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Detox Literário.

Plágio e Inspiração, a tênue fronteira (Gustavo Araujo)

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Em 2008, durante uma viagem de férias, encontrei uma edição maltratada de “Não Tenho Medo”, do italiano Niccolò Ammaniti, colocada a esmo na estante ensebada de um albergue da juventude. Ao abrir suas páginas ásperas e amareladas, linhas de uma narrativa ágil e irresistível brotaram como galhos, me agarrando pelo pescoço. Foi impossível largar o livro.

O ritmo rápido porém detalhista, pontuado por divagações filosóficas – às vezes sarcásticas – e sem abrir mão do suspense fizeram com que eu esquecesse onde estava. Foi a leitura mais rápida da minha vida. No fim, mais do que a trama bem montada, terminei conquistado pela habilidade do autor em abordar aspectos da infância e da adolescência de modo extremamente sensível, falando de suas dificuldades e desafios, de suas surpresas e decepções.

Foi nesse momento que pensei: “poxa, eu poderia (ou eu queria) escrever sobre isso também”.

Essa sensação se reforçou quando parti para outros livros dele, como “I’ll Steal you Away” (sem tradução para português) e “Como Deus Manda”, publicado por aqui pela Bertrand Brasil.

Pois bem, todo mundo que escreve tem um livro favorito, um autor favorito, que em determinado momento fez surgir essa centelha, essa vontade de colocar no papel tudo aquilo que se sente.

Sempre há um responsável por desencadear essa premência em escrever. Às vezes, isso decorre de uma só fonte. Às vezes, são diversos os mananciais. O fato é que em qualquer das hipóteses, deveremos nosso despertar criativo a alguém.

O que ocorre a partir daí é algo curioso. A mim, pelo menos, a maneira de escrever minhas próprias tramas derivava do modo como Ammaniti costurava suas histórias. Estou usando de eufemismo. Na verdade, eu – talvez de forma inconsciente – praticamente o imitava na hora de escrever.

Então conheci Carlos Ruiz Zafón. “A Sombra do Vento” e, principalmente, “O Jogo do Anjo” alcançaram os primeiros lugares no ranking que mantenho mentalmente sobre obras inspiradoras. O resultado foi que minha escrita começou a se parecer – ou a imitar – o jeito de Zafón. Claro, eu não seria capaz de tanto. Jamais teria a habilidade do autor espanhol para metáforas e especialmente para descrições que parecem transformar determinada cena em 3D.

Logo surgiu John Boyne e seus meninos – o do Pijama Listrado e o No Convés. De novo percebi minha escrita adernar para um quase-plágio.

Há algo estranho na inspiração provocada pelos nossos livros favoritos. Ao mesmo tempo em que nos desperta, que nos conduz adiante, que nos força a escrever, também nos transforma em escravos, em discípulos de seus estilos e de suas ideias, em sanguessugas da criatividade alheia.

Talvez por isso atualmente haja tantas pessoas escrevendo sobre vampiros, castelos, magos e batalhas medievais. É gente influenciada pela vertente literária que mais vende, gente que teve despertada a vontade de escrever por ter lido “O Senhor dos Anéis” e saga Crepúsculo. Enfim, uma galera enorme que sentiu vontade de usar o universo de Tolkien e de Stephenie Meyerpara criar e contar suas próprias histórias.

Plágio ou inspiração? Ou, posto de outra maneira, é possível ser 100% original hoje em dia? Ou, uma pergunta ainda mais espinhosa, é possível começar a escrever sem a influência de nossos autores e livros favoritos? É possível, enfim, fugir deles?

Penso que não. Talvez a saída para o novo autor seja misturar. Para tanto, é preciso abrir o leque, travar contato com outros escritores, com outros tipos de literatura que não apenas aquela com a qual ele mais se identifica. Em suma, é necessário sair da zona de conforto.

Não há só Ammaniti, Zafón e John Boyne nesse mundo, eu deveria dizer a mim mesmo. Se eu quiser desenvolver um estilo próprio, ainda que influenciado por eles, é indispensável abandonar meus preconceitos e ler aquilo que os outros indicam, não importando o apelo em termos academicistas ou comerciais.

James Joyce, Nicholas Sparks, aqui vou eu!

3 comentários em “Plágio e Inspiração, a tênue fronteira (Gustavo Araujo)

  1. Fabio D'Oliveira
    29 de agosto de 2015

    Mais um assunto delicado!

    No entanto, serei bem sucinto naquilo que acredito. O homem completo não é influenciado pelo ambiente. Na realidade, ele que começa a influenciar o ambiente.

    Claro, não somos seres humanos completos! Estamos longe disso! Então, obviamente, absorvemos aquilo que está ao nosso redor em nível inconsciente e reproduzimos tudo aquilo que nos convém, incluindo na literatura.

    O jeito é correr atrás do desenvolvimento pessoal. Assim, quem sabe, um dia alcançaremos o nosso estilo natural.

  2. Fabio Baptista
    6 de agosto de 2015

    Tico Santa Cruz, aqui vou eu… 😦

  3. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    6 de agosto de 2015

    Nicholas Sparks me convenceu que existem coisas que não encontramos com tanta frequencia na literatura, com a devida credibilidade: amar e cuidar. É difícil dar credibilidade a isso na literatura; a maioria usa de artifícios quase como que forçando a barra. Nicholas Sparks é um dos poucos que me convenceu (na literatura; na vida vivo isso). Amo um estilo de Heavy Metal que é o Black Metal e sua musicalidade (pode acreditar que existe uma ordem bem ordenada nesse caos) não tem tanta variação musical se comparado com um Heavy Metal tradicional tipo um Iron Maiden. A maioria soa bem igual, mas tem umas revelações que fogem do comum, sem fugir do estilo Black Metal, por trazerem elementos de um estilo próprio dos músicos. Aí você lê numa entrevista um baixista dizendo que ouve jazz, o guitarrista dizendo que ouve Joe Satriani e coisas assim. Além, é claro, de outras referências do Black Metal. Geralmente são esses que abrem o leque, que se diferenciam dentro do estilo e geralmente são esses que mais gosto. Na literatura que me divirto tentando fazer, terminei uma fase de experiências e nesses poucos desafios que participei, li estilos diferentes e de uma qualidade ímpar no mundo das ideias do autor. Deu para perceber em vários deles, a busca por um estilo próprio e tem até os que já conseguiram. Ter contato com tantos estilos diferentes num mesmo evento me fez refletir sobre isso e sobre o que espero da minha produção literária. No último DTRL terminei uma fase de experimentos; agora é hora de abrir um pouco mais o leque.

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Informação

Publicado às 18 de agosto de 2014 por em Artigos e marcado .