EntreContos

Detox Literário.

Beto Colt (Rodrigo Sena)

beto.colt
Sou um exemplo de desorganização, mas não mete a mão nas minhas coisas que o bicho pega! Na mesinha fodida do escritório tem papel que não acaba mais, três cinzeiros lotados, cinzas e guimbas espalhadas pelo chão. E mais papel. Amarelo, de jornal, revistas Playboy, rascunhos de um lado, fotos do outro e o oásis no meio do deserto: o grande pôster da Norma Jeane Mortenson, para os leigos, Marilyn Monroe .

A menina gostosinha que contratei até que tentou organizar o pardieiro. Comprou pastas sanfonadas, caixas de papelão e caprichou na letra. Não durou dois dias. Mas valeu o esforço, se não fosse pela microsaia que ela usava… minha mulher subiu nos tamancos. Um barracão no meu local sagrado de trabalho. Tive que mandar a coitada embora. Agora tem um negão com cabeleira rastafári atendendo a clientela. Coisa ridícula! Um cara daquele tamanho atendendo telefone num escritório de detetive particular. Ainda bem que Chandler já se foi. Mas o crioulo é bom de papo. Fala mansa, voz macia. Metido a locutor de FM de periferia. Se não fosse pela loira que não desgruda do seu pé, teria dúvida da sua masculinidade.

Sou Roberto Trancoso. Meu escritório é o famoso R.T. Investigações. Mas nem adianta falar meu nome, ele já foi pro saco há muito tempo. Sou conhecido no submundo por Beto Colt. É isso mesmo. Não largo mão da 1911 ponto 45 prateada, sei que é ilegal, mas uma mão lava a outra, os homi faz vista grossa. Mandei entalhar no cabo a imagem de São Jorge. Santo guerreiro.

Não vou falar minha idade, isso não interessa. Se sou feio ou bonito… a patroa gosta. E muito! Já fiz de tudo nessa vida. Ou quase tudo. E não me arrependo… Só de ter casado. Mas na época ela era um pitel! Não resisti ao par de coxas grossas com pelinhos dourados. Pensei com a cabeça de baixo. Foda.

Eu tava concentrado num caso, quando meu assistente, o Claudinho Bereta, atendeu uma ligação. O cliente não se identificou. Disse apenas que queria marcar um encontro. Pela voz, segundo o Bereta, era mais um caso cornesco.

Encontrei com o sujeito no restaurante Sucupira. Ele se vestia bem e aparentava ter uns trinta e poucos anos, cabelos emplastados de gel e usava a merda de um perfume doce. Falava com desenvoltura, um típico representante comercial. Saquei logo a dele. Os olhos não ficavam quietos e fitavam o canto superior direito — aprendi nesses manuais que o cidadão quando tá mentindo, olha sempre pra cima e pra direita. Às vezes, franze a testa, ou emenda um “pra ser sincero” — é tiro e queda! E o engomadinho não falava uma frase sem o tal complemento. Conversamos besteira durante uns quinze minutos e eu já estava de saco cheio dele. Não gosto de quem faz muita firula. Gosto das pessoas diretas. Se tem que falar, que fale, porra! Esse lance de mimimi, tititi… pra mim é coisa de veado. Mas dei corda pra ver até onde o cara ia chegar. Fumei cinco cigarros nesse meio tempo e empesteei o restaurante granfino. Não bebi, tenho por ética não beber em serviço, a não ser que situação peça. Mas evito. Pra mim, a hora de encher a cara é sagrada! Cacete, tô parecendo uma comadre fofoqueira.

Por fim, após me encher a paciência, o cara abriu a pasta de couro e retirou um envelope pardo.

Mais um corno com dor de corno! — pensei.

Percebi que suas mãos tremiam feito vara verde e ele suava igual um porco. Os olhos injetados de sangue e arregalados, ele estava com medo. Senti o cheiro de medo. Medo tem cheiro. Ah, se tem. O que quer que fosse era coisa pesada. Muito pesada.

— Aqui está tudo o que você precisa pra dar o flagrante — disse o engomado.

Peguei o pacote que ele me estendia.

— Que trabalhão, hein!

