EntreContos

Detox Literário.

O Anjo (Jowilton Amaral)

Estávamos apenas eu e minha filha, Guta, de cinco anos, no parquinho da nossa quadra. Era sábado, entre oito e nove da manhã, dia vinte e um de junho de mil novecentos e oitenta e seis. Fazia frio, a umidade baixa e o céu de Brasília mostrava todos os traços do arquiteto.

Lembro-me de todos os detalhes do dia mais incrível da minha vida, seguido pelo dia mais… Bem, vamos aos fatos.

Guta se preparava para descer no escorregador, quando subitamente, ficou imóvel, com olhar fixo para algum lugar ao longe. De imediato não percebi seu vislumbre. Achei que ela estivesse tomando coragem para se jogar do brinquedo, já que na sua primeira tentativa ela deslizou com muita impetuosidade e não conseguiu frear adequadamente, fazendo com que sua aterrisagem na areia fosse um tanto atabalhoada e dolorosa. Eu distraído, conversando com a mãe de uma amiguinha de Guta, não cheguei a tempo de ampará-la e me culpava por isso.

Havia passado dois anos da desconfortável experiência, e somente naquele dia ela criara a bravura necessária para se aventurar novamente. A ansiedade nos dominava. Descer o brinquedo era questão de honra para ela; seria uma grande vitória. Para mim também.

No entanto, o tempo foi passando e ela não se mexia. Fiquei preocupado e chamei por ela:

— Filha! — ela não respondeu, e seu olhar estava perdido, distante, melhor dizendo, encantado. Encantamento traduz melhor a expressão que eu vira no rosto de Guta, em pé e quieta como uma estátua, naquele sábado, quase trinta anos atrás. Sim, seu olhar era de encantamento.

Fui até ela, coração disparado de pai de primeira viagem, e a balancei pelo seu braço direito. Ela enfim despertou. Olhou-me com ternura, abriu um imenso sorriso e disse:

— Papai, eu vi um anjo!

— Viu o que, filha?

— Um anjo.

— Filha, você deve ter visto outra coisa e a confundiu com um anjo.

— Não papai, eu vi um anjo de verdade. Ele estava bem ali. — Ela falou apontando seu dedo em riste na direção do bloco J. Ela continuava em cima da base de madeira do brinquedo, como num mirante, e sua visão era melhor que a minha, que estava em pé, na areia do parque, ao lado do escorregador, com a visibilidade bloqueada pela presença de outros brinquedos. Subi ao local que ela se encontrava e ajoelhei-me ao seu lado. Ela mantinha seu dedo indicando o local da suposta aparição angelical.

— Onde foi mesmo, filha?

— Ali, papai, saindo da portaria daquele bloco.

— Saindo da portaria?

— Sim, papai. Ele saiu da portaria e uma luz amarela tomou conta de todo o seu corpo e duas asas branquinhas apareceram em suas costas e ele saiu voando para o céu, parecendo um passarinho de ouro. Foi a coisa mais linda que já vi, papai.

— Ah, filha, anjos não existem. — Eu disse rindo. Ela não gostou. Fechou o rosto, pareceu triste. Olhou para mim e falou:

— Papai, o senhor acha que eu estou mentindo? — Perguntou e ela mesmo respondeu, sem ao menos me dar a chance de me retratar, dando mostras da forte personalidade que se formava. — Eu não estou mentindo, papai. Foi o senhor mesmo que disse que mentir é feio. Eu vi de verdade um anjo, e ele voou bem altão e sumiu nas nuvens. — Ela falou com franca firmeza e me encarou mostrando toda a sua contrariedade por minha recusa em acreditar nela.

— Não filha, não é isso. Não penso que esteja mentindo, só acho que se enganou. — Ela cruzou os braços, cerrou o cenho e fez uma expressão de poucos amigos.  Segurei-me para não rir.

— Está bem, filha. Mas então me diga uma coisa. Você viu um anjo e não sentiu medo?

— Medo?

— Sim, medo.

— Claro que não senti medo. Eu vi um anjo, papai, e não um monstro. Anjos são bonzinhos. O senhor tem medo de anjo, é?

— Minha filha, serei sincero com você. Se eu visse um anjo, do jeito que você disse que viu, eu me borraria todo de medo. — Ela gargalhou e disse divertida:

— Agora foi que deu, viu, papai. Eu pensei que gente grande não ficasse com medo.

— Pois é, Guta, saiba que os adultos têm muito mais medos do que as crianças. Nós somos cercados de medos e, muitas vezes, são esses temores que nos fazem seguir adiante. Contudo, também pode nos paralisar por completo, impedindo-nos de prosseguir na direção de nossas metas. Confrontar nossos medos é o grande desafio que temos quando crescemos e viramos adultos. — Ela não disse nada. Apenas olhou para o céu, como se estivesse deglutindo o que acabara de ouvir, tentando entender o significado daquilo. Balançou a cabeça negativamente um tempo depois e disse:

— É estranho isso. Não entendo.

— Tem toda razão minha filha, o mundo dos adultos é estranho mesmo e muito difícil de entender.

— Mas, papai, o senhor não acredita em anjos de jeito nenhum?

Não respondi de imediato. Fiquei um bom tempo contemplando-a. Aquele sorriso, sua inteligência, espontaneidade, pureza e sinceridade desconcertante, transformaram-me em outro homem. Um homem de verdade. A paz tomou conta de mim depois de seu nascimento. O amadurecimento que eu tanto almejava e me cobrava, notadamente foi dando o ar de sua graça, devagarinho, como quem não quer nada, ao longo dos cinco anos de convivência com ela. Acariciei seus cabelos negros e disse:

— Eu acredito sim, filha, eu acredito que existam anjos. — Ela sorriu e me abraçou apertado.

Desci do brinquedo com um pulo. Ela ficou eufórica com o feito.

— Tá vendo, papai, o senhor é corajoso, não precisa ter medo de nada.

Voltei-me para ela, me agachei, estiquei meus braços e ela escorregou para que eu a segurasse. Levantei-a o mais alto que pude. Éramos vencedores. Rimos bastante. Coloquei-a no chão. Demos as mãos e seguimos para nosso apartamento; em silêncio cúmplice, saboreando a nossa conquista.

Antes de chegarmos no bloco A, o nosso bloco, olhei para trás, na direção de onde ela afirmara que o anjo havia aparecido, e pensei ter visto um vulto amarelo e alado passeando sobre as nuvens. Um arrepio tomou conta de mim.  “Será possível?”. Pensei.

No outro dia Guta não acordou. Morreu dormindo em sua cama. Morte súbita, indolor e inexplicável. A tragédia me fez crer, definitivamente, que anjos existem. E minha filha Guta é um deles. Compreendi, a duras penas, que ela era um ser iluminado e que sua passagem por este plano, a Terra, só durou o tempo necessário para a mudança no meu modo de vida.  Ela me acompanha até hoje, todos os dias, em meus sonhos. Abraça-me apertado e me sorri docemente, enquanto balança suas asinhas branquinhas no ar, protegendo-me dos meus medos.

2 comentários em “O Anjo (Jowilton Amaral)

  1. Joice22
    27 de setembro de 2014

    O final, ainda que inesperado pelo leitor, foi extremamente convincente. Esse conto, assim como as fábulas, mostra lições ao leitor. Trata-se tanto de superação quanto de aceitação de fatos imutáveis.

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Informação

Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .