EntreContos

Detox Literário.

Uma breve missiva (Maria Santino)

onibus

Este relato é a descrição sucinta de tudo que vivenciei em dias tenebrosos de nossa existência. 

Nós falhamos. E falhamos justamente por desejarmos tanto, por sermos tão gananciosos e soberbos. Nosso primeiro grande erro partiu de dentro dos observatórios voltados para o espaço. Acumulamos tanto conhecimento e utilizamos daquela maneira, torpe. O plano foi calculado minuciosamente sob o bordão: “Tudo em prol da ciência”, mas escondemos o complemento: “Inclusive o genocídio”. Segredos escritos com sangue inocente.

Repassamos tudo para as forças superiores e logo, as mentes mais importantes reuniram-se para discutir sobre aquele assunto. O governo sabia de todo plano, afinal, nenhuma ação sucederia sem a aprovação da ordem superior que regia as leis da sociedade vigente, e acredite, o governo era apenas um.

As confabulações não duraram muito e, se de um lado só se pensava em lucro e poder; do outro, havia questões mais ousadas como: o sentido da existência e o avanço que poderíamos alcançar (ainda que sobre pilares obscuros).

A ordem não demorou a vir, e assim… Lançamos a ogiva.

Eu estava lá quando ascendemos aos céus, soube do êxito da missão e passei horas refletindo no poder que tínhamos em mãos e no quão audaciosos e insensatos fomos. Um simples botão, um click e pronto, milhões de vidas estavam condenadas. Fomos ilícitos, monstruosos.

Dessa forma, não houve pronunciamento em rede nacional, aviso para que as pessoas evacuassem a área. O governo simplesmente cruzou os braços, logo, assistimos e corroboramos com aquela hecatombe nutrindo a mente das pessoas comuns com programas e palavras de ordem para que permanecessem superficiais e mansos.

O brilho nos céus foi visto por algum tempo com um sorriso nos lábios da grande população, e as notícias, desencontradas, dizia que se tratava de um evento natural como a passagem de um cometa. Muitos correram para ver a massa brilhosa se aproximando. Fotos e filmagens explodiam na internet carregadas de palavras cheias de beleza e inocência daqueles que acreditavam que estavam seguros.

Não demorou muito para orla marítima ser tomada por pessoas com propósitos diversos. Alguns se reuniam em volta de fogueiras simplesmente para partilhar de risos, danças e conversas. Outros faziam rituais acreditando que aquele evento seria o sinal da vinda de suas divindades. Falavam no despertar do colosso adormecido no fundo do oceano, do retorno da mãe primitiva da terra e, do messias do cristianismo.

Humanos… Tão puros, infantis, tolos.  Mal sabiam que o que descia a Terra, em direção ao mar, não era nada daquilo que as pessoas comuns supunham.

O impacto tremendo fez ondas gigantescas avançarem na madrugada e milhões de pessoas morreram instantaneamente afogadas e esmagadas por destroços. Usinas, plantações… foram inundadas e devastadas pelo furor das águas que faziam ruir as construções e os mais belos adornos dignos de orgulho para humanidade. A cena de efeito cascata atrelado ao bramido dos que presenciaram a chegada da grande onda, era tétrica e desoladora.

Observei homens porcos, diabólicos, assistindo a tudo como feiticeiros ao redor de uma bola de cristal, e como animais que podiam falar, exclamavam sem pudor:

“Oléééé!” “Olha a onda!”

Como se aquilo fosse uma obra de ficção e a privação dos sentidos não representasse nada. Ali, muitos de nós provaram que já não eram mais humanos. Naquela noite famílias inteiras foram dizimadas, porém nada era transmitido. A internet misteriosamente ficou horas sem sinal e na TV os programas de entretenimento deixavam as pessoas paradas com suas mentes ocas olhando para a tela. Mas nós sabíamos de tudo, nós desligamos a grande rede mundial de informações, pois o poder era nosso. Éramos os maiorais.

Quando houve o comunicado oficial (palavras tardias, vagas e insossas que duraram apenas sete minutos) um amontoado de mutilações, madeira, pedra e ferro, já haviam sido arrastados para longe.

Mas ninguém arriscava pensar algo contra o governo, ninguém percebia a falha, a farsa, pois a sociedade estava condicionada a ser desde a infância simples marionetes. Os poucos que ousavam nos confrontar eram perseguidos, fuzilados, descartados.

