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Detox Literário.

O Último Escárnio (Maria Santino)

Riso

Abrantes caminhava no final da tarde praticamente no meio da avenida. Regressava do trabalho, a caminho de casa. A chuva fina que caia ocultava as lágrimas. As zombarias sempre foram uma constante em sua vida desde pequeno, mas o que havia acontecido estava além dos limites de tolerância.

Alguns carros buzinavam e muitos motoristas proferiam palavras duras para ele, que se arriscava andando por ali:

Tá doido, pigmeu? […] – Quer morrer? Anão maluco!

Lentamente ele atravessava a rua em direção a um beco com o propósito de pegar um atalho, seguia triste e cabisbaixo mostrando-se cansado daquela faina. Odiava o olhar de piedade e gracejos (por assim dizer) direcionados a ele, sobretudo, devido a sua condição física: além de anão era coxo. No entanto, tal fator não o impedia de levar uma vida como tantas outras pessoas, mas a falsa ideia de que sua capacidade mental estava amarrada a sua condição física, era o que realmente o travava e entristecia fazendo muitas vezes sentir-se inválido.

A chuva aumentava o deixando encharcado, mas a mágoa que sentia prendia toda a atenção e ele mantinha o passo, reflexivo. Aos poucos as memórias da infância no orfanato onde fora criado surgiam trazendo consigo a necessidade de alento, o menino anão nunca fora adotado como os demais e aprendeu cedo que era diferente dos outros. Quando chegou a idade adulta passou a morar sozinho mudando de emprego algumas vezes quando se sentia tolhido pelos demais funcionários.

************

Assim que chegou em casa (no terceiro andar de um condomínio simples) já era noite, e após trocar a roupa molhada no banheiro, buscou o auxílio de um banquinho para conseguir se debruçar na janela do quarto e permanecer ali pensando em tudo que havia acontecido naquele dia. “Seria capaz de suportar o amanhã? Quando entrou naquele grau de entorpecimento ébrio?”

Julgava que fora vítima de alguma troça dos colegas de trabalho e em tom de fúria, amaldiçoava a si mesmo.

O clima no emprego era ameno com algumas brincadeiras nos primeiros dias e os apelidos que ele fingiu levar na esportiva, mas em menos de oito meses, nomes como: “miniman”, “projetinho” e “carcereiro de gaiola” passaram a ser comuns dando vazão a zombarias um pouco mais maldosas como a que ocorreu há dois dias na festa de natal da empresa.

“Tudo seguia normalmente, mas em certo momento já não conseguia lembrar-se de mais nada, muito menos de que forma chegou em sua casa.  No feriado natalino alguns setores do Shopping onde trabalhava não funcionaram, e só quando regressou na manhã daquele dia e se dirigiu ao setor administrativo esperando trabalhar normalmente, é que descobriu o que tinha feito.

Os colegas o enxovalharam salpicando piadas diversas e mostrando imagens onde Abrantes, enaltecido pelo álcool, protagonizava cenas bizarras de danças ao som de péssimas músicas contemporâneas. Não demorou muito para que o próprio chefe (alguém que devia prezar pelo respeito) também viesse tripudiar da sua imagem repetindo os mesmos gestos feitos por ele nos vídeos capturados pelos colegas. Tudo aquilo o assustou, tolheu e machucou profundamente. Mas as expressões: “tu tá bombando na rede, miniman!” E ainda: “miniman, o anão sapatinho de fogo!” Atestavam o quão longe e desrespeitosa fora aquela zombaria. ”

Agora, até o desejo de “dar cabo” em sua existência passeava pela mente enquanto subia, com esforço, no parapeito da janela e observava a altura que se encontrava do chão. Abrantes sabia da existência de leis contra aquele tipo de atitude a que estava sendo submetido no trabalho, mas, perturbado, desejava pôr um fim imediato em sua dor.

O vento frio da noite secava suas lágrimas e em seu íntimo, um asco crescente por aqueles que desmereciam os outros para se firmarem nesta vida, deixava sua garganta ácida.  Suas mãos colavam no corpo buscando ímpeto para o salto, no entanto, ao receber uma rajada de ar, ficou tonto, e, dessa forma, ao invés de cair para o lado de fora, cambaleou caindo para o lado de dentro de sua casa batendo a cabeça no chão.

A dor quase não foi sentida, pois Abrantes teve uma espécie de epifania ao erguer a vista e observar sua imagem refletida no grande espelho próximo à parede.      Olhou sua baixa estatura, a cabeça desproporcional ao resto do corpo, as mãos grandes nos braços curtos e barriga saliente… E logo, a resignação começou a dar espaço a um riso macabro e sua mente passou a trabalhar rápido.

“Ridículo! Ridículo! Sou ridículo”

Dizia para si mesmo rindo sozinho, ria com força até seu rosto tornar-se vermelho e as veias saltarem. Começava então a edificar a paga que daria aos seus escarnecedores.

Pela manhã seu plano já estava traçado, e no trabalho, quando novamente os risos recaíram sobre ele, um largo sorriso se estampou.

– Alegria! Alegria! A festa de Réveillon será melhor… Será inesquecível! – e todos batiam palmas desejosos pelo bis daquela hilariante apresentação.

**********
Os dias seguiram apressados para Abrantes que treinava todas as noites diante do espelho, e quando a encomenda chegou seu plano já estava traçado com precisão cirúrgica. O chefe já havia anunciado que “a festa da virada” seria em sua casa tendo o anão dançarino como convidado especial da noite.

Nunca escutou tantas galhofas quanto naqueles dias:

Veja como seu andar possui um ritmo! […] Olhe como é hilário o requebrar dos quadris!

Abrantes se mantinha alheio guardando o ódio para ser usado como mola propulsora. Quando o dia trinta e um de dezembro chegou e o chefe veio buscá-lo em casa com muita pompa, recusou todas as bebidas que este lhe ofereceu permanecendo sóbrio.

Assim que chegou ao local agiu de forma sorrateira e retirou o frasco – o qual encomendara pela internet – tendo cuidado de despejar o seu conteúdo narcótico tanto no ponche; quanto nos alimentos ali expostos.  Em certo momento, quando já não havia mais espaço para transitar e todos se mostravam entorpecidos, os pedidos incessantes para que Abrantes dançasse ecoavam o impulsionando a subir em um pequeno balcão e dar início ao espetáculo previamente tecido.

Ao som “bate estaca”, ele mexia a cabeça como uma cobra naja de lá para cá escutando o estribilho dos risos rebimbarem, seus bracinhos curtos lançavam-se para o alto e depois colocava uma das mãos na cabeça e apontava para a multidão movendo o quadril como uma odalisca e percebendo as primeiras respostas surgirem após aquele ato.  Não importava parecer ridículo, pois era essa a sua intenção naquele momento, e com prazer, via uma mulher gorda cair desmaiada de tanto rir próximo a ele.

Sua dança prosseguia, e cheio de traquejos, sacava fora a blusa mostrando a volumosa pança e remexendo-a como uma onda gelatinosa. O patrão, ensandecido, pulava qual macaco com as mãos na virilha não segurando mais a urina de tanto rir. Abrantes dava tapinhas nas nádegas empinado-as enquanto mais pessoas caiam com as pernas para o ar. Agitava o tronco com as palmas das mãos erguidas e emendava aquele ato com um moonwalker à moda Michael Jackson. A histeria do riso estava instalada e o anão dançarino saracoteava vigorosamente como se seu corpo fosse todo de mola e seus pés estivessem pegando fogo.

Queria fazer rir, queria despertar a pilhéria e o escárnio para deixar as pessoas tendo espasmos de riso descontrolados, urinando e salivando até caírem no chão enquanto ele se preparava para a ação final.

As estripulices persistiam e ele emitia sons graves enquanto projetava a pelve num ato de coito:

– Hurra! Urra! Hey! Houuu!

Os poucos que ainda se mantinham em pé puderam visualizar o último ato de Abrantes que, a esta altura, aos olhos dos espectadores inebriados pela droga, mais parecia um gordo besouro multicor com as pernas afastadas trotando velozmente.

A calça foi tirada e o reluzir das lantejoulas cravadas em sua cueca ofuscaram o que trazia preso a virilha. Poucos percebiam o seu olhar soturno, pois o riso permanecia num frenesi cíclico e tétrico.

Os dedos curtos, porém ágeis, puxaram os pinos das três granadas e o júbilo paliativo da vingança o enlaçou por inteiro. Os bracinhos foram abertos anunciando o fim daquele espetáculo letal. O último escárnio permitido… E a certeza de que a opressão voaria pelos ares, o fazia rir e chorar enquanto o prelúdio da explosão detinha o curso do tempo.

Aqueles que entenderam o que estava prestes a acontecer ainda tentaram se safar. Houve correria, gritos e tentativas vãs de sair do recinto, porém os estanques provindos das explosões suplantaram qualquer outro ruído, inclusive os dos fogos de artifícios que estouravam lá fora, anunciando o nascer de um novo ano.

BOOOOOOOMMMMM!!!

7 comentários em “O Último Escárnio (Maria Santino)

  1. mariasantino1
    19 de setembro de 2014

    Olá, Joice 22!

    É muita gentileza sua ceder um pouco de tempo para ler e comentar este conto. Muito obrigada pela observação.
    Abraço!

  2. Joice22
    19 de setembro de 2014

    Trata-se de assédio moral e de como isso pode repercutir na vida de um indivíduo. No final do conto, uma consequência foi explicitada.
    Esse texto, em que todas as personagens são planas, é narrado em 3º pessoa. No fragmento “Os poucos que ainda se mantinham em pé puderam visualizar o último ato de Abrantes que, a esta altura, aos olhos dos espectadores inebriados pela droga, mais parecia um gordo besouro multicor com as pernas afastadas trotando velozmente” evidencia-se a falta de vírgula entre o nome “Abrantes” e o pronome relativo “que”.

  3. Joice22
    19 de setembro de 2014

    Esse texto, em que todas as personagens são planas, é narrado em 3º pessoa. No fragmento “Os poucos que ainda se mantinham em pé puderam visualizar o último ato de Abrantes que, a esta altura, aos olhos dos espectadores inebriados pela droga, mais parecia um gordo besouro multicor com as pernas afastadas trotando velozmente” evidencia-se a falta de vírgula entre o nome “Abrantes” e o pronome relativo “que”.

  4. Wender Lemes
    31 de agosto de 2014

    Gosto particularmente dessas reviravoltas que acabam esculhambando com tudo haha. Seu final foi um prato cheio, nesse caso. Incentivou a reflexão sobre nossa própria conduta também. Parabéns.

    • mariasantino1
      1 de setembro de 2014

      Hey! Brigadão por ler e comentar, seu moço. Só o fato de ter sua atenção basta. Um forte abraço. 😀

  5. José Leonardo
    29 de agosto de 2014

    Olá, Maria. Lembrou-me Carrie White, só que consciente (portanto, deliberada no seu ato e não somente provocada através de um choque). Gostei bastante do texto. Damos uma risadinha aqui e acolá (risada automática e um tanto constrangedora por estarmos cientes do quanto aquela rejeição esmaga o pobre anão), e a mensagem é um alerta. Parabéns pelo conto e abraços.

  6. Brian Oliveira Lancaster
    29 de agosto de 2014

    Gostei do tom ‘inception’, história dentro de história. E do final bombástico, literalmente. O cotidiano sempre gera boas histórias, talvez, em parte, justamente por nossas qualidades e defeitos.

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Informação

Publicado às 28 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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