sem as amarras da gravidade. A sensação era boa, muito boa. Subi alto, muito alto. A lua e as estrelas passaram por mim velozmente, e as cores púrpuras de um entardecer tornaram-se visíveis no horizonte, para desaparecerem num piscar de olhos e dar lugar há um dia ensolarado e brilhante. Inconscientemente soube que voltava no tempo. Retornei para a manhã daquele dia estranho.

Eu estava com minhas costas coladas ao teto de um apartamento, planando. Ao meu lado os dois sinistros espectros me observavam com sarcasmo. Olhei para baixo e me vi esticando uma generosa linha de pó. A tela do notebook mostrava um editor de texto aberto. As lembranças começaram a invadir minha mente. Elas chegaram sem pressa, pingando, de gota em gota. Lembrei que estava a três dias de “virote”, bebendo e cheirando alucinadamente. Eu tinha que terminar meu romance, meu grande romance, o que me levaria ao estrelato. Escrever era tudo que eu sabia fazer de melhor, e mesmo assim, mesmo com todo o meu talento e dedicação, nunca consegui me sustentar pela escrita. Os anos passaram, eu envelheci e continuava o perdedor de sempre. Aquilo teria que mudar com aquele livro. Vi-me escrevendo o último parágrafo. Retornei a primeira página, o título reluzia no centro da tela: “Enquanto a Noite Durar”. Eu me encontrava em êxtase completo, orgulhoso e confiante. Estiquei mais uma carreira, e outra, e mais outra… Então a porta se abriu e ela entrou. Era Glaucia, minha namorada. Nossa relação não andava nada boa.

Começamos a discutir. As cenas começaram a passar rapidamente, feito um filme antigo, em rotação acelerada. Estávamos agora na garagem do prédio, já era noite, e ainda brigávamos violentamente. Ela não queria que eu saísse de carro, dizendo que eu não me encontrava em condições de guiar. Eu a empurrei, ela correu e entrou pela porta do passageiro. Saímos. Agora ela me dizia que não me queria mais, que não ficaria com um fracassado, que me odiava e que estava indo embora, saindo da minha vida. “Nunca!”; gritei, enquanto continuava flutuando e me vendo lá embaixo, dirigindo o carro.

— VOCÊ NUNCA VAI ME ABANDONAR! — Eu urrava em total descontrole. Ela tentou pular do carro em movimento. Estávamos perto da praia. Consegui detê-la com meu braço direito, e quando ela se recostou novamente no banco, eu desferi uma poderosa cotovelada em seu belo rosto. Ela perdeu os sentidos e o sangue escorreu pelo seu nariz fraturado. Olhei para os dois seres que me acompanhavam nessa viagem funesta. Eles regozijavam.

— Está lembrando agora? Perguntou o baixinho. Eu me lembrava de tudo. “Se Glaucia não ia ser minha, não iria ser de ninguém.”. Dirigi até aquele mangue, e afundei o carro comigo e Glaucia dentro.

— EU ME MATEI E LEVEI GLAUCIA COMIGO, NÃO FOI ISSO? — Gritei.

As duas figuras gargalhavam e rolavam no chão de tanto rir. Foi quando percebi que estava de volta ao mangue, no lugar em que os vi pela primeira vez.

— Você está errado, Pedro. Veja. Olhe para a água.

O espelho d’água transformou-se numa tela de cinema. Eu vi o carro chegando e entrando vagarosamente na lama. A porta do passageiro se abrindo e Glaucia caindo, levantando e correndo. “O vulto”; pensei. Eu a joguei para fora. Meu último momento de lucidez. O automóvel ficou em pé, completamente verticalizado, e afundou. Num close eu vi detalhadamente meu plácido semblante. A lama invadia todo o veículo, ao passo que o carro era sugado para o fundo do manguezal.

Água e lodo entraram por minha garganta, irromperam pela traqueia, e chegaram ao meu pulmão feito ácido, dilacerando meus alvéolos. A dor que eu senti foi inefável. Afoguei-me.

Um silêncio infinito estrondou em meus ouvidos…

— Viu bem, Pedro? Só você morreu. Covarde! E vai penar muito por isso. — Eles riam.

Olhei-os resignado. Eu nada mais sentia. Nem frio, nem dor, nem culpa, nem medo, nem ódio, nem amor. Estava vazio; oco.

As duas estranhas figuras andaram na direção da lagoa. Eu os segui. E afundamos juntos, para as profundezas do desconhecido.

3 comentários em “Os Observadores (Jowilton Amaral)

  1. Joice22
    24 de setembro de 2014

    Conto narrado em primeira pessoa. Evidencia-se a transição de Pedro, protagonista, do mundo real para o sobrenatural.

  2. Anorkinda Neide
    29 de agosto de 2014

    Olá, Jowilton
    o conto é interessante, mas achei o começo confuso..ele estava dirigindo lentamente e assistindo a seu próprio suicídio?
    Tens que dar uma olhada no uso do ‘a’, ‘à’ e há’.. Há alguns errinhos aí..

    As criaturas me pareceram dois ETs, mas não eram, certo? podia diferenciar um pouco a aparência deles, pra não levar o leitor a pensar em ETs.. rsrsrs

    Bem, é isso.
    Abraço!

    • Jowilton Amaral da Costa
      1 de setembro de 2014

      Obrigado pelo comentário Anorkinda Neide. Principalmente pelos toques ortográficos, acho bacana isso. Este conto faz parte de uma coletânea chamada Enquanto a Noite Durar, de contos sobrenaturais. Eles não são ETs, com certeza. E realmente ele viu o próprio suicídio, na verdade, ele já estava morto, mas, ainda não sabia. E, pô, sempre achei maneiríssimo esse meu primeiro parágrafo, kkkkk. Abraços.

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Informação

Publicado às 28 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .