EntreContos

Detox Literário.

Paralaxe (Leonardo Stockler)

paralaxe

Guatemala, 1954

Um grande salão. A vida. Fora do tempo e do espaço. À minha frente aquele que dá as cartas – ou vocês, que me vão lendo. Todos, de qualquer forma, dispondo do tempo necessário para me julgar. Eu, que tive muito menos tempo para avaliar os meus caminhos, as minhas alternativas, é em minha carne que se inscreverá minha condenação. Condenação? Minha dupla condenação. E por esta palavra entendo qualquer cárcere, este cárcere que é a vida, este enorme salão fora do tempo espaço, qualquer ilusão de livre-arbítrio, a própria culpa. O destino: jogo de espelhos que refletem miragens, caminhos que não teríamos tomado, mesmo diante da oferta de refazermos o percurso desde o começo. Tudo de novo: os mesmos erros, as mesmas surpresas, as mesmas hesitações. Grande salão; músicos embriagados, de dedilhados raivosos, tocando para convidados embriagados. Convidados a comparecerem às suas próprias condenações, e por culpa de quem? Estou a esperar meu veredito para poder ir dançar junto aos outros.

Fumaças de charuto; tecidos vermelhos decadentes; garrafas de rum amontoadas na cozinha de onde entram e saem os funcionários; chapéus panamá; ciganos. À minha frente tenho aquele que dá as cartas, esperando que eu me desfaça destes delírios, devaneios, complicações da hora noturna, esperando para virar na superfície plana, sobre o feltro verde da mesa, as mesmas cartas de sempre. O Carro, um naipe, um número – a ordem do universo traduzida na irresponsabilidade de um baralho, guia num mapa de caos e acaso – e sabe o que poderia ser? Cada carta trás significados negativos seu verso e algo que talvez pudesse sugerir a tranquilidade de uma realização também significaria a injustiça de um governo ilegítimo. O universo… Verso… Reverso. Como? Uma carta que é difícil de ser interpretada e nos mostra um soberano avançando em sua carruagem, conquistando, como na visão de Ezequiel. E para nós, que estamos vendo, ela só quer dizer lacunas e ziguezagues (como a memória). Mas se há um número finito de cartas, e uma quantidade limitada de variações, então há um número finito de possibilidades, expressas, todas elas, na simbologia de alguns poucos arquétipos que dão conta de nossa limitada criatividade – cosmogonias, linguagens. E a história da humanidade, portanto, também está fadada a se repetir e a aprisionar na monotonia de seu tédio o enredo das nossas vidas particulares, das grandes tramas, grandes intrigas, rumos de nações inteiras, golpes de estado, encontros à hora marcada em uma esquina perdida num árido vilarejo sob a sombra do vulcão Santa Maria, ou o instante em que um triângulo amoroso expõe-se numa troca de olhares, cada um de um lado da mesa, desconfiando-se e traindo-se.

– Você vai ter o tempo que quiser depois, Sal… – ele, o soldado encarregado, ia me dizendo, antes que eu me visse forçado a interrompê-lo.

– Sal, é como Giovana me chamava.

– Giovana? É esse o nome dela?

Quem é Giovana? Talvez apenas outra carta. Uma das partes na figura dos Namorados. Dúvidas, muitas perguntas. Também pode dizer covardia. Mas e Giovana? Talvez ela fosse um desejo: o Diabo. Ou talvez o arrependimento: o Enforcado. Em outro momento, em outra leitura, ela iria adquirir outro significado, e nossa vida seria um pântano de desperdício e violência, encruzilhadas de promessas canceladas, fantasias frustradas porque se encontravam no caminho de conflitos maiores, capazes de atropelar o poder de escolha de indivíduos solitários, fracos, entregues à impertinência de uma paixão óbvia demais, errada demais. Mas e Octavio? Bastava um naipe diferente, um outro número, para transformá-lo num breve coadjuvante. E se a carta não virasse, a história teria sido outra? Ou, do contrário, a história sendo outra, a carta não teria virado? E por que dividir em antes e depois eventos simultâneos? O transcorrer da nossa experiência, seja ela ou não um fracasso, sempre a correr junto com o jogo de cartas… Ele, aquele que teve a sorte, ou o azar (quem sabe?) de ter o turno de seu trabalho ajustado à hora do nosso século, sempre a virar as cartas… E Giovana, me esperando no café em frente ao Liceu, ou no táxi da ponte, ou na banca de jornal na esquina do teatro, os óculos escuros cobrindo suas olheiras, os ouvidos atentos às conversas das mesas ao lado. Os encontros obedeciam à arbitrariedade do instinto de sobrevivência como resposta ao perigo da paranoia: os telefones estavam sempre grampeados, ou estranhos nos seguiam pelas ruas. E então as notícias, fofocas de trincheira, indícios sobre as próximas informações do Diário La Hora – os empurrões, o movimento do lado de lá, do outro lado do tabuleiro: a CIA, a United Fruit, a junta militar.