Ele sorriu e aquele ar de representante comercial havia desaparecido. Pela primeira vez em quase meia hora ele não olhou para a direita e nem disse “pra ser sincero”. Realmente naquele instante ele estava sendo sincero. Olhei para sua mão esquerda e vi que ainda usava a aliança de casamento.

Corno assumido? — pensei com meus botões.

— Gosto de fazer as coisas bem feitas. Tenho certa tara por organização. Cursei a metade do curso de engenharia, depois vi que poderia ganhar mais dinheiro contando mentira, aí me formei em direito, sou advogado.

Eu ri alto. Primeiro pelo fato dele ser tarado por organização. Imaginei a seguinte situação na hora do vamos ver: ele tira a camisa, dobra perfeitamente, colocando-a sobre mesinha de canto; depois tira os sapatos, coloca as meias dentro e os deixa alinhados. Já transbordando de tesão, o cara tira a calça, dobra seguindo as quinas bem feitas e a deixa repousando ao lado da camisa. Então, tira a cueca branca, dá uma cheirada pra conferir se tá tudo em ordem e parte pro ataque. Ele peladão, a patroa peladona… aí solta a pérola: quer com jeitinho amor? Ou quer seu tigrão? Imaginei a cara dele falando do tal tigrão e ri de novo. Em segundo lugar, por ele ter se formado em direito.

Abri o envelope e puxei um calhamaço de fotos. Umas cem, duzentas… sei lá. O cara era voyeur.

— Puta que o pariu! Que palhaçada é essa? É a porra da minha mulher…

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34 comentários em “Beto Colt (Rodrigo Sena)

  1. Marcelo Porto
    5 de dezembro de 2013

    Gostei do Beto Colt.

    Uma excelente construção de personagem, um anti-herói que todo mundo adora. Na verdade o conto é a construção do personagem e funciona muito bem.

    Gostaria de ver mais algo sobre esse cara, daria um bom seriado de tv.

  2. Alana das Fadas
    4 de dezembro de 2013

    Puxa, adorei! Assim que eu gosto: simples, curto e grosso, mas mandou muito bem o recado!!! Tem um quê de cômico e foge do lugar comum. Diverti-me bastante! Nota mil!
    Incrível!!!

  3. Rodrigo Sena Magalhaes
    29 de novembro de 2013

    Também sou preguiçoso pra ler, por isso gostei de ser curto. Bom conto. Bons comentários, já foi dito tudo que penso.

  4. Felipe Falconeri
    23 de novembro de 2013

    Gostei do personagem e isso é o que mais importa nesse conto.

    Vi o final chegando de longe, mas não me incomodou. O texto é curtinho e divertido, quase uma piada, e funcionou bem assim.

    Senti falta de mais elementos noir, ainda que satirizados. O conto acabou indo mais para a esfera do policial de forma geral do que do noir, que é um subgênero do policial. Mas se o texto fosse se preocupar muito com a ambientação provavelmente perderia muito de seu apelo.

    O importante é que é divertido, se adequando ou não ao tema do concurso. Então tá valendo.

    Abs.

  5. Andrey Coutinho
    23 de novembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    O humor! Esse Beto Colt é uma figura. A leitura foi fluida e gostosa. O linguajar popular foi usado de maneira claramente proposital. O autor demonstrou domínio da linguagem.

    SUGESTÕES

    Escreva mais! Apenas isso.

    TRECHO FAVORITO

    “E não me arrependo… Só de ter casado. Mas na época ela era um pitel! Não resisti ao par de coxas grossas com pelinhos dourados. Pensei com a cabeça de baixo. Foda.”

  6. Di Benedetto
    21 de novembro de 2013

    Haha. Achei legal. =)

    Despretensioso, curto e simples. Boa construção de personagem (o narrador é um escroto!) e bom encerramento (Ele se ferra e o conto termina sem o leitor esperar!)

  7. Abílio Junior
    20 de novembro de 2013

    O final realmente surpreende, confesso que já estava ficando decepcionado por o conto estar acabando e não ter visto nada do conto. kkkk Parabéns ao autor!

  8. vitorts
    20 de novembro de 2013

    Narrativa simples e curta, mas acho que não funcionaria se fosse maior. Está de bom tamanho. Gostei da veia cômica do noir e do final inesperado.

    Parabéns pelo texto.

  9. rubemcabral
    19 de novembro de 2013

    Achei o conto divertido, mas simples, do tipo que pediria mais história. Qto à adesão ao tema, acho que tá quase tudo aí. Bom conto!

  10. Gunther Schmidt de Miranda
    19 de novembro de 2013

    Com respeito ao autor e demais comentários eu não gostei do texto: inicialmente eu não consegui definir a época do fato? Muito menos o local? Outro ponto que também não entendi com “uma mão lava outra”… Que favores ele faz e para que policiais para poder andar armado? Mais um ponto que merece destaque é que o formado em Direito somente é advogado depois do exame da OAB e, com esta forma de se comunicar, não acredito que tenha se formado nos dias atuais… Fora isso, o humor, apesar de pesado, é razoável!

    • Claudio Peixoto dos Santos
      20 de novembro de 2013

      Cara, mas tu és chato pra caceta, hein!!!! Qual a necessidade de se definir a época e o local onde se passa a trama? Pelo que entendi o cara é detetive particular há muitos anos e pressupõem-se presta serviço à polícia(cadê a interpretação?). Vais me desculpar, mas tem muito “adevogado” por aí que mal sabe redigir uma petição… mas falando do texto, é um bom texto, fluido, o humor é inteligente. Gostei do final e da condução em geral.

  11. Agenor Batista Jr.
    19 de novembro de 2013

    Um pequeno adendo ao meu comentário: O nome verdadeiro de Marilyn Monroe era Norma Jean Baker Mortenson. Só para chatear. Não é importante.

  12. Agenor Batista Jr.
    19 de novembro de 2013

    A vertente cômica do “noir” neste conto está na narrativa quase que exclusiva pelo personagem. Normalmente não seria algo cômico ou subvertido mas o autor está de parabéns. Textos curtos combinam mais comigo que laudas de “enchimento de linguiça”. O final surpreeende pelo inusitado e põe a claro o “caso cornesco” do protagonista. Típico feitiço de volta ao feiticeiro.

  13. Sérgio Ferrari
    18 de novembro de 2013

    O conto é a arte de fazer um bom final. Fez um bom final. 😀

  14. fernandoabreude88
    15 de novembro de 2013

    O protagonista é carismático, leva a gente e a faz a leitura fluir. É uma espécie de noir cômico e simples. Porém, vejo-o como a apresentação de um personagem, senti falta de mais história com esse figura.

  15. piscies
    13 de novembro de 2013

    Gostei! História curta e cômica. Insisto que uma narrativa coloquial não precisa necessariamente de palavrões (e acho que vou continuar insistindo nisso até morrer, pelo visto).

    Muito maneiro! Me tirou umas risadas, especialmente no final, que me pegou de surpresa. Eu estava vendo o final chegar e pensando “Pô, como assim vai acabar?” até que leio a última frase e solto umas risadas.

    Genial : )

  16. Leandro B.
    11 de novembro de 2013

    Muito bom. O autor consegue cativar o leitor com maestria, logo no começo. Não tenho nenhuma crítica construtiva a fazer aqui, não consigo enxergar esse texto de algum modo melhor. Para mim foi construído da melhor maneira possível.
    Quanto à temática do desafio, achei-o extremamente válido. Não se abandona a idéia de noir, apenas a subverte.
    Meus parabéns ao autor. Ótimo trabalho.

  17. charlesdias
    11 de novembro de 2013

    Bem humorado, divertido, personagem principal muito bem delineado … mas acheio o final abrupto … ficou com cara de que faltou ideia e se optou por um final à la programa de humor da Rede Globo … faltou ser melhor aproveitado.

  18. Leonardo Stockler M. Monney
    11 de novembro de 2013

    Achei excelente! Bem escrito, engraçado. Achei ótimo o clímax ser ao mesmo tempo o anticlímax, porque exatamente ali você conseguiu subverter o gênero todo. A história acabou antes de começar. Achei muito bom isso. E o final é ótimo, hahah, justamente por ser repentino e surpreendente! A única coisa que eu acrescentaria é mais alguns detalhes, um pouco mais de enrolação. A história, por ser curta, deixou espaço pra você elaborar mais os personagens, o ambiente (apesar de que você já tenha feito isso muito bem). De qualquer forma ficou muito bom!

  19. Marcellus
    10 de novembro de 2013

    Não sou fã de comédias, mas tenho que confessar que o conto me cativou. O final inesperado foi a cereja do bolo.

    No entanto, fugiu um pouco ao tema do desafio. De qualquer forma, é um bom conto. O autor está de parabéns.

    • Ricardo Gnecco Falco
      12 de novembro de 2013

      Fugiu não, Marcellus… Tá tudo lá! (rs!) Talvez um pouco mais colorido do que o “normal”, mas tá tudo lá!
      PS: Não sou o autor.
      😉

      • marcellus
        13 de novembro de 2013

        Acho que estou me transformando num velho rabugento… 🙂

    • Ricardo Gnecco Falco
      18 de novembro de 2013

      Rs! 🙂

  20. Bia Machado
    10 de novembro de 2013

    Muito bom! Me diverti muito com o texto! Talvez eu tenha esperado mais do final, mas assim ficou bacana também! Que inveja desse autor que consegue escrever um conto curto, hahahah! Parabéns!

  21. Gustavo Araujo
    8 de novembro de 2013

    Esse conto funciona bem exatamente porque é curto. Confesso que enquanto lia, já percebendo visualmente que o final se aproximava, me perguntava como seria possível encerrar a história sem deixar pontas soltas. E eis que o autor consegue isso com uma perícia invejável. Ótimo conto, repleto de ironias e de um sarcasmo sem igual. Obra de quem conhece.

  22. Thata Pereira
    8 de novembro de 2013

    Acredito que o fato de ser pequeno foi algo muito positivo nesse conto. Não por facilitar a leitura, mas porque o conto não exigia muito rodeio. Vejo isso como algo muito positivo nele, pois encontro dificuldades para criar histórias muito curtas, conseguindo passar para o leitor aquilo que desejo — ou o que ele pode desejar lendo.

    Em resposta ao Frank vou dizer que li o conto assim que comecei meu dia e gostei muito dele até agora! rsrs’

    • Frank
      8 de novembro de 2013

      Eu disse…hahaha.

  23. Masaki
    8 de novembro de 2013

    Genial! Não tem como parar de ler textos assim. Eles acabam em uma “batelada” só. Raimundo, perfeito! Escrachado no ponto certo. Este personagem me passou a ideia de ser aquele tipo “tiozão da Sukita” folgado, contudo simpático.
    Parabéns!

  24. selma
    8 de novembro de 2013

    engraçado, leitura leve, bom ser curto.

  25. Frank
    8 de novembro de 2013

    Hahahahaha…quem quiser começar o dia bem humorado que leia esse texto…hahaha. Muito bom! A linguagem debochada do Beto Colt é demais e “caso cornesco” foi o ápice…fiquei uns 10 minutos rindo. A história relata um típico dia na vida do detetive em supostamente um típico caso e pode-se dizer que por isso ela é “simples”. Contudo, a forma de narrar e o desfecho a tornam impagável. Gostei bastante e ri muito. Para terminar, conheço o Beto Colt de outros textos e conheço quem lhe criou; é bacana ver um texto desses escrito por alguém pelo qual se tem admiração.

  26. Ricardo Gnecco Falco
    8 de novembro de 2013

    (rs!) Muito bom! Já tinha imaginado esse desfecho na hora que o RT começou a zoar o cara em pensamento… rs! Gostei da condução da história e da facilidade com que o narrador-personagem vai levando o autor pela mão durante todo este conto que, confesso, já levou o meu joinha! 😉
    Parabéns ao autor!

  27. Pedro Luna Coelho Façanha
    8 de novembro de 2013

    kkkk..curti. Gostei muito da forma como o autor escolheu começar o texto. Já mandando ver e soltando umas descrições e situações engraçadas. Tipo de texto que eu gosto.

  28. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    7 de novembro de 2013

    Estou cada vez me achando mais preguiçosa. Por isso, adorei o tamanho do texto, a rapidez da narrativa. Prendeu minha atenção com suas descrições e ironia. Curti o final, o cara se deu mal..rs.

  29. Jefferson Lemos
    7 de novembro de 2013

    Achei legal, mas esperei mais do final. Poderia ter continuado a história, já que o número de palavras que ainda poderia ser usado é bem considerável.
    De qualquer forma, parabéns ao autor. Não achei muito da temática Noir, mas deu para divertir.

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Informação

Publicado às 7 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .