EntreContos

Literatura que desafia.

Tábula Rasa (Gustavo Araujo)

Tarô1

A notícia interrompeu a novela como as trombetas do apocalipse, certamente causando taquicardia nas donas de casa que assistiam ao folhetim. De maneira improvisada, um repórter desconhecido surgiu na tela ajeitando um fone de ouvido enquanto segurava o microfone. Às suas costas, luzes giratórias alternavam-se entre vermelho, branco e azul, revelando a presença de uma ambulância. Ao fundo, um cordão de isolamento formado por policiais tentava conter um grupo de curiosos.

Com um sobressalto denunciado por um discreto arquejar de sobrancelhas, o repórter, que vestia um terno um número menor, percebeu que estava no ar. Empertigou-se todo e enfim soltou a bomba:

— O escritor André Lima foi encontrado morto diante deste edifício na noite de hoje. Uma fonte da polícia, que pediu para não ser identificada, disse que os indícios apontam para suicídio, já que não havia sinais de luta no apartamento ocupado por ele. Repetindo: o escritor André Lima foi encontrado morto na noite de hoje, tendo provavelmente se jogado do décimo andar deste prédio.

***

Ninguém pareceu surpreso quando André Cristiano de Lima foi anunciado como vencedor do Prêmio Jabuti em 2015, com o romance “Tábula Rasa”. O escritor novato já tinha levado para casa o Prêmio São Paulo, no ano anterior, sendo saudado como a maior revelação do mercado editorial desde que o jornalista Sidney Silvestre lançara “Se Eu Fechar os Olhos Amanhã”.

Façanha raríssima, André Lima se tornara fenômeno de crítica e público em pouco tempo, conquistando até os literatos mais exigentes, atingindo leitores que nem mesmo Saulo Toelho ousara imaginar. Graças a “Tábula Rasa” e seus mais de duzentos mil exemplares vendidos, a Companhia das Rocas, sua editora, passara a alardear “Quem Disse que o Brasil não lê?”. André Lima era mesmo um prodígio, uma novidade irresistível. E isso tudo aos vinte e quatro anos de idade.

Quando foi ao Programa do Bô, a entrevista bateu recorde de audiência para o horário. Muita gente queria ver o rosto por trás da “Tábula Rasa”. Para quem esperava um garoto tímido, introspectivo, a surpresa foi enorme. André Lima era a desenvoltura em pessoa e, ainda melhor, não parecia absolutamente arrogante. Quando o famoso apresentador permitia que ele falasse, o jovem autor se saía muito bem, com respostas oportunas, diretas e bem humoradas. Naturalmente conquistou toda a plateia e, inacreditável, até o próprio Bô pareceu gostar dele.

À inevitável pergunta “Quando você decidiu ser escritor?”, em meio a um e outro gole de café, André Lima respondeu: “quando fui à cartomante”. Ante à resposta inusitada, Bô riu e em seguida pediu mais detalhes. Evidentemente, a audiência queria saber mais.

— Eu tinha uns dezenove anos, morava em Belo Horizonte — começou a dizer o jovem escritor, como quem confessa um segredo profundo. — Fui à cartomante porque uma menina me convidou… Eu gostava dela, da menina, quero dizer, e fiquei sem jeito de dizer não. Aí pensei “ora, qual o problema?” De repente, poderia ser uma maneira de descobrir algo sobre mim…

— E então? — perguntou Bô.

— Então, ela virou o Sol.

— O sol?

— Sim, a carta…

— Isso significava que você deveria levar sua garota à praia?

André fingiu ter achado a piada engraçada. Deu um risinho e depois continuou.

— Não, né… Na verdade, eu até gostaria, mas, segundo a cartomante a figura tinha outro sentido. Era um sinal de que eu levava jeito para escrever, que deveria tentar a sorte nesse ofício…

— Pelo menos uma vez na vida a cartomante deu uma dentro, não? — disse Bô com um sorriso amistoso.

— Bom, espero que sim… Eu sempre gostei muito ler… Escrever acabou sendo uma consequência natural. E que bom que as pessoas gostaram do livro, né?

— “Tábula Rasa” é um trabalho fantástico — disse Bô num arroubo de sinceridade involuntária enquanto observava a capa. Só faltou dizer que o livro era melhor do que “O Xangô de Baker Street”.

— Obrigado — respondeu André Lima. A expressão tímida que exibia ao ser elogiado era irresistível.

Durante meses após a entrega do Jabuti André Lima havia frequentado a alta roda das publicações literárias especializadas. Muitos se referiam ao seu estilo como o mais contundente e o mais apaixonado desde Antonio Callado. Alguns chegaram a comparar sua prosa à de Lima Barreto e até à de Graciliano Ramos.

Celebridade instantânea, o jovem autor passou a ser convidado para debates sobre os rumos literários do Brasil – primeiro na TV fechada, mas logo ganhando espaço também nas emissoras abertas. De tempos em tempos, alguma notícia sobre traduções de “Tábula Rasa” para idiomas que iam do inglês ao árabe, do farsi ao mandarim, invadiam os cadernos de cultura da Folha de S. Paulo e do Estadão. Até O Globo abria espaço para ele.

Em pouco tempo, isso era certo, Hollywood iria transformar o best-seller em filme. Naturalmente, com as adaptações de praxe, tornando rasa a narrativa para consumo rápido.

Só que André Lima não era apenas um escritor reconhecido, um prodígio literário. Sua personalidade magnética, o fascínio com que ele falava sobre livros, a maneira como seus olhos brilhavam ao falar sobre autores clássicos e obras conhecidas, logo tornaram sua imagem bastante conhecida na mídia. A entrevista a Bô Soares fora apenas a primeira do gênero.

Para completar, André era um homem bonito. O queixo quadrado, os traços angulosos e o sorriso franco transmitiam confiança e, ao mesmo tempo, um ar de fragilidade que encantava as mulheres. Não tardou até que fosse visto em companhia de atrizes e modelos famosas. Logo estava na capa de revistas inúteis, com legendas em letras garrafais: “O Escritor Pop no Castelo de Caras”

Não raro, muita gente se aproximava dele em algum evento midiático dizendo que “Tábula Rasa” era o melhor livro que já tinham lido na vida. A maioria mentia descaradamente. Sem ter lido uma linha sequer, repetiam as críticas que pipocavam no facebook: que o romance traduzia o desespero de se perceber, apenas na velhice, de que o período mais belo de nossa breve existência se dava quando éramos estúpidos demais para vivenciá-lo em sua plenitude. Talvez por isso André respondesse sem titubear que sua maior influência para escrever fora o poeta americano Robert Frost e sua obra mais conhecida “Nothing gold can stay”.

***

O que André Lima jamais contou a Bô Soares, ou a qualquer outra pessoa, foi que no dia em que a cartomante pediu-lhe que embaralhasse as cartas e cortasse o maço em cinco montinhos, não apenas “O Sol” apareceu. Antes, a primeira carta surgida lhe dissera muito.

“O Eremita”.

— O Iniciado, o buscador incansável. Sabedoria, iluminação, estudo, autoconhecimento… — dissera a cartomante. — Você é uma pessoa determinada, do tipo que coloca uma coisa na cabeça e vai até o fim, não se importando com as dificuldades.

André balançara a cabeça, um sinal que poderia traduzir concordância, mas que também podia não significar coisa alguma. Ao ver a carta virada, repousada placidamente sobre a toalha de crochê azul que cobria a mesa, teve a mente invadida por recordações ainda frescas àquela época.

***

Na adolescência, André vivia em Passo dos Trinta, no norte de Minas Gerais, trezentos quilômetros a noroeste de Montes Claros, quase fronteira com a Bahia. Órfão de pai, naquele tempo ele se chamava Antônio Marcos (a mãe quisera homenagear o cantor, então famoso) e tinha começado a trabalhar com um tio que vendia equipamentos e produtos agrícolas aos produtores da região. Marquinho, como o chamavam, era encarregado das entregas, e para tanto utilizava uma carroça caindo aos pedaços, puxada por um burro ainda em piores condições.

Certo dia, o tio de Marquinho pediu a ele que levasse quinze sacos de húmus, além de um jogo de enxadas e rastelos, ao velho Silva Matos, um sujeito que vivia em um sítio a quinze quilômetros dali. Marquinho protestou, mas o tio foi irredutível, afinal, Silva Matos era freguês do estabelecimento há mais de cinquenta anos e nunca, nesse tempo todo, deixara de honrar seus compromissos. “Só cuidado…”, avisara o tio. “É um homem solitário. Nunca casou nem teve filhos. Vive para a terra e só. Não tem paciência. É mais grosso que junta destroncada”.

Marquinho levou mais de duas horas para chegar ao sítio do velho Silva Matos. Logo que abriu a porteira, foi saudado por um perdigueiro e um vira-lata. Ambos latiam sem parar com aquele ar abobalhado que caracteriza os cachorros grandes. Não prestou atenção neles. Seguiu calmamente na direção da pequena casa de alvenaria em meio à plantação de milho, completamente arruinada por causa da seca.

Ao descer da carroça bateu palmas antecipando o momento em que o velho surgiria mal humorado pela porta de madeira que jazia entreaberta. Nada aconteceu. O garoto repetiu a tentativa, sem sucesso. Diante da falta de resposta chamou: “Seu Silva Matos, encomenda para o senhor!” repetindo diversas vezes, sem qualquer sinal de resposta.

Impaciente, entrou pela porta. “Ó de casa”, avisou, mas ninguém respondeu. A casa tinha uma sala pequena com um corredor estreito que levava a dois quartos. Num deles, a cama estava desarrumada com algumas peças de roupa jogadas por cima dos lençóis ensebados. Uma cena natural, já que o sujeito vivia ali sozinho há milênios.

No outro quarto, porém, havia algo inesperado. Uma estante repleta de livros. Não qualquer estante, mas uma das grandes, dessas que vão de parede a parede, do piso ao teto. Uma visão surreal. Em meio àquela rusticidade toda, era algo tão improvável quanto uma tempestade de neve em Passo dos Trinta.

Marquinho ficou extasiado. Desde pequeno, contrariando toda a tradição familiar, apaixonara-pelo mundano ato de ler. Diferentemente de qualquer pessoa que conhecia, adorava passar horas debruçados sobre livros e mantinha, secretamente, um caderno com anotações de seus autores prediletos e até histórias que ele próprio escrevia.

Fisgado, começou a ler as lombadas. Érico Veríssimo, Oswald de Andrade, Jorge Amado… Havia livros que não existiam nem mesmo na biblioteca de Montes Claros. Talvez nem mesmo na de Belo Horizonte. Cedendo à tentação, puxou alguns dos exemplares e abriu-os com cuidado. O cheiro do papel era inebriante. As letras impressas, a tipografia simetricamente perfeita, as folhas límpidas, sem qualquer indício de maus tratos…

Foi quando ele notou alguém às suas costas. Com um susto virou-se imediatamente. Lá estava um homem velho, com uma longa barba desgrenhada, sentado em uma cadeira de balanço, dessas com encosto de palha. O sujeito jazia imóvel, vestindo um paletó de feltro puído. Tinha o olhar vítreo, fixo no topo da estante, os músculos enrijecidos, o braço direito caído ao lado da cadeira e a mão esquerda, enorme, apoiava-se sobre o peito. A pele curtida de sol tornava mais dramáticas as rugas que iam dos olhos ao pescoço repuxado.

O velho Silva Matos estava morto.

Não devia fazer muito tempo, pois o cadáver ainda não apresentava sinais de decomposição. Incrivelmente, Marquinho manteve-se impassível. Claro, teria que avisar seu tio e a polícia. Mas isso podia esperar. Por ora, iria escolher alguns exemplares daquele vasto tesouro para chamar de seus.

***

O primeiro romance de Marquinho ficou pronto dez meses depois. Aos dezesseis anos, tinha consciência de que se tratava de um enredo inocente e despretensioso. Era uma fábula sobre um garoto que encontrava uma passagem secreta para uma caverna repleta de tesouros. Confiante, mandou os originais para três editoras. Nunca recebeu resposta. Lidar com a frustração não foi fácil, mas ele entendeu que isso era parte do jogo, uma espécie de seleção natural onde os sobreviventes não seriam os mais talentosos, mas sim os mais persistentes.

Seus três romances seguintes tiveram a mesma sorte. Nem mesmo uma carta de desculpas de quem quer que fosse.

Nessa época, Marquinho estava com dezenove anos e tinha se mudado para Belo Horizonte para fazer cursinho. Para ajudar a pagar as contas, seu tio conseguira um emprego para ele na loja de ferragens de um amigo.

Entre aulas de física, matemática e história, além de tratar de parafusos, chaves de boca, porcas e pregos, Marquinho mantinha vivo o sonho de se tornar escritor. Foi quando conheceu Rebeca, a garota que trabalhava no caixa da loja. Ela era sua antítese: tresloucada, piercing no nariz, tatuagem de caveira no braço. Por essas razões inexplicáveis, Marquinho se apaixonou por ela. E um homem nessas condições esquece facilmente de seus princípios, valores e preconceitos.

Rebeca o arrastou à cartomante, jurando que a mulher sabia tudo. “Não erra uma”, tinha dito. E numa quinta-feira à noite, quando deveria estar assistindo à aula de química orgânica, Marquinho embaralhou as cartas e dividiu o maço em cinco montinhos. As cartas viradas revelariam tudo sobre ele, passado, presente e futuro. Dona Elvira podia ver através dele. Pelo menos fora o que Rebeca avisara.

Ao ver “O Eremita”, Marquinho lembrou-se do velho Silva Matos. Nada a ver com aquela baboseira sobre “iluminação” que a mulher fantasiada de cigana à sua frente dizia. “O Eremita” era o velho Silva Matos. Disso não havia dúvidas.

A carta que virou em seguida foi, de fato, “O sol”.

— Discernimento límpido, clareza de juízo e de expressão. Talento literário ou artístico. Sabedoria nos escritos.

Se Marquinho já era um garoto sugestionável, o veredito soprado pela cartomante terminou de empurrá-lo para o precipício daquela crendice. Pelo menos nesse aspecto.

É que aquela carta evidentemente dizia verdade. Ninguém sabia, nem Dona Elvira, nem Rebeca, que ele escrevia nas horas vagas e que mantinha consigo uns oito ou nove romances inacabados. Ora, a carta, “O Sol”, era um sinal indiscutível de que ele estava no caminho certo, que deveria ser persistente.

Quando saíram da consulta, ele confidenciou a Rebeca seus segredos. Ela ficou maravilhada com a surpresa e, sim, sim, concordou com ele que “O Sol” era uma garantia irrefutável de que o reconhecimento não tardaria a chegar.

Naquela noite mesmo, Marquinho sentou-se junto à mesa da cozinha e começou a rabiscar a sequência de um de seus romances inacabados. Chamou-o provisoriamente de “Os Últimos Grãos”. Com um sentimento de enlevo o dominando, escreveu como nunca. As ideias, antes difíceis de traduzir em palavras, agora fluíam com uma naturalidade assustadora. Três dias mais tarde Marquinho colocou o ponto final na história. Estava entusiasmado, com aquela sensação de dever cumprido, com a consciência plena de que tinha escrito o livro de sua vida.

Entregou o original a Rebeca, para que lesse e criticasse. Ela adorou. Disse que nunca tinha lido algo tão bonito, tão lírico e, ao mesmo tempo, verdadeiro.

Foi quando fizeram amor pela primeira vez. Marquinho se sentia como o dono do mundo, confiante, certo de que seria seu o destino mais dourado de todos. Em breve não estaria mais preocupado em estudar, ou em vender pregos. Seria rico, famoso, poderoso. Homens teriam inveja dele, mulheres o cobiçariam. E ele continuaria a escrever e a encantar, porque agora tinha chegado a sua vez.

Mandou cópias do original para a editora Mundo, para a Ricerd, e para a Beta-Gama. Com certeza elas entrariam em guerra por causa dele. Isso era certo. No final, quem pagasse mais levaria “Os Últimos Grãos”. E que ninguém ousasse ofertar-lhe aqueles ridículos dez por cento do valor de capa como direitos autorais. Mandaria todos às favas se precisasse. A essa altura seu nome já teria corrido todo o mercado editorial e não faltaria quem quisesse publicá-lo.

As três editoras responderam à remessa de “Os Últimos Grãos” com cartas padronizadas agradecendo o envio mas se desculpando porque a obra não se inseria em suas respectivas linhas editoriais. Isso dez meses depois que Marquinho as enviara pelo correio.

Como acontecer antes, ele não aceitou bem as recusas. Seu humor ficou péssimo. Lentamente transformou-se em uma pessoa intratável. Mesmo Rebeca se afastou dele. Diante do rompimento, ele acabou se fechando ainda mais em seu mundo, prometendo a si (e secretamente a todos) que sua sorte iria mudar. Ah, se iria. A terceira carta que a cartomante virara não deixava dúvidas a esse respeito: a roda da fortuna. Hoje você está por baixo, amanhã você manda no mundo. É só esperar.

***

Quinze meses depois, “Tábula Rasa” ganhou sua primeira edição. Marquinho percebera, logo após a recusa de “Os Últimos Grãos”, que para mudar a sua sorte precisava começar tudo de novo, do zero.

Por isso adotou um pseudônimo – André Cristiano de Lima – e enviara um novo original, desta vez apenas à editora Companhia das Rocas. Não tardou até receber um email contendo uma proposta. Logo, veio a publicação. Marquinho ficaria com 10% do valor da capa, mas isso poderia ser revisto no caso de uma segunda edição.

A roda, de fato, havia girado, trazendo-lhe fama, mulheres e bajuladores.

***

Três anos mais tarde, “Tábula Rasa” ainda estava na lista de mais vendidos, mas os editores da Companhia das Rocas queriam algo novo. De preferência uma trilogia.

Marquinho trabalhou com afinco e o resultado foi o primeiro voluma da saga “Os Impressionistas”, uma epopeia de realismo fantástico sobre um casal perdido em um universo cujos cenários seriam os quadros pintados por Monet, Van Gogh, e Gauguin.

Apesar do alvoroço e do marketing de divulgação, os resultados, no tocante às vendas, foram uma piada. Alguns disseram que se Van Gogh soubesse que seu nome seria usado em um livro tão ruim, ele cortaria a outra orelha.

Com vendas pífias e reputação abalada, André Lima deixou de ser visto em público, preferindo a reclusão. Era melhor tornar-se uma versão moderna de Salinger ou de Dalton Trevisan. Pelo menos para salvar o que lhe restava de dignidade.

“Tábula Rasa” jamais virou filme. Desentendimentos entre os representantes dos estúdios da Universal Pictures e os agentes literários de André Lima levaram ao abandono do projeto. Mesmo assim, as edições sucessivas do livro em mais de oitenta países garantiriam ao jovem autor uma vida confortável e sem sobressaltos financeiros. Foi o que lhe disseram em consolo.

Marquinho sabia, porém, que jamais recuperaria a auto estima. Talvez nunca a tivesse conquistado, na verdade.

***

Ao chegar em casa na noite em que encontrou o velho Silva Matos morto, Marquinho, retirou da mochila os cinco livros surrupiados da estante do letrado e solitário plantador de milho. Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa e Machado de Assis. Marquinho mal acreditava. Abriu um por um, saboreando os trechos lidos ao acaso.

Na ocasião, ele percebeu que o livro de Veríssimo não estava em boas condições. A capa parecia solta. Ao abrir o miolo, notou que não havia nada de “Olhai os Lírios do Campo”. As páginas tinham sido substituídas por um bloco com folhas escritas à mão. A caligrafia não era das piores, dava para ler as palavras sem muita dificuldade. No alto da primeira folha, grifado com risco simples, centralizado e entre aspas, lia-se:

Tábula Rasa

Marquinho sentiu-se atraído pelo título automaticamente. Desconhecia o significado da expressão latina, embora já a tivesse visto em algum lugar. Já na segunda página experimentava a sensação de quem fora atraído para um mundo sem volta. Varou a madrugada, extasiado com a história de Emanuel e seu desesperado apego à juventude.

Foi nesse exato dia que decidiu tornar-se escritor.

Ao ver as ideias ganharem vida, traduzidas em letras estreitas mas firmes naqueles papeis, percebeu que era possível dar vazão a seus pensamentos mais profundos, conferir-lhes forma e substância, encantar outras pessoas, moldar-lhes a maneira de raciocinar e de amar.

***

No fim, o escritor André Lima estava em casa. Esparramado em uma poltrona de couro marrom, cujas rachaduras abriam-se como fissuras em uma planície devastada, assistia à TV tendo por companhia um copo de uísque doze anos. Os olhos injetados miravam a transmissão embaciada vinda da tela. Bô Soares entrevistava o chef de cozinha Jaime Oliver que, gordo como o apresentador, defendia que as crianças deveriam se alimentar de forma mais saudável.

Marquinho lembrou da “roda da fortuna” e da sucessão de vitórias e derrotas que pontuam a vida. Mais do que isso, veio à mente a quarta carta virada pela cartomante naquela ocasião: o julgamento. Tinha chegado a sua hora.

Súbito, enxergava a si mesmo na TV. Bô o entrevistando, referindo-se a ele como “o talento literário que veio para ficar.” A lembrança de si mesmo, alegre e jovial – imagem típica de quem está conquistando o mundo – contrastava agora com sua figura em ruínas, esquecida em um edifício decadente.

Alguém bateu à porta. No início, ele achou que fosse engano, que seus ouvidos o traíam. Mas a insistência o fez despertar. Arrastou os pés até a entrada do apartamento e girou a maçaneta.

Por um momento, pensou estar delirando.

A imagem à sua frente, porém, parecia assustadoramente verdadeira. O velho Silva Matos, em pessoa. A mesma barba desgrenhada e sebosa, a mesma pele curtida de sol, as mesmas rugas repuxando os olhos e o pescoço.

— O que… — começou a dizer o escritor, para ser interrompido por um gesto daquela aparição improvável.

Emoldurado pelo umbral da porta, o velho deslizou a manzorra calejada por dentro do paletó de feltro. Lentamente, como para manter o suspense, retirou de lá uma carta de baralho. Marquinho já sabia qual era antes mesmo de vê-la. A mesma figura que, muitos anos antes, a cartomante havia lhe mostrado. A carta derradeira.

O Diabo.

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23 comentários em “Tábula Rasa (Gustavo Araujo)

  1. Iolandinha Pinheiro
    31 de agosto de 2016

    A primeira coisa que me atraiu neste conto foi a ilustração escolhida, além de mostrar as cartas do baralho do tarot, ainda me remeteu à capa do primeiro livro que li do meu autor favorito ( Cem anos de solidão – Gabriel Garcia Marquez). Gosto da maneira de como o autor, Gustavo Araújo, conduz as suas histórias fazendo com que cada conto seja vivido pelo leitor junto com o protagonista, deixando – o descobrir a verdade de maneira paulatina e sequencial, como numa novela. Gosto do jeito como surpreende e envereda por destinos imprevisíveis, fazendo com que seus escritos tenham uma marca de qualidade e estilo, que os distinguem. Mas, sobretudo, o que mais gostei, foi deste mergulho no passado do personagem, através de cada carta do tarot e dos acontecimentos atrelados aos seus significados. Um conto excepcional. Parabéns, amigo, mais um texto de qualidade apresentado aqui. Um grande abraço. Iolanda.

  2. Frank
    26 de fevereiro de 2014

    Gostei muito do conto; as referências a lugares e aspectos da vida de André Lima me lembraram um certo participante (o domínio da escrita também – verei se estou correto). O que me incomodou um pouco foi o tamanho do conto, não por se grande, mas por ser grande em função de alguns trechos que achei desnecessários. A revelação do verdadeiro autor do conto também foi muito boa. O final, meio fraco. Contudo, no conjunto, este conto é uma obra-prima. Parabéns!

  3. Blanche
    26 de fevereiro de 2014

    Muito bem escrito. A leitura fluiu sem maiores problemas, gostei muito dessa alternância entre drama e comicidade… Mas o final foi um balde de água fria. Geladíssima, aliás. Fraquíssimo em comparação ao resto do conto.

    De qualquer forma, parabenizo o autor pela narrativa extremamente dinâmica e repleta de referências. Parabéns. 😉

  4. Pedro Luna
    26 de fevereiro de 2014

    No geral eu gostei. Ri demais com o BÔ. Inclusive porque o autor retratou fielmente suas piadas fora de hora que interrompem o entrevistado. Boa sacada. A trama é interessante e só achei o final um pouco inferior ao começo e meio do texto. Tem muitas informações no conto, mas ele não soa cansativo. Prbns.

  5. Thata Pereira
    26 de fevereiro de 2014

    Eu gostei do conto e das trocas dos nomes reais, como o Jô. Mas uma coisa me incomodou: se o(a) autor(a) trocou alguns, acho que poderia ter trocado todos…

    O final ficou corrido, mas no geral eu gostei bastante.

    Boa Sorte!

  6. Bia Machado
    25 de fevereiro de 2014

    Gostei do conto, ou de maior parte dele. A parte final foi muito corrida (por causa do prazo terminando?), e acho que a última frase foi desnecessária. Eu estava tentando adivinhar qual seria a carta, e quando o autor me revelou, fiquei chateada, rs… Mas é uma boa prosa, com certeza. E gostei bastante das trocas dos nomes, rs.

  7. Weslley Reis
    24 de fevereiro de 2014

    Os nomes reais trocados, de início, me soaram forçados. Mas logo passaram a me inserir de uma forma gostosa na trama. A narrativa é boa e dinâmica. Talvez o final não tenha me agradado tanto, mas é um ótimo conto

  8. Gustavo Araujo
    24 de fevereiro de 2014

    Ladrões literários sempre rendem histórias interessantes quando bem trabalhadas. Aliás, não só ladrões literários, mas de músicas, de roteiros, enfim, de idéias (esses são os mais numerosos). Confesso que não gostei do início – esse prólogo com o repórter ficou muito pastelão – e nem do final. Com certeza, a última frase é dispensável. Deveria ter ficado a critério do leitor descobrir a carta que o velho tinha mão – o diabo ou a morte – o que levaria a um final aberto, muito mais interessante. Os nomes adaptados das figuras proeminentes da mídia me fizeram lembrar das historinhas que o Carl Barks criava para o Tio Patinhas. Lá Tarzan virava Barzâ, por exemplo – bons tempos, rs. Boa sorte no desafio!

  9. Leonardo Stockler
    24 de fevereiro de 2014

    Não tenho do que reclamar neste conto. Narrativa e diálogos perfeitos. Fui envolvido pela sua leitura como poucas vezes tinha sido. Tá o fino da bossa, pra não dizer outra coisa. Mas concordo com o Eduardo Selga: esse fantasma é mesmo necessário?

  10. Edson Marcos Nazário
    19 de fevereiro de 2014

    Vi (três vezes) um filme chamado “As Palavras” com Bradley Cooper e Zoe Saldana, com uma idéia bem semelhante à sua, por isso, gostei bastante do conto.
    Não tenho comentários negativos. Muito bem escrito e narrado. Parabéns e boa sorte!

  11. Wesley Nunes
    18 de fevereiro de 2014

    O conto está ótimo.
    Sabe trabalhar bem com os detalhes e começar em tom de noticia de um toque especial para o texto.Foi bem criativo mudar os nomes de ícones e editoras que já conhecemos.A historia para alguns pode parecer previsível , mas para mim a forma com que foi contada é que me chamou atenção que acabou nem sendo tão previsível. Não achei longo e sim rico em detalhes e bem construído.
    Para ser um pouquinho chato , houve momentos em que a historia correu de mais e outros que ficou meio lenta ( nada que prejudique a leitura)
    Parabéns e boa sorte.

  12. Pedro Viana
    18 de fevereiro de 2014

    Ótimo conto. Um dos meus preferidos. Além de ter sido muito bem escrito, criou uma trama “quebra-cabeça” que foi se encaixando ao longo do texto. Usar escritores como personagens principais é um truque ardiloso e muito engenhoso aqui no EC, ao meu ver. A intenção é criar empatia com o leitor. E todos nós aqui somos escritores, então “a coisa da empatia” é mais instantânea que miojo. O final, como já dito, foi um pouco fraco, mas não apagou o brilho do conto. Meus sinceros parabéns!

  13. Paula Melo
    17 de fevereiro de 2014

    Conto bem escrito e estruturado,confesso que me cansei um pouco na leitura pelo tamanho.
    Gostei bastante da ideia,Parabéns!

    Boa Sorte!

  14. Anorkinda Neide
    17 de fevereiro de 2014

    OLha, eu gostei bastante deste conto, principalmente após saber a origem do romance Tábula rasa e o desfecho tb bem interessante, podia ser melhor trabalhado, mas não tirou o brilho no meus olhos!
    parabens!

  15. Rodrigo Arcadia
    17 de fevereiro de 2014

    Gostei do conto, da trama envolvida. do ironismo e as referencias de autores conhecidos. As partes divididas quebra um pouco o ritmo da leitura, mas na minha opinião não estragou. Bom conto.

    Abraço!

  16. Claudia Roberta Angst
    16 de fevereiro de 2014

    Conto bem escrito com doses de ironia e criatividade. Gostei da relação dos personagens com pessoas famosas e seus nomes levemente disfarçados. Um tanto longo para o meu gosto e as divisões travaram um pouco a leitura. No entanto, nota-se o bom trabalho em toda a narrativa. Boa sorte!

  17. Eduardo Selga
    15 de fevereiro de 2014

    O conto apresenta uma boa dose de ironia, e algumas menções caricatas que lembram imediatamente os badalados escritores Edney Silvestre, Paulo Coelho e Jô Soares, além de algumas editoras conhecidas no mercado. Sobretudo, há uma bela autoironia: o autor deste conto é o mesmo personagem da estória. Como se o personagem André Lima, que no conto se suicida, escrevesse sua própria história de vida, incluindo o momento da morte. Esse tipo de recurso, quando bem usado, põe o leitor em estado de suspensão, fazendo a pergunta: afinal, o que eu estou lendo é ficção ou realidade?

    Entretanto, como em vários contos que desfilam nesta passarela, parece haver uma exagerada preocupação com a quantidade de caracteres, como se fosse essencial preencher a cota de máxima de 3500 palavras. Disso resulta uma profusão de situações perfeitamente dispensáveis, no topo ou em parte. As partes do conto que se encontram nessa condição são como água em excesso e sem canalização: transborda. No caso específico de “Tábula Rasa”, foi negligenciado um aspecto bem interessante: o verdadeiro autor surgir como um fantasma. Isso deveria ser melhor explorado.

  18. Ricardo Gnecco Falco
    15 de fevereiro de 2014

    Bem escrito. A trama se desenvolve com “desenvoltura” e a história culmina onde o autor provavelmente desejava que culminasse, desde o início. Isso denota um grande domínio mental e a capacidade do autor desta obra de, justamente, esculpi-la conforme imaginada. Só isso já valeria muitos pontos, porém o autor ainda consegue somar uma boa escrita; correta; coesa. Parabéns pela criação!
    Agora (só para provocar, mesmo…), quando o autor conseguir substituir os ” *** ” por frases que cumpram o objetivo de conectar cada uma das “partes” de sua narrativa… Aí sim, livre destas rupturas, teremos uma narrativa primorosamente próxima da perfeição! 😉
    Boa sorte!
    Paz e Bem!

  19. Jefferson Lemos
    15 de fevereiro de 2014

    Um conto bem escrito, mas que não me encheu os olhos. Creio que tenha sido a história que não me interessou.
    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

  20. Tom Lima
    15 de fevereiro de 2014

    Tenho problemas com sua última frase e com o cliché da cartomante, seu conto seria ótimo sem ela. O simbolismo do Eremita e da Roda estão ai, pra mim isso é mais que o suficiente para um conto inspirado nos Arcanos.

    Gostei de ler, foi bastante divertido e fluido. O verdadeiro autor do “Tábula Rasa” foi uma boa surpresa para mim. No início achei estranho interromperem a novela para noticiar a morte de um escritor, mas logo depois você explicou o porquê. Gostei bastante disso.

    Parabéns!

  21. rubemcabral
    15 de fevereiro de 2014

    Gostei bastante do inicio até o meio do conto, mas achei o final bem fraco, infelizmente.

    O texto está bem escrito, só reparei nuns dois typos, e o conto “desce” com grande fluidez.

    Provavelmente, ou a pressa de entregar o conto justo no último dia, ou o limite de caracteres, cobrou seu preço.

    De qq forma, um bom conto!

  22. Pétrya Bischoff
    15 de fevereiro de 2014

    Certamente está bem escrito e narrado. O autor fez-nos conhecer bem a personagem. Achei legal o fato dele roubar a estória de outrem e nunca mais conseguir fazer sucesso. É um fracassado, sim! Meio sádico, mas gostei de saber isso^^
    No entanto, o conto não me encantou. Somente o li mesmo. Boa sorte 😉

  23. Felipe França
    15 de fevereiro de 2014

    Dá gosto ler contos como este. O tema é difícil de ser trabalhado, mas parece que aqui o autor, André de Lima, com maestria consegue transmitir através de palavras cadenciadas e bem escolhidas toda a trama. Toda a narrativa é rica em detalhes, e os personagens completam toda a saga. Senti, por parte do autor, um certo desejo em relação as letras, entretanto ciente de seus percalços. Minha única crítica é que algumas partes do enredo ficaram superficiais, contudo nada que tire o brilho deste maravilhoso conto. Parabéns! Ao infinito… e além.

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Publicado às 15 de fevereiro de 2014 por em Tarô e marcado .