EntreContos

Detox Literário.

O Vermelho do Diabo (Leandro Barreiros)

1

Ela se apresentou como Denise Veiga, mas eu sabia que seu verdadeiro nome era problema.

A experiência me ensinou. Mulheres como aquela não cruzam a porta do seu escritório para oferecer o paraíso. Sempre trazem o inferno. Ao meu lado, Fernando anotava em seu pequeno caderno tudo o que ela falava. Ele sabia que eu recusaria o caso, mas mulheres como Denise exerciam um poder sórdido sobre ele. De minha parte, esperei que ela terminasse de contar sua história. Era o mínimo que eu podia fazer.

Folheei mecanicamente as fotos que ela trouxera. Na maior parte toda a família estava reunida. O marido era grande, feio e barbudo. Daqueles que nunca entendemos como acabam com uma esposa como Denise. A filha de onze anos, sem dúvidas, puxara a mãe. Me detive na única foto em que a criança estava sozinha. Olhos e sorriso alegres. Um cordão em volta do pescoço e uma mão balançando em um aceno. Denise Veiga acabara de me contar sua história.

-Os olhos dela se parecem um pouco com os seus.

-Por que diz isso? –pergunto.

-Ora, porque também são verdes, não vê?

-Ele é daltônico, senhora Veiga –Fernando se adianta.

-Daltônico?

-Significa que tenho problemas para ver cores. Para ser franco, só consigo distinguir tons de cinza.

Ela fica quieta, mas não por muito tempo. Um semblante triste toma conta de seu rosto.

-Sinto muito. Um mundo em tons de cinza deve ser bem triste.

-É um mundo. E isso é o bastante.

Organizo novamente as fotos, enfileirando uma atrás da outra. Ela espera por minha resposta. Sua aflição é evidente.

-Sinto muito por sua filha, mas não posso ajuda-la.

-Como não? –pergunta. O rosto um misto de confusão, decepção e ira.

-Não trabalho mais com sequestros, senhora Veiga. Deixe que a polícia investigue. Posso recomendar um ou outro investigador, bons homens que podem te ajudar.

Ela balança a cabeça.

-Eu sei o que a polícia vai encontrar, detetive: nada. Eu vi em seus olhos. Desistiram antes mesmo de começar. E não preciso de outros detetives, preciso de você. Ana Clara Borges, a menina que desapareceu… Eu li seu nome nos jornais. Júlio Chagas, o homem que a encontrou. Por favor…

As palavras foram sufocadas pelas lágrimas que brotavam de seus olhos. Mas aquilo não era o bastante. O nome da menina não me trazia nada além de dor e vergonha.

-Eu encontrei um pé, senhora Veiga. Nada além disso. Os legistas confirmaram que a menina já estava morta dias antes d’eu achá-lo.

Estava coberto por sangue coagulado e cercado por moscas. O corpo da menina foi encontrado pouco tempo depois, mutilado e enterrado no terreno que cercava a casa. A pouca pele que não fora arrancada da carne havia sido marcada com desenhos. Os especialistas disseram que os sinais testemunhavam adoradores do diabo. Eu disse que testemunhavam doentes sádicos. Pouca coisa restava na residência e nenhuma evidência fora encontrada no local. O lugar havia sido limpo. Eu havia quebrado a promessa que fiz à Aline Borges, mãe da menina.

-Não trabalho mais com sequestros –repeti.

Ela limpou as lágrimas que escorriam pela face e, calada, cruzou a porta do escritório. Seu salto ecoou sobre o piso de madeira e o cheiro de Chanel começou a desaparecer.

-Isso foi rude, chefe. A filha dela está desaparecida. A moça precisa de ajuda –Fernando me censurou.

-Você precisa de ajuda –respondi. –Por que diabos estava tomando notas? Não sabia que eu ia recusar o caso?

-Não, não sabia. Não imaginei que você fosse olhar nos olhos daquela mulher e dizer que não ia ajuda-la. Você precisa superar o que aconteceu, chefe.

A mão dele toca meu ombro. Com um pequeno tapa tiro-a de meu corpo.

-Dê o fora daqui antes que eu te demita. Faça um favor e não apareça amanhã também. E se você não estiver disposto a fazer o que eu digo não se incomode em aparecer nunca mais.

Ele se afastou dois passos e me encarou de cima a baixo. Pude ler em seu rosto a raiva que envenenava seu espírito. Quase desejei que ele perdesse a calma e, em meio a troca de golpes, deixássemos para trás os anos em que trabalhamos juntos. Quase. Ao invés disso ele recua até a mesa, pega seu chapéu e deixa o escritório.

Tranquei a sala rapidamente. Do pequeno bar ao lado de minha mesa me servi do primeiro uísque que encontrei. Dois dedos da bebida são o bastante para aliviar minha tensão. Mais dois dedos me ajudam a esquecer das lágrimas dela.

Ao sentar na cadeira percebi que a senhora Veiga não recolhera suas fotos. Entre sombras e luzes das imagens acinzentadas me lembro da semelhança sugerida entre eu e a menina. Voltei minha atenção para a foto em que ela estava sozinha. Senti-me incomodado pela imagem. Algo em minha psique gritava para que olhasse. Mas isso fez apenas com que eu quisesse me afastar da fotografia.

Não se envolva.

Mas já era tarde. Percebi que o cordão que ela carregava em volta do pescoço era o objeto de minha danação. Seu pingente era formado por um círculo e, dentro dele, três pequenos semicírculos, que me remetiam à pétalas, estavam circunscritos.

Levantei com pressa e busquei os arquivos do caso de Ana Clara. Auxiliada pela bebida, minha impaciência acabou por espalhar diversos documentos no chão até encontrar uma cópia das fotografias do caso. Na terceira que verifiquei não tive dúvidas: a menina usava o mesmo cordão. Busquei, então, as cópias das fotografias do legista.

O corpo fora desmembrado em vários pedaços diferentes. Sua pele fora cuidadosamente removida antes da mutilação. Em sua carne, detectaram cortes precisos. A carne, contudo, não guardara com precisão os detalhes de cada desenho. A pele separada do corpo nunca fora encontrada. Ainda assim, parte do rosto manteve algum tecido que preservara certas imagens.

Olhar para a foto de seu rosto sempre me doía mais do que as outras fotografias. Sem a pele, os olhos pareciam mais saltados e a arcada dentária mais exuberante. Aquela era a imagem da própria falta de misericórdia. Restava pouca pele em sua face esquerda e na testa, ambas cobertas com inúmeros símbolos confusos e aleatórios. Na testa, confirmei algo que me envergonhou por não ter percebido da primeira vez que vira a foto. Deformado, lá estava o círculo com as três pétalas.

2

Havia uma atmosfera mórbida cercando a casa dos Veiga. Denise se mostrou confusa com a minha aparição, mas certo alívio tomou conta de seu rosto quando percebeu que eu trabalharia no caso. Fausto, seu marido, não se mostrou muito entusiasmado. Não sabia que a esposa me procurara e, irritado, disparou mais de uma vez que era bom eu não atrapalhar a polícia. A similaridade com o caso de Ana Clara me assombrou; a história estava se repetindo em seus detalhes e eu temia um final semelhante.

-Eu achei que meu marido tivesse dado o cordão para ela.

Encarei Fausto e ele hesitou. Levou a mão a boca, parecendo se esforçar para resgatar alguma memória.

-Eu nem me lembro desse cordão –disse. –Às vezes ela aparecia com algumas pulseiras também. Sempre imaginei que fossem presentes de Denise.

Silencioso, Fernando anotava toda a conversa.

-Visitei mais cedo Aline e Wellington Barros, os pais de Ana Clara, e perguntei sobre o cordão. A mãe pensou que foi presente do pai. O pai disse que achou ser presente da mãe.

A mão de Denise subiu à boca quando ela percebeu aonde chegaríamos com aquela conversa.

-Você acha que pode ter sido a mesma pessoa? –perguntou, os olhos marejados.

-Eu acho que é um tipo de cartão de visita. Vocês se lembram quando Gabriela começou a usar o cordão?

-Talvez uma semana antes de desaparecer –Fausto respondeu.

Balancei a cabeça.

-A mãe de Ana Clara me disse o mesmo.

A maquiagem de Denise se desfazia conforme ela chorava no sofá. Seu rosto, um grande amalgama de cinza e borrões pretos. O marido segurou sua mão.

-Vou pegar esse cara. Eu juro –disse, novamente fazendo promessas sem saber se poderia cumpri-las.

*

As pessoas se assustariam se soubessem o quanto um trabalho de investigação é intuitivo. Tudo o que eu tinha era um palpite. Uma ideia insana e odiosa que, eu esperava, me conduzisse a assassinos insanos e odiosos. Confiei à Fernando minhas conjecturas. A incredulidade apareceu em seu rosto, mas ainda assim seguiu minhas ordens.

Três noites se passaram enquanto ambos realizávamos a tocaia. Ele investigava os movimentos de um homem do outro lado da cidade. Eu vigiava de longe o dia a dia de Fausto, o pai de Gabriela. Pela terceira noite seguida o homem visitou La Figa, um clube de cavalheiros na área nobre da cidade. O adultério não era de meu interesse e a ansiedade começava a tomar conta de meu corpo, frente a cada vez mais possível chance d’eu estar errado.

Foi quando os homens vieram.

Na madrugada, a esquina da avenida onde fica o clube geralmente é vazia. O chão é negro como o céu. Dos bueiros, uma suspeita fumaça esbranquiçada emerge casualmente, se dissipando na atmosfera conforme ganha altitude. A iluminação é planejadamente fraca. Muitos que frequentam a avenida são casados, preferindo que poucos saibam de suas visitas. As trevas são companheiras da discrição.

Se fosse mais cínico, diria que os homens surgiram da fumaça que escapava dos bueiros. Mas acho que nada tão feio sairia dos esgotos. De dentro do meu paletó a Smith & Wesson implorou para ser sacada, mas essa não me pareceu uma atitude sensata. Até aquele momento éramos apenas três homens perto do puteiro. O maior deles se aproximou até estar frente a frente comigo. O segundo homem ganhou meu flanco e, então, minha retaguarda.

Não houve trocas de palavras.

Lancei a mão dentro do paletó, mas o golpe em minha nuca foi quase instantâneo. Minhas pernas fraquejaram. Caí de joelho no asfalto. A segunda pancada na cabeça me lançou na escuridão.

3

Foi a dor que me apagou. Foi a dor que me trouxe de volta. Tentei alcançar minhas têmporas e só então percebi que estava com as mãos amarradas. O mundo ainda estava embaçado, mas presumi que estava sentado em uma cadeira (que grande detetive sou!) e era notável que meus pés também estavam amarrados nela. O ambiente era predominantemente escuro. Caixas e prateleiras se espalhavam pela sala em que era prisioneiro. À minha frente, uma pessoa. Vestia um manto negro folgado sobre todo o corpo. Na cabeça, uma máscara da mesma cor protegia o rosto de meu anfitrião. Havia nela dois orifícios que permitiam a visão. O pano extra se despendia de seu topo, dando à máscara um aspecto pontiagudo. O homem continuou em silêncio mesmo após perceber que eu recuperara a consciência. Tomei aquilo como um convite para iniciar a conversa.

-Acho que nós dois sabemos que não existe necessidade de usar a máscara, não é?

O silêncio prosseguiu por mais alguns segundos.

-Vamos, Fausto. Você está sendo rude.

Foi o bastante. Em poucos segundos ele removeu a máscara. As sombras cobriam seu rosto de maneira bizarra. Pedaços de sua cara se mostravam aqui e ali quando a movia.

-Como você sabia? –perguntou.

Dei de ombros.

-Não há muito para contar. Intuição. Bons palpites.

-Você não está me entretendo, detetive. Estou ficando entediado.

-Você pode sempre desmembrar uma garotinha para passar o tempo, não é?

Ele pensou por alguns segundos.

-Suponho que sim. Você quer assistir? Assim também não precisa ficar entediado.

Tencionei os braços. A cadeira rangeu, mas não cedeu. Ele leu com facilidade a expressão de ódio em meu rosto.

-Ou você pode me contar como descobriu.

Suspirei.

-É como eu disse. Foi um palpite. As pequenas coincidências me chamaram a atenção. Não consegui perceber tudo apenas com o caso de Ana Clara, mas ver as coisas se repetindo… isso foi o bastante.

-Que tipo de coisas?

“Foram as mães que me procuraram. Quando comecei a investigação, tanto você quanto Wellington pareceram incomodados. Talvez ele tivesse medo de que eu atrapalhasse a investigação da polícia, mas você sabia que eu cheguei muito mais próximo de resolver o último caso do que qualquer outra pessoa. É provável que Denise tenha mencionado meu nome para você que, em seguida, descartou a ideia com alguma desculpa imbecil. Por isso ela me procurou sozinha e por isso você se mostrou tão irritado em sua casa.

“Sempre desconfiei que alguém próximo da família de Ana Clara estava envolvido já que ela nunca fora vista com estranhos. Quando percebi a conexão entre os cordões a coisa ficou ainda mais clara. Duas meninas virando manchete nos jornais e ninguém viu um desconhecido as abordando para dar um presente? Não, tinha que ser alguém próximo que não levantaria suspeitas. Mas eu nunca desconfiaria dos próprios pais. Por fim, você foi burro o bastante para dizer que não reparara no cordão de sua filha e depois apontou que ela o usava desde uma semana antes de ser sequestrada. Fez isso porque sabia que sua esposa traria a informação, então se antecipou para fingir colaboração. Mas a contradição foi bem evidente. Foi o bastante para me incomodar. Aliás, por que o cordão?

Ele suspirou.

-É necessário para o ritual. O sacrifício deve utilizá-lo por treze dias.

-É claro que deve –disse, com ironia. –Agora, se você puder, retribua o favor e mate minha curiosidade: Como você sabia que eu estava te seguindo?

Seus lábios tremeram e esboçaram um sorriso, mas ele se controlou.

-Eu sei mais do que isso. Por exemplo, sei que seu assistente estava observando o pai de Ana Clara. Infelizmente para você o idiota não sabe se controlar perto de mulheres. Acabou informando minha esposa e ela me avisou sobre tudo.

Ela se apresentou como Denise Veiga, mas eu sabia que seu verdadeiro nome era problema.

Não pude conter minha frustração.

-Ela está nisso com vocês?

-Não –disse, balançando a cabeça. –Ela apenas achou a ideia absurda. Comentou comigo que talvez tivesse sido mesmo uma péssima ideia te contratar. O que fazemos é… exclusivo para homens.

A frase atingiu minha cabeça com ferocidade.

-Exclusivo para homens… Vocês estão estuprando as meninas antes de matá-las.

Seu rosto ficou distante e a escuridão pareceu cobri-lo por completo. O que falei não foi uma pergunta, mas mesmo assim ele respondeu.

-Antes e depois.

Senti que meus braços se despedaçariam com a força que fiz para libertá-los. A cadeira rangeu novamente, obviamente uma peça velha, usada por improviso. Mas a madeira não cedeu.

-É a sua filha. É a porra da sua filha, seu doente.

Ele deu de ombros.

-Eu sei. É isso que torna especial. Hoje em dia, com todas as coisas fodidas que acontecem por aí é preciso fazer algo muito especial para chamar a atenção Dele.

-Dele?

-Do Diabo é claro. E você não sabe o tipo de coisa que Ele oferece quando alguém chama Sua atenção.

-Você é doente. Um homem muito doente.

-Você será um homem doente, detetive. Matar o homem que está nos investigando chamaria muita atenção, mas vamos mexer bastante com a sua cabeça. Você não vai acreditar no que o sangue pode comprar. Agora, se me dá licença, tenho uma filha para sacrificar.

Fausto subiu uma escada de madeira e atravessou uma porta, me deixando sozinho. Esperei alguns minutos para que se afastasse da saída. Balancei o corpo em uma dança lenta. A cadeira me acompanhou. Em poucos segundos estávamos ambos no chão. Meu corpo resistiu ao impacto; a cadeira não.  As cordas se afrouxam e logo me vi livre. Subi com cautela os degraus. A cada passo um cântico distante se tornava mais forte, me lembrando, com uma infeliz ironia, uma missa de igreja.

4

A porta destrancada tinha inúmeros significados. O mais importante era que não apenas não consideraram a possibilidade de que eu escapasse, mas também não esperavam a chegada de ninguém à casa. Estávamos isolados.

Essa teoria se reforçou quando avistei minhas coisas sobre uma pequena mesa no novo cômodo. Ali, encontrei minha pistola e meu paletó. Empunhei a primeira para tentar dar fim à insanidade dos homens que entoavam seu cântico. Me vesti com o segundo para fazer isso com alguma classe. Se morresse e fosse ao encontro de Deus ou do Diabo, o faria com algum estilo. Dirigi-me para a porta de onde emanavam os cânticos. Sorrateiro, girei a maçaneta com cuidado.

A única coisa impedindo a total escuridão eram as poucas velas e archotes espalhados pelo amplo salão. A tênue claridade revelava pouca coisa. Um altar; Quatro homens em volta dele; Uma menina deitada e amarrada sobre ele, cada membro esticado em direção a uma quina. Ao fundo, um trono. Nele, a estátua da coisa que eles provavelmente veneravam. O tronco parecia humano, mas a fraca luminosidade não revela muitos detalhes. A cabeça era a de um enorme bode expondo os dentes. Estava nu, o que ficava claro pelo enorme membro ereto entre as pernas. O cheiro de sangue já umedecia o ar quando um dos homens ergueu a faca.

O resto aconteceu muito rápido.

O primeiro disparo foi na direção do homem armado. Seu corpo tombou para o lado quando o tiro atravessou seu pescoço. Quando o outro tiro atingiu o segundo indivíduo eles ainda não haviam percebido o que estava acontecendo. Os outros dois correram para o final do salão, em direção ao trono. Dois disparos impediram que um deles alcançasse a porta que havia do outro lado. Quando mirei no último, minha sanidade foi testada pela primeira vez.

Já distante, ele girou o corpo e moveu o braço como se lançasse algo. Da parede do lado oposto, dois archotes cruzaram o ar em minha direção. Lancei-me assustado ao chão, evitando o impacto e as sérias queimaduras que o ataque inexplicável me causaria. Você não sabe o tipo de coisa que Ele oferece quando alguém chama sua atenção. O homem, então, cruzou uma porta à esquerda da estátua.

Corri em direção à criança. Ela não demonstrava nenhuma expressão. Havia alguns vasos sobre a mesa e dentro deles pedaços de galinha banhados em sangue. Ela estava nua e seu corpo, branco como algodão, fora maculado com o sangue dos animais. Com a forma de diferentes desenhos, o sangue cobria o rosto, os pequenos seios, as axilas, a barriga e, de maneira particularmente preocupante, abundava por entre suas pernas.

Com a faca que um dos homens possuía, cortei as cordas que a prendiam. Agarrei seu corpo e a coloquei sentada no chão. Pedi para que esperasse enquanto ia atrás do último homem. Ele ainda era, afinal, um risco para nós. Sem resposta, corri em direção à porta.

O outro quarto era pequeno e decorado por horripilantes símbolos. Não havia nele uma segunda porta ou janela. E não havia ninguém ali. Caminhei para dentro e apalpei as paredes e o chão, procurando por qualquer tipo de absurda passagem secreta, mas não havia nada. Foi quando meus pés começaram a pesar. Um calor crescente contaminou o quarto e, embora eu soubesse que não me mexia, senti que meu corpo afundava, como se estivesse sobre um pântano instável. Da mesma forma, escutei gritos de dor e pavor, apesar de saber que não estava ouvindo nada. Quanto mais afundava, quanto mais caía, mais forte o calor e os gritos se tornavam. Tentei me mover, mas senti que meus pés estavam presos ou, talvez, que alguém os puxava, ansiando dividir suas dores comigo. Sabia que logo estaria condenado. Como último recurso tentei saltar para fora. E funcionou.

Mas não caí de volta na realidade. O mundo que fazia sentido me abandonara assim que entrei no salão para salvar a menina. Então, talvez, eu não devesse ter ficado espantado quando notei que havia caído aos pés do que antes era uma estátua sentada no trono e agora era algo bem real, de pé à minha frente. Mas eu fiquei e meu coração se retorceu frente à monstruosidade.

Era enorme. Seu membro não estava mais ereto. Flácido, alcançava o próprio joelho da coisa que, com uma mão, o sacodia violentamente contra a perna. A boca de bode se retorcia entre berros. Mas foram seus olhos que atormentaram minha alma. Pela primeira vez enxerguei algo além de meu mundo cinza. Vermelho. Eu sabia que essa era a cor. Era como sempre me definiram a cor da paixão, do ódio, do sangue e do inferno. Desejei com toda minha vontade voltar para o meu mundo acinzentado.

E a coisa berrou.

A coisa cuspiu.

E a coisa sumiu.

Não em uma piscadela. Apenas sumiu, como se esvaecesse no ar. Deixando-me com os pedaços de minha sanidade e, por algum motivo inexplicável, com meu próprio pênis ereto. Arrastei-me até Gabriela e a cobri com meu paletó. Abracei-a forte contra meu corpo, querendo dividir o macabro que acabara de me assombrar. Pensei no que a própria menina teria passado e reuni forças para leva-la dali o mais rápido possível.

Havia, afinal, uma mãe preocupada lá fora e um mundo inteiro preto-e-branco aguardando minha volta.

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20 comentários em “O Vermelho do Diabo (Leandro Barreiros)

  1. Alana das Fadas
    4 de dezembro de 2013

    Muito bacana a maneira pela qual o “noir” se faz presente, como a questão da visão monocromática! Outro ponto forte da trama é o diferencial do roteiro, que utiliza de elementos de satanismo. Fugiu do lugar comum, o que pra mim vale ouro! Parabéns, está na minha lista dos 10 favoritos!

  2. vitorts
    4 de dezembro de 2013

    Ótimo conto! Até agora, um dos que mais gostei e onde o noir se fez mais presente. O autor conseguiu conduzir extremamente bem o fluxo da narrativa. Mordi todos os ganchos na curiosidade de saber o que viria adiante. Imaginava que o desfecho não apelaria para o paranormal, mas o resultado ficou bom desse jeito.

    Apenas duas observações:

    1-Senti falta da presença de Fernando na última parte do conto. Que raios aconteceu com o sujeito?

    2-Você se equivocou em relação ao daltonismo. Os daltônicos não enxergam em preto e branco. Na verdade, eles possuem uma dificuldade para discernir tons vermelhos e verdes. Segue uma imagem de como seria uma foto normal e a mesma vista por um daltônico: http://www.vocereporter.net/wp-content/uploads/2012/12/Teste-de-Daltonismo-Online-5.jpg

    No mais, parabéns pelo texto!

  3. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    O fluxo da narrativa, que caminha num ritmo excelente, sem excessos ou pausas desnecessárias. A história macabra. O fato de que mesmo com a limitação do tamanho, o conto conseguiu passar uma boa dosagem de mistério, suspense, ação e terror. E principalmente, o protagonista que enxerga em preto e branco (muito boa ideia para um Noir, adorei especialmente como o autor usou isso para dar uma potência ainda maior ao final). Gostei também de quão “aberto” e sutil é o final (o detetive teria sido possuído?)

    SUGESTÕES

    Talvez fosse bom aumentar um pouco mais a parte da investigação. Chega-se à solução do caso muito rápido. Um detalhe besta: sugiro repensar o uso da palavra “corpo” em “A mão dele toca meu ombro. Com um pequeno tapa tiro-a de meu corpo”, porque ela tende a carregar a frase de insinuação, o que provavelmente não é a intenção do autor nessa passagem.

    TRECHO FAVORITO

    “Havia, afinal, uma mãe preocupada lá fora e um mundo inteiro preto-e-branco aguardando minha volta.”

  4. Alexandre Santangelo
    3 de dezembro de 2013

    Bom conto. Boa fluidez, muito bem escrito. Parabéns.

  5. Felipe Falconeri
    26 de novembro de 2013

    Interessante a sacada de pegar emprestada a visão monocromática do personagem para ajudar a aclimatar o leitor no ambiente noir, que está bem pálido no conto, mas esse recurso deu uma reforçada bacana. Bem bolado.

    Achei o enredo interessante, bem diferente do que costumamos imaginar no gênero. E ter feito o detetive enxergar o vermelho no fim do conto deu um impacto bem maior à cena do encontro com o Diabo.

    Porém, a maneira como a trama se revelou foi bem pobre. Fazer um diálogo onde o “vilão” explica todo o plano para o “mocinho” é o recurso mais artificial e batido que se pode imaginar. A trama poderia se deslindar de maneira menos preguiçosa. Até porque tinha potencial para isso.