– Não importa. É alguém que não irei ver mais. Vai demorar muito? – perguntei, ansioso.

– Não. Ele já está vindo. Eu sei que a salinha é desconfortável, mas é o que temos de mais discreto. E eu gostaria de dizer que o senhor tomou a decisão correta.

Tomei? Eu, que não acredito em decisões corretas, mas apenas na força da conveniência, poderia ter tomado alguma decisão, por mais correta que fosse? A vida de três homens – Ricardo, a quem devo uma caixa de charutos, resultado de uma aposta perdida num jogo de pôquer; Miguel, e os dias nas corridas ao som dos jargões trotskistas; e Octavio, o chapéu sempre cobrindo-lhe os olhos, evasivos rabos de olho -, todos eles muito mais leais a mim do que eu a eles… Mas Octavio, mesmo traindo-me com Mona, permanecia fiel a mim. Suas vidas poderiam valer menos que a certeza de um exílio para longe daqui? Ou melhor: uma causa justa, em nome do povo, ou em nome do ciúme… Então a carta derradeira, o fim de um jogo que não tem fim… Três camaradas que… Como eu gostaria que fossem mais espertos, mais inteligentes do que realmente são, para que, neste instante, enquanto Salvador Limones os entrega aos seus algozes – as forças armadas nativas a serviço de um truste estrangeiro, o imperialismo yankee – fugissem, abandonassem o aparelho antes dele ser desbaratado. O QG: o sótão empoeirado de um sobrado nos subúrbios, o teto baixo sob o qual tantas vezes nos escondemos e nos pusemos a conspirar (goles de rum e charutos perfumados), a traçar planos e estratégias, roubos, sequestros, programas de transição para depois que tomássemos o poder – mas nenhuma ação realmente efetiva: no máximo alguns panfletos provocativos, agitações populares, pequenas expropriações de terras, e a bomba no armazém, que só feriu uns poucos inocentes, e que, não fosse a censura, teria ganho as manchetes dos jornais. A batalha perdida, e o exército rebelde retirando-se antes de ser capturado – uma consequência que poderia evitar a culpa que pesará sobre meu futuro, mas que seria boa demais para existir num mundo tão cruel e absurdo. Uma traição justificada por outra? Por acaso se anulam? A cada cabeça uma sentença; cada um sabe das dores que carrega; cada qual com seu fardo. Os eventos explicam as cartas ou as cartas explicam os eventos? Qual carta me explica?

Entra pela porta um homem alto, magro, dono de olhos insondáveis. O Major, o responsável pelo meu destino, e pelo destino de tantos outros. O Major, que se mistura à minha figura, neste enorme salão esfumaçado cheio de música e sangue, ou numa pequena salinha estéril e cinza no subsolo da delegacia. O Major, que, do outro lado da esfera de vidro em que me vejo, dança à luz das lamparinas, a coreografia condensada no instante de uma baixada de cartas, depois do monte cortado.

– Quero saber o que vai acontecer com ela. – disse, antes que ele pudesse ao menos se sentar.

– Se já temos o ouro, por que preocupar com os pingentes? Pode ficar tranquilo. Não iremos incomodá-la. O senhor deve saber mais do que ninguém. A esta hora ela já está além do nosso alcance.

Sua voz era grave, e apesar de estar sentado do outro lado da mesa, o homem era imponente o suficiente para que me transmitisse segurança, mesmo que fosse meu antagonista – antagonista de quem eu agora apertava as mãos e combinava os detalhes de minha soltura, os pormenores do nosso trato. O outro soldado permaneceu quieto, encostado à parede.

– E que garantia eu tenho? – resolvi insistir, mesmo que, à essa altura, eu já soubesse inútil qualquer esforço – Como confiar em quem jogou sujo até agora?

– Eu poderia fazer-lhe a mesma pergunta, Sr. Limones, mas acho que comportar-se como um cão correndo atrás do próprio rabo não nos parecerá atraente a esta altura, muito embora seja esta uma mania dos rebeldes. A brincadeira de gato e rato acabou, e o senhor escolheu o lado certo.

– Não escolhi nada… E eles?

– Você sabe o que acontecerá com eles. Sempre soube. É o mesmo que aconteceria com você, se não tivesse resolvido colaborar. É por isso que está aqui? Para repetir as mesmas perguntas? Ouvir as mesmas respostas? É engraçado, porque é justamente do senhor que eu esperava mais, as maiores surpresas, as melhores ideias. Sua ficha… Reli inúmeras vezes. Refiz outras tantas vezes em minha cabeça toda a sua trajetória, da infância até hoje. Li suas publicações da época da faculdade, seus ensaios políticos, suas inquietações metafísicas.

– Fico feliz e espantado em saber que homens do exército gostam de ler. Estou deixando o país em boas mãos…

– Seu caso é único. Minha curiosidade também. As perguntas que quero fazer… como você será deportado, imagino que não teremos outra oportunidade. A Guatemala é um pouco longe de tudo, coisa que os homens de milho já sabiam. Mas você, que viveu como um europeu durante um tempo, para depois voltar…

– Mas tua pergunta, Major… É só por isso que estou aqui?

– Minha pergunta diz respeito àquele artigo que você escreveu, pouco antes de ter sido declarado foragido, e que foi distribuído pela imprensa revolucionária. O que falava sobre o Tarô. “Paralaxe”, é o nome.

– O que tem?

Ele abriu a pasta que trazia consigo e começou a ler em voz baixa o trecho escrito em uma folha de papel.

– Não precisa ler pra mim. – eu disse. – Não me esqueci do que escrevi. Quero saber qual é a tua pergunta.

Continuou lendo em voz baixa para si mesmo. Depois que terminou voltou seus olhos para mim:

– Quão a sério você leva essas coisas?

– Quão sério? Levo suficientemente a sério…

– E se o Tarô é mesmo capaz de fornecer tantas respostas…

– Não tanto quanto devemos ser capazes de vê-las. O baralho é um símbolo, um instrumento, não comunica nada para quem não saiba…

– Mas o senhor sabe, não sabe? Foi consultando esta magia que resolveu entregar os outros para salvar a própria pele?

– Magia? Estas celas são muito mais inacreditáveis que as cartas… E nisto que está interessado?

– Devo dizer que interessa sim. E não só a mim.

– Como assim?

– Ora. Não pense que não discutimos o teu caso. Algumas pessoas importantes estão achando que podem tomar decisões consultando as cartas.

– Não sei se o senhor sabe, mas não… Algumas pessoas importantes? Pensei que as pessoas importantes já tivessem em suas mãos os meios eficientes para aquilo que querem… As decisões já foram tomadas, eles só precisam de justificativas.

– Agora sou eu quem desconfia de tua ingenuidade, Sr. Limones.

– Quer dizer então que aquele bando de ricaços que paga os teus soldados quer que eu vá ler a sorte deles? Você se lembra do que eu dizia no artigo? A Roda da Fortuna… Tudo se espalha na areia entre uma onda e outra. Atribuímos sentido àquilo que queremos. É mais provável encontrar razões para decisões que já foram tomadas, do que.. Isto é ridículo. O mundo é vontade.

– Este mundo é tua vontade?

– Este mundo é uma vontade maior que a minha.

– Por algum momento, quando vocês ainda estavam à nossa frente, o pessoal da Inteligência resolveu consultar os oráculos, os adivinhos, os jogos de carta, de dados, gravetos, búzios. O desespero compreende qualquer fé. Pensávamos que o teu conhecimento fosse garantir um repertório maior, antes de se esgotar tão rápido… Mas o jogo virou, em algum momento. A rebeldia é um prolongamento da derrota.

– Mas o golpe de vocês… A revolução de vocês continua. Foi bem sucedida. O jogo virou, algo fez o jogo virar…

– E pensei que o senhor pudesse me dizer.

– Sempre imaginei o exército composto de homens pragmáticos, que acreditavam naquilo que viam…

– Eu acredito no que vejo.

– Acredita, mas não entende… Imagine, se o senhor, que trabalha para quem… Pergunte aos seus superiores. São eles quem dão as cartas. Quem se encontra no lugar mais alto da escada? E você perguntando para quem está no degrau mais baixo…

– Ninguém dá as cartas. Elas viram por si mesmas. Não era Maquiavel quem dizia que, por ver de baixo e mais de longe a prática dos reis e dos príncipes, podia entendê-la melhor do que eles? Na distância aumenta-se a perspectiva.

– Desculpe-me, mas o senhor está tentando me convencer de que eu possa saber alguma coisa de que não sei? Algo que pode explicar uma outra coisa que você está a imaginar? O que quer saber? Por que resolvi me entregar? Por que os rebeldes passaram a colecionar uma derrota após a outra? Porque éramos fracos, porque éramos poucos, e o inimigo crescia… O mundo se explica. A pergunta é sobre mim? É sobre os outros? Você quer saber por que está ganhando a guerra? Acha que ainda estou tramando alguma coisa? Que essa foi só uma jogada? Antes tivesse sido!

Ele olhou para o teto por um momento e começou a dizer algo num tom quase automático:

– As cartas que usamos do pôquer derivam do Tarô. Só que o pôquer possui 52 cartas; o Tarô 78. 56 arcanos menores, mais os 22 maiores. O pôquer inglês possui 26 cartas a menos que o Tarô e, na Cabala, 26 é o número de Deus.. Quer dizer que o pôquer é um jogo sem Deus. As figuras do pôquer possuem duas cabeças: uma no Norte, e uma no Sul, embora não saibamos qual é a do Norte e qual é a do Sul. O homem é um erro, uma imperfeição, e as cartas multiplicam os erros. – reconheci tudo. Era algo que constava no artigo que eu havia escrito. Ele parecia ter decorado o artigo. Antes que eu dissesse algo ele continuou. – Paralaxe. Não é o nome que dão para aquele fenômeno da física que faz com que um objeto apareça em posições diferentes para quem os observa de pontos diferentes? É por conta do fundo, não é? É uma alteração em relação ao fundo. – ele olhou para suas mãos e depois olhou para mim – Acontece que alguém, em algum momento, viu tudo isso.

– Viram? Isso?

– A tua colaboração… – ele balbuciou. – Antes que ela viesse a acontecer.

– A minha traição, você quer dizer. Não gosto de eufemismos, Major. Viram isso com a ajuda das cartas? Gostaria de ser apresentado a este tão exímio adivinho.

O Major fez um sinal para que o outro soldado, que até então assistira tudo, se retirasse da sala.

– O senhor está falando com ele. – segundos de silêncio cresceram entre nós. – É a primeira vez que tenho a chance de conferir o jogo de perto. Até o momento em que o senhor se entregou eu não entendia aquilo que as cartas haviam mostrado. Digo que estou impressionado, mas algo não faz sentido. É como uma lógica circular. A concatenação dos fatos, a evidência deles está aí, mas não a explicação. Eu pensei que você me pudesse fornecê-la. Consigo visualizá-la, mas não consigo compreendê-la.

– Quer saber as razões do que fiz? Consulte os livros de psicologia, o meu psiquiatra, que não existe, ou os meus diários, que foram queimados.

– Você e eu sabemos que o Tarô não diz nada sobre o futuro. Não há futuro, apenas presente. As cartas são partes que revelam a sincronia do todo. Por quê, Salvador? Por quê? Por que se entregar? Sem tortura, nem nada? Por quê?

Ele olhou diretamente nos meus olhos. Não me esqueço deste olhar, que me olha ainda agora, como se fizesse presente o passado e o futuro.

– O mundo é um salão, não é? – ele disse, e eu não soube o que responder. – O mundo é uma festa num salão vermelho e esfumaçado onde músicos embriagados tocam para convidados embriagados. Um grande palacete que a balbúrdia fez sombrio, onde se bebe e mata, onde se brinda ao duelo, fora do tempo e do espaço, onde todas as escolhas, todas as variações, todos os resultados são possíveis.

– É… – gaguejei. – Todos?

– E quem está aqui, condenado a este salão, está condenado a estar vivo, a ter de escolher. Mas as cartas vão sendo viradas, e as possibilidades vão diminuindo. Mas não há como voltar atrás. Nem o jogo retrocede, nem a vida. E em cada lance se desdobram tantas possibilidades… Mas é tudo um salão, um enorme e decadente salão, um baile de máscaras onde companheiros traem uns aos outros com medo de que, se não se anteciparem na traição, o outro poderá traí-lo depois, e assim são protegidas as vidas dos inocentes e é garantido o sucesso de alguns poucos e o fracasso de muitos, mas a vida… O mesmo salão onde casais se despedem em crises de choro, com medo de que o amor possa entregá-los à tortura solitária de uma cela indiferente e inexorável, porque o amor fez com que um soubesse muito sobre o outro. Qual carta restitui tudo à ordem original, ao tempo anterior ao tempo da escolha? Qual carta muda tudo? Qual arcano? O Tolo, que alguns chamam de Louco, e que guarda em seu mistério a sabedoria da liberdade? Como eu poderia pensar que sua última caminhada em direção ao abismo pudesse ser o retrato de uma traição ou de uma delação? Como? A liberdade para trair? A liberdade da culpa? Por que não fugir? Então a Morte, o décimo terceiro arcano, que é também o arcano sem nome: uma revolução, uma enorme mudança. Um nome dito pela voz de uma garota perdida entre o mundo dos sonhos e o mundo real, ressoando no teu ouvido, que, ao lado da boca dela, repousa sobre o travesseiro – quanto poder! Mas algo assim? Tão trivial? O amor em troca de uma causa? Qual foi a carta que virou para você, Salvador Limones? Como foi que soube? Qual carta fez aquele olhar entregar tudo? O Mundo: a união total de todas as coisas, todos os sexos, todas as partes? É isto, não é? A união do traidor com o traído, dos dois lados inimigos da mesma guerra? A troca de uma culpa pela outra? E eu aqui na tua frente, mas qual dos dois está do lado de dentro do espelho? É isto, Salvador? Qual dos dois é um delírio? Seus amigos te traindo, ou você traindo a eles? – ele disse por fim numa voz que parecia mais minha do que dele, e seu rosto se desfez em névoa, em bruma escura, assim como a sala, o regime ditatorial, a Guatemala, os Estados Unidos, o Oceano Atlântico, meu rosto e o rosto de Giovana, e de Octavio, Miguel, e Ricardo…

E eu, sem saber onde me encontro, procuro abrir os olhos, mas eles já estão abertos. Em meio à escuridão com a qual comecei a me acostumar tento divisar as coisas – as coisas como elas se apresentam para além da timidez do mundo real: todos somos instrumentos de uma trama caprichosamente injusta. Judas é a mão de Deus: a maior das traições é desferida num beijo. Os rumos da história não absolvem suas causas – outra desculpa redime tudo isso. Há criminosos sem culpa, assim como há crimes sem culpados, e o mundo é um crime grave o suficiente para absolver todas as penas futuras, todos os pecados futuros. O meu egoísmo, o meu ciúme, a minha fraqueza, a minha covardia, meu vacilo e o meu vício se esconderam, se abrigaram nas justificativas que estes raciocínios encontraram para eles. Por que nos entregamos deste jeito, de maneira tão irresponsável? Octavio e Giovana entregariam-se para mim, e eu delataria a todos? Trair para não ser traído? E o Major, sua figura ameaçadora porque servia como espelho para minha culpa, para sempre esvaneceu no momento de meu desmaio, torvelinho de dúvidas nas entrelinhas de uma conversa que não sei se tive ou se estou tendo.

Aquele que dava as cartas guardou-as todas em seu estojo e foi-se embora antes que pudéssemos fazer perguntas. Uma tempestade entrava pelas janelas e os funcionários corriam para fechá-las. Os outros, já embriagados, me esperavam na dança.

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30 comentários em “Paralaxe (Leonardo Stockler)

  1. Leonardo Stockler
    27 de fevereiro de 2014

    Olá pessoal. Muito obrigado por ter lido. Gostei muito de alguns comentários que fizeram .É muito interessante saber o que cada texto pode provocar. Muitas pessoas entenderam muito bem o que eu estava tentando fazer aqui. O texto é uma homenagem ao escritor guatemalteco Miguel Angel Asturias, muitas vezes identificado como pertencente a linha do realismo mágico latinoamericano, como bem atentou o Eduardo Selga.

    Deixei para fazer esse comentário depois que todos tivessem lido e votado para que eu interferisse o menos possível em cada leitura. A minha interpretação sobre esse conto é de que ele se trata de um enorme devaneio, um grande delírio. Não há nenhuma garantia sobre qualquer coisa: não sabemos se de fato o personagem principal, Salvador, estava sendo traído por Giovana e Octavio; também não sabemos se ele os entregou para o Major; e menos ainda se o Major existe. Tentei fazer uma coisa simétrica, como as cartas, o próprio Tarô, como a Cabala, onde as coisas representam uma certa unidade. Por isso o conto começa e termina com um devaneio (esses parágrafos longos cheios de pergunta). No final está a pista de que tudo não passava de uma leitura de cartas feita por um cigano no meio de uma festa, em que o personagem principal pensava ver tanto o passado quanto o futuro: a traição feita por seus amigos (que tem como ponto de partida um olhar entre eles), e a traição feita por ele mesmo (de entregá-los ao exército).

    Não sei se eu devia ter explicado tudo – é porque simplesmente não vi ninguém atentando para esse fato. Ninguém “duvidou” da maior parte das coisas que aconteceram.

    Abraços!

    • Gustavo Araujo
      27 de fevereiro de 2014

      Caraca, que viagem, Leonardo! Sinceramente, não tive essa percepção toda, rs. O engraçado dessa coisa de ler/escrever é que muitas vezes o leitor absorve o texto de uma maneira totalmente diversa daquela pretendida pelo autor. Às vezes isso é bom, às vezes é frustrante. No caso do Paralaxe, creio que os seus “easter eggs” ficaram por demais escondidos – pelo menos para mim. Mas isso não tirou o brilho da narrativa – foi um dos meus favoritos. Parabéns mais uma vez!

  2. Lucas Guimarães
    25 de fevereiro de 2014

    Olá, Montezuma! Belíssima escrita! Texto denso! Diálogos perfeitos! Referências filosóficas bem articuladas na história! Trabalhou o tema de uma maneira muito boa! Minha única reclamação foi no primeiro parágrafo, o abuso na falta de conectivos não me agradou, mas, tirando isso, texto excelente! Parabéns!

  3. Pedro Luna
    25 de fevereiro de 2014

    Pô..eu curti. Bem profundo. Não tenho problemas com textos longos, ainda mais quando eles despertam interesse.

  4. Felipe Rodriguez
    25 de fevereiro de 2014

    O que fazer com um escritor que começa com uma introdução ruim e, na sequência, me joga um segundo parágrafo maravilhoso desse jeito? Socá-lo? Gostei do conto, a profusão de pensamentos e memórias, misturadas ao tarô e à história principal caíram bem. Por alguns momentos, me peguei nervoso e perdido em tantas informações, mas algumas imagens construídas com primor me mantiveram na leitura. Parabéns ao autor.

  5. Frank
    23 de fevereiro de 2014

    Um texto muito bem escrito e as reflexões ficaram bem bacanas. Sem dúvida o autor é “profi”. Me lembrei dos nazistas e sua predileção por magia. Parabéns!

  6. Tom Lima
    22 de fevereiro de 2014

    “- Este mundo é tua vontade?

    – Este mundo é uma vontade maior que a minha.”

    Perfeito!

    As reflexões do personagem se fazem necessárias e isso é explicitado no final do conto. A situação em que ele se encontra o faz pensar. Achei fantástico, lindo, perfeito.

    Só tenho elogios em relação a esse conto.

    Parabéns!

  7. Blanche
    19 de fevereiro de 2014

    Muito bonito. Muito bem escrito. Diálogos impecáveis.

    Contudo, não me encantou. Não tenho problemas com contos longos (até prefiro, na verdade), mas as inúmeras passagens filosóficas e devaneios do narrador me confundiram a ponto de precisar reler certos parágrafos mais de uma vez. Penso que alguns excessos deveriam ser limados para evitar o cansaço e tornar a leitura mais dinâmica.

    De qualquer forma, nota-se que o(a) autor(a) é experiente e sabe manusear palavras. Os sentimentos, analogias, atritos… Tudo muito bem colocado.

    Só não gostei tanto pura e simplesmente por gosto pessoal. Parabéns e boa sorte! 😉

  8. Pedro Viana
    16 de fevereiro de 2014

    A introdução do conto não funcionou para mim. As imagens criadas se formaram como luzes de natal – piscavam, piscavam, mas não brilharam. Eu preferiria algo mais sutil (sem subtrair as “caminhadas filosóficas” que levaram o mérito do conto) que conduzisse, com calma, o leitor para dentro da história. No geral, o texto foi bem escrito, bem conduzido, com uma história simples e um contexto forte. Parabéns.

  9. Gustavo Araujo
    15 de fevereiro de 2014

    O bacana desse conto é que o enredo poderia ter se passado aqui no Brasil, pelos anos 70 ou 80. Achei excelente a condução e primorosa a narrativa. essas digressões filosóficas podem soar cansativas em alguns casos, mas não aqui, já que se mostra,m perfeitamente possíveis os questionamentos levantados. Gostei também do oficial expert em vidência. Pode parecer inverossímil, mas há, sim, especialistas em diversas as áreas na inteligência militar. Enfim, um ótimo conto. Parabéns.

  10. Marcellus
    8 de fevereiro de 2014

    Gostei muito do conto, o autor está de parabéns!

    Não tenho muito a criticar, além dos pontos já ressaltados pelos colegas.

    Boa sorte!

  11. Thata Pereira
    7 de fevereiro de 2014

    Duas coisas me desagradaram no conto: os parágrafos excessivamente grandes e as reflexões. Em relação as reflexões, não culpo o autor, mas sim eu, pois não estou acostumada com esse tipo de texto e os extensos parágrafos fez com que se tornasse bem cansativo para mim.

    Depois, quando o conto foi conduzido apenas por diálogos, achei bem dinâmico, contradizendo tudo que senti no começo ao lê-lo. Gostei muito da escrita. É um bom conto, mas para quem não está acostumado com essas reflexões, exige a máxima atenção. PS: hum, eu acho que sei quem é o autor…

    Boa Sorte!

  12. Pétrya Bischoff
    7 de fevereiro de 2014

    Uau! Seu conto é envolvente e sedutor ao mesmo tempo que nos desperta empatia pelo personagem. Sua narrativa e escrita são absolutamente perfeitos!
    É o que gosto de ler e, principalmente escrever. Há uma narrativa minuciosa e alucinada que poderia ser um monólogo. Somente aqui diverge de minha escrita: não consigo divagar em primeira pessoa. E ficou maravilhoso.
    Meu favorito até o momento, meus mais sinceros parabéns e ótimas vibrações 😉

    • Pétrya Bischoff
      7 de fevereiro de 2014

      Esqueci de citar que absolutamente não gosto de diálogos; no entanto, os seus estão maravilhosos.

  13. Ricardo Gnecco Falco
    6 de fevereiro de 2014

    Uma viagem mental por dentro deste personagem que é o próprio conto.
    Bem escrito. Boa sorte!
    😉

  14. Tiago Volpato
    6 de fevereiro de 2014

    Muito bem escrito. Só achei as reflexões cansativas. Culpa minha que não me identifico com esse tipo de texto. Prefiro frases rápidas, bem curtas. E isso não tira a qualidade do seu texto. Parabéns!

  15. mhs1971
    5 de fevereiro de 2014

    Muito bem escrito, mas não me cativou.

  16. Paula Melo
    5 de fevereiro de 2014

    Texto de boa qualidade,bem escrito e desenvolvido.
    Confesso que me cansei em algumas partes,mas e algo de gosto.

    Parabéns e Boa sorte!

  17. rubemcabral
    4 de fevereiro de 2014

    Gostei do conto: realmente está bem escrito (só notei o erro do trás x traz) e a história e o cenário são bem originais. A reclamar apenas do inicio um tanto “travado”.

    Muito bom!

  18. Edson Marcos Nazário
    4 de fevereiro de 2014

    Bom conto.
    Sua revisão deixou escapar um “TRÁS” ali onde deveria estar um “TRAZ”(Cada carta trás significados negativos), mas não é algo que prejudique a excelente narrativa. Parabéns e boa sorte.

  19. Bia Machado
    3 de fevereiro de 2014

    Um “conto de tese” bem bacana e bem estruturado. Gostei, parabéns! =)

  20. Claudia Roberta Angst
    3 de fevereiro de 2014

    Linguagem primorosa, bom jogo com as palavras e imagens. Não encontrei um só erro em todo o texto, o que revela que o autor além de talentoso, é paciente e atencioso com a revisão.
    Conto longo sempre me assusta um pouco, mas não achei cansativo, mas exigente com o leitor. Também não encontrei nada que torne o enredo inverossímil. Parabéns.
    Boa sorte!

  21. Eduardo Selga
    3 de fevereiro de 2014

    Ao se construir um conto o autor deve sempre estar atento ao seu tamanho, mas não apenas com preocupação imediatista do consumo do texto pelo leitor. Porque este, cada vez mais preguiçoso por vários motivos, tende a gostar de textos cada vez menores. O autor deve se fazer a seguinte pergunta: o tamanho do texto está de acordo com o que o enredo pede? Não “enchi linguiça” para ocupar espaço? Não deixei de dizer algo importante com medo de o conto ficar grande?

    No caso deste conto, o tamanho dele está em perfeita sintonia com sua densidade. As angústias do protagonista e certa carga “existencialista” no diálogo pedem isso. Diálogo, aliás, de ótima qualidade, coisa nem sempre é facilmente encontrável entre autores de ficção, exceto dramaturgos. Ao mesmo tempo, temos o personagem monologando, mergulhando em si mesmo. Ou seja, o(a) autor(a) mescla muito bem diálogo e monólogo interior, gerando um ritmo narrativo muito interessante. Ritmo esse que, por sinal, não é uniforme (e fica ótimo exatamente por isso): Há um início lento, uma ligeira aceleração por causa dos bons diálogos e o retorno à lentidão inicial.

    Talvez se pudesse obstar que um major nunca manteria um diálogo tão metafísico com um prisioneiro e, muito menos ele, oficial do exército, dedicar-se à vidência. Porém, é importante observar que o espaço ficcional do conto é a Guatemala, e os povos das Américas Central e Sul possuem em alto grau o chamado pensamento mágico, o que gerou até uma estética literária específica chamada Realismo Mágico. Assim sendo, é perfeitamente verossímil a situação posta no conto.

    • Pétrya Bischoff
      7 de fevereiro de 2014

      Poxa, li o conto certa de que era do Eduardo. Imaginei sua escrita assim, dado aos seus comentários… Mas enfim, é realmente um ótimo texto.

  22. Jefferson Lemos
    3 de fevereiro de 2014

    O texto está muito bem escrito, mas não me animou. Até me cansou, para dizer a verdade.
    Porém, meu caso é questão de gosto, pois temos aqui um material de muito boa qualidade.
    Parabéns e boa sorte!

  23. Anorkinda Neide
    3 de fevereiro de 2014

    Ahh não sei, não me envolveu… Comecei a gostar no diálogo, mas achei bastante inverossímil um diálogo assim acontecer, me lembrou a história do profeta Daniel, que foi chamado a interpretar os sonhos do rei..
    mas depois essa lembrança fugiu com o desenvolvimento do conto e por sinal, não entendi o final.. não alcancei.. desculpe.. rsrsrs

    Boa sorte!
    Abração

  24. Harry
    3 de fevereiro de 2014

    Esse superou todos com certeza! Muito bom, meus parabéns e boa sorte!

  25. Rodrigo Arcadia
    3 de fevereiro de 2014

    Ah, gosto desse tipo de personagens que usam os pensamentos para divagar como se fosse um fluxo de consciência (talvez seja) é nessas narrativas que descobrimos o que o personagem é, o que sente, o que lhe faz bem ou mal.
    Apesar de extensa, eu gostei da conversa, não senti nada de artificial, falas reais de gente real. pra mim, ficaram boas e interessantes.
    e o melhor: é conflitos, divagações, traições, nada como um personagem real pra estarmos familiarizados com ele.

    Abraço!

  26. ryanmso5
    2 de fevereiro de 2014

    Uma beleza só! Gosto bastante deste estilo de escrita, tanto que o meu é semelhante. Logo, não tenho nada negativo a declarar, deixo isso para os outros.

    Parabenizo ao autor e desejo boa sorte!

    • ryanmso5
      2 de fevereiro de 2014

      Eu havia escrito um comentário maior, mas deu um erro aqui…

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Informação

Publicado às 2 de fevereiro de 2014 por em Tarô e marcado .