EntreContos

Detox Literário.

Ato Santo (Maria Santino)

NoiteDasBruxas_800

As mãos trêmulas de excitação empurram lentamente a porta do antro que recebe a luz acobreada da noite, o homem de batina se esgueira nas sombras tendo a espada em riste. O odor da luxuria está em todo lugar e ele sente o sangue em ebulição frente ao ato prestes a ser consumado. Ela está de costas com suas roupas escuras esvoaçantes erguendo as mãos espalmadas para cima pronunciando sussurros ininteligíveis mesclado a um riso lascivo. O chapéu pontiagudo esconde melenas cor de nanquim e seu corpo esguio move-se de lá para cá como se valsasse ao sabor de uma melodia inaudível.

– In nomine Patris, et Fílii, et Spiritus Sancti.

A bruxa vira-se para o homem fitando-o, uma surpresa teatral se estampa em sua face jovem enfeitiçada pela beleza. Ele estremece sentindo as gotas de suor brotarem em sua testa também jovem, a espada permanece vibrando em prontidão. As mãos com unhas escarlates erguem-se para ele que percebe os lábios chispando em prévia de conjura, o crucifixo é mostrado de modo imponente para a bruxa que revira os olhos pedindo clemência ante o poder daquele símbolo. O homem de batina rasga as vestes dela procurando a marca negra que logo é visualizada acima do seio esquerdo.

Já não há mais forças para continuar ali parado e a espada é embebida em júbilo quebrando o silêncio da madrugada, que testemunha as silhuetas em dueto no Santo ato de comunhão e partilha entre homem e mulher recém casados.

*****

– Chapeuzinho vermelho e lobo mau?

– Ah! Bota aquela fantasia de palhacinho, bota?

32 comentários em “Ato Santo (Maria Santino)

  1. Evelyn Postali
    26 de janeiro de 2017

    Eu li primeiro o final, porque foi inevitável na página. Isso mudou a perspectiva. Imaginei um casal fazendo de conta. Noite de núpcias – se isso ainda existe hoje kkkkk. Mas enfim, imaginei os dois em desastrosa representação, como se estivessem em uma peça teatral. Quando eu li espada em riste, juro, imaginei um sabre de luz – perdão – é o hábito da força. Fora isso, gostei porque é diferente e me fez pensar em quanta monotonia não há na vida de muitos. A mesmice é um saco.

  2. mariasantino1
    22 de agosto de 2014

    Obrigada & Obrigada mesmo!

    O maior e melhor premio (para mim) é ser lido, pois quando o conto é ignorado soa como se a voz ecoasse a esmo, como se os braços cruzassem e houvesse o dar as costas. O modo como o certame se apresentou desta vez foi interessantíssimo (eu gostei muito).
    Agradeço todos os pareceres sinceros.
    Agora… Sobre o texto, trata-se de um miniconto (um degolar de florete, sabe? – ainda que a cabeça decepada, às vezes, seja a da pessoa que escreve).
    Um forte abraço e até breve 😉

  3. Pedro Luna
    21 de agosto de 2014

    Legal..rs. Mas não.

  4. Isabella Andrade
    21 de agosto de 2014

    Legal! Uma curta e boa ideia. Parabéns!

  5. Fil Felix
    21 de agosto de 2014

    Olha, a primeira parte é até bem escrita, mas o conto é muito curto e não desenvolve muita coisa. Particularmente, também não peguei o que aconteceu no final kkk

  6. Weslley Reis
    20 de agosto de 2014

    Fui inocente o suficiente pra ter que ler duas vezes para entender,rs. Foi um ótimo paralelo, realmente inesperado. Não sei muito bem o que comentar, por não estar acostumado com essas leituras, mas ponto para o fato surpresa.

    Parabéns.

  7. Martha Angelo
    9 de agosto de 2014

    Criatívo, diferente.Gostei da ideia de explorar essa ambiguidade sexual que sempre rondou a perseguição às bruxas.

  8. Juliano Gadêlha
    6 de agosto de 2014

    Ri sozinho aqui. Muito espirituoso. Um conto diferente neste desafio, uma bem-vinda quebrada de ritmo, já que a maioria tem seguido uma linha semelhante de narrativa. Bem escrito, e mesmo curto conseguiu criar suspense. Parabéns!

  9. Lucas Almeida Dos Santos
    6 de agosto de 2014

    Que inesperado! Eu tive que ler algumas vezes pra ver se entendia. Gosto de textos assim, parabéns.

  10. Walter Lopes
    4 de agosto de 2014

    Achei sem sentido nenhum, sobretudo o final.

  11. fernandoabreude88
    4 de agosto de 2014

    Achei ruim. Não vi nada nesse conto que me saltasse aos olhos e ou algum personagem interessante com o qual eu pudesse torcer ou me identificar. Na real, o conto não peca por ser pequeno, acho isso besteira, mas por não trazer nada de novo e basear-se em uma surpresa ao fim. Não gosto.

  12. Marcellus
    2 de agosto de 2014

    Muita gente reclama de ter mesmo casado com uma bruxa… um conto imaginativo e, sob certo aspecto, inovador. Não apeteceu muito, mas desejo boa sorte!

  13. Carmem Soares
    31 de julho de 2014

    O texto é simples, curto e agradável. Utilizou bem os sentidos figurativos.
    As duas frases finais me soaram meio cômicas e acabei não gostando muito delas. Eu as cortaria. rsrs.

    No geral o texto é bom!

    Abraços!

  14. Gustavo Araujo
    31 de julho de 2014

    Bem escrito, envolvente, mas curto demais. Pegando carona no enredo, diria eu que é uma rapidinha. Quando começa a ficar bom, acaba =/

  15. Edivana
    31 de julho de 2014

    Ah, poxa, que legal ficou isso. A gente esperando sangue e ganha gozo, parabéns! Mas vá que não desconfiei dessa espada desde o primeiro momento! rs

  16. Thata Pereira
    31 de julho de 2014

    Pois é, de santo esse conto não tem nada!! Poxa, fantasia de palhacinho?? :p
    Foi divertido! rsrs’

  17. David.Mayer
    30 de julho de 2014

    O que gostei:
    Conto criativo, com humor no final, envolvente e impactante. Parabéns ao autor.

    O que não gostei:
    nada.

    Melhorar:
    Nada. O conto foi criado para ser curto e sem muitos detalhes. Ele se fecha muito bem.

  18. Eduardo Matias dos Santos
    29 de julho de 2014

    Que coisa hein? Isso é que eu chamo de reviravolta. Benedicant Safadenho!

  19. Fabio Baptista
    28 de julho de 2014

    ====== ANÁLISE TÉCNICA

    Embora tenha quase certeza que foi a intenção do autor, a narrativa, demasiado teatral, não me agradou.
    O texto me soou com uma leve pegada poética meio forçada.

    O tempo de narrativa também me incomodou um pouco.

    – luxuria
    >>> Luxúria

    – Melena
    >>> Era isso mesmo que o chapéu escondia???

    ====== ANÁLISE DA TRAMA

    Bom, até o padre “caçador” de bruxas, ok. Sem novidades, mas OK.

    Mas… meu Deus… o que foi esse final???

    ====== SUGESTÕES

    – Narrar no passado
    – Carregar mais na poesia que no teatro
    – Tirar esse final

    ====== AVALIAÇÃO

    Técnica: ***
    Trama: **
    Impacto: *

  20. rsollberg
    28 de julho de 2014

    Fiquei confuso e sem fuso. Li mais duas vezes e acho que peguei a maldade. Espero que não esteja errado em relação a “espada”. A reação “teatral” deixou uma pista. Ah, e o adendo, é claro.
    Bem escrito e divertido.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  21. Ricardo Gnecco Falco
    28 de julho de 2014

    Gostei da visão “fantasiosa” para o tema em questão! 😉
    Tamanho, definitivamente, não significa maior ou menor valor. Seja de espadas, chapéus, ou criações literárias!
    🙂
    Boa sorte!
    Paz e Bem!

  22. Wender Lemes
    27 de julho de 2014

    Muito criativo! Quem diria que em um desafio de tema “Bruxas” teríamos as fantasias sexuais de um casal? De qualquer forma, boa sorte e parabéns.

  23. JC Lemos
    27 de julho de 2014

    Acho que me perdi em algum ponto da narração e ainda estou tentando me situar. Vou tentar ler de novo pra ver se entendo. Porém, do que li, a escrita não me agradou muito. As palavras pareceram forçadas, deixando o texto superficial demais.

    Faltou um pouco mais de texto. Gosto de sentir a emoção enquanto leio, e quando não sinto o texto parece incompleto.

    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

  24. Pétrya Bischoff
    27 de julho de 2014

    Cara, parabéns!
    Enredo (sim!), narrativa e escrita em pouco mais de vinte linhas, seduzindo em um espaço onde os contos curtos são, normalmente, alvo de polêmica (mesmo que sem severidade, haahah’).
    Está tudo muito bom. Boa sorte!

  25. Marquidones Filho
    27 de julho de 2014

    Se tivesse continuado no clima teria rendido um bom conto…

  26. Eduardo Selga
    26 de julho de 2014

    É o sexto conto que analiso neste desafio,

    A princípio, as muitas construções afetadas como “A bruxa vira-se para o homem fitando-o, uma surpresa teatral se estampa em sua face jovem enfeitiçada pela beleza”, carregadas de uma sintaxe que parece escolhida para impressionar o leitor, me incomodaram. Pareceu-me uma poetização forçada e, por isso, ruim.

    Entretanto, o curto diálogo final apaga a má impressão e explica a escolha narrativa: se a cena anterior, que todo o corpo do conto, é na verdade jogo fetichista de um casal amantíssimo, a linguagem algo teatralizada faz todo o sentido.

    O aspecto mais curioso do texto, contudo, nem é essa surpresa do inesperado fetiche: antes, a mescla do sagrado com o profano, representado pelo desejo sexual do suposto padre pela suposta bruxa, resultando na união dos dois, inevitavelmente atraídos um pelo outro que são os opostos. Numa leitura mais ampla, faz lembrar a história da igreja católica, construída por meio desta mescla ao adaptar ao seu universo elementos do paganismo.

    Em 26/07/2014.

  27. Rodrigues
    26 de julho de 2014

    É, tem contos pequenos que causam um impacto interessante, seja pelas ideias condensadas em poucas linhas ou por uma trama compacta e tão boa que não precisa de muitas linhas para se justificar, mas nada disso acontece aqui. Serei breve em engraçadinho como o conto: não gostei.

  28. rubemcabral
    26 de julho de 2014

    Não gostei. O inicio antes da revelação até está bem escrito, só notei um erro de concordância verbal, mas esse final botou tudo a perder.

  29. José Geraldo Gouvêa
    25 de julho de 2014

    Como eu detestava o poema-piada dos modernistas, eu detesto o mini-conto raso baseado num mal-entendido fácil e descartável.

  30. Willians Marc
    25 de julho de 2014

    Conseguiu em poucas linhas contar a estória e ainda ter uma surpresa no final. Parabéns, foi sucinto, prático e engraçado.

  31. mariasantino1
    25 de julho de 2014

    Aff! Desculpem.
    .
    Obrigada pelas críticas, dicas, correções e outros.

  32. Claudia Roberta Angst
    25 de julho de 2014

    Espada em riste? Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau? Fantasias sexuais?
    Conto curto(curtíssimo) com simbologia latente.
    Gostei das imagens projetadas na narrativa. Talvez seja o começo de outra história.

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Informação

Publicado às 25 de julho de 2014 por em Bruxas e marcado .
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