Vimos às sinagogas e templos serem invadidos por fiéis e no mundo todo, velas eram postas em praça pública e artistas famosos criavam obras para homenagear as vítimas do que foi descrito como fenômeno natural e Tsunami. Enquanto as pessoas ficavam comovidas com a perda de quase um quinto do planeta, e os roedores devoravam as carnes daqueles que jaziam sob escombros, nós ríamos. Nós, políticos e homens da ciência, genocidas com nossos propósitos sinistros. Previmos a chegada, desviamos a rota e, soberbos como éramos, usamos até um plano de freio, pois o nosso desejo era êxito e não uma hecatombe mundial.

Depois esperamos impacientemente pelo resgate do que estava no fundo do mar. Com o auxilio de ductos e submarinos, caçamos nas profundezas aquilo que desceu dos céus. Não demorou muito para encontrar.  Vi de perto a nave responsável por aquela catástrofe, inerte e totalmente intacta. O material que a revestia recebeu atenção dos setores da mais alta inteligência humana, afinal, o que tínhamos ali era resistente suficiente para suportar as intempéries marítimas e pressão de tamanha profundidade (o que nos fez desprender inúmeros recursos para tentar equiparar com os artefatos que tínhamos em mãos e prosseguir com o resgate).

A tecnologia ali encontrada foi extraída e logo seria transformada em adornos e armas de manipulação em massa, vendida em lojas de produtos sob o slogan: “Para o seu maior conforto”, ou, “Para o seu bem estar e livre trânsito de informação.” Tudo revestido em lucro que só acresciam aos bolsos daqueles envolvidos nos trâmites da grande sujeirada que promovíamos. Os mesmos que se mostravam condoídos e não mediam esforços para auxiliar as vítimas da catástrofe provocada pela queda do “Asteróide” no mar, arrecadavam quantias exorbitantes.

Mas o cerne, o que estava dentro da nave era maior do que imaginávamos. Observamos os seres resgatados, ávidos por fatiar seus corpos e esquadrinhar cada célula e materiais que possuíam. Aqueles seres disformes translúcidos que foram acometidos por nossas ogivas e por esse motivo chegaram até nós.

As descobertas não tardaram e de todas elas, a mais importante para nossa ganância, era a que estava ligada a fisiologia dos seres. Era ali que estava a chave que achávamos que faltava em nós e uma fonte de poderio. Mas aquele… era somente mais um dos inúmeros erros que cometíamos.

Em poucos anos chegou ao mercado um fármaco batizado de “Manancial”, descrito como “fonte da juventude”. Por quê? Porque agia contra a ordem natural dos fatores, já que era composto de uma enzima que sanava as perdas no processo de replicação das nossas células, criando uma proteção que evitava o encurtamento dos braços do DNA. E o resultado disso? Ganhávamos uma longevidade assustadora.

Mas como viver em um planeta cheio de pessoas que não morriam mais de causas naturais? Simples, o “Manancial” teria um preço exorbitante para evitar que a massa pusesse a mão, sendo um produto de Luxo. No entanto, os humanos com sua visão imediatista, deixaram que a fórmula vazasse para os demais. Perdemos o controle e o não prevíamos aconteceu. A fórmula foi alterada e usada indiscriminadamente como produto da moda, divulgada sem domínio na internet.

Em pouco tempo assistimos a uma explosão demográfica e fizemos mais, repassamos os genes modificados para os nossos descendentes. Com a modificação veio o rápido desenvolvimento físico, as pessoas chegavam à idade adulta em pouquíssimos anos e depois o crescimento estagnava e ficávamos mais fortes e diferentes do que éramos a cada dia que passava.

Mas a fome, era o que mais incomodava.

Santuários como a Amazônia, parques nacionais e reservas, foram transformados em pastos para aumentar a fabricação de produtos para consumos. As previsões mais pessimistas datavam que levaria apenas alguns anos para que a Terra ficasse oca, vazia de recursos. E os mais funestos ainda estipulavam que não demoraria muito para passarmos a comer uns aos outros.

O governo falava em explosão de bombas como as de Hiroshima e Nagasaki, mas temíamos o poder da radiação sobre aqueles seres. O boom da população mundial continuava a cada dia e as tensões cresciam mais e mais. Assistimos a mudança ou evolução de nós mesmos, temerosos. Em algumas dezenas de anos devastamos a Terra e seria só uma questão de tempo para vir o pior: Nós, canibais.

Imaginávamos de onde viria os primeiros casos de antropofagia e por esse motivo, as viagens para os países subdesenvolvidos foram proibidas e as pessoas de tais locais postas em estado de sítio.

Nossa atenção se dividia entre os céus, o estudo dos seres que aterrissaram forçadamente na terra e o controle do que nos tornamos. Descobertas fantásticas acabaram não podendo ser levadas adiante, pois a cada dia consumíamos mais e mais do que tínhamos.

Falhamos mais uma vez por não criarmos um plano B, por nossa prepotência em achar que poderíamos burlar todas as regras impostas pela natureza sem um preço a ser pago. Não percebemos que a morte era nosso trunfo, mas agora, nos tornávamos predadores e caminhávamos para um futuro incerto.

O governo perdeu o pulso firme, pois o poder massivo de alienação surtia efeito nos humanos anteriores e não naquela raça modificada. Caçávamos no espaço algo que pudesse nos salvar, um reduto, outro planeta… Dessa forma lançávamos dia após dia foguetes que muitas vezes não retornavam.

Em desespero, reunimos as nossas forças agindo sigilosamente para conseguir o que parecia ser impossível. Com o auxílio daqueles seres que resgatamos do fundo do mar ousamos uma última vez. Subimos na plataforma e protegemos o corpo de nosso escolhido. O casulo com a gosma gel criado a partir da tecnologia alienígena, manteria a integridade dele quando a nave atingisse a velocidade adequada. Marcamos a hora de sua partida e os que possuíam alguma religião, rezaram para que estivéssemos corretos.

Ao retornarmos para nossas atividades, rumores já se espalhavam de casos isolados de canibalismo, o medo se estampava no rosto de cada um de nós. Estávamos perdendo nossa característica humana e a dúvida que pairava era: Até quando manteríamos nossa essência e pensamento lógico? Quem acordaria no dia seguinte, transformado?

Acometido por esses pavores não pensei duas vezes e recorri ao papel, nunca havíamos feito viagens no tempo antes, e por esse motivo, aquele que havíamos enviado momentos antes poderia não chegar. Portanto, é esse o propósito desta missiva, minha tentativa, meu plano B. Espero que ela encontre alguém que possa espalhá-la pelo mundo, pois se há algo que eu mais deseje nesse momento, é que aquele botão não seja apertado.

…Era uma noite chuvosa de abril, do ano de 2021.

Alípio Guimarães. 15 de Março de 2121

6 comentários em “Uma breve missiva (Maria Santino)

  1. Joice22
    28 de setembro de 2014

    Apesar de o final destoar do previsível, esse tipo de história, na Ficção Científica, é recorrente. De todos os contos que li, esse foi o que menos me convenceu. O enredo é fraco e há, no texto, alguns erros gramaticais.

  2. Marquidones Filho
    30 de agosto de 2014

    Fantástico! Não estamos muito longe dessa realidade, infelizmente.

  3. José Leonardo
    28 de agosto de 2014

    Muito bom. Uma leitura diferente de conspirações, das sociedades supervisionadas do futuro. Até os mais bem pensados planos podem falhar nalgum ponto de execução; até os prognósticos podem dar errado. Li e absorvi toda essa atmosfera de catástrofe e segredo. E como não lembrar do pobre Winston, preenchendo secretamente seu diário, de costas para a teletela e para o Grande Irmão! Abraços.

  4. Thiago Tenório Albuquerque
    27 de agosto de 2014

    Gostei do texto, bem interessante e de boa leitura, flui fácil. Uma leitura agradável.

  5. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2014

    Menina.. acho que não entendi o final não.. é .. não entendi.. rsrsrs

    Sabe, toda esta teoria da conspiração e um futuro tenebroso aos humanos, poderia ser abordado com alguma historia, aventura, diálogos… dessa forma, fica um relato meio lugar-comum, sabe como é?

    Mas a escrita está muito boa, flui muito bem… acho que faltou mesmo um pouquinho de criatividade.
    Abração

    • mariasantino1
      1 de setembro de 2014

      Gostar e não gostar é muito relativo, está além do autor. Nunca me aflijo com isso, mas se tem algo que me deixa triste é não ser compreendida, pois é justamente por esse motivo que junto as palavrinhas, para testar a minha capacidade de repassar uma ideia, de tramar… Que pena que não consegui ser clara para você. Bem, vou ali comer mais feijão, ler e escrivinhá mais um pouco.

      Obrigada pela atenção. Abraço! 😉

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
%d blogueiros gostam disto: