EntreContos

Detox Literário.

Murmúrios (Abílio Junior)

Claire estava correndo pela casa atrás de uma borboleta que lhe enganava com rodopiadas precisas, enquanto eu assistia aquilo me peguei pensando em como conseguiria escrever meu próximo livro, aquele pensamento era algo que realmente me atormentava.

Um programa qualquer estava sendo exibido na televisão, não consegui prestar muita atenção, minha dislexia estava me afetando mais do que o normal ultimamente. Senti a sala girando a minha volta, ficar sentado ali olhando para o nada não iria me ajudar muito, levantei e fui para o escritório.

Lá estavam meus instrumentos de trabalho, um notebook sobre a mesa, uma caneta e papel ao lado para idéias avulsas e uma máquina de escrever ao canto, para dar aquele charme. Senti algo diferente quando entrei, parecia que havia alguém ali além de mim, mas não podia ser, minha cachorra estava na sala e eu morava sozinho, não fazia sentido algum sentir a presença de alguém ali. Mas mesmo assim eu senti. Sentei na minha cadeira presidente e me acomodei.

“Esta noite eu conseguirei!”, disse para mim mesmo. Apesar de já ter escrito um livro, que por sinal não fizera sucesso algum, eu estava com aquele grande projeto havia muito tempo, nada podia me parar, a não ser um bloqueio criativo que já durava um mês. A estória estava em minha cabeça já, um terror com fantasmas que ultrapassaria até o gênio Stephen King! Mas ela continuava ali, presa, recusando-se a sair e meu ódio da minha doença crescia cada vez mais.

Eu nunca me importei por ter reprovado três vezes a oitava série, ou de demorar quase cinco anos para escrever meu primeiro livro e ele ser um fracasso total. Eu sempre soube que o enredo dele não era nada empolgante, mas ali estava uma estória fantástica, com um enredo fascinante, só esperando para ser colocada no papel, só que aí estava a dificuldade, já não basta um escritor com bloqueio criativo, agora um escritor com bloqueio criativo e com dislexia é pra acabar!

A minha vontade momentânea de escrever algo aquela noite estava se esvaindo quando ouvi um ruído na parede. Aquilo me chamou a atenção, sempre tive essas loucuras de conversar comigo, talvez seja coisa de escritor, ter alguém que entenda seu ponto de vista para conversar, você mesmo. As vezes pensava que tinha dislexia e esquizofrenia, mas seria muito azar para uma pessoa só não é?

Havia algo atrás da minha parede, no começo pensei que estava sonhando, mas aquilo estava real demais para ser um sonho, não pude deixar de levantar da cadeira e chegar mais perto da parede. Não consegui reprimir um grito quando o quarto tremeu e eu caí, o escritório que já estava girando começou a girar ainda mais, eu senti que iria desmaiar, mas então Claire chegou e lambeu meu rosto. Eu acordei do transe e achei que tudo havia sido um sonho de um pequeno cochilo, ou uma alucinação provocada pelo calor do dia, mas a cachorra começou latir para a parede e então eu percebi que aquilo não havia sido um sonho.

Levantei-me do chão e percebi que Claire havia saindo correndo do escritório, meu instinto me dizia para fazer o mesmo, mas minha curiosidade era maior, um acontecimento daqueles não podia simplesmente passar como um susto, deveria ser investigado, para posteriormente ser retratado de forma poética!  “Maldição, por que eu fui inventar de ser escritor?”

Os ruídos pararam, mas então sussurros começaram, só que dessa vez não apenas de uma parede e sim de todos os lados do quarto. No começo eu não entendi o que diziam, eram tão baixos que não foi possível entender nenhuma palavras, mas após um momento eu comecei a entender e percebi que aquilo que estava acontecendo poderia não ser algo ruim, poderia ser algo bom. Sentei de volta e comecei a escrever. Escrevi como nunca havia feito anteriormente, escrevi até minhas mãos cansarem, vi o sol nascendo mais vezes do que pude contar, senti meu estômago reclamar por comida, meu cérebro pedir pausa e meu corpo fraquejar, mas aquilo era maior que eu, minha estória estava finalmente sendo transcrita para o papel e eu finalmente seria famoso!

Não percebi como ou quando terminei, mas a palavra “FIM” chegou e eu já estava raquítico, mas aquela sensação ainda não havia ido embora do meu corpo, abri a segunda gaveta da escrivaninha e peguei meu estilete, naquele momento eu não pensava em mais nada, apenas seguia o que a voz mandava. Comecei a me cortar, primeiro nas pernas, depois fui subindo pelo abdômen e braços. A dor era agonizante, o sangue vermelho pérola, devido a escassez de alimentos, escorria quente por meu corpo, minha vontade era gritar até não ter mais voz, mas eu não tinha mais forças nem pra isso.

Foi naquele momento que eu percebi que eu era um escravo, um escravo de algo maior que eu, mais forte, que me dominou e fez sua vontade através de mim. Sua presença era completa em meu corpo, tudo o que ele precisava era de um corpo forte com a mente fraca e quem diria que seria a minha. Não pude deixar de ficar triste por minha vida estar acabando ali, uma última lágrima escorreu do meu rosto junto com um último sentimento, insatisfação. De não ter corrido atrás do que eu queria, de não ter me arriscado mais, de não ter tentado mais, de ser fraco, de ser doente. Aquela sensação me fez lembrar a vida, e com a lembrança me veio algo mais, uma súplica. Minha vida havia sido vivida de forma tão patética, o único sentimento que me restava era o desejo da morte, e como se estivesse atendendo a esse pedido, a presença naquele quarto me deu uma última ordem. Peguei a chave da primeira gaveta da escrivaninha, abri de forma brusca e peguei minha tão preciosa Colt guardada lá dentro, apontei seu cano longo para minha própria cabeça e sorri. Pela primeira vez na vida eu estava fazendo algo que realmente queria, morrer.

Em uma experiência extracorpórea, vi a mim mesmo estirado no chão, senti um pouco de náuseas, mas estava me sentindo mais leve, por mais irônico que fosse, sentia-me com mais vida! Minha última imagem deste daquele mundo sujo e odiado foi Claire, lambendo meus miolos grudados na parede.

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30 comentários em “Murmúrios (Abílio Junior)

  1. Frank
    15 de janeiro de 2014

    Gostei do texto; a forma com que a criatividade brotou com algo maléfico ficou show…fiquei com vontade de ler o livro dele…hahaha. Muito bacana.

  2. Leandro B.
    14 de janeiro de 2014

    Acho que o texto acabou ficando com um tom muito didático. O escritor diz que é isso, que quer aquilo, mas é difícil “sentir” com ele.

    O conto tem seus bons momentos, gostei, muito, da máquina de escrever para dar um charme e da cadela lambendo os miolos na parede no final. Achei a cena forte e original.

    Mas me parece claro que a idéia tem que ser retrabalhada, com mais calma e paciência. Como disseram, você tem um bom material, mas precisa lapidá-lo um pouco.

    Boa sorte!

  3. Cácia Leal
    13 de janeiro de 2014

    O texto tem alguns problemas que precisam ser revistos. Um deles: dislexia? Ou você queria dizer DDA (défict de atenção)? Quem tem dislexia não tem problemas com atenção normalmente. Tem problemas com a escrita. Outro: estória não existe mais. Hoje não há diferença entre história e estória. Um conto, é uma história, seja ele real ou ficção.

  4. Pedro Luna Coelho Façanha
    13 de janeiro de 2014

    No fim das contas, não entendi o que estava acontecendo. O texto tem bons momentos, mas no geral não conseguiu me cativar.

  5. Caio
    13 de janeiro de 2014

    Olá. Minha impressão é de que faltou alma, ironicamente. Tá bem na superfície, bem unilateral. O texto se salvaria se o personagem tivesse sido bem explorado e soasse verdadeiro, porque aí a gente se importaria e o enredo simples não seria um problema. O sujeito é apenas um perdedor, sem nenhuma outra característica, sabe? Aí fica sem personagem e sem história, porque o enredo é mínimo. Mesmo com a cena ‘forte’ da morte dele, o conto não construiu suspense, conexão com o leitor ou tensão que fizesse a gente lendo sofrer o impacto da cena. Não que seja ruim, ou que esteja mal escrito, mas está sem soco, sem força, pela superficialidade. Pelo menos é o que eu vi. Acho que antes do tamanho, é a falta de complexidade que deixa essa sensação de vazio na leitura. Espero que te faça sentido e ajude de algum jeito, abraços

  6. Paula Melo
    12 de janeiro de 2014

    Material muito bom para ser desenvolvido um pouco mais.
    O desenvolvimento rápido do texto tirou toda a trama,poderia ter sido um conto um pouco maior onde você poderia montar e desenvolver uma trama que iria enriquecer seu texto.
    Boa Sorte!

  7. Tom Lima
    8 de janeiro de 2014

    Cara, você tem um ótimo material ai, mas parece que correu para entregar.

    Acho que você poderia ter trabalhado mais nos detalhes da possessão. O que ele sentiu, como perdeu o controle, o que aconteceu durante todo esse tempo que ele ficou no escritório (ele ficou um longo tempo, não é?), e coisas do tipo.

    A parte dos cortes ficou um tanto sem sentido. Um motivo seria interessante.

    Gosto do seu jeito de escrever. Tirando as longas frases.

    Frases longas me incomodam.

  8. Marcelo Porto
    8 de janeiro de 2014

    Não consegui captar uma trama. A narrativa não contém elementos que me faça preocupar com o protagonista. O encosto não se revela e nem é dito qual a razão para a possessão.

    Parece que o autor simplesmente escreveu tudo que lhe veio à mente e descarregou no papel (talvez sussurrado por alguma entidade rsrs). Faltou enredo, um fio condutor e principalmente, um conflito, que não existe no texto.

  9. Mariana Borges Bizinotto
    7 de janeiro de 2014

    Faltou algo a mais na narração, a leitura ficou um pouco enfadonha.

  10. Pedro Viana
    4 de janeiro de 2014

    A ideia é muito interessante e intensa, mas o conto deixou a desejar, talvez por sua brevidade, talvez por sua linha narrativa densa e longe do leitor. Senti falta de emoção por parte do personagem. Sem mais, é isso.

  11. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    A ideia é uma beleza, mas me parece que a execução não foi tão boa quanto. Dava para ter trabalhado melhor, ficou faltando algo. Platão te criticaria bastante! Hahaha

    Brincadeiras à parte, penso que você poderia utilizar da ideia novamente, logo, rever o texto todo, não o desperdice, tem potencial! Parabenizo o autor pela participação!

  12. Weslley Reis
    24 de dezembro de 2013

    Senti falta de um motivo e o estilo da narração não me agradou. Além de os já citados erros de pontuação.

    É uma ideia ótima e talvez careça de mais afinco por parte do autor para lapidar o texto.

  13. Gunther Schmidt de Miranda
    24 de dezembro de 2013

    Após ler uma série de observações sobre os comentários por mim postados neste concurso e suas respectivas respostas (infelizmente) concluí que fui tomado de certa pobreza de espírito. Em certos momentos nem fui técnico, muito menos humilde. Continuo dizendo que faltou o fantasma; mas o prazer da leitura (muito maior que o próprio objetivo do concurso), sobressalta. Peço perdão a este escritor pelo comentário até maldoso por mim desferido e encerro este comentário lhe desejando boa sorte e parabenizando-o.

  14. Inês Montenegro
    22 de dezembro de 2013

    Falha nos acentos e, principalmente, na pontuação. Fazer mais uso de pontos finais ou ponto e vírgula em vez de vírgulas teria resultado muito melhor na leitura. A personagem principal também carece de construção.
    Em relação à ideia do enredo, gostei, de facto falhou mais foi na prossecução.

  15. Gustavo Araujo
    22 de dezembro de 2013

    Realmente, a ideia é muito boa: possessão literária. Poderia até ser o tema de um desafio no futuro.

    Bom, o que faz este texto não engrenar é o excesso de erros. Os de pontuação, principalmente. O conto, apesar de curto, demora a acabar, justamente porque não há empatia com o protagonista. A sugestão que pode ser feita é trabalhar melhor suas características, seus medos, seus desejos, suas manias, defeitos e qualidade, enfim, torná-lo mais humano. Talvez assim o leitor pudesse de identificar com ele.

  16. Ana Google
    20 de dezembro de 2013

    Hmmm, em suma não gostei! A ideia do texto é genial, mas não foi bem executada! Fiquei com a impressão de ser algo como um rascunho, não agradou. O personagem também não me cativou e o excesso de erros atrapalhou a leitura! Em resumo é isso, um texto com potencial, mas que falhou na execução!

  17. Ricardo Gnecco Falco
    20 de dezembro de 2013

    Senti um rascunho de uma ideia muito interessante, mas que aqui foi muito pouco trabalhada. O foco firmando-se numa história de “possessão literária” renderia um conto maravilhoso. Estou quase partindo para a execução de uma obra com este enredo/tema…
    Mas, já é dia eu ainda nem dormi. 🙂
    Parabéns pela ideia.
    Abrax e boa sorte!

    • Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
      21 de dezembro de 2013

      Ah, escreve logo essa “possessão literária”, Ricardo. Estou doida pra ler algo assim. Acho a ideia ótima.

  18. marcellus
    19 de dezembro de 2013

    Além da revisão,o autor poderia diminuir as frases e os parágrafo s. Do jeito que estão, cansam o leitor, tornam a leitura muito enfadonha.

    Faltou também algo que nos aproximasse do suicida, algo com o qual pudéssemos nos identificar. “Ser escritor” não foi o suficiente.

    Não desanime. Boa sorte!

  19. bellatrizfernandes
    19 de dezembro de 2013

    Primeiro não entendi que a Claire era o cachorro. Achei que era uma menina e quase me matei de rir quando ela chegou e lambeu a face dele.
    Acho que o autor usou demais das vírgulas, deixando as sentenças grandes demais.
    O personagem também não me inspirou nenhum tipo de compaixão: Dislexia não é o fim do mundo. Recomponha-se, homem! Percy Jackson já tem quase 10 livros com esse distúrbio e ainda não foi um problema para ele…

  20. Bia Machado
    19 de dezembro de 2013

    Não sei, achei um tanto forçadas muitas ideias que o texto traz, como por exemplo ele colocar a culpa em sua dislexia por tudo; dislexia não tem nada a ver com criatividade para escrever. Claro que há a questão da dispersão acentuada, mas o escritor, sendo já adulto, acredito que conseguiria trabalhar isso… E por que começou a autoflagelação? Tá, deve ter havido um motivo, mas qual? Por que ele sofreu o tal “ataque”, saindo a escrever? É tudo muito vago, não deixe todas as conclusões para o seu leitor…

  21. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    19 de dezembro de 2013

    Dei uma “viajada” geral imaginando que fosse a inspiração a tomar conta do corpo do escritor. Tão forte sua presença que anularia a personalidade do personagem e tomaria conta de tudo. Ele viraria um escravo da arte, nada mais importaria. Acho que no final, foi isso mesmo. Não entendi muito bem o porquê dos cortes. Achei uma leitura bem interessante, prende a atenção e dá um certo medinho. Boa sorte!

  22. Gunther Schmidt de Miranda
    19 de dezembro de 2013

    Mais um texto sem lugar, sem tempo e que desde o início sinaliza que o próprio narrador é o espírito. Mas, não é porque temos um ente imaterial que temos o fantasma! E o exato tema deste concurso é o fantasma! Boa tentativa, tente outra vez… Talvez na próxima existência…

  23. Jefferson Lemos
    19 de dezembro de 2013

    Não sei, senti falta de alguma coisa. Ficou incompleto, corrido e pequeno para mim. Acho que a ideia poderia art melhor trabalhada.
    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

    • Jefferson Lemos
      19 de dezembro de 2013

      Ser melhor trabalhada* Cara, que celular odioso. Maldito seja quem inventou o swype.

      • marcellus
        19 de dezembro de 2013

        Eu amo o supõe. Supor. Sopé. Sopé. Swypev. Sopé! Swype! 🙂

      • Jefferson Lemos
        20 de dezembro de 2013

        Desse jeito mesmo, Marcellus! Haha

  24. Thata Pereira
    19 de dezembro de 2013

    O conto segue uma linha bem previsível, até que o cara começa a se cortar. Acredito que o/a autor/a tenha deixado para o leitor imaginar o motivo do fantasma ter influenciado o escritor a fazer isso.

    Tive minhas conclusões, mas existem dois tipos de finais abertos para mim: os que te deixam com esperança e os que te deixam com sentimento de “e aí?”. Particularmente, gosto do primeiro.

    Não sou muito fã da palavra “estória”. Quando era criança me referia as histórias que não são reais assim, mas desde que li em uma reportagem que a palavra história também poderia ser utilizada, passei a abominar o termo. É uma palavra feia, para mim. Mas é pessoal. E o fato de não vermos muitas pessoas utilizando elas hoje em dia me faz estranhar mais ainda.

    A inspiração, na minha opinião, é bacana e merece ser desenvolvida. A conclusão que tirei foi que o fantasma poderia ser o espírito de algum escritor que só fez sucesso após a morte. Vendo o desejo de “fama” do protagonista, fez com que ele se matasse.

    Boa Sorte!

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Publicado às 19 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .