EntreContos

Literatura que desafia.

E o Título? (Gustavo Araujo)

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Tão difícil quanto elaborar um final de história é pensar num título para ela. Não importa se é um romance ou conto. Comédia, drama ou um conto sobre amor. A necessidade de se condensar em uma frase, ou às vezes em uma palavra, o que há de mais importante no texto pode deixar o autor tão indeciso quanto alguém que escolhe o nome de um filho.

Muitos dizem que não se deve julgar um livro pela capa (embora eu discorde disso), mas não há dúvidas de que o título que se dá à história tem um poder enorme de atrair ou de repelir leitores, na medida em que desperta ou afoga a curiosidade.

Fugindo um pouco do universo literário, podemos citar como exemplo disso diversos clássicos do cinema cujas traduções (se é que podemos chamá-las assim) determinaram seu sucesso ou fracasso. Aproveitando o gancho do gênero Faroeste, tema do corrente desafio no Entre Contos, podemos perguntar: o que seria de The Searchers, se a tradução para o português seguisse a literalidade simplória de Hollywood? Convenhamos,Rastros de Ódio ficou muito melhor do que um insosso e improvável Os Exploradores. O mesmo aconteceu com The Wild Bunch, que por felicidade não chegou até nós como ridículo nome O Bando Selvagem, mas sim como o mil vezes mais instigante Meu Ódio Será Tua Herança. Sem esquecer de Rio Bravo, que por aqui virou Onde Começa o Inferno e, ainda, The Man Who Shot Liberty Valance, aqui chamado de O Homem que Matou o Facínora. Os casos são inúmeros.

Naturalmente, um título bem pensado não é garantia de um texto de qualidade. Da mesma forma, um título horrível poderá iniciar uma história excelente. Há diversos exemplos nesse sentido. Citei outro dia aqui, O Sócio, de John Grisham. O título é de uma pobreza broxante. A história, porém, é das melhores. O autor americano, aliás, é pródigo em apresentar romances muito bons com títulos horrorosos, como O Júri, A Firma ou O Advogado, ainda que O Homem que Fazia Chover ouTempo de Matar representem um alento à criatividade que se espera de alguém de seu quilate.

Recentemente, tem-se apelado a subtítulos para atrair o leitor, mas nem sempre isso funciona. Títulos inteligentes dispensam qualquer pseudo-explicação. É o caso de A Culpa é das Estrelas, para ficarmos com um exemplo recente, ou de Cem Anos de Solidão, se quisermos nos referir a um clássico. Mesmo Cervantes sabia disso, quando escreveu El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha. São títulos que fazem, ou fariam, o leitor buscar mais informações, abrir a capa, ler a orelha e a contracapa.

Gosto também daqueles que fogem do óbvio, apesar de falarem de assuntos batidos, como Tocando o Vazio e O Último Lugar da Terra, em termos de literatura de aventura. Ou Corações Sujos e Os Últimos Soldados da Guerra Fria, livros-reportagem de Fernando Morais – aliás, na minha concepção, um gênio para dar nome ao seu (excelente) trabalho. Claro, sem esquecer de Estrela Solitária, uma das poucas biografias que não apelam diretamente ao nome do biografado.

Um bom título deve ter esse magnetismo natural, ser criativo e pouco óbvio. Deve apresentar a história ao leitor, fazendo com que ele queira, e mais do que isso, que considere imprescindível ler o que existe abaixo das letras garrafais. Em suma, o título deve unir o escritor a seu público, razão mais do que suficiente para que se dispense a ele o mesmo esforço criativo empregado na história em si.

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Um comentário em “E o Título? (Gustavo Araujo)

  1. Fabio D'Oliveira
    29 de agosto de 2015

    No fundo, acredito que o título deve conter a alma do texto. Ou seja, mostrar ao leitor em nível subconsciente o que ele irá ler. E só depois de terminar é que ele irá olhar para o título e entender tudo.

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Publicado às 18 de maio de 2014 por em Artigos e marcado .