    O final ficou corrido e deixou muita ponta solta. Não se sabe se o detetive conseguiu voltar à realidade ou não, se a garota foi salva, se o homem que foge era o pai dela e o que aconteceu com ele… Não acho que os finais tem que ser sempre matigadinhos, mas ficar tanto coisa sem explicação num conto detetivesco é um bocado frustrante.

    Enfim, acho que o texto merecia um pouco mais de desenvolvimento. Há potencial para um conto muito bom aí. Da maneira que está, me parece apenas razoável.

    P.S.: Gostei do pseudônimo à Chapolin, hehe.

  6. Di Benedetto
    21 de novembro de 2013

    QUE. CONTO. FODA!

    Um dos melhores que li até agora. Muito bem escrito, a trama bem concebida e bem conduzida.

    Cai num gênero que o George R.R. Martin define como Fantasia Urbana, que é praticamente Noir + Fantasia. Mas o elemento fantástico pode existir ou não e, se ele existe, costuma ser revelado no final. (Como foi o caso aqui.)

    O lance do investigador ser “daltônico” (na verdade, enxergar tudo em tons de cinza, como num filme antigo) foi uma sacada muito legal! =)

    Parabéns!

  7. Abílio Junior
    20 de novembro de 2013

    O conto está ótimo! Foi muito bem estruturado e a trama ficou convidativa e prendendo o leitor até o fim. Apesar de que, como alguns colegas falaram, o final ficou um pouco atropelado e sem explicação para algumas coisas. Mas o conto está muito bom, parabéns.

  8. Jefferson Lemos
    17 de novembro de 2013

    Bom demais!
    Gostei bastante, a leitura flui muito rápido, o texto terminou e nem percebi. E essa junção de noir com sobrenatural deu uma cara diferente ao texto.
    Parabéns ao autor, fez um ótimo trabalho!

  9. fernandoabreude88
    15 de novembro de 2013

    Gostei desse conto, a escrita é leve, a leitura flui bem. Gosto dessa coisa do detetive ser um atormentado pelo passado, lutando contra os seus demônios. Tudo no texto foi colocado na medida certa, exceto pelo rigor de detalhes na descrição das vítimas (que medo, rs).

  10. Frank
    13 de novembro de 2013

    Gostei muito da mistura de policial e sobrenatural! Como muitos disseram está muito bem escrito e, na minha opinião, a lembrança do daltonismo foi ótima. Uma excelente leitura!

  11. Agenor Batista
    12 de novembro de 2013

    Um conto muito bem escrito. Pena ter caído para o lado sobrenatural no seu final. Mas de qualquer forma, tem pelo menos 60% de “noir”. Pense na possibilidade de se dedicar à Literatura Fantástica, meio termo entre o real e o sobrenatural. Você tem talento!

  12. Masaki
    12 de novembro de 2013

    Um conto muito interessante! Simples e direto. Os diálogos fazem a trama se desenrolar com facilidade. A escrita está perfeita. Uma única observação que tenho a fazer é o final. Não pelo fato do autor ter usado rituais demoníacos como parte integrante do texto, e sim, por ter fugido um pouco deste aspecto no momento da inserção de entidades sobrenaturais reais. Contudo, esta mistura deu liga! Com um pouco a mais de trabalho fecharia a história com chave de ouro.
    Parabéns! Excelente trabalho!

  13. charlesdias
    11 de novembro de 2013

    Ficou interessante a mistura do noir com sobrenatural, gostei. O problema é que o final ficou muito confuso e com alguns furos, necessitando ser repensado e reescrito.

  14. Thata Pereira
    11 de novembro de 2013

    Gostei especialmente do começo. Os diálogos ali me chamaram muito a atenção. O fato do protagonista ser daltônico, eu não conseguiria imaginar algo tão interessante.

    Desconfiei do pai, assim que o detetive chegou na casa de Denise. É horrível imaginar algo assim e depois ainda nos é entregue um ritual satânico! Acho que vou dar uma respirada antes de ler os outros… rs’

    Gostei muito do conto! Parabéns!

  15. Gustavo Araujo
    10 de novembro de 2013

    Um conto perturbador, no melhor sentido da expressão. Um enredo bem arquitetado, profundo e com um desenvolvimento que gera a ansiedade necessária para tornar a leitura bem interessante. Achei muito boa a adição do elemento sobrenatural aqui – embora sejam discutíveis as insistentes alusões de cunho sexual – afinal, rituais macabros sempre despertam a curiosidade de quem lê.

    Todavia, também fiquei com a impressão de que o início foi escrito de forma mais cuidadosa. O fim me pareceu um pouco corrido e, para falar a verdade, levemente confuso. Fiquei sem saber o que teria acontecido com o pai da menina. Ele foi um dos que tomou um tiro do detetive? Morreu ou foi para a cadeia? E a mãe? Estava envolvida na trama diabólica, afinal? E no fim, a menina seria devolvida a ela?

    Como destaque positivo há o daltonismo do protagonista. Embora faltem no conto alguns dos elementos clássicos do noir, o fato de o nosso detetive enxergar apenas tons de cinza fez com que eu imaginasse a história exatamente como num filme dos anos 1940. Isso fez muita diferença, especialmente no fim, quando ele consegue enxergar o vermelho. Essa sacada foi extraordinária.

    Em suma, um ótimo conto, ainda que passível de revisão.

  16. Marcellus
    10 de novembro de 2013

    Muito bom texto! A história tantástica fez ótimo par com o clima de investigação. Parabéns ao autor, apesar de desconfiar que não conseguirei dormir logo mais.

  17. Rubem Cabral
    10 de novembro de 2013

    Ótima história, cheia de boas sacadas. O mote é realmente assustador e revoltante.

    Vi poucos erros/repetições. A história segue o padrão de contos detetivescos, mas a mescla com o sobrenatural resultou em algo muito bom.

    Enfim, parabéns!

  18. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    9 de novembro de 2013

    Também lembrei do filme Coração Satânico e seus simbolismos. Conto forte, pesado, mas impossível de largar até o fim. Muito bem escrito, Gostei mais do começo do que do desenvolvimento, mas valeu. Só espero não ter muitos pesadelos com ele…em preto e branco… rs.

  19. Leonardo Stockler M. Monney
    9 de novembro de 2013

    O conto é muito bem escrito. Não tentou cair em preciosismos e ficou bem objetivo. Começou bem, com o autor inserindo conflitos e detalhes (o lance dele ser daltônico, mesmo, poderia ter sido mais explorado – geralmente nesses contos detetivescos toda informação e útil pra trama). Depois acabou por ficar muito previsível. Tudo depois ficou muito óbvio, e os personagens perguntando um para o outro sobre como ambos sabiam sobre o outro é meio… acho que desnecessário. O Diabo é sempre um personagem muito interessante, e você poderia ter inserido mais elementos diabólicos (já assistiu Coração Satânico, com o Robert de Niro? É bem legal). O lance do cara ter ficado com tesão quando viu o Diabo achei sensacional. Podia ter mais coisas assim, mais malucas na história. Menos mórbidas e sanguinolentas, afinal, o Diabo deve ser bem refinado, né? Hahaha. Mas enfim, isso é uma opinião bem pessoal. É que tem a ver com o que eu ia dizer sobre o formato do conto. Você se preocupou demais em adequá-lo ao arroz com feijão do gênero detetivesco. Introdução profética, ponto de virada com o plot, desenvolvimento com as pistas, depois o desfecho com explicação. Acho que, pra ficar menos previsível, seria legal você tensionar essas fronteiras. Não precisa romper com elas de vez, mas pelo menos subvertê-la. O legal desses contos detetivescos é justamente o jogo de espelhos que ele envolve.

  20. Ricardo Gnecco Falco
    9 de novembro de 2013

    Ainda bem que este conto não veio com ilustrações! (rs!)
    Muito bem escrito, traz um “q” a mais ao gênero por abordar a metalinguagem de forma temática, nos moldes da conhecida expressão “ladrão que rouba ladrão…” ou, adaptando para a presente temática, “policial que policia polícia…” (e viva os acentos!).
    Confesso que o noir não é muito a minha praia, mas este conto em especial parece conseguir tirar as cores em volta do leitor, deixando tudo preto e branco, como pede o gênero.
    Talvez, inclusive, o próprio estilo tenha como característica o daltonismo…
    Aceitando este “ritual”, vale a pena a leitura!
    Parabéns!

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Publicado às 9 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .