EntreContos

Literatura que desafia.

Segunda Sombra – Conto (Vitor Stuani)

segunda.sombra

Decididamente, não compreendo por que é mais glorioso bombardear
uma cidade do que assassinar alguém a machadadas.
Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo

Se escrevo estas linhas, é porque sucumbi à utopia de buscar alívio sem trair o meu silêncio. Bem sei que isso não me traz nenhuma dignidade; não pretendo que sejam lidas. Talvez as destrua tão logo as termine, findas as palavras, as folhas ou a vontade do confesso. A prudência não para de matraquear em minha cabeça que o melhor lugar para elas seria o fogo. Meus dedos, porém, inutilmente tentam dar vazão à pressão que me comprime entre os ombros. Tudo tão confuso. Tudo há tanto tempo… Não seria sincero dizer que após tantos anos ainda confine em minha memória todos os detalhes daqueles dois meses. Muito das pequenezas se perderam, minguadas pela opressora sombra dos horrores que as cercavam. Não me lembro de quais notícias escrevi para o jornal naquelas semanas. Já os detalhes que teceram a mortalha de meu orgulho, a estrutura do drama em si, estes não me escapam. Do cheiro da chuva na primeira noite ao vento dançando entre as folhas das árvores ao fim do ato. O tempo pode ter depositado uma fina camada de poeira sobre estas imagens, no entanto jamais me abandonarão por completo. Já o sangue… Em minhas recordações, ele nunca descolore. Sempre o mesmo escarlate morno e denso. Dito isto, pretendo demonstrar que sou verdadeiro ao garantir que, mesmo após uma década, meu relato é fiel e sincero.

Para seguir ao fim, antes o início. Mamãe costumava dizer que fui um menino agitado. Não do tipo que apontavam como travesso – sempre tive minhas meninices, porém nunca causei grandes estragos – mas era da matéria que se diz serem feitas as crianças cheias de vida. Isto se seguiu ao longo de meus primeiros anos, mas, sabe-se lá o porquê, essa vivacidade se esvaiu conforme eu amadurecia. Imagino que o processo poderia ser aludido com a imagem de um relógio de areia: eu sendo a metade superior do aparato, o fulgor da juventude a areia que me escapava. Como podem constatar, ninguém se ocupou em girar outra vez a ampulheta. Tudo se manteve como estava. Estacionado. O topo, vazio. Assim entrei em minha adolescência.

Hoje credito boa parte da apatia que me acompanhou desde então a um afastamento autoimposto. Nas minhas lembranças desta fase está sempre presente um desconforto com novos ambientes. Cada vez mais notável, não extraia prazer algum ao me relacionar com outra pessoa. Sentia-me como que insolúvel. Uma gota de óleo em alto mar. Não me envergonho ao admitir que isso se dava por eu atribuir uma digna superioridade a minha própria pessoa. Sabia que era diferente dos demais, e nunca me preocupei em perder tempo com eles. E aqui não cabem apontamentos para a megalomania; não havia interesse em tratar da vida alheia, e para tanto, estava satisfeito com a minha. Tão somente isto. Todo o resto me parecia totalmente desinteressante.

Os parágrafos acima podem parecer divagações sem rumo, mas asseguro que possuem propósito. Apenas sabendo-se de minha constituição que é possível acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Sem elas, não seria possível figurar as motivações para o crime em sua plenitude. Tudo soaria oco e gratuito. Ou então atos de um homem louco. Desde já, aviso: embora seus dentes rocem meus calcanhares, a loucura nunca me abocanhou. Estando definidas as bases, posso retomar a narrativa nos meus vinte e sete anos, quando já morava há alguns meses sob o teto de dona Rebeca. Quanto a ela, tratarei mais adiante.

A noite seguia calma. Dirigia para o pensionato após deixar o trabalho. Ou de sair de meus pais. Ou de outro lugar qualquer. O importante é que seguia para a casa, contornando a cidade pela Avenida Mirante, tão afastada do centro. Viva alma não se via, não tanto pela hora avançada quanto pelo chuvisco frio. O farol do carro cobria com custo a penumbra a minha frente, mitigando a escuridão feito traças de luz devorando um veludo negro. Era uma noite particularmente escura.

Quebrando a monotonia, uma figura surgiu em uma caminhada lenta pelo meio fio. Com certeza, era uma velha.  Desviando do lamaçal do terreno abandonado que contornava, seguia na proximidade do asfalto. Mantinha sobre a cabeça uma sombrinha florida com a qual se protegia do manto de gotículas que se desprendia dos céus. Não era propriamente gorda, porém carregava na anatomia o alargamento sugestivo de muitos partos passados. Um lenço embalava seus cabelos, de modo que apenas algumas mechas grisalhas escapavam por entre as dobras do tecido. Na mão oposta, mantinha uma sacola de mercado abarrotada de coisas que não pareciam necessariamente compras, mas um emaranhado de bugigangas que encontraram sob o plástico uma proteção contra chuva. Era uma imagem de inquestionável penúria. De seu rosto não vi nem traço. Em sua marcha penosa, seguia no mesmo sentido que eu, de modo que apenas fitei suas costas.

Desacelerei ao ponto de quase parar para observá-la. Como se não percebesse o foco de luz que, vindo de meu carro, banhava o seu caminho, manteve inabalável sua procissão sob a garoa. No instante não soube o porquê, mas ajustei o retrovisor e olhei para os lados. Era certo, naquela noite éramos apenas eu e ela. Dali em diante, sabia o que devia ser feito. Contudo, estava nervoso. A despeito do tempo frio, minha testa minava um suor insistente. O cheiro da terra úmida invadia o automóvel.  Percebi então que racionalizações apenas colocariam tudo a perder, e o melhor seria me entregar à cegueira do impulso ante aquela oportunidade. Em um rompante, desci meu pé sobre o acelerador. O motor roncou enquanto os pneus queimavam no asfalto. A batida foi próxima do farol esquerdo. A bacia da velha deve ter estourado contra a grelha antes de ela ser tragada para baixo dos pneus. Senti os solavancos contra os amortecedores quando sua cabeça comprimiu-se sob o peso da roda traseira. Isso daria trabalho na hora de me livrar do corpo, pensei mecanicamente enquanto descia do carro pisando no chão barrento do terreno baldio. Estava feito.

Quando abri os olhos, um tremor convulsivo tomou meu corpo. Uma parca claridade superava as cortinas, de modo que meu quarto era dominado por um leve breu. Tremia como se o calor que fazia fosse ilusório. Não encontrava forças para sair da cama. Com a maior certeza do mundo, sabia que logo bateriam em minha porta. Até podia imaginar a polícia interrogando dona Rebeca no andar inferior. Condenava minha imprudência e impulsividade. Tentava direcionar minha agonia mais às consequências do crime do que ao ato em si, mas a sombra daquela velha sem rosto me gelava a alma. Feito a criança que já fui, busquei a proteção fictícia que se encontra sob as cobertas. Passei bons minutos encolhido contra as pernas lutando contra o turbilhão que zunia em meus ouvidos até encarar a estranheza da situação. O que fazia eu deitado ali? Como não me lembrava de nada entre o momento do atropelamento e o abrir de olhos de instantes atrás? Inclinando meu corpo, alcancei meu tênis aos pés da cama e olhei o seu solado. Estava ali a sujeira típica do cotidiano – uma camada de poeira e alguma sobra de goma de mascar – porém não se via sinal algum de lama. Era o exato modo que o encontraria corriqueiramente. Nada das marcas que um arrastar de corpos debaixo de chuva deixaria.

O entendimento me revigorou em um primeiro momento feito um banho frio afugenta uma febre. Paralelo ao alívio, naquele instante parte de mim me odiou ao deparar-se com o inquestionável motivo de minha angústia anterior. Minha fraqueza havia me quebrado.  Justo eu, que sempre me considerara tão forte. Desolado, olhei para o relógio e vi que já era hora de me arrumar. Não havia motivos para me prender a isto. Havia sido tudo um sonho, afinal.

Sisudo, sai de meu quarto e segui pelo corredor até o banheiro coletivo. Pelo caminho, dei com dona Rebeca. Começando cedo o seu ritual de limpeza semanal, varria o chão com uma displicência que degradava o ato de varrer a um espalhar de poeira por novos cantos. Algo como uma técnica doméstica de diluição de sujeira. Esbocei um comprimento curto.  Em resposta, pouca atenção recebi, salvo um rápido maneio de cabeça e um resmungar semelhante a um bom dia. Aqui cabe uma observação sobre a mulher: ela nunca foi boa pessoa. Não pretendo demonizar a senhora com isso. Pelo contrário, a intenção é eliminar a candura gratuita que impomos àqueles de idade avançada, como se a bondade fosse intrínseca à velhice. Ela não é. E dona Rebeca é um espécime digno o bastante para validar a teoria. Sendo a mulher do tipo que aos poucos se torna parte da identidade de um local, sua presença tornou-se algo como um patrimônio do bairro. Com efeito, suas histórias permeiam as conversas que perambulam pelas redondezas e, vez ou outra, chegaram a meus ouvidos. Das que convém ao relato, vale destacar a que trata sobre a maneira como o pensionato tornou-se seu. Após uma viuvez precoce, com o esposo morto antes de poder dar-lhe um filho, encontrou-se só. Não se sabe quem optou pela outra, mulher ou solidão, no entanto aceitaram-se sem conflitos. Seguiu a vida com a pensão do marido e o dinheiro conseguido com seus serviços de costura. Sendo sozinha, alguma sobra sempre restava ao fim do mês. Passou então a emprestar seus cruzeiros a juros exorbitantes. Alguns ainda dizem que, na ocasião da vinda de uma sobrinha do interior pra estudar sob seus cuidados, conseguiu uma boa soma ao apresentá-la em sigilo a alguns respeitáveis senhores da sociedade de então. De uma forma ou de outra, com anos de usura e quaisquer outras atividades, teve o suficiente para comprar o imóvel.

Parei em meio ao caminho do banheiro e voltei a olhar para dona Rebeca. Sua aparência magra refletia a secura de seus modos. Mantinha o rosto exageradamente maquiado, como se a pintura impedisse que os anos lhe escapassem pelos poros. As sobrancelhas eram arqueadas e extremamente finas, como dita a moda entre as septuagenárias, fazendo com tivesse sempre uma feição inquisitória.  De fato, essa feição muitas vezes conjugava com suas intenções. Seus cabelos negros gritavam um anacronismo, mas era um clamor com o qual não se importava.  Como se sentisse meus olhos, parou a vassoura e olhou severamente para mim.

—Sim? – disse enquanto deslizava os óculos para a base do nariz com o indicador.

—Ah… Senhora não teria limpado meus tênis, teria? – perguntei sem pensar, surpreendido pelo flagrante. Apenas de exteriorizar algo que remetesse a minha última experiência para outra pessoa fazia o meu estômago revirar-se. Afinal, a pergunta em si firmava a presença, mesmo que mínima, de um resquício de incerteza.

—E era caso de lavá-los?- retornou a velha com seus olhos de rapina – Você sabe, Rodrigo. Lavar calçados é cobrado à parte…

—Não, não, senhora. – engasguei-me enquanto gesticulava efusivamente- Só gostaria de saber se por acaso não teria os lavado por engano. Pensando que fossem do Henrique ou algo assim. Acontece que estranhei ao vê-los hoje sem nada da sujeira que fez a chuva de ontem.

Dona Rebeca fitou-me como se procurasse em meu olhar alguma sombra de zombaria.

—Garoto, que besteira é essa? Há semanas não vem chuva.

Após o evento narrado, experimentei um intervalo de relativa calmaria. Primeiro, porque estava decididamente convencido de que tudo fora um sonho. Todos os fatos corroboravam com tal, em especial a integridade estrutural de meu carro que verifiquei tão logo pude. Segundo, e hoje vejo que aí residia a questão mais importante, pela qualidade onírica dos fatos invalidarem a agonia que me atormentara. Afinal, não seria possível haver remorso real por um crime sonhado. O que senti, tinha certeza, era algo derivado da confusão geral que me acometeu. Pensar assim me trouxe conforto por algum tempo. Contudo, sempre soube que havia movimentação em minhas profundezas. E Henrique involuntariamente as traria à tona.

Pela segunda vez em meu relato levantei seu nome, mas ainda não lhe cobri com seu corpo ou gênio. Henrique sempre foi do tipo que acredita que há jeito para o mundo.  Que o homem é vitimado pelas circunstâncias. Que a bondade é inata, a maldade concebida. Que nunca hão de lhe roubar no troco. Em suma, um arquétipo dos típicos clichês do otimista moderno. Provavelmente devido a nossa constituição oposta é que pudemos coexistir. Mais a fundo, acredito que nos intrigávamos, feito os polos de um imã sustentados por um vínculo invisível à oposição do outro.  No que se diz à constituição física, também divergíamos. Eu, atarracado e hirsuto, de um pálido doentio e pelagem ruiva. Ele, negro, esguio e liso como um peixe. Dos meus tempos no jornal, foi dele a única amizade que recebi. Também foi dele a sugestão do pensionato de dona Rebeca, onde já residia, quando expus minha vontade de sair da casa de meus pais para viver por conta.  Sobre a escolha de sua profissão, penso que definiu pelo tenebrismo: tendo uma perspectiva inundada pela luz, procurou por sombras para tornar sua realidade mais legítima. Seguiu carreira cobrindo matérias policias.

Uma semana após o incidente do primeiro sonho, estávamos os dois seguindo para o jornal. Eu dirigia. Ele revisava seu último texto com notebook sobre o colo. Teria muito tempo, visto que estávamos presos em meio a quilômetros de engarrafamento. A estação das chuvas havia minado a cidade com inundações, engavetamentos e melancolia. Passado algum tempo, foi ele quem puxou assunto:

—Cara… Esse trabalho às vezes me deprime. – desabafou enquanto fechava o notebook.

—Perdão?

—Você sabe. Isso. – apontou para o aparelho sobre os joelhos, como se naquele momento ele sintetizasse todas as mazelas do mundo. – Ver como nossa sociedade pressiona e corrompe o homem. Nunca me falta desgraça para escrever. Sangue. Violência. Agora mesmo revisei a matéria sobre aquele taxista que estuprava a própria filha. Tem horas que isso é muito até para mim. Todos esses crimes sem propósito… Aliás, sem propósito o escambau! Isso é redundante. Não há crime com um.

Olhei-o pelo canto dos olhos por um instante antes de voltar minha atenção para o trânsito que não andava. Acima, o céu cinzento oprimia a cidade.

—Discordo.

O espanto da réplica fez Henrique dobrar-se sobre o banco para me encarar.

—Acho que você não entendeu o que eu falei. – emendou com relutância.

—Acredito que tenha.

Ele ficou calado por alguns instantes, dissecando-me nesse ínterim como se a última afirmativa pusesse a prova tudo o que conhecia sobre mim.

—Explique. – disse por fim, indicando com a cabeça para prosseguir.

—Nenhum grande mistério. Apenas não creio que todo crime seja sem fundamento. Tampouco que seja desnecessário. Entenda, uma total passividade legaria uma estagnação cultural e moral. Afinal, um crime é, antes de tudo, um rompimento com os conceitos correntes.

—E com isso tenta me provar que há uso para a bandidagem?- ponderou ironicamente.

—Não tento. Provo. Está se esquecendo de um ponto crucial, Henrique. Há seu tempo, boa parte dos grandes transformadores de nossa história integraram a vilania. Talvez não perante uma óptica revestida com as lentes de nossa moralidade, mas com certeza o eram tomando por base o ditado em suas épocas. Foi por crime que Sócrates tragou a cicuta, está lembrado? Pelo mesmo, Joana d’Arc queimou e suas cinzas engrossaram o Sena. Da Inquisição, Galileu conseguiu o encarceramento, sorte maior que a de seu contemporâneo Giordano Bruno. Aliás, não se esqueça de que, não atirando a primeira pedra, até Jesus violou as leis de Moisés.

—Aí está indo longe demais, Rodrigo. Comparar a negação de um assassinato com o assassinato em si é um disparate! Está nivelando o ato à ausência dele.

—Não me olhe assim, Henrique. Se desconsiderar o fardo histórico dos dois momentos, o do nazareno e o nosso, terá uma falácia em mãos. Pouco importa se achamos ou não imoral apedrejar adúlteras. Para eles, não era. Residia ali a lei. Do mesmo modo, temos diretrizes que nos regem. As mesmas que podem ser bárbaras para os que virão daqui há dez gerações. Basta que surja alguém para violá-las e que, desta transgressão, venha a mudança.

Henrique ficou calado por alguns segundos, como se ponderasse o que havia ouvido. Ao longe, alguns ambulantes se penduravam de janela em janela pelo trânsito tentando vender ninharias. A garoa voltava fina quando ele continuou:

—Então vê sentido para as facadas em brigas de boteco, meu amigo?

—Não generalize. Essa discussão começou justamente por conta de sua generalização. Reitero em parte com o que disse, apenas com um adendo: a grande maioria dos crimes não tem propósito algum.  A maioria, veja bem. Há, no entanto, uma fração que o tem. Imagino que não preciso dizer que brigas em botecos não estão inclusas. – falei, permitindo-me um breve sorriso cáustico. – Contudo, a significância daqueles com um fim tende por validar a existência de todos os demais, visto que o único que irá separar um de outro é, antes de tudo, o tempo. Por isso, não podemos dizer de pronto qual deles terá valia e qual não. Resta esperar.

—E como o tempo difere um crime de outro, uma morte de outra? Conforme o peso do defunto?

—De certa forma. Mais precisamente, o peso da morte, não do indivíduo. A simbologia por trás do ato. Afunilando a discussão para sermos mais concisos, nos limitemos aos assassinatos dentre os outros crimes. O sangue e a morte possuem repercussões muito profundas, Henrique. A morte certa, da pessoa certa e no momento certo pode guinar o rumo do mundo. Ditar toda uma nova cartilha de valores. Tome o exemplo do Arquiduque Francisco Ferdinando, e verá verdade no que digo.

—Então acredita mesmo nisso. – surpreendeu-se, como se o debate até aquele momento tivesse sido apenas uma vaidosa disputa intelectual.-  Acha mesmo que um assassino é um benfeitor para a humanidade?

—Já disse, não há valia para todo assassinato. No entanto, pode sim advir benefícios para o homem deste ato. Veja bem, isto não é carga que possa ser carregada por qualquer um. Podemos dividir, grosso modo, a humanidade em dois grupos: uma imensa maioria inferior e alguns poucos superiores aos demais. Essa superioridade se dá graças a um ponto crucial. Você o chamaria de falta de escrúpulos. Pois eu digo que, há esses poucos, não há o peso do remorso. A eles está negado o fardo da culpa. Essas pessoas são livres das amarras culturais de sua época. Conseguem, assim, traçar objetivos que elevarão a humanidade. E dessa forma o fazem, mesmo que para tanto transgridam aquilo tido como lei. Entre elas estão as figuras históricas de que já falei. Entre elas, estarão tantas outras que farão história.

—Mais parece que estamos em um julgamento para a canonização do crime. E eu aqui, fazendo papel de advogado do diabo. Rodrigo, tem horas que acho que você se diverte com essas inversões. – soltou um riso abafado, como se derrotado pelo cansaço.

—Você como advogado do diabo? Nisso não poderia seguir carreira, ou terminaria perdendo as causas e santificando toda a humanidade. – Retribuí com um sorriso desanimado. O clima havia apaziguado.

—Bom, isso não nego. Sabe o que acho do homem. Sua natureza é boa. A despeito de tudo, é boa. Infelizmente, o mundo já não é tão bom. Na beira do precipício, alguns acabam cometendo loucuras. Mas no geral, a humanidade é forte e honesta. Veja aí, mesmo embaixo dessa chuva mansa, esses vendedores não desistem de ganhar seu troco.

Seguindo a direção que Henrique apontava, vi uma figura sombria coberta por uma capa de chuva se aproximando. Sob uma lona, trazia uma variedade de apetrechos de pouca qualidade.

—Senhor, bom dia, senhor. Carregador de celular, tapa sol? – o sujeito franzino curvava-se para ficar a altura de minha janela, despejando sua ladainha decorada junto a seu hálito cetônico. – Uma ajudinha aí, patrão. Tudo coisa de qualidade. Matador de mosquito, capa de chuva? Vai um relógio de pulso?

—Não, obrigado. – resmunguei, mal olhando para o sujeito enquanto tateava a porta procurando o botão para fechar a janela. Foi então que aquilo chamou minha atenção. – E isso aí no canto?

—Este? Também temos masculinos, senhor.

—Quanto quer por ela? – disse enquanto revirava minha carteira.

—Bom… ‘Tá dez reais, patrão. Mas se preferir ver as…

—Tome. – emendei irredutível enquanto lhe estendia o dinheiro.

O ambulante camuflou qualquer zombaria e me entregou a compra. Ao meu lado, a intimidade fazia com que Henrique não precisa esconder nada.

—Com certeza ficará linda com seus novos sapatos.

Com um olhar que condenava a imaturidade de Henrique, o que o divertiu ainda mais, atirei o objeto por sobre o ombro para o banco de trás. A ele pareceu uma aquisição estúpida, já eu estava assombrado. Minha garganta secou e meus dedos estranhavam-se contra o volante, como se ali não fosse um lugar para eles. Enjoado, durante todo o percurso olhava-a pelo retrovisor, ignorando Henrique por completo. Isto porque a que havia comprado era exatamente igual à outra. Tal qual a sombrinha florida da velha atropelada.

Não tenho crença no destino. No entanto, concordo que existem coincidências perturbadoras que vez ou outra acometem um indivíduo. Talvez a aparição daquele vendedor e a sombrinha fosse um desses acasos improváveis, porém deixou-me profundamente perturbado. Hoje me questiono se elas eram de fato iguais, ou então se fui eu quem as igualou. Naquela época, esse pensamento nunca me ocorreria. Em verdade, apenas na ocasião de seu uso entendi o porquê de tê-la comprado. Já naquele momento, um êxtase que havia me guiado. Uma impulsividade que me dizia que precisava daquilo. Esse arrebatamento surpreendeu-me de tal modo que tive os dias subsequentes angustiantes. Bem como as noites.

Nas semanas que se seguiram, fui atormentado por toda sorte de pesadelos durante o sono. De imediato, não eram em nada aterradores. Em suma, correspondiam a tarefas e atividades de minha rotina. Uma caminhada pelo parque. O fechamento de uma matéria. Uma visita de sábado à biblioteca. Era, no entanto, o ar cotidiano que potencializava o terror final do sonho. Sem explicações ou qualquer preliminar, via-me atormentado por uma certeza: “Matei.”. E assim, a caminhada no parque se interrompia em uma fuga disparada. O fechamento da matéria dava espaço para uma crise de pânico no banheiro do jornal. A biblioteca se tornava claustrofóbica e opressora. Ao despertar, faltava-me o ar e a distinção do que era verdadeiro. Insone, minhas noites tornaram-se cada vez mais curtas. A despeito disto, procurei manter-me em minha rotina, como se esquecendo do espinho que me furava a carne fizessem com que ele sumisse. Qualquer expectativa nesse sentido mostrou-se inútil quando me veio um novo sonho.

Naquela noite em especial, sonhava –apenas depois o soube- que estava na chácara de meus pais. Era fim de tarde, e uma brisa morna amaciava meu rosto. Sentado na varanda, olhava o afagar do vento nas folhas da nogueira imemorável que dominava o sopé de uma ribanceira a alguns metros a frente da casa. Uma paz me dominava por completo enquanto contemplava aquele quadro bucólico. Foi então que, ouvindo os galhos da árvore estalarem, toda a paz se esvaiu quando um único pensamento me ocorreu: “Foi ali que enterrei a velha.”

Saltando da cama, corri para o banheiro a tempo de vomitar. Lembro-me de ter ficado um bom tempo com a cabeça apoiada contra o vaso. A luz fria do cômodo parecia iluminar minha miséria. Por quase meia hora fique ali, imerso em minhas angústias, até entender o que acontecia. Este sonho havia propagado seus efeitos por minha alma por ainda mais tempo que o primeiro. Comecei a temer que o efeito daquele terror fosse cumulativo. Sendo assim, logo poderia ser tomado pela loucura e tomar o sonhado por real. Ou seria aquela também a realidade? Uma lembrança escondida de mim mesmo? Tinha necessidade de limpar-me daqueles sentimentos. Precisava confrontar o que julgava ficção para negar qualquer possibilidade do crime que me perseguia em sonho.  Certa vez ouvi que é mais difícil provar que não existem fadas do que demonstrar que existem. Isto porque para concluir sua inexistência seria preciso derrubar todos os argumentos que sustentassem sua presença. De maneira mais petulante, aquele que defende a legalidade dos seres místicos precisam apoiar-se apenas em um pilar para manterem-se firmes no debate: a dúvida. Dessa forma, eu encarava a difícil tarefa de negar minha fada. Naquele fim de semana, sem nenhum aviso, fui para a chácara.

Sabendo que meus pais iriam visitar uma tia em Santos, fiquei confortável por minha absoluta privacidade. Como já havia feito muitas vezes antes, tornei a inspecionar meu carro. A procura minuciosa desdobrou-se por uma hora. Sem me satisfazer com um olhar rápido pela lataria, passei a desmontar o carro a procura de qualquer sinal do atropelamento. Algum sangue seco nos faróis. Um punhado de cabelo engrossado por massa cefálica nos frisos dos pneus. Alguma ranhura. Qualquer desalinho. Nada encontrei. Espalhadas pelo gramado, as peças do carro pareciam comparsas em um estratagema velado. Sem mais, voltei-as para seus lugares.  Faltava então sanar uma última dúvida. Tirando uma pá do porta-malas, fui em direção ao gramado a frente da casa.

Era uma tarde agourenta. Ou talvez eu que a fizesse assim. Com a pá sobre o ombro, olhei para a sombra acusadora da nogueira ao sopé da ribanceira. “Não há de estar na nogueira.”, pensei incrédulo. Preferi cobrir primeiro a região mais a esquerda, onde minha mãe cultivava alguns vegetais.  Continuei minha caminhada a procura de um revirar de terra recente, o que se mostrou improdutivo dentro de um pomar. Desprezei então a região das leguminosas e plantas rasteiras, pois caso houvesse algo entre aquelas raízes, minha mãe já o teria encontrado durante seu rotineiro serviço com a terra. Desse modo, dediquei minha atenção às árvores de maior porte, as quais polarizavam a atenção apenas para suas copas. Desci a pá entre as laranjeiras relutando encontrar algo. O cheiro cítrico misturava-se ao meu suor. Cavei até onde achei que cavaria caso tentasse enterrar alguém. “Nada aqui. E de certo nada sob a nogueira.”. Majestoso, um manguezal derramava sombras por todo seu entorno. Em passos curtos, entrei solene em sua penumbra. Chutei algumas mangas caídas e abri espaço para cavar. “Se há um lugar, é este. Não haveria de ser na nogueira.”

Quando terminei de cobrir o terreno, o lusco-fusco galgava terreno, abocanhando as últimas gotas de sol. Olhei para minhas mãos, a terra escondendo-se sob as unhas. Uma coleção de bolhas saltava de minhas palmas. Mas ainda não podia parar. Fui até meu carro e acendi os faróis. Teria ainda tempo. Passei a cavar em um circuito de modo que aos poucos me aproximava da ribanceira. Os montículos de terra logo encenaram uma degradante versão de um cemitério. Passo a passo, aproximava-me da árvore no sopé. “Mas com certeza, não estaria na nogueira.”

Assim que dei por mim, apenas a lua se mostrava no firmamento, como se compactuasse com meu ato ao observar e esconder o meu segredo. A essa altura, as luzes dos faróis já não inibiam a árvore a frente da ribanceira, que crescia funesta e silenciosa. Por um minuto, pareceu-me que era possível sentir sua respiração, em um ressoar lento que reverberava por suas  raízes nas profundezas. Oprimido, estanquei aquém de suas sombras.

—Nada aí. – disse por fim, abandonado o solo intacto antes de jogar a pá no porta-malas e voltar para o pensionato. O peito pesava, mas repetia com falso entusiasmo que não havia matado.

Fragilizado, deparei-me com o fracasso da empreitada anterior. Mesmo me convencendo de que não havia nada que repousasse sob o gramado da chácara, meus sonhos ainda eram assomados pela recorrente sombra do assassinato. Passei a ter febres constantes, momentos onde dissipava a fronteira que represava a fantasia. Ficava horas enclausurado no meu quarto em penitência para o certo atropelamento. Após duas semanas, minhas costelas despontaram contra minha carcaça feito tocos de um velho cais quando chega a maré baixa. Graças a minha miserável figura, fui afastado com uma licença médica do serviço. Pelos dias que correram, as visitas de Henrique foram tão indistintas quanto a neblina noturna. De dona Rebeca, lembro-me apenas de, após meu afastamento, passar a deixar minhas refeições na porta de meu quarto.

Não tenciono a indulgência alheia ao descrever o estado lastimável que me encontrava, tampouco pretendo que tomem meu sofrimento pelo lado mais benevolente. De fato, havia o remorso residente na dúvida de ser ou não um assassino. Contudo, era este remorso que abria portas para o sentimento que verdadeiramente me assolava: havendo culpa, estava claro de que eu jamais integraria a elite transformadora da humanidade. Estava ali o meu atestado de mediocridade. Porém, se não houvesse crime, se o passado se desse apenas nos campos oníricos, então o sofrimento não teria fundamento, de modo que o sofrimento que sentia não era genuíno, mas sim embalado pelas sensações de um crime emulado. Não sabia, pois, as reais sensações que uma morte em minhas mãos traria. E esta dúvida era meu algoz.

O desfecho veio após a terceira semana de reclusão. Estava tão fragmentado que mal percebi que nos aproximávamos do feriado de sete de setembro. Acatando ao pedido dos moradores do pensionato, informei que passaria alguns dias com meus pais. Empenhei-me para que acreditassem nisso, afastando qualquer suspeita. Por isto, seria de bom tom fazer o mesmo que meus companheiros e sair durante o feriado.  De fato, afora a proprietária, o pensionato estaria vazio no dia em questão.

Logo pela manhã do dia da independência, fiz questão de mostrar-me a todos da casa. Falando alto, mas sem exagerar no entusiasmo, deixei claro que era o primeiro a partir. Já dentro do carro, segui por duas quadras além de casa, me recolhendo no esconderijo fornecido atrás de uma van. Ali, fiquei em guarda observando a movimentação no pensionato. Pouco a pouco, meus colegas partiram da casa. Henrique foi o último, saindo com sua moto. Senti-me entristecido pelo mal que sua demora lhe causaria.

Quando entrei, dei com a mulher próxima ao fogão. Com uma colher, jogava uma pitada de mate na água que fervia em uma leiteira. Olhei para a pia: sobre o escorredor, uma frigideira secava. Apanhei o seu cabo e segui sorrateiro para trás de dona Rebeca. Em um último instante, como se sentindo o terror de minhas intenções, ela virou-se para mim:

—Rodrigo? – espantou-se antes com minha presença e, apenas depois, com aquilo que empunhava. – Que susto, garoto. Esqueceu alguma coisa? Mas o que você está…

Sem me permitir pensar, concentrei toda minha força no meu braço enquanto descia a frigideira contra sua têmpora. Ao contrário do esperado, o impacto não foi o suficiente para desacordar a mulher. Ela recuou alguns passos até apoiar-se na pia. Ainda atordoada, pegou leiteira e atirou seu conteúdo escaldante contra meu peito. O calor queimava-me a pele, mas meu desespero matou o grito em minha garganta. Hesitante, parti em sua direção e dei-lhe outra batida próxima ao queixo. Desta vez, a velha cai. No entanto, contra todas as possibilidades, ainda resiste. Engalfinhamos-nos então em uma briga desajustada em uma clara demonstração de nossa inexperiência. Enquanto ela me arranhava, eu batia sua cabeça contra o assoalho. Assim que tentou gritar, alcancei a toalha de mesa a meu lado e a puxei, fazendo com que os pães e uma cesta de frutas caísse no chão. Forcei o tecido contra sua boca, o que em um primeiro instante fez sua dentadura deslocar-se. Mecanicamente, continuei a bater sua cabeça no chão, até que senti um líquido quente minar entre meus dedos. Um fio de vermelho agora coloria o azulejo. Com olhos vagos, dona Rebeca deu um último engasgo e desacordou. Sentei-me a seu lado. Apenas depois de algum tempo notei que meu braço sangrava; uma assinatura silenciosa das unhas da senhora. Olhei para seu corpo: semimorto, miserável. Senti a vertigem passar por meus olhos. Não podia fraquejar. Já não havia mais volta.

Contornei a mesa no centro da cozinha e abri a gaveta de talheres. Corri o dedo por entre as divisórias, enquanto as facas me vertiam um brilho alucinante. Desviando o olhar, encontrei a tesoura que procurava. Com ela, corri até o quintal e cortei as extremidades do varal e, em seguida, dividi o comprimento conseguido ao meio. Com eles, amarrei mãos e pés de minha vítima. Quando a arrastei até o porta-malas, seus olhos davam os primeiros sinais de despertar. Com pressa, voltei para dentro da casa e recolhi o que faltava: uma sacola de mercado cheia de toda sorte de produtos que encontrei pelo caminho, um lenço e a fatídica sombrinha florida. No instante seguinte, acelerava para a chácara.

A tarde era de sol quando cheguei. Puxei o corpo da mulher para fora do carro enquanto com zelo observava o compasso de sua respiração. Ainda viva, soltava uns lamentos desconexos. Levei-a então para o meio do campo, tendo o cuidado de lhe cobrir os cabelos com o lenço, depositar a sacola sob um braço e a sombrinha florida encerrada entre suas mãos atadas. “No primeiro dia, chovia”, disse a mim mesmo. Por isto, fui até o pomar e trouxe uma mangueira, com a qual fiz questão de umedecer a terra até ela tornar-se barrenta. Por último, mirei a mangueira sobre a mulher, e a água a trouxe um pouco para o mundo dos despertos:

—Drigo… Rodrigo… Não. Pare, só… Não.

Voltei para meu carro. Podia sentir o coração preso na garganta. Em um movimento rápido, investi contra o corpo a minha frente. O solavanco do veículo foi acompanhado por um lamento agudo. Olhei para o retrovisor. As pernas de dona Rebeca estavam em um ângulo anormal, mas a mulher segurava firme o gramado, as mãos unidas, tentando puxar-se para longe. Faltava-lhe força para tudo. Desorientado, engatei a ré. Em um frenesi, sabia que devia acertar-lhe a cabeça. Nunca soube lidar com os agonizantes. Um farfalhar mórbido repercutiu sob meus pneus quando a acertei. No instante em que o corpo apareceu estendido sobre o gramado na minha frente, seu pescoço estava torcido. Ali, dei-me o capricho de sentir um alívio por não precisar passar novamente por aquela mulher.

Com uma minúcia, parei próximo ao corpo e afundei meus pés na terra barrenta. Em seguida, arrastei o cadáver até o porta-malas e o coloquei ali dentro. Voltei então minha atenção aos meus sapatos; imundos e ensanguentados. A dianteira do carro era uma ruína que exalava à morte. Próximo ao farol, um pedaço de osso mantinha-se preso. Voltei ao porta-malas e retirei o cadáver. Agora, o tecido de seu fundo era rubro e pegajoso. Assim tive minha conclusão: era dessa forma que as coisas deveriam parecer após um atropelamento. Apenas uma questão restava para findar a dúvida, e a nogueira me aguardava para isto.

  Arrastei o corpo até as sombras da árvore. Meu estômago revirava-se de excitação ante a próxima solução de minhas incertezas. Cavei com cerimônia. A pá desceu até não encontrar nada além de raízes e pedras. Renascido, tive então a certeza de que não havia matado a senhora na chuva. Toda a agonia não era nada senão sensações artificiais produzidas de acordo com aquilo que eu pensava ser o remorso. Festejei então por afastar o fantasma da mediocridade de meu futuro. O vento acariciava as folhas da nogueira enquanto um sorriso histérico me estampava o rosto. Foi então que verdadeiramente os vi: ao meu lado, com a cabeça pendendo, os olhos acusadores de dona Rebeca me fitavam debaixo de suas sobrancelhas arqueadas. Caí de joelhos e chorei. Com um olhar, a velha velou minha insignificância.

…………………………………………………………………………………………………..

Este conto foi escrito por Vitor Stuani. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

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9 comentários em “Segunda Sombra – Conto (Vitor Stuani)

  1. Fabio Shiva
    3 de janeiro de 2014

    Gostei muito da história, parabéns!

  2. Juliana Tardem
    4 de novembro de 2013

    Sensacional. A leitura sequestra a atenção e só devolve ao final! Como já percebi ser comum em seus textos, os personagens são muito bem construidos e até me identifiquei muito com o protagonista (só que nunca matei ninguém, hehehe, ainda). Reparei também uma inspiração no livro de Dostoiévski que foi ainda citado ao inicio do conto e apesar da inspiração, não faltou criatividade.

    Sem querer contrariar o comentário do Gustavo (até bem relevante porque acho que pode ser uma queixa comum neste caso), achei que pelo foco do conto ter se dado nas deliberações do protagonista, o modo como ele se safou da justiça (assumindo que tenha de fato se safado) fica submetido à criatividade do leitor. Pessoalmente, não senti falta das explicações.

    De fato, acredito não ter nenhuma crítica a fazer (desculpe-me por isto). No mais, já virei uma fã de seus textos.

    • vitorts
      5 de novembro de 2013

      Não se sinta culpada pela identificação com o protagonista. Cá entre nós, isso é mais autobiográfico do que eu gostaria de assumir, hahahaha.

      Com certeza, Crime e Castigo foi o timão que conduziu essa embarcação. Quando li esse livro, fiquei tão impressionado que até hoje carrego marcas daquela leitura. E imagino que não cicatrizarão. Por isso, elenco esse livro sempre nas minhas listas de 10 mais.

      E obrigado pelas boas palavras! Agora só falta me passar algum link com contos teus, e assim ficamos quites. 🙂

  3. Gustavo Araujo
    4 de novembro de 2013

    Esse é um daqueles contos que nos trazem sensações antagônicas em relação ao protagonista. Há momentos em que torcemos por ele, há momentos em que o odiamos – mais ou menos como ocorre em “O Talentoso Ripley”. A culpa, obviamente, é da escrita impecável, que joga com as emoções do leitor sem dó nem piedade.

    O diálogo entre Rodrigo e Henrique, aliás, é sensacional, daqueles que nos fazem mergulhar na mente doentia de psicopatas de plantão. Lembrou-me a razão dada pelos assassinos no fantástico filme “Festim Diabólico”, do Hitchcock, para acabar com a vida de um sujeito que eles consideravam simplesmente desprezível.

    ATENÇÃO – SPOILER
    O único porém na trama é que dificilmente o assassino resistiria tanto tempo sem ser descoberto, já que a luta dele com a dona do pensionato teria deixado vestígios suficientes para que a autoria do crime fosse desvendada. Assim, o fato de ele relembrar os fatos depois de tantos anos — tendo se safado da longa manus da justiça — me pareceu um pouco inverossímil. Nada que tire o brilho da narrativa como um todo, mas talvez fosse algo a ser repensado na hipótese de se reescrever o conto.

    • vitorts
      5 de novembro de 2013

      ‘Brigadão pelo comentário, Gustavo! Tuas críticas como sempre ótimas! 🙂

      Quanto ao seu porém, deixe eu tentar me explicar.
      Rodrigo está escrevendo essa carta confessional. Se irá destruí-la ou não, fica em aberto. Com isso, a intenção é esclarecer que ninguém mais sabia do acontecido. Depois, tentei colocar o desfecho do crime de maneira bem sutil aqui:

      “Henrique foi o último, saindo com sua moto. Senti-me entristecido pelo mal que sua demora lhe causaria.”

      Posso ter pecado por deixar muito leve a sugestão. A ideia é que, sendo o último a sair do pensionato, Henrique foi tomado como principal suspeito e injustamente condenado. Rodrigo manteve-se em silêncio por esses anos, fermentado sua culpa e angústia.

      Mais uma vez, valeu, parceiro!

  4. Denise Cristine
    4 de novembro de 2013

    Muito bom! Me fez lembrar Carl Jung
    “A triste verdade é que a vida do homem consiste de um complexo de fatores antagônicos inexoráveis: o dia e a noite, o nascimento e a morte, a felicidade e o sofrimento, o bem e o mal. Não nos resta nem a certeza de que um dia um desses fatores vai prevalecer sobre o outro, que o bem vai se transformar em mal, ou que a alegria há de derrotar a dor. A vida é uma batalha. Sempre foi e sempre será. E se não fosse assim, ela chegaria ao fim.”
    Parabéns pelo conto.

    • vitorts
      5 de novembro de 2013

      Caramba! Acertou em cheio, Denise! Tentei incluir uma pincelada da sincronicidade de Jung, em especial na cena da sombrinha. Muito obrigado pela leitura e comentário. 🙂

  5. selma
    4 de novembro de 2013

    Mesmo não apreciando o tema, fui lendo interessada porque a forma como foi escrito é muito boa! Bom portugues, boas palavras, enredo envolvente, me instigou. Nossa, se todos forem escrever assim, vai ser mais dificil votar. parabens!

    • vitorts
      4 de novembro de 2013

      Obrigado pela leitura e pelo comentário, Selma! Que bom que o conto agradou. Só que esse é um conto “off-desafio”. Não está participando do desafio Noir, foi postado por fora. Por isso que não foi usado pseudônimo. 🙂

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Informação

Publicado às 3 de novembro de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .