EntreContos

Detox Literário.

A Roda da Fortuna (Pedro Luna)

O posto de gasolina ficava na entrada de uma pequena cidade chamada Beckett, no interior do Texas, e pelas manhãs era de total responsabilidade de Eva Wilker. Era o primeiro emprego de Eva, e ela agradecia todas as manhãs a Deus pelo que chamava de ‘’ Sorte Grande’’. Sua rotina era abrir a loja de conveniência do posto as sete da manhã, ligar as bombas de gasolina, e ficar fazendo palavras cruzadas esperando algum cliente aparecer. Só que eles raramente apareciam. Geralmente, quando o fim da tarde chegava, Eva fechava o caixa e contava poucas centenas de dólares. Poucos abasteciam ali, e a loja de conveniência não era lá essas coisas de variedade. Beckett era uma cidade tranquila, de gente tranquila, e aquela calmaria nos negócios não incomodava Eva. Primeiro, porque ela não era a dona do posto. E segundo, porque se não fosse calmo, não seria Beckett.

Naquela segunda-feira, ela havia aberto o posto e ligado as bombas no horário habitual, e após varrer a frente da lojinha, sentou-se atrás do balcão e ficou a pensar na vida. Pensava no que faria no fim de semana de folga e se assustou quando um homem usando uma jaqueta de couro preta entrou na loja e pediu para usar o banheiro. Ela se recompôs e indicou as portas dos banheiros ao fundo.

Que homem bonito.

Era oito e meia da manhã e as coisas estavam começando a acontecer.

***

Louis Straker dirigia alucinadamente pela US 175 com o antigo Opala vermelho de sua mãe. Ignorando qualquer limite de velocidade e focado apenas no horizonte, o homem de trinta anos recém completados procurava por algo, mas não sabia o que. Os olhos vidrados na estrada, o cigarro no canto da boca, as duas mãos fincadas no volante e o corpo arqueado para frente, ignorando o encosto do banco, podiam dar a impressão de que ele tinha pressa para chegar em algum lugar. Sim, exatamente isso. Mas Straker não sabia se era um lugar, ou alguém, ou qualquer coisa. Ele tinha pressa para encontrar o que sua mãe dizia que ele encontraria. Ela o havia dito no início daquela manhã, logo após ele ter enfiado a cara de Peter Rodrick em um saco plástico e o sufocado até a morte.

Após o assassinato, Louis cheirou algumas carreiras de cocaína na barriga de Peter e deixou a casa dele, onde tinham passado a noite usando drogas e desenhando demônios nas paredes. Quando chegou em casa, teve outra crise de paranoia e jurou que Peter Rodrick viria do inferno para sufoca-lo com o travesseiro enquanto dormia. Por isso, não podia dormir. Cheirou mais algumas carreiras e acordou a mãe. Ela protestou e Louis a esbofeteou algumas vezes, dizendo que queria jogar.

– Cheque as cartas – ele ordenou. – Cheque as malditas cartas. Eu não sei o que fazer.

Sua mãe, ciente dos acessos de insanidade do filho, preparou a mesa enquanto o homem falava sozinho. Quando as cartas já estavam distribuídas, ela pediu que ele puxasse a carta.

– O LOUCO – ela gritou.

Straker gemeu e se encolheu na cadeira. Já havia jogado as cartas mil vezes com sua mãe, mas nunca havia escolhido O Louco. Ele tinha um medo declarado dessa carta. Totalmente irracional. Levou as mãos à cabeça e começou a arrancar os cabelos.

– Não quero mais jogar – ele suplicou. E como sua mãe já esperava, passou de ditador maluco para o papel de criança confusa e indefesa. A mulher observou a carta na mesa e passou a mão no rosto esbofeteado. Era a hora de uma nova abordagem.

Ela foi até o jardim e empurrou um antigo vaso de plantas. Cavou um pouco com as mãos e retirou um saco do buraco. Rasgou o saco e pegou o antigo revólver do falecido marido. Conferiu as balas e voltou para o quarto.

– Pegue a arma, Louis – disse ela, pondo o revólver nas mãos do filho. – Você precisa partir agora, e depressa.

Ele tremia, olhando assustado para a arma.

– Ma… mas…

– Você fez algo terrível essa noite, não fez? Eu posso sentir que fez.

Louis viu Peter Rodrick morto, com o saco preso em sua cabeça. Peter, o seu amigo de infância que lhe ensinara a montar armadilhas para animais, e que depois lhe levou para as melhores festas que se podia encontrar nos subúrbios de WorthCreek. Peter, o mais leal dos amigos e o homem mais bonito que Louis já havia conhecido. Peter, que havia cometido o erro fatal de ameaçar abandoná-lo. Ele não tinha esse direito.

– Fiz… fiz sim, mamãe – por fim ele respondeu, soluçando e caindo no choro.

– Cale a boca e seja homem – ela o esbofeteou. – A carta do Louco foi a revelação de sua vida, Louis. O Louco significa busca. Existe alguma coisa esperando por você, em algum lugar.

– Existe? – ela conseguira ganhar sua atenção. – E o que é?

– Não posso lhe dizer o que é. Nem as cartas se atreveriam a dizer. Mas chegou sua hora, meu filho. Chegou a hora de sair de WorthCreek e enfim encontrar o seu propósito. Ele te espera.

Louis alisava o revólver. Sua cabeça doía e por um segundo sentiu vontade de meter o cano do revólver na boca e estourar seus miolos. Ou quem sabe estourar os miolos de sua mãe? No entanto, lembrou de algo que lhe deu um sopro de esperança. Lembrou de quando Peter falava de uma grande viagem de carro, e de como eles iriam sair barbarizando pelo estado. Peter. Poderia ele estar usando as cartas para se comunicar? Ele sempre falava dessa viagem.

– Mãe. Devo ir de carro?

A mulher ficou momentaneamente sem reação, mas já havia percebido que Louis mordera a isca. Não podia fraquejar.

– Deve. O Opala é todo seu.

Sim. Tudo se encaixava. Peter havia usado a carta do Louco para se comunicar. Não havia outra explicação. Era preciso ir.

– Então, eu vou.

Louis se levantou e saiu correndo, com a arma na mão. Pegou a chave do carro na mesa da cozinha e disparou porta afora sem falar com a mãe. A mulher caminhou lentamente até a varanda e viu o Opala cantar pneu, sair da garagem e desaparecer na rua. Parte dela sentia remorso, mas a outra sabia que não havia outro jeito. Esperava que Straker batesse o carro, atirasse em alguém e fosse preso ou até mesmo se matasse. E se ele por acaso voltasse, não havia problema. Ela não estaria mais na casa.

Louis pretendia seguir a US 175, mas antes precisava pegar Peter. Foi até a casa de seu amigo e estacionou o carro na garagem. A manhã ainda dava seus primeiros suspiros e portanto não haviam outras pessoas na rua. Ele carregou o corpo de Peter e o pôs no porta-malas. Em seguida, voltou a casa e após uma rápida busca encontrou pinos de cocaína atrás da privada do banheiro. Cheirou algumas carreiras e se sentiu pronto para a maior viagem de todos os tempos. Como dizia Peter: iriam barbarizar por aí.

***

Larry Hubbard estava nervoso. Era a primeira vez que cruzava o estado dirigindo o velho Buick de seu pai. Tinha apenas vinte e três anos e só recentemente havia tirado a carta de motorista. Se fosse ser sincero, diria que não dava muita bola para a arte de dirigir. Mas como o seu pai sempre dizia, dirigir é coisa de homem e o homem que não dirige não chega a lugar nenhum, são os outros que levam ele. Coisas de um velho besta, pensava Larry. No banco do carona do Buick, sua namorada Marie se divertia com o seu nervosismo.

– Relaxe, Larry – disse a moça, que tinha a mesma idade de Larry e o namorava desde os quinze. – Não tem carros nessa estrada. Você não bateria nem se dirigisse com os olhos fechados.

O motorista resmungou e forçou um sorriso para Marie. Por um lado ela estava correta, pois não haviam outros carros na US 175. Já fazia um certo tempo desde que haviam visto a última cidadezinha e pelas contas de Larry, ainda demorariam duas horas para chegar em Houston. Sem cidadezinhas, sem carros, sem porra nenhuma. Aquela estrada era o paraíso para os motoristas inseguros, mas nem assim ele conseguia ficar relaxado.

– Preciso fazer xixi – disse Marie.

– Faz na garrafa.

A moça bateu no ombro de Larry e deu uma risada gostosa.

– Faço no banco se você não parar.

– Nem pensar. O seu xixi ácido iria derreter tudo.

Larry e Marie se entreolharam e começaram a rir.

– É sério, Larry. Eu estou mesmo apertada.

– Eu acho que logo a frente vai ter uma cidade – disse ele, e tentou se lembrar da rota que viu no mapa. Forçou a vista e viu algo se desenhando no horizonte. – Na verdade, acho que já estou vendo.

– Graças a deus – disse Marie. – Acho que é um posto de gasolina.

O posto já podia ser visto, apesar do forte sol da manhã. Marie olhou o relógio e viu que eram oito e trinta e cinco da manhã. Se não demorassem, poderiam chegar em Houston antes do almoço.

– Vou aproveitar e abastecer – disse Larry.

O motorista manobrou o carro e adentrou o posto, parando ao lado da bomba de gasolina. Marie desceu correndo em direção a loja de conveniência e Larry desceu lentamente, esticando as pernas. Como era bom uma pausa. Ele abasteceu o carro e foi até a loja.

Abriu a porta e se sentiu abençoado pelos deuses com o sopro do ar-condicionado em seu corpo. A moça do balcão deu uma risada.

– Dia quente – ela disse.

– Sim. Acho que quanto mais nos aproximamos de Houston, mais o sol castiga – ele respondeu, em seguida procurou Marie com os olhos. – Minha namorada ainda está no banheiro?

A moça do balcão confirmou com a cabeça e Larry pensou que era a balconista de posto mais bela que ele já havia visto. Leu o nome no crachá e também o achou bonito: Eva.

Larry pagou o combustível e quando deu o dinheiro para Eva, suas mãos se tocaram por um segundo. Ela sorriu desconcertada e abaixou a cabeça e ele se sentiu muito bem.

Ah, velho Larry. Quase dez anos namorando e você ainda tem balas na agulha.

– Vão para Houston? – perguntou Eva.

– Sim. Vamos fazer umas compras. O velho consumi…

Mas ele foi interrompido por um Opala vermelho que entrou rasgando no posto. Ele e Eva ficaram boquiabertos com a manobra que o carro fez, quase atingindo uma das bombas. Depois, o carro parou próximo a loja e um homem desceu. Era alto e magro, tinha longos cabelos loiros e usava roupas Jeans esfarrapadas. Larry ficou um pouco chocado quando viu o rosto do homem: era um rosto ossudo, com uma rala barba loira, e com olhos vermelhos e arregalados. O rosto de alguém que parecia alucinado.

– Essa não – sussurrou Eva. – O que esse maluco vai querer?

O homem do Opala caminhou decididamente para a loja e Larry sentiu o coração apertar. O homem empurrou a porta e entrou, fitando as duas pessoas ali presentes. Depois olhou ao redor da loja, como se procurasse mais alguém e sorriu: dentes podres e amarelados.

– Vai servir – disse ele, e tirou um revólver de dentro das calças.

Eva deu um pulo para trás e Larry levantou as mãos automaticamente. O homem com a arma fungava e balançava a cabeça, olhando de Larry para Eva, de um para o outro, como se estivesse escolhendo.

– Quem vai ser primeiro? – Ele sussurrou para si mesmo e Larry sentiu um terror invadir o seu coração. Suas pernas ficaram bambas e ele questionou se poderia contar com elas para correr e fugir. Mas o verdadeiro terror lhe acometeu quando ele ouviu um barulho de porta abrindo atrás de si e lembrou de Marie.

Não, Marie. Fique aí escondida.

Larry viu o rosto do homem com a arma se abrir em surpresa e soube que ele tinha visto Marie. Não queria se virar e talvez levar uma bala na nuca, então se preparou para gritar e pedir que Marie ficasse tranquila e que tudo acabaria bem, quando o homem levantou a arma e apontou para ela. Larry agiu mecanicamente e se virou.

Viu que Marie estava imóvel, assustada, olhando para aquela situação e tentando entender o que estava acontecendo. Um segundo depois, o tiro lhe abriu um rombo no meio da cara, deixando voar filetes de sangue e jogando sua cabeça para trás. Larry quis gritar, mas sentiu a voz falhar. Marie tombou de joelhos e caiu de lado. Os olhos ainda abertos, só que ela já estava morta.

***

Antes de entrar no banheiro do posto de gasolina onde Eva Wilker trabalhava, o homem da jaqueta de couro preta, Bob Hernandez, planejava assaltar algum estabelecimento. Na noite anterior, ele havia sido solto da cadeia de WorthCreek após uma semana preso por assaltar uma farmácia. Mas quando a porta da delegacia se abriu, por ela saiu um novo Bob, um bandido que queria evoluir. Um bandido que não queria mais ser preso pelos mesmos policiais e dormir alguns dias na mesma cela e na mesma cama que lhe dava coceiras. Estava se tornando previsível, e isso o desagradava. Quando saiu, passou na casa de sua namorada e prometeu a ela um presente. Após um sexo rápido, mas satisfatório, ele se despediu dizendo que iria dormir na casa da mãe e tentar fazer as pazes com ela. Mentira. Bob pouco ligava para sua velha mãe bêbada e drogada. Ao invés disso, ele foi até um bairro distante, onde morava uma velha cartomante conhecida na cidade. Bob conhecia as histórias envolvendo essa cartomante e seu filho, um dos caras mais malucos da área, que se entupia de drogas nos guetos mais sombrios de Worthcreek. Um bom ladrão devia ser precavido, devia saber quando a sorte lhe estava favorável. Bandidos de verdade sentiam a sorte por perto apenas levantando o nariz e cheirando o ar. Ele achou melhor consultar as cartas.

A velha cartomante o reconheceu de imediato, e ele não se surpreendeu, afinal, já colecionava prisões por diversos delitos pequenos e era bastante popular na pequena cidade. Bob explicou que queria apenas jogar e saber de seu futuro. A velha assentiu e assim eles jogaram. Quando o jogo acabou, Bob sabia que estava no caminho certo. A Roda da Fortuna havia sido sua carta escolhida, e as palavras da velha o eletrizaram.

– A sorte está por perto. Você pode senti-la?

Ele sorriu para a cartomante.

– Minha senhora, ela está tão perto que eu até posso sentir o cheiro dela.

Saiu de lá decidido. Iria a Beckett, uma cidade próxima, e iria fazer um grande roubo. Com o dinheiro, compraria o presente para a namorada e a pediria em casamento. Ele dormiu na casa de um amigo e no dia seguinte acordou muito cedo, pegou a moto dele emprestada e seguiu pela US 175 até Beckett.

Quando chegou na bifurcação para entrar na cidade de Beckett, ele notou que haviam dois únicos estabelecimentos naquela região. Um posto de gasolina tranquilo e do outro lado da estrada, um pequeno restaurante. Bob notou uma mulher varrendo a frente da loja do posto e podia apostar que só havia ela ali. O restaurante estava vazio de clientes, mas havia três garçons encostados no balcão. O posto, a sorte indicava o posto. Seria simples. Entraria, trancaria a moça no banheiro ou então a faria desmaiar com um soco e depois sairia com a grana. Assim, ele estacionou a moto atrás do restaurante e atravessou a estrada, sentindo-se confiante. Quando pôs as mãos na porta da loja do posto, sentiu o intestino lhe trair e uma terrível dor de barriga o atingiu em cheio. Pensou rápido e viu que não teria jeito. Entrou, e perguntou aonde era o banheiro.

***

Sentado na privada, Bob amaldiçoava a sorte quando ouviu outras vozes no posto e ficou furioso. Podiam ser clientes passageiros, mas, e se fossem policiais? Bela hora para uma dor de barriga. Roda da Fortuna uma ova.

Foi então que ouviu um tiro e prendeu a respiração. Após segundos de silêncio, ele ouviu gritos e sentiu o intestino afrouxar novamente.

Que porra está acontecendo lá fora?

Empunhou seu revólver e esperou. Vieram mais gritos e em seguida silêncio. Após alguns minutos, ouviu diversos barulhos e não soube identificar nenhum deles. De repente, ele tomou conhecimento de si mesmo, sentado no vaso, com a arma na mão, morrendo de medo. Que diabos de bandido ele parecia? Mandou um foda-se e limpou a bunda, depois se vestiu e saiu silenciosamente da cabine. Na ponta dos pés foi até a porta e a abriu delicadamente, criando uma fresta.

Do lado de fora, havia uma moça morta no chão e um homem e uma mulher amordaçados e amarrados juntos, um de costa para o outro. Em pé, um sujeito que parecia um maluco derramava um galão de gasolina por toda a loja, inclusive molhando as pessoas amarradas. Bob notou primeiro que a mulher amarrada era a funcionária do posto e depois notou que o sujeito maluco havia encharcado a loja com gasolina e que se ele fizesse o que Bob achava que faria, o lugar iria arder que nem o inferno.

Não vou queimar nessa porra de lugar.

– Vamos barbarizar – dizia o sujeito com a gasolina. – Vamos barbarizar, baby. E isso é só o começo. No final, vamos encontrar o pote de ouro. Peter, essa é para você.

Ele largou o galão e foi até a porta, tirou do bolso um isqueiro e olhou para as duas pessoas amarradas, que se mexiam e grunhiam desesperadas.

– Não vai doer – ele disse, e fez o movimento para acender o isqueiro, quando Bob empurrou a porta do banheiro e acertou um tiro no pescoço do maluco, o matando na hora.

A mulher e o homem amarrados olharam para trás e viram ele sair do banheiro com a arma na mão. A funcionária começou a grunhir e Bob acenou para ela. Ele foi até o caixa e ficou ainda mais furioso quando viu que praticamente não havia dinheiro nele. Foi até a moça e tirou o pano que a amordaçava.

– Cadê a grana?

A funcionária parecia não acreditar. Gaguejou e Bob apontou a arma para ela.

– Cadê a porra da grana?

– N… Não tem. Esse posto é uma merda. Não tem dinheiro. Ninguém passa por aqui. Eu…Eu juro.

Bob achou que ela era uma mentirosa, e foi então que percebeu a armadilha em que havia se metido. Duas pessoas mortas, e outras duas ainda vivas, que haviam visto o seu rosto, além de uma loja encharcada de gasolina. Que maldito inferno. Saíra de casa para um assalto tranquilo e havia caído em um inferno de sangue e morte. Não podia perder tempo ali. Se alguém aparecesse, iria se ferrar ainda mais.

Ele olhou para a funcionária e para o homem ainda amordaçado. O homem olhava para o corpo da moça morta no chão e chorava. Bob sabia que precisava mata-los, mas não tinha coragem. Matara o homem da gasolina apenas por impulso, e estava se sentido muito, mas muito mal. Como iria atirar naquelas pessoas indefesas?

Que porra de bandido eu sou. Não passo de um ladrão de galinhas.

Estava bastante nervoso e indeciso. E foi então que a funcionária falou:

– Você nos salvou. Eu não vou falar nada.

Bob sentiu firmeza na voz dela e assentiu. Ele correu para fora da loja e de lá viu que sua moto não estava mais atrás do restaurante.

Puta que pariu. Roubado ainda por cima.

Desesperado, ele notou o Opala vermelho estacionado e viu que as chaves estavam na ignição. Entrou sem pensar duas vezes e arrancou de volta a WorthCreek.

***

Na estrada, Bob mexeu no porta-luvas e achou a carta de motorista do maluco da gasolina, além de documentos do carro no nome de uma mulher. Jogou a carteira do maluco e o revólver pela janela e seguiu, se sentindo estranho e desorientado.

Quando chegar em casa, pego minha garota e vou sumir daqui.

Roda da Fortuna. Bob desejou ter o pescoço da cartomante em suas mãos. Pensava em como faria para fugir quando notou em pânico uma Blitz policial mais à frente na estrada.

Que maldito azar.

Pensou rápido e formou a história em sua cabeça: carro da minha mãe, ela mora em WorthCreek, e eu o peguei para ir a Houston.

A Blitz se aproximava e ele sabia que iria ser parado. Sabia que os policiais iriam checar a placa do carro e pediu a deus que o mesmo não fosse roubado ou envolvido em problemas.

Eu vou conseguir, é só manter a calma.

Quando chegou na Blitz e o policial o mandou parar, foi que Bob se perguntou o que aquele maldito maluco poderia ter em seu porta-malas.

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21 comentários em “A Roda da Fortuna (Pedro Luna)

  1. Frank
    26 de fevereiro de 2014

    Me incomodou o número excessivo de personagens e isso dificultou minha leitura. Os clichês também incomodaram. Tudo isso fez com que não me identificasse com a história. De qualquer modo, está bem escrito. Boa sorte.

  2. Weslley Reis
    25 de fevereiro de 2014

    É engraçado como – ao menos pra mim – o conto tem uma linguagem cinematográfica. Talvez pelos clichês. Não sei. De todo modo achei uma leitura gostosa, dinâmica e talvez não para o desafio, pela pouca exploração do tema, mas como conto eu gostei.

  3. Thata Pereira
    25 de fevereiro de 2014

    Eu gostei do conto apesar do escorregão do Opala rs’ Não me importei com os clichês porque não assisto filmes do gênero (acho que nunca assisti, até). Mas ler algo do tipo foi uma experiência bem interessante. Gostei muito!

    Boa Sorte!

  4. Leonardo Stockler
    24 de fevereiro de 2014

    Pô, eu gostei! E o que é pior (ou melhor): eu gostei dos clichês. Se fosse eu quem tivesse escrito talvez os tivesse evitado ao máximo. Teria projetado a história no Brasil e inserido algumas brasilidades do meio. Mas este sou eu. O formato está mais próximo de um roteiro de cinema do que de um conto (como o roteiro coral, no qual cada personagem compõe um ponto de vista e o núcleo de uma trama que se encontra entrelaçando tudo, como os filmes do Iñarritu). Há alguns errinhos e umas passagens que soaram bem estranhas, e de fato os diálogos soaram robóticos. O que deve ser parabenizado, contudo, é que o deixou conseguiu me deixar com vontade de querer saber o final.

  5. Bia Machado
    24 de fevereiro de 2014

    Olha, eu gostei. Imaginei toda a situação e gostei de alguns recursos usados na narrativa, como escrever uma frase e logo em seguida desmenti-la, como se quem narra estivesse fazendo suposições. Como críticas, apenas sugiro que, se a cidade é estrangeira, acho que outra marca de carro deveria ter sido usada que não o Opala, os diálogos deveriam ter sido melhor explorados. Acho também que, como é um conto escrito para o desafio sobre Tarô, a temática deveria ter sido mais bem aproveitada e eu sempre vejo esse aspecto também. Mas parabéns, reforço que gostei!

  6. Alan Machado de Almeida
    21 de fevereiro de 2014

    De todos os contos lidos por mim nesse desafio esse foi o único que me deixou na ânsia de saber logo como a história termina. Me lembrou um pouco Um Drinque no Inferno e como ele é um filme que gosto bastante mais um ponto positivo para o conto. As histórias entrelaçadas também foram muito legais. Gosto dessas tramas meio Lost que vai e volta no tempo. Resumindo, a história foi muito boa. Parabéns.

  7. Blanche
    20 de fevereiro de 2014

    Vou direto ao ponto: gostei. Conto canastrão, repleto de clichês (que me soaram intencionais) e americanizado como um bom slasher movie. É impossível deixar de citar os errinhos na narrativa e ambientação, mas o texto me prendeu e penso até que seria interessante se o autor prolongasse o mesmo no futuro com as devidas correções.

    Só acho que faltou um desenvolvimento mais aprofundado em relação aos personagens Larry e Eva. Senti falta de um protagonista fixo na trama.

  8. Felipe França
    20 de fevereiro de 2014

    O autor, neste conto, conseguiu transmitir muito bem o envolvimento dos personagens e suas dramatizações. O texto está muito bem escrito, o que ajuda a manter a fluidez da leitura. O final ficou um pouco previsível, mas isto não tira o mérito em nenhum momento. As únicas coisas, na minha opinião, que poderiam ser melhores trabalhadas seriam: a maior participação de Eva, achei que ela seria uma das protagonistas da história, e um “conserto” na parte que Larry “sentiu o ar-condicionado ao abrir a loja”. Isto deu uma “quebrada” na minha ideia de ambientação nos anos 60/70; pelos os elementos apresentados. No mais… gostei bastante da trama. Parabéns! Ao infinito… e além.

  9. Edson Marcos Nazário
    20 de fevereiro de 2014

    Neste conto consegui visualizar as cenas muito facilmente, ao contrário de alguns textos onde é preciso ler mais de uma vez pra captar a mensagem do autor. Existem alguns errinhos, mas não me incomodaram. Gostei muito do conto. Parabéns!

  10. Paula Melo
    17 de fevereiro de 2014

    Vou confessar que fiquei meio na duvida se gostei ou não,me prendeu em poucas partes mas me cansou em outras.
    E um texto que precisa ser um pouco mais trabalhado.

    Boa Sorte!

  11. Pedro Viana
    16 de fevereiro de 2014

    Não me incomodei com o estrangeirismo do conto. Nada contra o Brasil, mas gosto de pensar que a literatura nos permite viajar para lugares distantes. Porém, é impossível deixar de notar os clichês hollywoodianos espalhados pela narrativa. Isso incomodou bastante. É sempre válida a tentativa de construir uma história entrelaçada – onde vários personagens se encontram em um determinado ponto. Mas para um conto de 3500 caracteres não é um recurso fácil de ser bem empregado e, infelizmente, neste aqui o(a) autor(a) não obteve êxito completo. Enfim, é um bom conto, mas tem lá seus defeitos.

  12. Ricardo Gnecco Falco
    15 de fevereiro de 2014

    Está bem escrito. E por isso mesmo o texto leva o leitor até o final. Porém, sei lá… Não me pareceu ter acabado de ler um Conto. Fiquei imaginando este mesmo autor escrevendo sobre uma incursão na amazônia em busca de uma tribo indígena perdida, com direito a botos cor-de-rosa e sacis… 😛
    Mas valeu a leitura! A escrita é mesmo boa!
    Boa sorte!
    Paz e Bem!

  13. Gustavo Araujo
    15 de fevereiro de 2014

    Não vejo problema no fato do conto abusar dos clichês. Quando bem narrado, quando bem amarrado, o texto permanece bom mesmo ao utilizar elementos surrados. É o caso aqui. A todo tempo vêm à mente imagens de filmes americanos, mas a narrativa está tão envolvente que isso não incomoda. Ao contrário, transmite uma confortável sensação de familiaridade. Sim, o opala está deslocado na história, mas isso é um detalhe menor. O suspense criado, os personagens ambíguos, com defeitos e qualidades, o narrador que partilha suas impressões abandonando aquela onisciência enfadonha, tudo isso me prendeu. Gostei. Gostei mesmo. Como sugestão, apenas acho que o final poderia ter sido menos atropelado. Mas, no geral, o conto é ótimo. Parabéns.

  14. Rodrigo Arcadia
    15 de fevereiro de 2014

    Puts! gostei nao.
    muito clichê, muito americanizado. escrever um conto sem pesquisa do local que está pisando é bola fora tremenda.
    Abraço!

  15. Tom Lima
    15 de fevereiro de 2014

    As ideias do conto têm a cara do Tarantino, mas faltou algo.

    Os diálogos foram rasos e pecou por excesso no número de personagens. A ação ficou um tanto exagerada.

    Continue escrevendo.

  16. rubemcabral
    15 de fevereiro de 2014

    Não gostei do conto. A ideia de um texto western on-the-road não é má, porém achei a história repleta de clichês de filmes americanos… Não tenho nada contra contos passados em outros países, mas a ambientação e a pesquisa devem ser convincentes. Por exemplo, o que um Opala estaria fazendo nos EUA? Se não me engano o carro é brasileiro e inspirado no Impala e no Opel Commodore..

    Outra coisa é que o tema tarô só resvalou de leve no conto, não?

  17. Pétrya Bischoff
    15 de fevereiro de 2014

    Curti muito o conto!
    Gostei do desespero da mãe que, mesmo sendo mãe, sabe que não há outra possibilidade para o filho.
    Tudo nele foi muito bem arquitetado, todas as “coincidências”, as reviravoltas e a maneira como apresentas as personagens, bem como suas histórias e como tudo “colide” em algum momento. Tudo muito tri.
    Eu havia esquecido do corpo no porta-malas e quando o li no último parágrafo foi uma maravilhosa surpresa.
    Infelizmente não acho que esteja apropriado para este desafio, apesar de haver o elemento necessário. Penso que é um conto muito bom para um tema policial talvez.
    De qualquer maneira, meus mais sinceros parabéns! 🙂

  18. Claudia Roberta Angst
    15 de fevereiro de 2014

    Estou dividida. Primeiro, eu gostei porque a leitura fluiu fácil e a curiosidade me levou pela mão até o final do conto. Por outro lado, a semelhança com um filme não tão original, fez com que eu descontasse alguns pontinhos. A divisão das “cenas” por personagens pareceu-me mais um recurso de um romance do que de um conto. Quem sabe não renda um livro inteiro?
    Boa sorte!

  19. Eduardo Selga
    15 de fevereiro de 2014

    Com todos os demônios, Cigano Sandro! Que maldita repetição da palavra “maldito”(a) e de tantas outras! Está extremamente parecido com certos filmes, e não é somente em função dessa palavra, comum em western, policiais e outros “filmes de ação”: vários elementos da narrativa são elementos dessas narrativas midiáticas, como, por exemplo, a estrada reta e vazia, o posto de gasolina no meio do nada, manobras extremadas com carros, morte teatralizada da personagem, a súbita dor de consciência do bandido na hora de atirar etc. Arrematando, mais um clichê: o bandido da trama tem sobrenome latino (Hernandez), de modo que o texto está mais parecendo um roteiro de filme que um conto, no que se refere à estruturação da trama.

    Ao mesmo tempo, não parece um conto pelo fato de não ter unidade dramática, ou seja, há dois núcleos distintos onde a ação decorre, e o fio que une um e outro não justifica que o primeiro seja tão extenso. Talvez fosse o caso de reduzi-lo, transformá-lo em flashes de memória, algo assim. Ou simplesmente eliminá-lo, desde que o tarô aparecesse doutra maneira. Aliás, parece-me que as cartas foram apenas pretexto, a partir do qual o primeiro núcleo foi construído. O texto se transformou num “embrião de romance” por causa dessa dispersão dramática, e também pela “superpopulação”. Digo isso porque o conto é o gênero do instante dramático, se você detalha um passado para esse instante, o gênero fica comprometido.

    No texto acontecem aqui e ali a presença de uma característica que deveria ser mais aproveitada, por dar um efeito narrativo interessante: o narrador deixa de estar em terceira pessoa onisciente e passa a ser a voz de algum personagem, para depois voltar ao modo original. Essa mescla de vozes é muito boa, literariamente falando e merece melhor trato.

  20. Anorkinda Neide
    15 de fevereiro de 2014

    Puxa vida!!! hehehe gostei do conto! parabens!

  21. Jefferson Lemos
    15 de fevereiro de 2014

    Sinto em dizer que não gostei.
    Os diálogos ficaram um tanto robóticos, os nomes acabaram não combinando e o número de personagens acabou por quebrar o elo de ligação que seria possível, caso as personagens fossem mais trabalhadas.
    Apenas minha opinião. Espero que outros possam gostar.
    Parabéns e boa sorte!

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Publicado às 15 de fevereiro de 2014 por em Tarô e marcado .